Clínica das Letras
por Bruno
Oliveira Santos
Poemas
como palavras Editada em Dezembro pela Imprensa Nacional-Casa da
Moeda, a antologia «O Seu a Seu Poema (1959-2002)», de
José Valle de Figueiredo, foi apresentada a 24 de Fevereiro na
Sociedade Histórica da Independência de Portugal, em
Lisboa. O autor merece o estudo atento dos críticos e a
atenção dos leitores. Poeta precoce e pouco frequentado
por motivos pouco poéticos, antecipou tendências que
fariam escola na poesia portuguesa dos anos 60 e 70. Militante
nacionalista de “Combate” e “Cidadela”, escreveu uma obra em
que não raro o tema central do poema é o próprio
poema, isto é, as palavras.
É
de 1969 o seu “Requiem por Jan Palach”, inserido neste
volume, e que homenageia o jovem checo que se imolou pelo fogo na
Praça Venceslau, em protesto contra a invasão soviética («Arde o coração de
Praga, / Arde o corpo de Jan Palach»).
Sob a égide
de Camões, e a modos de glosa, o poeta afixa na “Inscrição”
preambular do seu livro «Portuguesimentos», de 1977: «Entre poemas sem mote / edificara casas e reinos / que
oceanos e mares avisara / de longas navegações, / e
entre essa gente outros versos armara / de remoto fogo santo /
ardendo mais além de outra cabana; / entre perigos e terras /
de esforçadas acções alguns poemas juntara, / e
de tão secreta trama / armara de poesia o seu programa».
No
mesmo registo, o seguinte poema extraído do livro «Lusitania»,
publicado em 2002, e que também consta da selecta: «Exilava-se
a Palavra / no tempo que se acrescentava / ao curso longo da
Esperança. / Abria-se às vozes, / que vinham do
deserto, / onde se sabia que não jazia o Encoberto. / Tudo se
movia / num rio claro e transparente, / o futuro fazia-se presente, /
e o que tanto se encobrira / por variadas terras tão andadas,
/ entre gentes remotas, agora iluminadas, / tornava-se, enfim, o
Descoberto».
[José
Valle de Figueiredo, O Seu a Seu Poema (1959-2002), Imprensa
Nacional-Casa da Moeda, 2006, 344 págs., €22]
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Bons
livros que vieram das estepes A grande literatura russa vicia.
Põe-se o incauto a ler os seus autores e, às tantas, já
completamente agarrado, não quer outra coisa. É de
consumir pois com moderação este livro de Gógol,
que leva por título a terra natal do escritor: Mírgorod,
na Ucrânia. As histórias aqui reunidas são a
continuação de «Serões numa herdade perto
de Dikanka», livro publicado em 1976 pela extinta Diabril.
[Nikolai
Gógol, Mírgorod, Assírio e Alvim, 2007,
tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra, 320 págs.,
€20]
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Poe,
Poe, Poe Precursor do simbolismo, Edgar Allan Poe foi vertido
para a língua portuguesa por Fernando Pessoa. O seu gosto do
macabro e do grotesco permitiram-lhe escrever uma obra única.
Estes «Contos de Terror» são de leitura
obrigatória para os apreciadores do género
Aventureiro
e boémio, estudou em Inglaterra e depois viajou para a Grécia,
tendo ingressado no exército com vista a lutar contra os
turcos. Foi encontrado morto à porta duma taberna, local de
expiação dos boémios incompreendidos. Criador da
novela policial, inspirou felizmente a obra de Ambrose Bierce, Conan
Doyle, Agatha Christie e Georges Simenon. Não tem culpa alguma
de também haver influenciado Patricia Cornwell, Matthew Pearl
e o nosso Moita Flores.
[Edgar
Allan Poe, Contos de Terror, Ela por Ela, 2007, trad. de Ana
Barradas, €14,90]
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As
bruxas de Riade Josep Pla, o grandíssimo Pla de «El
cuaderno gris» e «La vida amarga», porventura o
literato que mais bem cultivou a língua catalã,
escreveu que a única literatura que perdura é a
pessimista. Ora a corrente dominante da literatura americana, pelo
menos até à II Guerra Mundial, é marcada pelo
optimismo antropológico e a crença no Homem. Mas há
também uma corrente pessimista, que percorre a obra de
Nathaniel Hawthorne, Herman Melville e Edgar Allan Poe; e a quem
podemos juntar o Mark Twain de «O homem
que corrompeu Hadleyburg», Ambrose Bierce, Henry James,
H.L. Mencken, o Ring Lardner de «You Know me Al», Ernest
Hemingway, Erskine Caldwell e Paul Bowles. À lista acresce
agora o nome de John Updike, autor profícuo e celebrado. O seu
último livro assegura-lhe um lugar à mesa despojada dos
grandes pessimistas.
