O
Cerco da Europa e as Novas Realidades Geopolíticas
por Brandão Ferreira
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“Tal
há-de ser quem quer, coo dom de Marte,
Imitar
os Ilustres e igualá-los:
Voar
coo pensamento a toda a parte,
Adivinhar
perigos e evitá-los
Com
militar engenho e subtil arte,
Entender
os inimigos, e enganá-los,
Crer
tudo, enfim; que nunca louvarei
O
Capitão que diga: Não cuidei.”
«Os
Lusíadas»
Canto
VIII, 89 |
No
fim do século XI e início do século XII a Europa
cristã estava em vias de ser submersa pelos seus vizinhos: a
leste e nordeste por eslavos hostis e pelas hordas de tártaros
e mongóis; a sudoeste pelos Turcos e a sul e sudoeste pelos
Árabes, cujo império se expandiu para ocidente até
ao sul de França, onde foi parado, em 732, por Carlos Mardel,
na batalha de Poitiers. O Mediterrâneo era um mar inseguro e o
Atlântico conhecia apenas a navegação costeira e
as suas virtualidades estratégicas eram reduzidas.
É
então que surge um plano que se julga concebido no coração
da Europa, na Ordem de Cluny e, nomeadamente, por S. Bernardo ,
abade do mosteiro de Claraval, em França, e que se destinava a
modificar a situação estratégica existente,
abandonando-se uma postura defensiva e optando-se por uma outra,
ofensiva.
O
plano consistia de três partes: atacar o coração
do Islão, não propriamente Meca e Medina, pois
encontravam-se longe da costa mediterrânica e eram de difícil
acesso por via do deserto envolvente, mas Jerusalém, cidade
santa e emblemática das três principais religiões
da altura: a cristã, a judaica e a islâmica. Daqui
nasceram as Cruzadas, cuja primeira foi pregada pelo papa Urbano II,
no concílio de Clemont Ferrant, em Novembro de 1095. Desta
cidade partiria, em Agosto do ano seguinte, um exército que se
juntou ao rei Godofredo de Bulhão à frente das suas
tropas, no sul da Bélgica . Seguindo um trajecto o mais
directo possível propunha-se recuperar os lugares santos.
Jerusalém foi, efectivamente, tomada em 1099.
Esta
pressão, no centro, poderia ainda aliviar as duas pontas da
«tenaz» que envolvia a Europa.
A
Este, seguir-se-ia uma estratégia de contenção e
evangelização e, na Península Ibérica,
onde a reconquista Cristã já se iniciara desde os
tempos de Pelágio e de Covadonga, no século IX, essa
reconquista seria incentivada. Constituiria a «cruzada»
do Ocidente. Como trave mestra de todo este plano foram criadas as
ordens militares religiosas, com o propósito de defender a Fé
cristã, garantir a segurança das populações
e dos peregrinos, e de constituírem um núcleo duro de
guerreiros.
Cumulativamente,
tinham ainda um papel importante na organização da vida
comunitária.
Na
Palestina, distinguiram-se sobretudo os Templários e os
Hospitalários; no Leste, a Ordem Teutónica, e, na
Península, os Templários, Hospitalários,
Calatrava, Montesa, Alcântara e Santiago. Em Portugal foram
importantes as Ordens de Avis, Santiago de Espada e, sobretudo, a
Ordem de Cristo, herdeira, a partir de 1319, da Ordem do Templo.
A
reconquista só terminou na Península Ibérica, em
1492, com a conquista total de Granada .
As
Cruzadas, de que se realizaram oito no total, acabaram por fracassar,
e os últimos cristãos – por sinal cavaleiros
templários – foram expulsos de S. João de Acre, em
1291.
No
Leste, a fronteira não era estável e fluía
constantemente no território que é hoje a Polónia.
A cristianização do ducado da Moscóvia deu-se
segundo o rito cristão ortodoxo, mas as ambições
territoriais falaram mais alto do que eventuais alianças de
fé.
A
hegemonia árabe, a sul, vai ser gradualmente substituída
e, ou absorvida pelo Império Otomano, em expansão. Em
1453, cai Constantinopla, e toda a zona dos Balcãs passa a
estar sob domínio turco.
