| Editorial
por Carlos Bobone
Antes de perguntarmos para que servem as
políticas culturais, poderemos observar que nenhum governo as
dispensa. A política cultural tornou-se uma peça
indispensável da governação moderna, tão
universalmente reconhecida que os políticos nem se julgam
obrigados a justificá-la. A submissão a esta
necessidade não diferencia quadrantes ideológicos, é
matéria que paira acima das disputas de partido. Por muito
belos que sejam os discursos pelos quais os delegados da nação
professam o seu respeito e a sua admiração pela
espontânea criatividade, sabedoria e inspiração
do povo que os elegeu, todos acabam reconhecendo a necessidade de o
estado tutelar, incentivar, premiar, honrar, proteger, acolher,
sustentar, assegurar e conservar um grande número de
actividades e bens culturais que, deixados a si mesmos, não
teriam forças para subsistir.
E assim como não se gasta muita
tinta a produzir razões para que os governos tenham políticas
culturais, também pouco esforço se investe no
planeamento das mesmas, na sua submissão a um plano de longo
alcance. As políticas culturais reduzem-se, as mais das vezes,
a um hábil jogo de distribuição dos recursos do
estado pelos vários grupos que disputam o reconhecimento do
seu contributo para a prosperidade cultural da nação. É
a estes que compete a tarefa de produzir a justificação
teórica para a intervenção do estado na sua
esfera de actividade, explicando, em termos claros ou obscuros, mas
sempre com o recurso a exemplos estrangeiros, os méritos que
os tornam credores do reconhecimento público. Aqui já
encontramos diversidade de critérios e a intromissão
das influências ideológicas. A vulnerabilidade de cada
governo às exigências destes ou daqueles “produtores
de cultura” dependerá, em parte, da sua posição
no espectro político. Mas em geral existem algumas esferas de
intervenção a que todos se sujeitam, de boa ou de má
vontade. Podem considerar-se garantidos os apoios aos elitismos,
vanguardismos, ecologismos e patriotismos culturais. Os elitismos
alegam a seu favor que algumas formas de cultura elegantes e
refinadas, como a ópera, o bailado e o cinema português,
nunca poderão ser rentáveis num país de
população escassa e pouco alfabetizada. Isso não
impede que haja a obrigação moral de termos entre nós
esses requintes, para não darmos parte de bárbaros. Os
vanguardismos, trabalhando para o futuro, sentem-se naturalmente
merecedores do reconhecimento do cidadão comum e não
duvidam da obrigação que tem o erário público
de os sustentar. Estes dois grupos misturam a conceito aristocrático
que têm de si mesmos com ideais democráticos para a
sociedade em geral, recorrendo ao princípio de que estão
à frente do seu tempo, contribuindo para um futuro em que
todos apreciarão a cultura como eles a apreciam já. Os
ecologistas vêm as formas de expressão cultural mais
genuínas, mais características de cada povo, ameaçadas
pelo padrão de vida uniformizado. Defensores da variedade no
falar, no pensar, no trabalhar, no vestir ou no comer, pretendem que
o estado promova reservas naturais para as formas de vida
tradicionais, não dando-lhes uma vida genuína, mas
acolhendo-as num vasto conceito de museologia. Os patriotismos
culturais tocam no orgulho geral, comum a governados e governantes,
incitando estes últimos a darem vasta publicidade às
glórias nacionais, mesmo àquelas que o poder actual
renega. Assim conseguem pôr governos anti-colonialistas a
celebrar colonizações, altos magistrados de repúblicas
a homenagear figuras régias, e façanhudos anticlericais
a defender os subidos méritos de padres e cardeais.
No centro de todas estas forças
de pressão, que reclamam uma grossa fatia dos patrocínios,
das facilidades e das honrarias concedidas pelos poderes públicos,
aqueles a quem competiria a definição e condução
da política cultural, os ministros dessa pasta, dão-se
por muito felizes quando conseguem atravessar os seus mandatos com
tranquilidade, sem concitar o ressentimento, a revolta ou o desprezo
dos bandos de predadores.
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