Ano I - Nº 6, Fevereiro de 2007
Alameda Digital
Política Cultural
Duas eleições

por Manuel Azinhal

Alberto João e Carmona Rodrigues têm alguns pontos em comum.

Desde logo, os dois estão à frente de centros de poder importantes e cobiçados. Depois, ambos estão em oposição à força política que neste momento hegemonizou o poder central, e ameaça seriamente submergir toda a sociedade portuguesa.

Até agora Sócrates e o socratismo têm conseguido sair vitoriosamente de todas as batalhas eleitorais.

Não foi só a estrondosa vitória nas legislativas.

Nas autárquicas Carrilho perdeu, e ele saiu reforçado com esse naufrágio. Nas presidenciais Soares perdeu, e ele esfregou as mãos de contente. No referendo ganhou o Sim, e ele colheu os louros. Os guterristas juntaram-se aos carrilhistas e aos soaristas, todos quietos, calados e virados prá frente.

Sócrates pode usar com propriedade uma máxima antiga – uma Maioria, um Governo, um Presidente – e até fazer-lhe uns acrescentos: um Cardeal-Patriarca, um Procurador-Geral da República, um Tribunal Constitucional, um Tribunal de Contas, uma imprensa às ordens… uma oposição cinzenta, conformada e acomodada.

Não se vislumbram no horizonte “forças de bloqueio” susceptíveis de lhe fazer frente.

Poderá Sócrates somar ainda a Câmara Municipal de Lisboa – maior que a maior parte dos Ministérios – e o Poder Regional da Madeira, único reduto do poder político que lhe escapa?

Não se sabe, mas pelo que se está a ver entre Carmona e Jardim existe ainda outro ponto em comum: ambos parecem decididos a lutar pelo lugar.

No resto, tudo os separa. Personalidades, estilos, estratégias – tudo.

Carmona, que entrou na política com a imagem de não ser um político profissional, aprendeu rapidamente as regras de sobrevivência da casta. Agarra-se ao lugar, tece a sua rede, cria cumplicidades e traça alianças, e aguarda – sem nunca dar combate frontal, mas nunca descurando as trincheiras.

Sabe perfeitamente que se for aguentando pode chegar o momento crucial e acontecer que o PSD tenha que o recandidatar a ele, porque todas as outras soluções serão mais fracas e politicamente inviáveis, e o PS tenha que limitar-se a um carrilho qualquer, dilacerado que está internamente por infindáveis lutas de galos.

E em política a memória é muito curta: o resultado que nesta hora parece inevitável pode dissipar-se pelo desgaste que o tempo traga (também) ao PS, incapaz de dar resposta a uma situação em que para toda a gente surgia como evidente o imperativo das eleições intercalares.

Um ano, um ano e meio, e tudo pode acontecer na política portuguesa – eis o que sabe de cor qualquer aprendiz e não escapou a um Carmona Rodrigues muito mais astuto e matreiro do que a imagem que quiseram vender dele.

Jardim, para o mal e para o bem, é diferente. Ele, que há mais de três décadas é a encarnação do político profissional, manteve o sentido do risco e do desafio. Adora o confronto, e não foge a combates frontais.

Não se pode crer que ele desconheça os hábitos do regime, e não esteja portanto consciente que era possível negociar e transigir – como é de regra. Ao contrário, ele sabe que conserva poder negocial e que Sócrates provavelmente preferiria um entendimento a um embate de resultados imprevisíveis.

Mas - e nisto deparamos com a especificidade que há que reconhecer a Jardim – o homem é um jogador. Prefere arriscar, pôr tudo em cima da mesa, e atirar-se ao combate.

Sabe que tem 65 anos, que Sócrates fará o que puder para o fazer perder (quase de certeza fingindo não se envolver directamente) e que uma derrota será efectivamente o fim da sua carreira política. Mas escolheu o confronto: está-lhe no sangue.

Desta opção pode sair a primeira verdadeira derrota de Sócrates. Com efeito, neste contexto a vitória de Jardim, e tanto mais quanto mais expressivos forem os números, terá inevitavelmente consequências de âmbito nacional, e não apenas regional.

Sócrates e a sua gente sabem disso. Pode acontecer na Madeira o marco inicial da sua trajectória descendente. Daí a amargura que se lhes nota de quando em vez. Se assim acontecer, ficaremos a dever essa a Jardim.

Em Lisboa, com Carmona, e pelas razões expostas, não acontecerá nada. Com significado que exceda a dança das cadeiras, entenda-se.

descarregar documento em PDF
   
O SPN e a Guerra de Espanha
Futuro do Cinema Português
Política cultural do Estado: patriotismo, exaltação e fixação
O Mito do Génio Incompreendido e a Sua Função Política
As Regras do jogos
Multiculturalismo
God save the culture … or the Queen!
Gramsci e as políticas kulturais

Organizar a resistência
Duas eleições
Transparências
Contadores de electricidade, gás e água
Reforma da Administração Pública | Reorganização dos Ministérioso

A Europa existirá ainda?
Franceses votam para escolher um presidente “vazio”
Em Cabinda, nada de novo
O Cerco da Europa e as Novas Realidades Geopolíticas

Navarra
O Equilíbrio do Ocidente

Mar Português
Clínica das Letras
Bruckner ou a singularidade de um génio
“O seu a seu poema” de José Valle de Figueiredo

Federico Garcia Lorca - Uma execução às avessas?
João de Deus e a Sua Época

Grã-Bretanha
Buenos Aires

Editorial
Ecos da blogosfera
Capa

 

Nacional Internacional Cultura História Política Cultural Sociedade Ficha Técnica Publicidade Contactos Apoie-nos