Em
1415, os Portugueses passaram a Marrocos e iniciaram a descoberta
europeia da costa africana e a exploração do Atlântico
central. Pelo fim do século, a importância do Atlântico
aumentou substancialmente, retirando a primazia ao Mediterrâneo
onde, sobretudo na sua parte oriental, pontificavam os Turcos e as
Repúblicas Italianas.
O
Império Otomano foi-se expandindo para norte e nordeste,
entrando em confronto com o Império Austro-Húngaro,
entretanto formado. Na sua máxima expansão, os Turcos
chegaram às portas de Viena, no fim do século XVII .
A Europa tremeu. Aliás a Europa sempre se fragilizou por causa
das suas cisões políticas, sociais e religiosas das
quais, para a altura, se deve salientar a Reforma e a tentativa de
hegemonia dos Habsburgos e as reacções que despertou .
Portugal
tinha, entretanto, atingido a Índia, o Brasil e posto em
contacto todas as partes da Terra. Pela primeira vez na sua
existência, os habitantes do Globo tinham uma visão
planetária.
A
implantação do império português no
Índico, firmado pelo grande Albuquerque, arruinou o comércio
tradicional dos Turcos e das repúblicas italianas e permitiu
uma manobra de estratégia indirecta ao atacar o Império
Otomano pelas costas e em vários locais.
A
ameaça turca foi, aliás, um dos motivos pelo qual D.
Sebastião decidiu reactivar o teatro de operações
norte-africano. Pela mesma razão, o nosso rei D. João V
enviou a armada portuguesa para o Mediterrâneo, o que terminou
no sucesso de Matapão.
Os
Turcos foram derrotados às portas de Viena e no Mediterrâneo,
e as suas dissensões internas fizeram recuar o seu império,
cujas fronteiras ficaram praticamente reduzidas ao que são
hoje, após a sua derrota como aliados dos impérios
centrais, no fim da Primeira Grande Guerra. Os árabes nunca se
recompuseram do domínio turco e das divisões entre
facções.
Esta
fraqueza aproveitou às principais potências coloniais
europeias que, pouco a pouco, e durante todo o século XIX, os
foram colonizando, sucessivamente.
A
leste, as coisas foram de igual modo complicadas. A Suécia
constitui-se em potência regional nos séculos XVII e
XVIII, rivalizando com a Rússia, a Prússia e alguns
estados alemães, no domínio do Báltico. Os
polacos sofreram as inclemências de serem um elo fraco no meio
de vizinhos fortes e do seu território constituir uma espécie
de corredor por onde convergiam as invasões. Pedro, o Grande,
czar da Rússia, fez entrar este país na idade moderna e
traçou as grandes linhas de acção política
e estratégica, que não mais deixaram de ser seguidas.
Na sua tentativa de atingir os mares quentes a sul, entraram em
conflito com os turcos, persas e outros povos da região, e
ainda com ingleses e franceses quando os interesses geoestratégicos
destes países atingiram aquelas bandas.
A
expansão dos impérios coloniais europeus espalhou a
Europa um pouco por todo o mundo. O desenvolvimento provocado pela
Revolução Industrial e pelo aumento do comércio
internacional, ao mesmo tempo que ampliava os proventos e o poder
europeu, aumentou a necessidade de garantir mercados e
matérias-primas. Isto é, colocou as fronteiras dos
interesses mais longe, multiplicou a necessidade de meios e criou
vulnerabilidades.
A
Primeira Guerra Mundial, iniciada numa zona de fractura política
que ainda se mantém, de tão mal conduzida que foi,
acabou num armistício que provou ser apenas um interregno até
à confrontação mundial seguinte. Contribuiu,
ainda para a vitória dos bolcheviques na Rússia, o que
viria a ter um impacto a nível mundial.
É
curioso que tendo a Primeira Guerra ajudado a implantar o comunismo,
foi a Segunda Guerra que o ajudou a salvar-se e a guindá-lo a
doutrina, que foi suporte de uma superpotência, e o
«perturbador» mundial durante cinco décadas.
