Ano I - Nº 6, Fevereiro de 2007
Alameda Digital
Política Cultural
Multiculturalismo

por Marcos Pinho de Escobar

Tempos houve em que as sociedades tradicionais e as velhas nações podiam, com absoluta naturalidade, possuir e preservar os seus modelos e as suas identidades – étnica, religiosa, linguística, etc. Hoje já não é assim. As sociedades, para receberem a chancela da modernidade e do progresso, devem estar cada vez mais caracterizadas por uma profunda diversidade e intenso pluralismo cultural – o monoculturalismo e o nacionalismo são os inimigos a abater. O multiculturalismo é simplesmente a arma com a qual os construtores de mais um mundo novo buscam destruir os padrões comportamentais das sociedades tradicionais e dissolver as identidades nacionais. Mas repare-se: o alvo da ira não é qualquer sociedade tradicional ou qualquer identidade nacional, mas quase sempre aquelas que representam o Ocidente cristão.

O Estado multicultural consegue a proeza de absolutizar o relativismo. Sob uma máscara de neutralidade – e com o pretexto de combater a “exclusão”, palavra que tanto anda na crista da vaga – o multiculturalismo ataca as crenças, valores, comportamentos e elementos identitários tradicionais de uma comunidade. A religião da maioria, mesmo se esta é factor estruturante na formação da sociedade ou da nação, não pode ocupar lugar de preeminência. A instituição tradicional do matrimónio – a união entre um homem e uma mulher – não pode ser padrão: as uniões de facto entre pessoas do mesmo sexo devem ser elevadas à categoria de plena igualdade. As referências ao passado têm de ser filtradas de modo a eliminar modelos de conducta considerados incorrectos, e para não ofender as susceptibilidades de raças, etnias, credos, opções sexuais, estilos de vida, etc. O vínculo entre nacionalidade e identidade étnica também deve ser eliminado, pois associar uma nação com a etnia que a forjou é uma ofensa imperdoável aos demais grupos étnicos que nela se encontram.

As forças promotoras do multiculturalismo estão activas em todas as partes, mas a Europa e a América do Norte são os grandes campos de batalha – com as regiões periféricas a sentir os efeitos devastadores em segunda mão.

Uma vista d’olhos na obra do Sr. Blair, o moderníssimo primeiro-ministro desta nova Grã-Bretanha tão multicultural, dá a justa medida do significado de nação partilhado pelos arautos da diversidade.

Para o velho Tony a Grã-Bretanha anglo-saxónica está morta e enterrada, para a felicidade geral da “nação” e do mundo. Britain – pese o anacronismo do vocábulo – é hoje nada mais do que uma colecção de raças, religiões e culturas. E quem recusar tanta diversidade e tanto pluralismo sentirá todo o peso da robusta legislação anti-discriminatória e a ira implacável da polícia do pensamento, ambas criações dos modernizadores trabalhistas. Afirmando combater a discriminação baseada na orientação sexual, religião, raça, sexo, cultura, etc., a verdade nua e crua é que os multiculturalistas investem furiosamente contra tudo e todos que representaram a identidade anglo-saxónica da Grã-Bretanha ao longo dos séculos, assim como contra aqueles que pretendem conservar padrões tradicionais de comportamento. Para os multiculturalistas uma sociedade não é definida em termos de “pessoas”, mas, sim, em termos de “cidadãos”, os quais simplesmente necessitam aderir a um certo conjunto de princípios. Basta que os indivíduos proclamem o seu amor à “democracia”, à “justiça”, à “tolerância” e ao “império da lei”, e pronto! – já são membros plenos da nação correspondente. Para o modernizador Blair ser democrata e tolerante é o que dá a alguém o direito de ser chamado “britânico”. Raça, etnia, cultura, não contam para nada. Uma nação, um país, uma sociedade comercial, um clube de futebol ou golf, um prédio de apartamentos, uma cooperativa de taxistas – dá tudo no mesmo. O que interessa é assinar os estatutos. É assim onde (des)governa o Tony; é assim igualmente onde pontificam a Merkel, o Chirac, o (Zé) Sócrates, ... e nem falemos deste mestre do multiculturalismo raivoso e espumante, o Zapatero.

O multiculturalismo é a arma privilegiada da revolução cultural que declarou guerra à morte à sociedade tradicional e à nação e, sobre os seus escombros, criar o homem novo para um mundo novo. Em defesa da tradição e da nação haverá quem esteja à altura desta batalha que promete ser a mãe de todas as batalhas?

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