Joana Princesa e Infanta, irmã de Dom João II
por Mário Casa Nova Martins
Do casamento celebrado entre Dom
Afonso V e sua prima coirmã Dona Isabel, em 6 de Maio de 1447,
nasceram três filhos: _ Dom João nasceu em Sintra,
talvez a 29 de Janeiro de 1451. Morreu de tenra idade e foi sepultado
no Mosteiro da Batalha, na Capela de Nossa Senhora do Rosário. _ Dona Joana nasceu em Lisboa a 6 de Fevereiro de 1452, e morreu
em Aveiro a 12 de Maio de 1490. Dom João, que viria a
suceder no Trono como décimo-terceiro Rei de Portugal,
cognominado o Príncipe Perfeito, nasceu em Lisboa no Paço
da Alcáçova a 3 de Março de 1455, e morreu em
Alvor a 25 de Outubro de 1495.
Quase cinco anos após a
consumação do casamento dos seus Reis, o Povo, ainda
mal refeito do desgosto pela morte do Príncipe Dom João
e sem descendência directa, rejubilou com o nascimento de uma
Princesa à qual foi posto o nome de Joana, «pela
singular devoção e afeição que a devota
Rainha sua Mãe, havia ao Apóstolo e Evangelista São
João, por cujo amor que, se cem filhos houvesse, a todos havia
de mandar pôr este nome». A seguir ao seu Baptizado é
aclamada e jurada Princesa e Herdeira do Trono de Portugal, embora
carecendo de garantia documental o asservo de Caetano de Sousa, sobre
esta matéria. O nascimento de Dom João fá-la-á
perder este título, inserindo-lhe o de Infanta, mas os seus
coevos e pósteros persistiram no trato de Princesa a Dona
Joana, a Princesa-Infanta, talvez sempre lembrados da importância
do seu nascimento para a continuidade e independência de
Portugal.
Aos três anos e dez meses
a Princesa-Infanta fica órfã de Mãe. Dona Joana
e Dom João continuam no mesmo Paço, talvez de Alcáçova
a par de São Cristóvão. São entregues
aos cuidados da Infanta Dona Filipa de Lencastre, irmã da
Rainha Dona Isabel, e de Dona Brites de Meneses.
Dona Filipa de Lencastre, filha
do Infante Dom Pedro e de Dona Isabel, nasceu em Coimbra em 1435 e
faleceu em Odivelas a 25 de Julho de 1497. Senhora muito culta,
versada em várias línguas, deixou uma vasta obra
publicada no campo político, entre outras «Conselho e
Voto da Senhora D. Filipa...Sobre as Terçarias e Guerras de
Castela», no campo religioso, por exemplo «Nove Estações
ou Meditações de Paixão, mui devotas para os que
visitam as igrejas quinta-feira de Endoenças», além
de traduções, como do francês «Evangelhos e
homilias de todo o ano». Após uma vida difícil, a
seguir à morte do Pai em Alfarrobeira, mas de importância
na cultura e na política, veio a recolher-se ao Mosteiro de
Odivelas, onde viveu dezassete anos sem professar e onde morre. 
Dona Brites, ou Beatriz, de
Meneses era viúva de Aires Gomes da Silva, segundo Senhor de
Vagos e Governador de Lisboa. Fidalga culta e virtuosa, tinha sido
aia da Rainha Dona Isabel e veio a recolher-se junto ao Mosteiro de
São Marcos, perto de Tentúgal, por ela fundado e
dotado, em 1458, vindo aí a falecer em 1466. Ao tomar esta
decisão, Dona Brites de Meneses é substituída na
educação dos Príncipes por Dona Beatriz de
Vilhena, casada com Diogo Soares de Albergaria, aio de Dom João.
Os anos de infância de
Dona Joana terão decorrido idênticos aos das crianças
da sua idade e posição social. Porém, estando
Portugal a viver um período da sua história em que
continuamente alargava as fronteiras do conhecimento geográfico,
também o conhecimento científico, político e
literário conhecia um desenvolvimento sem paralelo. O
interesse pelo Saber marcou a dinastia de Avis, o que denota o
elevado ambiente de cultura, criado já em torno de Dom João
I e de Dona Filipa de Lencastre e que estes transmitiriam aos filhos. A Casa Real protegia as artes, as letras e a Universidade. Desde
Dom João I que se organizava uma biblioteca na Corte, que
abarcava obras religiosas, filosóficas, náuticas,
poéticas, e outras de carácter mais geral. Os
próprios Reis e Príncipes de Avis escreveram obras como
o Livro de Montaria, de Dom João I, o Leal Conselheiro, de Dom
Duarte I, o Tratado da Virtuosa Benfeitoria, do Infante Dom Pedro, o
Tratado da Milícia e Constelação de Cão,
de Dom Afonso V, sem esquecer as inúmeras traduções
de obras de diferentes conteúdos e línguas. Para a
época representava uma livraria bem fornecida. O Regente
Dom Pedro convidou Mestres italianos a fixarem-se em Portugal para a
docência e cultivo das letras. Mateus Pisano, ou de Pisa,
e Estevam de Nápoles foram a grande referência humanista
deste período. Dom Afonso V mandou vir de Itália o
dominicano Justo Baldino, que encarregou de verter para o latim as
crónicas dos Reis seus antecessores, para as tornar conhecidas
no mundo culto.