Seguiram-se
50 anos de «guerra-fria». O Ocidente uniu-se,
militarmente, juntando as duas margens do Atlântico numa
aliança de sucesso.
A
descolonização, uma das consequências de Yalta,
da exportação do comunismo, da avidez capitalista por
mercados, da ingenuidade e preconceitos americanos e da confrontação
leste-oeste, em cenários de estratégia indirecta,
levaram ao abandono de quase todos os territórios ultramarinos
dominados pelos europeus. Deste modo, os países da orla
sul-mediterrânica e do Médio-Oriente foram obtendo a sua independência.
Veio
a ano de 1989 e, na sequência da Perestroika e das forças
que libertou, caiu o muro de Berlim, pôs-se uma pedra na
guerra-fria e viveram-se momentos de euforia. Fugazes, porém…
Mesmo
assim, o Ocidente, de um modo geral, achou que deixou de ter inimigo,
reduziu os orçamentos de defesa, encerrou instalações
militares e começou a mandar os soldados para casa…
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“Eis
aqui, quase cume da cabeça de Europa toda, o Reino Lusitano,
onde a terra se acaba e o mar começa.
E
onde Febo repousa no Oceano.
Este
quis o Céu Justo que floreça
Nas
armas contra o torpe Mauritano,
Deitando-se
de si fora; e lá na ardente
África
estar quieto o não consente,”
«Os
Lusíadas»
Canto III, 20 |
Caído
o mundo bipolar, caracterizado pelo confronto dos dois pólos
mais fortes do Poder os EUA e a URSS, por via do desmembramento deste
último (através da história ainda mal contada da
“Perestroika” e da “Glasnost”), ficaram os EUA como única
potência capaz de uma intervenção a nível
mundial.
Aproveitando,
ainda, as preocupações da China com o seu
desenvolvimento económico e com a solução do
imbróglio político interno e o seu menor interesse na
região, os EUA conduziram à guerra do Golfo sob os
auspícios da ONU, na única altura em que os seus
interesses vitais foram postos em xeque.
Aliás,
o aproveitamento da ONU por parte dos americanos que, recorde-se,
nunca põem tropas suas debaixo do comando daquela organização,
passou a ser uma constante. Aparentemente a ONU transformou-se de
fórum privilegiado de propaganda comunista e terceiro mundista
em instrumento dócil da política externa americana.
Aquela organização autorizou mais operações
em meia dúzia de anos do que em todos os restantes que leva de
existência!
Após
a guerra do Golfo e do fim da administração Bush, os
EUA entraram novamente em conflito consigo próprios: entre o
intervencionismo e o isolacionismo. O que é cíclico.
Sobrevieram, entretanto, duas grandes preocupações a
nível mundial: a economia e as operações, ditas
de paz.
A
preocupação com a economia tem levado à
tentativa de criação de três grandes áreas
em que se tenta uma convergência das políticas
económicas e de mercado: a associação dos EUA,
Canadá e México; a Europa Ocidental e o Extremo
Oriente, onde pontifica o Japão. Seguiu-se o Mercosul, que
tenta agrupar os países latino americanos. A regulação
do comércio a nível mundial tem sido tentada a nível
do GATT . Finalmente os EUA, apoiados no G – 8 tentam a
globalização da economia.
Os
EUA/Canadá são, como provado pelas principais teses
geopolíticas, aliados da Europa em termos de segurança
e defesa, mas são concorrentes e, quiçá,
adversários em tudo o mais.
Por
seu lado, o Japão e alguns países do Oriente em grande
desenvolvimento, (Coreia, Singapura, Indonésia, Taiwain, etc.)
põem em causa o domínio económico americano e,
de alguns anos a esta parte, a própria permanência de
base dos EUA nos seus territórios.
A
força económica do Japão faz-se sentir na
Europa.
Pelo
meio, ficam grandes manchas de pobreza e subdesenvolvimento: o
Continente Africano, parte da América Central e do Sul e
grandes áreas do Continente Asiático.
