Multiculturalismo
por Marcos Pinho de Escobar
Tempos houve
em que as sociedades tradicionais e as velhas nações
podiam, com absoluta naturalidade, possuir e preservar os seus
modelos e as suas identidades – étnica, religiosa,
linguística, etc. Hoje já não é assim. As
sociedades, para receberem a chancela da modernidade e do progresso,
devem estar cada vez mais caracterizadas por uma profunda diversidade
e intenso pluralismo cultural – o monoculturalismo e o nacionalismo
são os inimigos a abater. O multiculturalismo é
simplesmente a arma com a qual os construtores de mais um mundo novo
buscam destruir os padrões comportamentais das sociedades
tradicionais e dissolver as identidades nacionais. Mas repare-se: o
alvo da ira não é qualquer sociedade tradicional ou
qualquer identidade nacional, mas quase sempre aquelas que
representam o Ocidente cristão.
O Estado
multicultural consegue a proeza de absolutizar o relativismo. Sob uma
máscara de neutralidade – e com o pretexto de combater a
“exclusão”, palavra que tanto anda na crista da vaga – o
multiculturalismo ataca as crenças, valores, comportamentos e
elementos identitários tradicionais de uma comunidade. A
religião da maioria, mesmo se esta é factor
estruturante na formação da sociedade ou da nação,
não pode ocupar lugar de preeminência. A instituição
tradicional do matrimónio – a união entre um homem e
uma mulher – não pode ser padrão: as uniões de
facto entre pessoas do mesmo sexo devem ser elevadas à
categoria de plena igualdade. As referências ao passado têm
de ser filtradas de modo a eliminar modelos de conducta considerados
incorrectos, e para não ofender as susceptibilidades de raças,
etnias, credos, opções sexuais, estilos de vida, etc. O
vínculo entre nacionalidade e identidade étnica também
deve ser eliminado, pois associar uma nação com a etnia
que a forjou é uma ofensa imperdoável aos demais grupos
étnicos que nela se encontram.
As
forças promotoras do multiculturalismo estão activas em
todas as partes, mas a Europa e a América do Norte são
os grandes campos de batalha – com as regiões periféricas
a sentir os efeitos devastadores em segunda mão.
Uma vista
d’olhos na obra do Sr. Blair, o moderníssimo
primeiro-ministro desta nova Grã-Bretanha tão
multicultural, dá a justa medida do significado de nação
partilhado pelos arautos da diversidade.
Para o velho Tony a Grã-Bretanha anglo-saxónica está
morta e enterrada, para a felicidade geral da “nação”
e do mundo. Britain – pese o anacronismo do vocábulo
– é hoje nada mais do que uma colecção de
raças, religiões e culturas. E quem recusar tanta
diversidade e tanto pluralismo sentirá todo o peso da robusta
legislação anti-discriminatória e a ira
implacável da polícia do pensamento, ambas criações
dos modernizadores trabalhistas. Afirmando combater a discriminação
baseada na orientação sexual, religião, raça,
sexo, cultura, etc., a verdade nua e crua é que os
multiculturalistas investem furiosamente contra tudo e todos que
representaram a identidade anglo-saxónica da Grã-Bretanha
ao longo dos séculos, assim como contra aqueles que pretendem
conservar padrões tradicionais de comportamento. Para os
multiculturalistas uma sociedade não é definida em
termos de “pessoas”, mas, sim, em termos de “cidadãos”,
os quais simplesmente necessitam aderir a um certo conjunto de
princípios. Basta que os indivíduos proclamem o seu
amor à “democracia”, à “justiça”, à
“tolerância” e ao “império da lei”, e pronto! –
já são membros plenos da nação
correspondente. Para o modernizador Blair ser democrata e tolerante é
o que dá a alguém o direito de ser chamado “britânico”.
Raça, etnia, cultura, não contam para nada. Uma nação,
um país, uma sociedade comercial, um clube de futebol ou golf,
um prédio de apartamentos, uma cooperativa de taxistas – dá
tudo no mesmo. O que interessa é assinar os estatutos. É
assim onde (des)governa o Tony; é assim igualmente onde
pontificam a Merkel, o Chirac, o (Zé) Sócrates, ... e
nem falemos deste mestre do multiculturalismo raivoso e espumante, o
Zapatero.
O
multiculturalismo é a arma privilegiada da revolução
cultural que declarou guerra à morte à sociedade
tradicional e à nação e, sobre os seus
escombros, criar o homem novo para um mundo novo. Em defesa da
tradição e da nação haverá quem
esteja à altura desta batalha que promete ser a mãe de
todas as batalhas? |