Em
Cabinda, nada de novo
por Vítor
Martins
Em
Cabinda, esse antigo enclave português situado entre os Congos
de colonização belga e francesa, que se autodeterminou
no seio da soberania portuguesa nos finais do século XIX e
vive desde 1974 sob o domínio do MPLA, partido-estado, a
normalidade dos dias é habitualmente interrompida pelas
diversas manifestações de um poder ocupante, temperado
com a sedução reptilínea da política
luandense.
A
sabedoria dos africanos sempre incluiu o domínio de jogos de
poder que foram sendo aperfeiçoados com a integração
de elementos culturais recebidos das culturas europeias, com as quais
estabeleceram profundos contactos. Mas desse sincretismo cultural,
logo também político, resultam formas de um inegável
“sabor” africano que se evidenciam perante qualquer olhar do
exterior. São, por isso, inevitáveis as perplexidades
quando, por exemplo, acompanhamos a profunda crise eclesiástica
que atingiu a população católica de Cabinda a
partir do cessar de funções do emérito Bispo de
Cabinda, D. Paulino Madeka. Este era e é um homem de
sabedoria, que sempre soube interpretar os sentimentos do seu povo e
fazer-se eco do sofrimento dos Cabindas. Nessa circunstância
Luanda aproveitou as boas relações com a Conferência
Episcopal de Angola e São Tomé para apoiar a escolha de
um sucessor de “confiança”. E assim começou uma
longa sequência de lamentáveis acontecimentos que
conduziram à actual situação de um Pastor que
não alcança a confiança do rebanho, parte do
qual se vê remetido a uma situação de
semi-clandestinidade.
A elite
Cabinda, que desde muito cedo soube beneficiar das boas relações
com Portugal, continua a evidenciar elevados níveis de
instrução, alcançada em universidades de vários
continentes, mas peca pela manifesta incapacidade na definição
de uma estratégia comum. Procura reforçar a sua
identidade etno-cultural e, maioritariamente, afirma o desejo de
independência ou de autonomia política, mas divide-se
nos modos de a procurar.
Essas
divisões são propícias a outras perplexidades
como as que são suscitadas pela trajectória política
de um dos seus líderes, Bento Bembe, ainda recentemente,
Secretário-geral da FLEC – Frente de Libertação
de Cabinda. No início de 2006 Bento Bembe deslocou-se à
Holanda no exercício das suas funções políticas
onde foi detido, em consequência de um pedido de extradição
solicitado pelos EUA, com base numa alegada colaboração
num rapto ocorrido em Cabinda. Essa prisão suscitou a união
de toda a resistência Cabinda que se multiplicou em esforços
no sentido de obter a sua libertação, alcançada
em meados de Novembro desse ano. Segundo as más-línguas,
o governo de Luanda teria dado a sua colaboração para
esse efeito.
De
regresso a Cabinda e aliviado da ameaça de ser remetido para
um Guantânamo qualquer, Bento Bembe contribui para a fusão
da resistência numa única FLEC e foi eleito para a
presidência do Fórum Cabindês para o Diálogo
(FCD). Em Março de 2006 foi tornada pública a
existência de uma negociação entre o governo de
Luanda e Bento Bembe, na sua qualidade de presidente do FCD. Em Julho
do ano transacto a negociação culmina com um “Memorando
de Entendimento” pomposamente publicitado.
Enquanto
cresciam as vozes dissonantes com esse entendimento e a Mpalabanda -
Associação Cívica de Cabinda era ilegalizada,
Bento Bembe e alguns dos seus apoiantes eram integrados nas forças
armadas angolanas, cabendo a Bembe o posto de general, mas na reforma
(não vá o diabo tecê-las).
A partir
daí transformou-se em mais um perseguidor dos seus antigos
camaradas da FLEC, que continua a acalentar o pacífico coração
dos cabindeses e a afirmar-se, em armas, na floresta do Maiombe.
No passado
dia 18 de Fevereiro o poder ocupante voltou a manifestar-se,
prendendo e acusando de espionagem a cidadã britânica
Sarah Wykes, pertencente à Global Witness. Esta ONG é
conhecida pelos seus apelos à transparência com os
dinheiros provenientes do petróleo, pois tal como essa
organização argumenta e o FMI confirma, cerca de um
quarto das receitas anuais do petróleo desaparecem nos bolsos
suiços da nomenklatura do MPLA - aí uns 1,5 mil milhões
de dólares, sem contar com os secretos rendimentos
provenientes dos diamantes e da corrupção generalizada.
Nesse mesmo dia o presidente angolano visitava a sede do poder da
potência tutelar, em Washington, ao mesmo tempo que a Chevron
Texaco pagava 300 milhões de dólares pela extensão
da sua concessão de exploração no Bloco 0.
O
“crescimento” angolano continua a estimular o voraz apetite dos
nossos políticos e de alguns dos nossos empresários,
mas em Cabinda – nada de novo – a violência continua.
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