A
questão das operações de Paz tem a ver com a
tentativa de controlo dos imensos conflitos regionais, causados pelos
excessos de nacionalismo, intolerância religiosa, tribalismo,
racismo e outros “ismos”, que povoam o mundo. Não se deve
subestimar, ainda, o impacto que o fim da Guerra-Fria teve no chamado
complexo militar-industrial e na sua difícil reconversão.
Para
que estas operações fossem possíveis, mais uma
vez se foram buscar os militares, que alguém importante já
disse “não estarem preparados para as executarem (as missões
de paz), mas estas não se poderem realizar sem eles”.
Como
convém dar um ar respeitável a estas operações,
procura-se sempre o acordo do Conselho de
Segurança da ONU – a fonte de Direito Internacional! Quando
a operação é mais complicada e a ONU não
tem meios para a controlar – como é o caso do conflito na
ex-Jugoslávia, arranja-se um intermediário, neste caso
a OTAN. E nem sequer foi preciso rever a questão do artº
V, da carta daquela organização .
Em
termos políticos globais passaram-se coisas curiosas. A saber:
enquanto que nos países mais evoluídos há uma
tendência para a associação e eventuais esquemas
federalistas, em países mais pobres há um
recrudescimento de nacionalismos e de afirmação de
soberania; enquanto que nos países mais desenvolvidos se
ensaiaram opções autonomistas e regionalistas,
persistem nesses mesmos países, pressões secessionistas
(Irlanda do Norte, País Basco, Córsega, etc.);enquanto
que, no chamado mundo ocidental, o regime político de
democracia parlamentar, herdeiro da Revolução Francesa,
começa a dar sinais de cansaço, esse mesmo sistema é
exportado e tenta-se que seja imposto a povos e a estados cujas
sociedades estão longe de estar maduras para o aplicar.
A
Comunidade Económica Europeia deixou apenas de reflectir uma
realidade económico-financeira e de mercado, para tentar voos
mais altos. Evoluiu para Comunidade Europeia e tenta dar os primeiros
passos na política de segurança e defesa comum. E está
a tentar caminhar para a União Política.
O
futuro não é certo e sabe-se que há parceiros
que terão mais a dizer que outros; a última cimeira de
Nice não deixou dúvidas a ninguém.
Em
termos de sociedade, também houve mudanças, (e
referimo-nos apenas ao Ocidente): observa-se uma massificação
da educação, mas cada vez há menos gente culta,
enquanto que se multiplicam os semianalfabetos; o indivíduo
têm-se sobreposto a tudo o resto: à família, à
corporação, à instituição, à
Nação, ao Estado; as religiões “oficiais”
são postas em causa, mas proliferam cada vez mais as seitas
religiosas; a criminalidade tende a aumentar e as máfias e
redes internacionais do crime multiplicam-se; a informação
bombardeia tudo e todos, mas cada vez há mais dificuldade em
estar informado. A liberdade de informação mistura-se
com a liberdade de manipulação…
É
certo que os processos da ciência e da técnica foram
exponenciais; que existe maior consciência dos direitos
humanos; que os recursos naturais do planeta são finitos; que
é preciso salvaguardar a existência das espécies
vivas e proteger o ambiente e há uma maior capacidade para
viajar, para disseminar a cultura, etc.
Por
outro lado, o consumismo dita as suas leis e cada vez há menos
tempo para o espiritual e para o profundo.
A
vida passa a correr e tudo é efémero, superficial e
imediatista.
A
informática tende a dominar a vida de todos nós, e os
hábitos vivenciais cada vez se afastam mais dos ciclos da
própria natureza.
É
como se uma espécie de “Big Brother”, agora de cariz
ocidental, tomasse conta de tudo…
Enfim,
a Razão Grega, o Direito Romano e o Cristianismo, bases da
civilização ocidental, foram postos em causa, de cima a
baixo e nada de verdadeiramente sólido os substituiu.
E
Portugal como se posiciona neste final de século e inicio de
milénio?
Tendo
feito um corte quase radical com um passado de mais de cinco séculos,
embrenhou-se numa espécie de caos político e social de
cerca de ano e meio.
