Duas
eleições
por Manuel Azinhal
Alberto
João e Carmona Rodrigues têm alguns pontos em comum.
Desde
logo, os dois estão à frente de centros de poder
importantes e cobiçados. Depois, ambos estão em
oposição à força política que
neste momento hegemonizou o poder central, e ameaça seriamente
submergir toda a sociedade portuguesa.
Até
agora Sócrates e o socratismo têm conseguido sair
vitoriosamente de todas as batalhas eleitorais.
Não
foi só a estrondosa vitória nas legislativas.
Nas
autárquicas Carrilho perdeu, e ele saiu reforçado com
esse naufrágio. Nas presidenciais Soares perdeu, e ele
esfregou as mãos de contente. No referendo ganhou o Sim, e ele
colheu os louros. Os guterristas juntaram-se aos carrilhistas e aos
soaristas, todos quietos, calados e virados prá frente.
Sócrates
pode usar com propriedade uma máxima antiga – uma Maioria,
um Governo, um Presidente – e até fazer-lhe uns acrescentos:
um Cardeal-Patriarca, um Procurador-Geral da República, um
Tribunal Constitucional, um Tribunal de Contas, uma imprensa às
ordens… uma oposição cinzenta, conformada e
acomodada.
Não
se vislumbram no horizonte “forças de bloqueio”
susceptíveis de lhe fazer frente.
Poderá
Sócrates somar ainda a Câmara Municipal de Lisboa –
maior que a maior parte dos Ministérios – e o Poder Regional
da Madeira, único reduto do poder político que lhe
escapa?
Não
se sabe, mas pelo que se está a ver entre Carmona e Jardim
existe ainda outro ponto em comum: ambos parecem decididos a lutar
pelo lugar.
No
resto, tudo os separa. Personalidades, estilos, estratégias –
tudo.
Carmona,
que entrou na política com a imagem de não ser um
político profissional, aprendeu rapidamente as regras de
sobrevivência da casta. Agarra-se ao lugar, tece a sua rede,
cria cumplicidades e traça alianças, e aguarda – sem
nunca dar combate frontal, mas nunca descurando as trincheiras.
Sabe
perfeitamente que se for aguentando pode chegar o momento crucial e
acontecer que o PSD tenha que o recandidatar a ele, porque todas as
outras soluções serão mais fracas e
politicamente inviáveis, e o PS tenha que limitar-se a um
carrilho qualquer, dilacerado que está internamente por
infindáveis lutas de galos.
E
em política a memória é muito curta: o resultado
que nesta hora parece inevitável pode dissipar-se pelo
desgaste que o tempo traga (também) ao PS, incapaz de dar
resposta a uma situação em que para toda a gente surgia
como evidente o imperativo das eleições intercalares.
Um
ano, um ano e meio, e tudo pode acontecer na política
portuguesa – eis o que sabe de cor qualquer aprendiz e não
escapou a um Carmona Rodrigues muito mais astuto e matreiro do que a
imagem que quiseram vender dele.
Jardim,
para o mal e para o bem, é diferente. Ele, que há mais
de três décadas é a encarnação do
político profissional, manteve o sentido do risco e do
desafio. Adora o confronto, e não foge a combates frontais.
Não
se pode crer que ele desconheça os hábitos do regime, e
não esteja portanto consciente que era possível
negociar e transigir – como é de regra. Ao contrário,
ele sabe que conserva poder negocial e que Sócrates
provavelmente preferiria um entendimento a um embate de resultados
imprevisíveis.
Mas
- e nisto deparamos com a especificidade que há que reconhecer
a Jardim – o homem é um jogador. Prefere arriscar, pôr
tudo em cima da mesa, e atirar-se ao combate.
Sabe
que tem 65 anos, que Sócrates fará o que puder para o
fazer perder (quase de certeza fingindo não se envolver
directamente) e que uma derrota será efectivamente o fim da
sua carreira política. Mas escolheu o confronto: está-lhe
no sangue.
Desta
opção pode sair a primeira verdadeira derrota de
Sócrates. Com efeito, neste contexto a vitória de
Jardim, e tanto mais quanto mais expressivos forem os números,
terá inevitavelmente consequências de âmbito
nacional, e não apenas regional.
Sócrates
e a sua gente sabem disso. Pode acontecer na Madeira o marco inicial
da sua trajectória descendente. Daí a amargura que se
lhes nota de quando em vez. Se assim acontecer, ficaremos a dever
essa a Jardim.
Em
Lisboa, com Carmona, e pelas razões expostas, não
acontecerá nada. Com significado que exceda a dança das
cadeiras, entenda-se. |