Considerações em volta do Serviço Militar Obrigatório
por Pedro Guedes da Silva
Discutia-se
em Portugal a morte anunciada do Serviço Militar Obrigatório
(SMO) quando Fernando Nogueira chegou ao Ministério da Defesa.
Apesar de inúmeros especialistas considerarem que para um
pequeno país como o nosso as alternativas que do ponto de
vista técnico e económico se vislumbravam ao SMO só
muito dificilmente poderiam preencher as necessidades operacionais de
defesa militar, a convicção era a de que nada iria
permanecer como até então. E talvez porque de algum
modo fosse mais ou menos evidente a tentação iminente
de ceder sobretudo a interesses partidários, chegou a
deslocar-se propositadamente a Portugal uma Comissão da NATO
com a finalidade de abordar o assunto e apurar as tendências
dominantes. A verdade é que o SMO haveria de durar pouco: até
1997 (momento em que foi descontinuado na prática) ou –
consoante o gosto pelo rigor - até 19 de Novembro de 2004,
quando tombou por força de Lei e anúncio do ministro
Paulo Portas.
Durante
todo esse período, o fim do SMO foi amplamente saudado à
direita e à esquerda, sem olvidar muito especialmente as
juventudes partidárias sempre em busca de capitalizar em
causas com amplo mercado político. E se havia causa com
mercado político esta era sem dúvida uma das primeiras,
em consonância perfeita com o sinal dos tempos: menor sentido
(quando não ausência) de patriotismo; predominância
da matéria sobre o espírito; apagamento (também
mediático) do papel das forças armadas e ausência
significativa da noção de sacrifício e de
comunidade de destino em sociedades quase por inteiro voltadas para o
consumo e o lazer. Não espanta ninguém que, neste
quadro, os defensores da manutenção do SMO estivessem
votados ao insucesso: as alterações constituiram apenas
mais um passo no sentido da resignação de Portugal
enquanto comunidade solidária.
Apesar
disso, parece inegável que o modelo de SMO apresentava
vantagens inquestionáveis a vários níveis. Desde
logo, trata-se de uma técnica de recrutamento eficaz se
comparada com o modelo de voluntariado profissional, especialmente se
considerarmos que este último dificilmente atinge os números
necessários em termos de recursos humanos, havendo mesmo
especialidades que, talvez em razão da sua menor visibilidade,
parecem ser muito pouco atractivas para jovens em busca de um início
de carreira com perspectivas satisfatórias. A preocupação
com o recrutamento neste novo sistema tem sido aliás uma
constante de todos os últimos ministros da Defesa Nacional.
Ainda em Abril de 2002, na sua mensagem de despedida, o ministro Rui
Pena dava o mote: “Não pode, contudo, perder-se de vista
que esta opção confere (…) responsabilidades
acrescidas: (…) e suficiente estímulo à juventude
para que responda positivamente à necessidade de recursos
humanos”; mote que o seu sucessor, Paulo Portas, não
deixaria cair ao longo do mandato, chegando a recordar no parlamento
por ocasião do início de funções que: “na
última década, os efectivos militares baixaram de 72
mil para 47 mil”, num esforço sectorial que afirmou ser
de “raciocinalização”. Permito-me considerar
tão abrupta queda algo precipitada e pouco racional e talvez
estivesse tentado a sugerir “desinvestimento” onde se lê
“racionalização”.
A
necessidade de vencer a batalha do recrutamento levou, já com
o ministro Paulo Portas, à criação (que se me
afigura positiva) do Dia da Defesa Nacional que, inspirando-se em
modelos de outros países europeus, tenta chamar os jovens a
interessarem-se por uma carreira militar. Apesar da sua manifesta
bondade, todos se lembrarão por certo da imensa polémica
jornalística que se gerou na época, entre outras coisas
por se tratar, para o “mainstream” mediático, de um
desnecessário excesso de nacionalismo. A verdade é que
uma eventual derrota no desafio do recrutamento coloca
inevitavelmente em causa a defesa militar do país, à
luz do Conceito Estratégico de Defesa Nacional.
Ao
recrutamento acresce o desafio da mobilização, em que o
SMO parecia cumprir minimamente um papel que de outro modo ficou
órfão: em estado de necessidade nacional, como aumentar
rápida e eficazmente o número de disponíveis à
defesa do país e dos seus nacionais quando os cidadãos
não possuem conhecimentos, mínimos que sejam, da
actividade militar – nem na teoria, nem na prática…? A
eventual boa vontade de um punhado de portugueses não me
parece arma suficiente para lidar com um mundo que afinal, ao invés
do que se havia decretado logo após a morte do comunismo
europeu e o fim da guerra fria, parece ter mais ameaças do que
seria de esperar da leitura do “Fim da História”. Nem de
propósito, chegam notícias de que nos Estados Unidos,
que aboliram o SMO no início dos anos 70, há intenção
de voltar a discutir o assunto. Charles Rangel, congressista
democrata, anunciou já em Janeiro de 2007 a apresentação
no Congresso de uma proposta tendente a voltar ao método
anterior, o que também se poderá explicar pela
dificuldade em encontrar voluntários que tenham como objectivo
de vida um contrato muito complicado no Iraque ou no Afeganistão.
Faça-se
aqui um pequeníssimo intervalo para referir que a filosofia em
que assenta o fim do SMO nos países ditos civilizados
pressupõe um mundo quase perfeito, de paz e amor e em que
eventuais guerras, sempre muito esporádicas, se resolvem com
muita tecnologia e poucos homens. Estranhamente, os dias de Bagdad
parecem indicar um planeta mais incómodo…
Adiante.
Ainda quanto às vantagens do SMO, arrisco que se podem juntar
razões de ordem financeira; com efeito, e se pensarmos em
continuidade – num cenário em que todos garantem ser
necessário diminuir o peso do Estado -, dificilmente poderá
o Ministério da Defesa obter, ano após ano, verbas
suficientes para que possa propôr aos mais jovens contratos
efectivamente atractivos, sem que para isso se veja na necessidade de
colocar em causa a igualmente necessária modernização
em termos tecnológicos e de equipamentos.
E
aqui se levanta um outro problema directamente associado às
verbas disponíveis: uma vez que para efeitos de recrutamento a
Defesa Nacional está no “mercado” competindo em igualdade
de circunstâncias com todos os outros agentes empregadores, à
batalha do recrutamento soma-se o desafio da qualidade. Também
por isso importará agora observar especiais cuidados,
admitindo que uma parte (mesmo que pouco significativa) daqueles que
se auto-propõem procurarão, como razão primeira,
um contrato de trabalho com um mínimo de segurança.
Deixo
propositadamente para o final as vantagens que se podem atribuir ao
SMO em capítulos aparentemente mais “filosóficos”
(mas não menos importantes) como sejam as vertentes cívica
e de formação pessoal. O facto é que os jovens
que hoje não assinem um contrato profissional com as forças
armadas estão privados de uma importantíssima escola de
Valores, de patriotismo, de hábitos de disciplina e de
camaradagem, de um importante factor de identificação
da identidade nacional.
O
fim do SMO seguiu a lógica dos tempos: o caminho do
facilitismo. Confesso o receio de que a aparente facilidade não
nos possa um dia custar caro.
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