Dez
anos foi o tempo que levou a estabilizar. Este compasso de espera que
se segue normalmente a uma grave crise nacional, como já
aconteceu noutras épocas, serve, sobretudo, para se gerar um
tempo de reflexão sobre quais as opções de fundo
a fazer a seguir. Desta feita, a reflexão ficou restrita a uns
poucos, mas a decisão de fundo foi tomada e lançámo-nos
nos braços da Europa, como se nunca lá tivéssemos
estado. Uma via de aproximação aos países de
língua portuguesa veio a ser seguida mais tarde. Passou a
existir um balançar entre uma opção e outra, com
ganho evidente da primeira, mas a falta de poder efectivo não
nos dá margem de manobra na Europa, enquanto que a escassez de
meios e as indecisões fazem-nos perder sistematicamente as
oportunidades africanas.
Nenhuma
outra alternativa foi assumida como hipótese.
Em
termos de defesa nacional, aposta-se fortemente nas organizações
internacionais de segurança, nomeadamente a OTAN e até
há pouco tempo na UEO. Mas, sobretudo, em termos de dialéctica
e menos em substância. A sociedade portuguesa aparece imbuída
de direitos e menos em deveres, aspira ao bem-estar que todos
prometem! Está ávida de poder gastar, mas pouco
motivada para trabalhar e, sobretudo, para consumir apenas o
equivalente ao que produz.
Como
estado-nação está confusa e sofre de alguma má
consciência, por ainda não ter feito um exame de
consciência para interiorizar tudo o que se passou num passado
recente. Timor é a ferida mais dolorosa que não
consegue sarar, e que um vídeo furtivo veio acirrar com quinze
anos de atraso.
Nas
grandes curvas da História, Portugal sempre teve que pagar um
preço: por exemplo, quando
se deu a Restauração, tal facto pagou-se com a perda do
que restava do Império do Oriente; para nos livrarmos das
invasões francesas e suas sequelas, perdemos o Brasil; com o
25 de
Abril, foi-se a África e, para estarmos na Comunidade
Europeia, vamos, aparentemente, ter que destruir o nosso aparelho
produtivo.
A
questão que se pode colocar é a de saber se ainda
estamos em condições de fazer mais algum pagamento…
É
fundamental que os portugueses voltem a acertar o passo, pela sua
maneira de ser e estar, pela sua Missão, e deixem de o tentar
acertar pelos interesses alheios ou de ir na onda dos pregoeiros dos
ventos da História…
Agora
o cerco.
Em
primeiro lugar há o perigo de uma desacoplagem estratégica
entre as margens do Atlântico Norte. Tal pode acontecer se
ganhar o primado da economia em relação à
estratégia, se houver um surto de isolacionismo nos EUA em
relação ao velho continente, baseado na teoria de que
se os europeus querem segurança, que a paguem.
Ou
se houver problemas internos graves nos EUA, como sejam um surto de
racismo incontrolável; dificuldades económicas em
resultado da concorrência do Extremo Oriente, por exemplo: Se
houver uma convulsão social no México ou a
independência do Quebeque e a imprevisibilidade das
consequências que tal acto acarretaria. Por enquanto os EUA
pretendem manter na Europa um contingente de cerca de cem mil homens,
tendo reorganizado toda a sua estrutura. Tudo aponta, porém,
para que estes homens e estruturas estejam agora preparados não
para actuar na Europa, mas para servir-se da sua posição
no continente como trampolim para actuação em zonas
adjacentes.
A
Norte está a zona mais estável da Europa. As únicas
ameaças possíveis são nucleares e de submarinos.
A
península de Kola continua a ter uma elevada concentração
de meios militares. A ameaça está dormente, mas o risco
não desapareceu.
A
exploração de oportunidades ou virtualidades é
quase inexistente, dados os recursos e clima existentes nessa área
não permitirem muitas alternativas.
A
Leste e a Sul a situação é mais complexa. Ambas
as zonas são de grande risco e altamente instáveis.
Porém, de características diferentes.