E, a Infanta Joana e o Príncipe
João viviam e cresciam neste ambiente cultural humanista, de
nítida influência italiana. De facto, Frei João
Rodrigues e o Padre Bacharel Vasco Tenreiro terão sido os seus
primeiros mestres pedagógicos. Ensinaram-lhes a ler, a
escrever, a rezar e latim. Depois destes rudimentos, Frei Justo
Baldino ter-se-á encarregado das humanidades. Pode-se,
ainda dizer, que o Príncipe e a Infanta estudaram com maior ou
menor aplicação as disciplinas do Trívio
(gramática latina, lógica e retórica) e o
quadrívio (aritmética, geometria astronomia e musica),
e, por certo, oratória e poesia. Em 1471 Dom Afonso V e o
Príncipe Dom João partiram para o Norte de África.
O Rei nomeou Regente o segundo Duque de Bragança, Dom
Fernando, que declinou tal responsabilidade, justificando com a sua
avançada idade. Será a Infanta Dona Joana que fica
com a regência, o seu único acto de política
activa. De facto como Infanta que é, desempenha na estrutura
do Estado uma função política e tem uma
responsabilidade inerente a esse facto. É uma outra vertente
dos deveres para com o Estado de cuja continuidade é um
garante.
O Casamento Real é um
acto de Estado. E o interesse do Estado está acima do
interesse do indivíduo, e era do interesse do Reino que a
Infanta casasse. Por mais de uma vez este assunto foi levado às
Cortes por os diferentes corpos orgânicos do Estado entenderem
ser conveniente. E, em fins de 1471, por mandato régio,
reuniram-se em Lisboa todos os procuradores das cidades e vilas do
Reino que, tempo antes, haviam advertido Dom Afonso V de «que
não deixasse a filha entrar em mosteyro»; e lavraram, em
22 de Dezembro, veementemente Reclamaçom, Contradiçom e Protestaçom, exigindo que a Infanta não
professasse e volvesse à Corte, dispondo-se a casar, como ao
Reino convinha. O primeiro projecto de casamento ocorre em
1460. Henrique IV de Castela propõe o casamento com o seu
irmão, o Infante Dom Afonso, filho do segundo casamento de Dom
João II de Castela com Dona Isabel de Portugal, prima de Dom
Afonso V. Conquanto fosse do interesse do Reino, Dom Afonso V
entendeu ser cedo para essa aliança, e o futuro veio dar-lhe
razão. Outros irão surgir, como o de Carlos, o
Temerário, Duque da Borgonha, antes de 1468. Também
serão dados com pretendentes Maximiliano da Alemanha, filho de
Frederico III, ou Francisco II, Duque da Bretanha, ainda Renato, ou
Reinaldo II, neto de Reinaldo I, que era Duque de Lorena e
pretendente à Coroa das Duas Sicílias ou de Nápoles.
Por último, aparecem como protagonistas Dom Diogo, Duque de
Viseu e Beja, e Ricardo III de Inglaterra, da Casa de York. Dom
Diogo, irmão da Rainha Dona Leonor veio a ser assassinado pelo
próprio Rei, por ser o principal elemento de uma das conjuras
contra Dom João II, mas o seu casamento com a Infanta era da
vontade da Rainha, tentando evitar o desfecho que já era
previsível. Os projectos de Ricardo III obtiveram a decisão
favorável e unânime do Conselho de Estado, mas a sua
morte na batalha de Bosworth Field a 22 de Agosto de 1485 obstou a
que tal se verificasse. É a altura da Infanta pedir ao irmão
que «jamais não curasse de tentar em a requerer para
casamento com nenhum mortal homem».
A Infanta Dona Joana viveu num
ambiente em que a Religião representava uma necessidade e uma
razão de existência. Sua tia Dona Isabel, como Dona
Brites, que a educaram, entraram em clausura. Todos os seus actos
visavam uma ligação ao Sagrado, uma permanente vontade
de diálogo íntimo com Deus. Não será de
estranhar que a sua vocação religiosa se tenha
manifestado precocemente, através da leitura dos Evangelhos e
das Hagiografias, no fervor da Oração e no Múnus
caritativo. Diversos foram os pedidos, primeiro a seu Pai,
depois a seu Irmão, para que lhe fosse permitido entrar numa
Ordem Religiosa, mas as razões de Estado iam sempre recusando.
Veio a recolher-se no Mosteiro de São Dinis em Odivelas em
Dezembro de 1471; no início de Agosto de 1472 entra no
Mosteiro de Jesus, em Aveiro; toma o hábito e inicia o
noviciado em fins de Janeiro de 1475.