«O
Terrorista» conta a história dum “jovem” ocidentalizado, bem integrado na comunidade, e o rápido
caminho que ele percorre até ao fundamentalismo e ao
terrorismo. Tudo grafado num registo de descrença e em
ambiente de decadência generalizada — crítica
impiedosa à suposta benfazeja sociedade multicultural,
prontinha a ser invadida pelo inimigo. Uma espécie de terror que nem Edgar Allan Poe chegou a prever.
[John
Updike, O Terrorista, Civilização, 2006, €16]
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Romance
à prova do tempo Pela primeira vez em Portugal, a edição
revista e aumentada de «O Leopardo», um dos grandes
romances do século XX, imortalizado no cinema pelo génio
de Visconti.
Em
pleno processo da reunificação italiana, na segunda
metade do século XIX, quando sopravam os ventos duma nova
ordem e as tropas de Garibaldi assaltavam a Sicília, o
príncipe Fabrizio conduz a família que habita a mansão
ducal dos Salina com a força de um leopardo. Personagem duma
extraordinária dimensão, a todo o tempo nos evoca o
espírito guerreiro e aristocrático. “É
preciso que alguma coisa mude para que tudo fique na mesma”,
diz ele a certo passo. De grande senhor a perseguido, há-de
rematar com sabedoria e desencanto: “Nós fomos os
leopardos, os leões; hão-de suceder-nos os chacais, as
hienas; e todos nós, leopardos, chacais e ovelhas,
continuaremos a considerar-nos o sal da terra”. Lá está.
A literatura pessimista é a que mais perdura.
[Giuseppe
Tomasi di Lampedusa, O Leopardo, Teorema, 2007, trad. de José
Colaço Barreiros, €18,90]
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Castigat
ridendo moris Molière é talvez o autor francês
mais divulgado no mundo. Com a chancela da Bertrand, vem agora a lume Le
Misanthrope, que o talento de Vasco
Graça Moura desenjaulou do Francês.
Peça
de estrutura clássica, em que tudo se passa no mesmo espaço
— o salão de Celimena — e ao longo do mesmo dia, o texto é
uma comédia sem happy end. Pelo punho dum autor que a
rir criticou os costumes da época.
[Molière, O Misantropo, Bertrand, 2007, trad. de Vasco Graça
Moura, €17,96]
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Night
and Day Mestre incontestado do conto, Maupassant escreveu
cerca de três centenas de textos do género. Os que a
Guimarães agora publica, reuniu-os o autor no volume «Contes
du jour et de la nuit», em 1885, já atormentado pela
sífilis.
Pesporrente,
chamou “comerciante de ferro” e “medíocre burguês
rico” a Gustave Eiffel, acusando-o de querer construir em Paris um
“corno horrendo”. De vida desregrada e perfil devasso, tentado
amiúde para actos obscenos au clair de lune,
frequentou casas de má fama e bom proveito. Protegido de
Flaubert, seu mentor literário, aplicou o naturalismo ao corpo
vivo das prostitutas de Montmartre. Levou algumas para os seus
livros, como a protagonista de «Boule de suif», a Raquel
de «Mademoiselle Fifí» e a Irma de «Le lit
29». Num registo muito próprio, Maupassant dota estes
seres marginais de autenticidade, coragem, abnegação —
e patriotismo. Verdadeiras mademoiselles de la patrie. Deve de
ser único na história da literatura o diálogo
entre Irma e o capitão Epivent, em que a rapariga — na cama
29 do hospital, padecente de sífilis, à espera de
morrer — reclama ao namorado o direito a condecoração
militar. Aqui vai o resumo: — o capitão regressa da guerra
como herói, de cruz ao peito. Dizem-lhe que, na sua ausência,
Irma se divertiu com todo o estado-maior prussiano. A defesa da
rapariga é eloquente e patriótica. Como tivesse sido
violada, recusou o tratamento para que vários inimigos
contraíssem com ela a doença medonha. Estava agora a
morrer pela Pátria. E exigia assim uma condecoração
pelo sacrifício corporal à causa comum. A meio da
discussão, atira à cara do capitão atónito:
«Matei mais prussianos que o teu regimento inteiro!»
Infelizmente o conto não faz parte do volume ora publicado.
Nos
derradeiros anos de vida, a dor e a angústia, cada uma do seu
lado a espancarem-lhe o sono, davam a Maupassant vigílias
acerbas. E inspiraram-lhe um registo mais tenso e patético,
próximo do terror e do fantástico, como é
patente em «O Medo». Poucos o dizem, mas foi talvez o
maior cultor do género, depois do próprio Edgar Allan
Poe.
[Guy
de Maupassant, Contos do Dia e da Noite, Guimarães
Editores, 2007, trad. de Eugénio Vieira, Henrique de Barros
Lobo e Baldemónio, 240 págs., €14,95]
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