No
Leste temos que considerar duas áreas. Uma, tem a ver com a
situação da Rússia que continua a aspirar ao
estatuto de grande potência e tem capacidade para o ser…, e
nas repúblicas, que faziam parte da então URSS; e
outra, nos países do Leste europeu que fizeram parte do Pacto
de Varsóvia.
A
Rússia mantém as suas ex-repúblicas debaixo de
controlo económico/financeiro e tentará, sempre que
possa, o controlo político. Os conflitos na Chechénia e
na Geórgia são bons exemplos disso mesmo.
Parece
existir um acordo do Ocidente e sobretudo dos EUA, para aceitarem
este tipo de influência.
As
preocupações russas com a sua segurança e as
indicações contidas no testamento político do
Czar Pedro I, o Grande, continuam a sobrepor-se a tudo o resto…
As
preocupações com a Europa de Leste vêm a seguir.
E aí chocam-se o medo russo de terem inimigos às suas
portas, com o desejo existente nestes países de se juntarem à
OTAN e à CE entretanto rebaptizada de União Europeia
(UE).
Pelo
meio fica a luta pelo controlo político desses países e
as recentes vitórias eleitorais de partidos próximos ou
sucessores dos antigos partidos comunistas, são dados
significativos; e o comportamento ocidental que balanceia entre o não
assustar os inquilinos do Kremlin e não frustar as aspirações
e promessas feitas aos europeus do leste.
Arranjar
mecanismos que permitam o alargamento das organizações
já existentes, é outra dor de cabeça.
A
zona mais complicada a Leste é, sem dúvida, os Balcãs,
onde se chocam desde há séculos os interesses de
eslavos ortodoxos, católicos e muçulmanos com turcos,
gregos, albaneses e mais uma boa meia dúzia de povos, credos e
aspirações, para já não falar nos que,
movidos pelos seus interesses, sempre se aliaram a uns contra outros.
São exemplo disso, o Império Austro-Húngaro, o
Império Otomano, os russos, os ingleses, os franceses, os
italianos, os alemães etc. Por isso qualquer conflito naquela
região nunca se sabe onde pode desembocar!
Mais
a sul vamos encontrar a zona de conflito quase permanente do Médio
Oriente que, por se tratar de uma área de interesse
estratégico principal para os EUA, torna muito difícil
aos países europeus terem nela alguma intervenção
efectiva.
Encontramos
aqui um equilíbrio ténue que alterna com crises e
guerras mais ou menos alargadas e um terrorismo latente ou activo.
São ódios velhos e inúmeras animosidades entre
muitos fundamentalismos e, ainda, a difícil repartição
da água, recurso que pode tornar-se, no futuro, mais
incendiário que o petróleo.
Convém,
ainda, não esquecer que o antagonismo entre gregos e turcos se
mantém e que o problema do Chipre não está
resolvido.
Na
outra margem do Mediterrâneo, extensa área que podemos
considerar a verdadeira fronteira sul da Europa, encontramos os cinco
países do Magrebe (Marrocos, Mauritânia, Argélia,
Líbia e Tunísia) e ainda o Egipto.
Todavia,
esta zona é caracterizada por grande conflitualidade,
subdesenvolvimento e instabilidade política e social. Existe
grande disparidade cultural e de nível de vida em relação
aos europeus e grande desconfiança em relação a
estes. O único traço de união que existe entre
estes países é a religião, mas tal tem estado
longe de ser suficiente para qualquer base de acção
comum.
Algumas
ameaças e, sobretudo, riscos existem para a Europa,
nomeadamente para os países do sul do continente, sendo os
principais a eventual proliferação de armas de
destruição maciça, o terrorismo, o
fundamentalismo religioso, o caos social e político que
anarquize os mercados e obrigue a operações de
evacuação de nacionais; as reivindicações
territoriais, a emigração descontrolada, o
narcotráfico, etc.
Deve
acrescentar-se ainda, que toda esta faixa de povos e países
muçulmanos se estende num extenso arco, que chega até
às Filipinas, gerando diversas situações de
causa/efeito por esse mundo fora, que não deixam de se
reflectir nos interesses dos países europeus.
