SÉTIMA ARTE
Preparando
um Centenário
por João Marchante
[Procissão, de António Lopes Ribeiro,
dito por João Villaret]
António
Lopes Ribeiro (Lisboa, 1908 — Lisboa, 1995) é cineasta,
jornalista e crítico de Cinema. Entenda-se aqui a palavra
Cineasta na sua acepção total: Lopes Ribeiro foi
realizador, argumentista, produtor, director artístico e
montador. Temos, assim, um homem que respira Cinema.
Estudou
engenharia no Instituto Superior Técnico, mas logo o
abandonou, em 1929, para se entregar à Sétima Arte a
tempo inteiro.
Nos
anos 20, dedica-se ao jornalismo; e, estreia-se na crítica
cinematográfica no Diário de Lisboa com uma
página própria, «Arte Cinematográfica —
O Claro-Escuro Animado», onde usa as iniciais “A. R.” e o
pseudónimo “Retardador”, a partir de 1927; esta rubrica
terá sido a primeira — em todo o Mundo — dedicada
exclusivamente ao Cinema num jornal diário. De seguida, funda
e dirige as revistas especializadas Imagem (1928), Kino (1930) e Animatógrafo (1933). Colabora ainda, ao longo
de toda a sua longa vida, nas seguintes publicações,
entre outras: A Bola, Diário Popular, Cine-Jornal, A Revista de Portugal e A Rua.
Inicia-se
como Realizador em 1928 — aos 20 anos de idade — com o
documentário artístico Bailando ao Sol.
Lança-se, a partir daí, numa carreira que terá
mais de 100 títulos e que só será interrompida, à força, em 1974. Nessa vasta Obra, encontramos
documentários, adaptações literárias,
dramas e comédias. O arranque da sua actividade
cinematográfica encontra-se fortemente enraizado nos
conhecimentos técnicos que adquiriu em visitas aos Estúdios
alemães e russos (um bom exemplo da Estética quebrando
fronteiras políticas).
Foi,
enquanto teórico, um apologista do Cinema Sonoro, contrariando
muitos dos seus camaradas de ofício da época, que viam
no Sonoro um desvirtuar do Cinema como forma de expressão
artística, pois passaria a ser — segundo eles — um mero
meio de reprodução da realidade. Lopes Ribeiro viu,
antes de todos, que o Som — se bem utilizado — poderia ajudar o
Cinema a crescer como Arte. Assim foi.
Os
seus Documentários são, na sua maior parte, encomendas
do Estado Novo, através de vários Organismos.
Mostrar-se-á, neste domínio, um Autor rigoroso, do
ponto-de-vista Histórico, e com um fino sentido estético.
Destacaria, nesta área, os seguintes Documentários: A Exposição do Mundo Português (1941), Inauguração do Estádio Nacional (1944), A
Morte e a Vida do Engenheiro Duarte Pacheco (1944), O Cortejo
Histórico de Lisboa (1947), Jubileu de Salazar (1953), Rainha Isabel II em Portugal (1957). Se quisermos
conhecer a História de Portugal do Século XX, teremos
de vê-los a todos — dezenas de títulos, de semelhante
nível técnico-artístico e igual valor Histórico,
repartidos entre curtas-metragens e longas-metragens documentais. Um
olissipógrafo que se preze deverá visionar os seus
documentários sobre Lisboa, antes de escrever o que quer que
seja sobre a antiga Capital do Império.
Quanto
ao Cinema de Ficção, Lopes Ribeiro saberá
integrar muito bem nas suas equipas um conjunto de luxo de técnicos
provenientes da Alemanha e assegurar, desta forma, um sentido visual
apurado — na luz, nos enquadramentos e nos movimentos de câmara
— nos seus Filmes. A sua primeira Longa-Metragen de Ficção
— Gado Bravo (1934) — irá logo deixar bem à
vista do público essas marcas. Note-se que a propósito
desta Fita rodou um Documentário (“making-of”, no
vocabulário técnico de hoje; coisa inédita à
época).
António
Ferro — que sabia, como ninguém, detectar talentos — vai
desafiá-lo a rodar uma Película sobre a Revolução
Nacional de 28 de Maio de 1926, a fim de Comemorar os seus 10 anos. O
Argumento é escrito por António Lopes Ribeiro e pelo
próprio António Ferro (com os pseudónimos de
Baltazar Fernandes e Jorge Afonso, respectivamente) e terá a
produção assegurada pelo Secretariado de Propaganda
Nacional. (Sobre esta Fita — A Revolução de Maio
(1937) —, não resisto a relembrar aqui o sucedido, há
uns anos atrás, quando algum especialista de
programação da RTP decidiu exibir este Filme, no 1.º
de Maio, julgando tratar-se de Película panegírica da
data. Ia caindo o Carmo e a Trindade!)
A
partir de 1938, na sua nova responsabilidade de Director Artístico
da Missão Cinegráfica às Colónias de
África, visita e trabalha — supervisionando e dirigindo
produções — nas Províncias Ultramarinas.
Resultante desta aproximação a África, surge Feitiço do Império (1940); ainda hoje um Filme
de enredo cativante, e a necessitar de urgente reposição
para que as novas gerações digam de sua justiça.
Em
1941, cria as Produções Lopes Ribeiro, com o objectivo
de produzir longas-metragens de ficção, ou filmes de
fundo, entre os quais temos a nata do Cinematografia Portuguesa do
Século XX: O Pátio das Cantigas (1942), de
Francisco Ribeiro (seu irmão Ribeirinho); Aniki-Bóbó (1942), de Manoel de Oliveira; Camões (1946), de Leitão
de Barros; para além de todas as Comédias Portuguesas
que iluminaram a Idade de Ouro do Cinema Nacional.
Para
podermos avaliar convenientemente a genialidade heterodoxa deste
Autor, esplanada em géneros cinematográficos tão
distintos, basta referir O Pai Tirano (1941), que representa
um certo paradigma da Comédia Portuguesa, e Amor de
Perdição (1943), exemplo perfeito de como se pode
obter êxito comercial com adaptações de qualidade
de Clássicos da Literatura Portuguesa.
Toda
esta Obra Cinematográfica foi construída a par de uma
outra carreira como Homem de Teatro. Fundou a Companhia «Os
Comediantes de Lisboa», que actuou sucessivamente no Teatro da
Trindade, no Teatro Avenida e no Teatro Apolo; e, em 1952, fundou o
«Teatro do Povo», que levou à cena desde Gil
Vicente a Peças da sua autoria.
Numa
outra frente, traduziu Tchekov, Maeterlinck, Pagnol, Maugham e
Giradoux, entre outros.
Como
Escritor, publicou O Livro de Aventuras (1939) e O Livro
das Histórias (1940) — colectâneas de sonetos e
poemas; editou ainda as várias compilações das
suas crónicas, destacando-se: Esta Pressa de Agora (1962), Anti-Coisas & Tele-Coisas (1963) e Belas-Artes
& Malas-Artes (1964).
Na
Televisão, ficou na memória de várias gerações
de famílias portuguesas com o seu Programa semanal «Museu
do Cinema», fazendo dupla com o famoso pianista mudo António Melo, entre 1957 (ano de fundação da
RTP) e 1974 (ano do não desejado fim da sua brilhante
carreira).
No
nosso imaginário colectivo, ressoam ainda também as
deliciosas e sincopadas quadras do seu Procissão,
imortalizadas pela voz única de João Villaret.
Entretanto,
hei-de cá voltar para continuar a falar de António
Lopes Ribeiro; preparando, assim, a Comemoração — à
minha maneira — do Centenário do seu nascimento. Não
perdem pela demora. |