Ano I - Nº 6, Fevereiro de 2007
Alameda Digital
Política Cultural

Em Cabinda, nada de novo

por Vítor Martins

Em Cabinda, esse antigo enclave português situado entre os Congos de colonização belga e francesa, que se autodeterminou no seio da soberania portuguesa nos finais do século XIX e vive desde 1974 sob o domínio do MPLA, partido-estado, a normalidade dos dias é habitualmente interrompida pelas diversas manifestações de um poder ocupante, temperado com a sedução reptilínea da política luandense.

A sabedoria dos africanos sempre incluiu o domínio de jogos de poder que foram sendo aperfeiçoados com a integração de elementos culturais recebidos das culturas europeias, com as quais estabeleceram profundos contactos. Mas desse sincretismo cultural, logo também político, resultam formas de um inegável “sabor” africano que se evidenciam perante qualquer olhar do exterior. São, por isso, inevitáveis as perplexidades quando, por exemplo, acompanhamos a profunda crise eclesiástica que atingiu a população católica de Cabinda a partir do cessar de funções do emérito Bispo de Cabinda, D. Paulino Madeka. Este era e é um homem de sabedoria, que sempre soube interpretar os sentimentos do seu povo e fazer-se eco do sofrimento dos Cabindas. Nessa circunstância Luanda aproveitou as boas relações com a Conferência Episcopal de Angola e São Tomé para apoiar a escolha de um sucessor de “confiança”. E assim começou uma longa sequência de lamentáveis acontecimentos que conduziram à actual situação de um Pastor que não alcança a confiança do rebanho, parte do qual se vê remetido a uma situação de semi-clandestinidade.

A elite Cabinda, que desde muito cedo soube beneficiar das boas relações com Portugal, continua a evidenciar elevados níveis de instrução, alcançada em universidades de vários continentes, mas peca pela manifesta incapacidade na definição de uma estratégia comum. Procura reforçar a sua identidade etno-cultural e, maioritariamente, afirma o desejo de independência ou de autonomia política, mas divide-se nos modos de a procurar.

Essas divisões são propícias a outras perplexidades como as que são suscitadas pela trajectória política de um dos seus líderes, Bento Bembe, ainda recentemente, Secretário-geral da FLEC – Frente de Libertação de Cabinda. No início de 2006 Bento Bembe deslocou-se à Holanda no exercício das suas funções políticas onde foi detido, em consequência de um pedido de extradição solicitado pelos EUA, com base numa alegada colaboração num rapto ocorrido em Cabinda. Essa prisão suscitou a união de toda a resistência Cabinda que se multiplicou em esforços no sentido de obter a sua libertação, alcançada em meados de Novembro desse ano. Segundo as más-línguas, o governo de Luanda teria dado a sua colaboração para esse efeito.

De regresso a Cabinda e aliviado da ameaça de ser remetido para um Guantânamo qualquer, Bento Bembe contribui para a fusão da resistência numa única FLEC e foi eleito para a presidência do Fórum Cabindês para o Diálogo (FCD). Em Março de 2006 foi tornada pública a existência de uma negociação entre o governo de Luanda e Bento Bembe, na sua qualidade de presidente do FCD. Em Julho do ano transacto a negociação culmina com um “Memorando de Entendimento” pomposamente publicitado.

Enquanto cresciam as vozes dissonantes com esse entendimento e a Mpalabanda - Associação Cívica de Cabinda era ilegalizada, Bento Bembe e alguns dos seus apoiantes eram integrados nas forças armadas angolanas, cabendo a Bembe o posto de general, mas na reforma (não vá o diabo tecê-las).

A partir daí transformou-se em mais um perseguidor dos seus antigos camaradas da FLEC, que continua a acalentar o pacífico coração dos cabindeses e a afirmar-se, em armas, na floresta do Maiombe.

No passado dia 18 de Fevereiro o poder ocupante voltou a manifestar-se, prendendo e acusando de espionagem a cidadã britânica Sarah Wykes, pertencente à Global Witness. Esta ONG é conhecida pelos seus apelos à transparência com os dinheiros provenientes do petróleo, pois tal como essa organização argumenta e o FMI confirma, cerca de um quarto das receitas anuais do petróleo desaparecem nos bolsos suiços da nomenklatura do MPLA - aí uns 1,5 mil milhões de dólares, sem contar com os secretos rendimentos provenientes dos diamantes e da corrupção generalizada. Nesse mesmo dia o presidente angolano visitava a sede do poder da potência tutelar, em Washington, ao mesmo tempo que a Chevron Texaco pagava 300 milhões de dólares pela extensão da sua concessão de exploração no Bloco 0.

O “crescimento” angolano continua a estimular o voraz apetite dos nossos políticos e de alguns dos nossos empresários, mas em Cabinda – nada de novo – a violência continua.

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