Uma
palavra para África. Verdadeiramente o cerco da Europa passa
por África. Assim o afirmou explicitamente Lenine, e durante
muitos anos uma estratégia directa, e sobretudo indirecta, foi
desenvolvida pela URSS neste sentido.
O
resultado foi a onda de descolonizações e
independências que teve na Conferência de Bandung, em
1955, um forte impulso.
Portugal
aguentou estóica e vitoriosamente, durante 13 anos, uma guerra
à escala mundial, contra si e a sua presença fora da
Europa.
Temos
disto o melhor dos conhecimentos, mas, infelizmente, nem sequer
tiramos as melhores ilações.
A
África é, por assim dizer, um continente,
geopoliticamente, complementar da Europa. Não existe, hoje em
dia, nenhuma doutrina vigente que se possa dizer que seja política
ou militarmente agressiva em relação à Europa,
mas de que servirá a esta ter às suas portas uma mancha
de desolação e miséria?
Finalmente,
a Europa está cercada “por dentro” e esse é,
talvez, o seu maior calcanhar de Aquiles.
A
matriz cultural dos europeus está ameaçada, enquanto se
tenta “nivelar” certas diferenças que sempre constituíram
a sua riqueza .
A
organização cada vez mais elaborada de comunidades de
emigrantes não integráveis na sociedade dos países
que os acolhem e que estão, por vezes, a revelar-se hostis a
esta, vai determinar
questões sociais e xenófobas graves.
A
criação de regiões, de que tanto se fala
levianamente, vai entrar em certa “concorrência” com o
estado-nação, o que terá consequências
imprevisíveis; o aumento do crime organizado, o terrorismo e a
vulgarização da corrupção e da violência
podem debilitar o Estado a ponto das pessoas deixarem de acreditar
nele e o acharem supérfluo e substituível. Por fim a
divisão e a desmoralização.
A
sociedade está atomizada e o ser individual aspira e sente
direito a não ter barreiras nem entraves - ensinou-se e
estimulou-se isso, mas esqueceu-se a necessidade de entrosar tais
desideratos com as obrigações gregárias, a que
não se pode fugir.
Como
é que a Europa pode acreditar nela se os europeus o não
reivindicam como tal?
É
esse talvez o maior desafio do futuro.
_____________________________
(1) S. Bernardo
(1091-1153): De Cister, na Borgonha, onde se recolhera, saíu
para fundar a abadia de Claraval, impondo a regra de S. Bento, em
todo o seu rigor. Seguem estes ditames o mosteiro de Alcobaça
(em terra doada por D. Afonso Henriques) e a Ordem do Templo.
(2) Bouillon.
(3) Que ainda hoje é
zona de fractura em territórios da ex-Jugoslávia.
Curiosamente a rota traçada por Carlos Magno.
(4) Em
Portugal, os últimos bastiões mouros foram
conquistados no reinado de D. Afonso III – 200 anos antes.
(5) Ou
seja, há escassos 300 anos…
(6) A
França, tal como Veneza, chegou até a fazer aliança
com os Turcos contra reinos cristãos.
(7) Resta saber até
quando aquela “babel”, refém dos países do Conselho
de Segurança com direito a veto, vai sobreviver à
situação de pré-falência financeira em que
está metida.
(8) Tendo por detrás
o FMI, O Banco Mundial e outras organizações afins,
órgãos poderosos de quem detém o Poder Real.
(9) Grupo
dos sete países mais indrustrializados do mundo (EUA, Canadá,
Grã-Bretanha, Alemanha, Japão e Itália), a que
se veio a juntar a Rússia.
(10) A
“guerra da palmeta” foi um bom exemplo disso mesmo.
(11) Define
os limites geográficos de actuação. A
ex-Jugoslávia está fora desses limites, já que
não houve nenhum ataque vindo daquela região. Só
depois da reunião da Nato, em Aliança, este artigo foi
adaptado, ás novas realidades.
(12) Muito
mais haveria a dizer, mas fiquemo-nos por aqui.
(13) Como
é o caso de Ceuta e Mellila, por exemplo.
(14) Só
aparentemente é que a frase pode parecer contraditória.
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