Uma tarefa importante destina
Dom João II a sua irmã. Em 11 de Agosto de 1481 nasceu
Dom Jorge de Lencastre, filho bastardo do Rei e de Ana Mendonça,
filha de Nuno Furtado de Mendonça, aposentador-mor de Dom
Afonso V, e de Dona Leonor da Silva, dama da Rainha Dona Isabel. Com
três meses é entregue aos cuidados de sua tia, longe da
Corte, em Aveiro, portanto longe de possíveis represálias
políticas. Embora com mestres próprios como o italiano
Cataldo Parísio Sículo, era a Infanta que «o
criava muito honradamente como pertencia a filho de El-rei, seu
irmão». De facto, tendo-se responsabilizado pela
educação do sobrinho, continuava a cuidar dele com
esmero e afecto; o pequeno, se não estava destinado a ocupar o
trono real, ao menos viria a ter um lugar destacado na Corte. A tia,
que era culta, com formação moral e religiosa, ia-lhe
ministrando conhecimentos humanísticos, conforme a capacidade
receptiva de uma criança. Dom João II, após
a morte do Infante Dom Afonso, seu único filho, tentou
legitimar Dom Jorge, solicitando com insistência as licenças
ao Papa Alexandre VI. Não tendo obtido o consentimento, o Rei
fez do filho o primeiro fidalgo português, dando-lhe o Ducado
de Coimbra, o Senhorio de Montemor-o-Novo e o mestrado das Ordens de
Avis e Santiago.
A Princesa-Infanta Dona Joana
encaminhou as suas acções sempre no sentido de servir a
Deus. Porém nunca deixou de ser filha de Rei e irmã de
Rei, portanto com actos cujo julgamento cabia à Nação.
Foi esse aspecto, o público, que aqui se pretendeu abordar de
uma maneira sucinta Morreu a 12 de Maio de 1490, com trinta e oito
anos, sob o hábito dominicano no Convento de Jesus em Aveiro.
Foi sepultada no coro do Convento. Logo após a sua morte, o
povo de Aveiro começou a venerá-la por santa,
considerando-a mesmo, mais tarde, como protectora da cidade; o seu
culto foi confirmado pelo Papa Inocêncio XII, em 1693. Em
Janeiro de 1965, o Papa Paulo VI constituiu-a padroeira principal da
cidade e diocese de Aveiro. Assim está escrito numa pequena
biografia religiosa de Santa Joana Princesa de Portugal.
_______________________________________
(1) Zúquete, Afonso E.
M.- Nobreza de Portugal e do Brasil, vol. I, pg. 327
(2) Zúquete, Afonso E.
M.- ibid., vol. I, pg. 327
(3) Zúquete, Afonso E.
M.- ibid., vol. I,pg. 333
(4) Memorial da muito excellente
Princesa e muito virtuosa ha Senhora Iffante dona Joana na Crónica
da Fundação do Mosteiro de Jesus de Aveiro (Ed. de
Rocha Madahil e Ferreira Neves), Aveiro, 1939, pg. 76-77
(5) Gonçalves, António
Manuel- Dicionário de História de Portugal, verb.
Joana, pg. 376
(6) Gonçalves, António
Manuel- ibid., verb. Joana, pg. 376
(7) Pina, Rui- Crónica de
D. Afonso V, Cap. CLXVIII
(8) Zúquete, Afonso E.
M.- ibid., vol. I, pg. 271
(9) Memorial cit., pg. 77
(10) Gaspar, João
Gonçalves- A Princesa Santa Joana e a Sua Época, pg. 44
(11) Matos, Luís de- O
Ensino da Corte durante a Dinastia de Avis, pg. 521
(12) Sanceau, Elaine- D. João
II, pg 29
(13) Serrão, Joaquim
Veríssimo- História de Portugal, vol. II, pg. 320
(14) Mendonça, Manuela-
D. João II, pg. 76
(15) Matos, Luís de-
ibid. pg. 501
(16) Resende, Garcia- Crónica
dos Valorosos Feitos de El-rei D. João II de Gloriosa Memória,
pg. 3
(17) Mendonça, Manuela-
ibid. pg. 74
(18) Matos, Luís de-
ibid. pg. 513
(19) Sousa, D. António
Caetano de- História Geneológica da Casa Real
Portuguesa, Tomo V, pg. 162
(20) Gonçalves, António
Manuel- Ibid., verb. Joana, pg. 377
(21) Madahil, António
Gomes da Rocha- A Política de D. Afonso V apreciada em 1460,
Biblos nº VII
(22) Memorial cit, pg.133
(23) Gonçalves, António
Manuel- ibid., verb. Joana, pg. 377
(24) Resende, Garcia- ibid.,
Cap. CXIII
(25) Gaspar, João
Gonçalves- ibid., pg. 201
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