Bruckner ou a singularidade de um génio
por F Santos
O
austríaco Anton Bruckner (1824-1896) é sem dúvida
uma das figuras mais fascinantes e estranhas da história da
música. De origem rural modesta, o jovem Anton aprendeu órgão
com o pai, vindo mais tarde a ser o organista de St. Florian, em
1851.
Bruckner toda a vida foi um autodidacta, humilde e
extremamente esforçado. É só em 1855 que tira,
em Viena, um curso de contraponto (ele que vem a ser ums dos maiores
mestres de contraponto da história da
música!).
Em 1863 dá-se a mudança decisiva na
sua vida: conhece Wagner pessoalmente, ouve Tanhäuser e o Tristan. Começa a compor sinfonias com alguma
inspiração wagneriana (geralmente sobrevalorizada pela
crítica). Não são fáceis estes anos: as
duas primeiras sinfonias não são aceites pela
Filarmónica de Viena para execução pública.
Mas Wagner elogia a Terceira e a Quarta, dita “Romântica”,
é um sucesso estrondoso.
Qual a estrutura das sinfonias de Bruckner? A um
andamento inicial, regra geral Andante-Allegro (como o despontar de
um dia), segue-se um Adagio, nostálgico, lamentoso, expressivo
de emoção. O Scherzo é normalmente empolgante,
incluindo um trio com temas campestres. O Finale é o culminar
dramático e apoteótico da obra, incluindo normalmente
breves evocações dos temas precedentes. Esta estrutura,
raramente alterada, levou alguns malévolos a dizer que
Bruckner escreveu nove vezes a mesma sinfonia.
O que é certo é que, como escreveu
um crítico inglês, «em Bruckner o esperado é
o inesperado». A tutti efusivos pode-se seguir um
silêncio e o lento “despertar” da orquestra. Acrescente-se
que a lógica da composição para órgão
é transposta para a grande orquestra, gerando-se grandes
massas sonoras verdadeiramente fascinantes mas ainda hoje
incompreendidas por muitos melómanos. Por último, não
se pode deixar de referir a profunda religiosidade do católico
Bruckner; a música é para ele um meio de louvar o
Criador, remetendo-se o homem ao seu destino.
Bruckner sofreu críticas impiedosas da
crítica, em particular do cruel Hanslick. Em plena “guerra”
brahmsianos-wagnerianos, Bruckner, identificado com o grande Richard,
foi vítima da maldade dos fazedores de opinião. [É
irresistível deixar aqui um excerto de um filme de François
Truffaut. Diz o pai ao filho: «Meu filho, tens que estudar bem
as tuas lições de música, se queres ser um
músico a sério». «O que é que sucede
se não as estudar bem?» «Vais ser crítico
musical.»] Isto também conduziu a que críticos
pós-wagnerianos associassem Brahms ao conservadorismo na
música, outra forma de preconceito, de resto perfeitamente
descabido pois o mestre de Hamburgo era em muitos aspectos inovador,
algo que o próprio Schönberg nunca se cansou de
salientar.
Bruckner, humilde e inseguro, reescreveu algumas
das sinfonias (em particular extensão a Terceira e a Oitava),
o que teve como consequência não ter podido terminar a
Nona, uma verdadeira tragédia para a história da
música, considerando o auge criativo dos três andamentos
que compôs.
Com a Sétima sinfonia Bruckner recebe a
aclamação geral. É uma sinfonia talvez mais
clássica, bastante schubertiana. O Adagio é um dos
momentos mais comoventes que é possível ouvir: sabendo
da morte do seu adorado Richard Wagner, Bruckner compõe um
Adagio (que, conforme as interpretações, pode chegar
aos 25 minutos de execução) que é um longo
lamento pelo passamento do genial compositor. Arrepiante.
A Oitava sinfonia, reescrita como acima referimos
(Hermann Levi, o maestro que estreara a Sétima, não
compreendeu a obra, quase levando o deseperado compositor ao
suicídio), acabou por ser também um sucesso (até
o intratável Hanslick teve que admitir a grandeza da obra),
mais que merecido pois é a meu ver a melhor de todas as que o
austríaco compôs. O primeiro andamento é de um
dramatismo insuperável, o peso da morte e o destino do homem
estão expressos como nunca em música; a lenta conclusão
é o espelho do nosso fim inelutável. O segundo
andamento é mais nostálgico, com uma evocação
dos ambientes rurais de origem do compositor. No terceiro andamento
chegamos ao reino do sublime: um início lento e quase etéreo
dá-nos a medida da transcendência plasmada em música;
lamenta-se que a quase meia hora que dura este andamento chegue ao
fim. Mas segue-se-lhe um tema apoteótico, empolgante, com que
enceta o quarto andamento; o finale é um dos momentos mais
sublimes da história sinfónica, com o crescendo
orquestral a dominar completamente o auditor. Para o grande maestro
Sergiu Celibidache, que dirigiu esta obra em Lisboa em 1994, perante
um extasiado Coliseu, «a Oitava sinfonia é o zénite
da escrita sinfónica», enquanto que para o grande
compositor Hugo Wolf, ela é «a criação de
um gigante, ultrapassando em dimensão espiritual e magnitude
de concepção todas as outras sinfonias do Mestre».
Gustav Mahler foi também um grande defensor da obra
bruckneriana, sofrendo de resto grande influência do mesmo.
Embora
nem sempre Anton Bruckner tenha recebido a admiração
que a sua obra merece, alguma justiça lhe foi feita ainda em
vida. Para nós, pobres mortais, este acervo imortal,
grandioso, genial, comovente, religioso, aí está para
felicidade de quem ama a música.
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(1) Contraponto pode definir-se como
uma técnica de composição em que duas ou mais
vozes melódicas são compostas tendo em conta o seu
perfil melódico (independência) e a sobreposição
de ambas (interdependência), de acordo com a qualidade
intervalar e harmónica das mesmas.
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