O Equilíbrio do
Ocidente
por Jorge Azevedo Correia
Ao contrário do
que é palavra comum o Ocidente não repousa sobre
divisões e brigadas, sobre concertações
económicas e monopolismos globais ou mesmo segundo um conjunto
de princípios que norteiam a sua acção.
O Ocidente é
fruto, essencialmente, de um modo de pensar que foi inscrito na sua
tradição desde os tempos da Grécia Clássica
e que se prolongou e aperfeiçoou com a emergência da
Civilização Cristã.
A compreensão
das limitações do Homem, na percepção
deste mundo como misto de bem e de mal, de divindade e de
bestialidade, de materialidade e de uma espiritualidade que a deve
enformar, sempre fez parte do legado dos povos que fizeram jus à
tradição de Atenas e Jerusalém, da Roma Pagã
e da Roma Cristã.
Esta compreensão
do mundo, ao contrário do que escrevem os nossos
jornalo-propagandistas que se formaram com súmulas da
Europa-América, não postula a existência de dois
mundos distintos. Esta tradição, cristalizada nas Duas
Cidades da “Cidade de Deus” de Santo Agostinho, descreve a forma
como a cidade dos homens se deve aproximar, por suas virtudes, da
cidade celeste, embora sempre consciente das limitações
que encontra na sua acção. Existe apenas um mundo,
porque não existe um corte na realidade ou uma cisão
lógica. O Bem da cidade celeste é o mesmo que o da
cidade terrena, embora esteja a última condicionada pela
materialidade.
As comunidades
políticas ocidentais vivem no equilíbrio entre “ser”
e “dever ser”, numa formulação perpetuada pela
paulina reflexão da pertença a César e a Deus.
Ao observarmos os
grandes tumultos da nossa História devemos reflectir a forma
como essa estrutura relacional foi articulada à época e
tentar compreender a forma como as alterações que então
se operaram ao pensamento afectaram a existência humana.
Por um lado temos a
remoção da divergência entre política e
religião, que ao contrário do que a desfocada ciência
positivista procura afirmar, foi operada não pela Idade Média,
mas pela Reforma Protestante, através da ideia de que o
Pregador deveria ser o Governante da Comunidade, no intuito de
realizar o paraíso terreno. O objectivo da política da
Genebra calvinista não era estabelecer relações
de justiça entre os cidadãos, mas salvar-lhes as almas,
mesmo que tal tarefa acartasse o Inferno neste mundo, o que de facto
veio a acontecer em proporções que, adicionada uma
religião historicista e materialista e uma sociedade
tecnológica, prenunciavam os holocaustos comunistas do século
XX.
Esta sociedade
fundamentalista que se viria a reviver na França da metafísica
revolucionária não deixa margem para a dissenção,
mesmo que irrelevante para a comunidade política,
transformando a Religião num Código Civil, numa
estrutura bastante semelhante à religião islâmica.
Se o fundamentalismo é
um perigo que atenta contra as próprias bases da nossa
civilização, há outra face, igualmente perigosa,
que lhe é inverso e gera outro tipo de fundamentalismo.
Existe no pensamento
moderno uma tendência que consiste na destruição
da ligação entre o “ser” e “dever ser”. Esta
tradição de pensamento é longa e provém
essencialmente da rejeição de que a Política
deve estar subordinada a uma racionalidade e enquadrada numa ideia de
Bem que seja mais ampla que o simples interesse dos indivíduos
ou do Estado. A tradição da sofística, oposta à
tradição filosófica ocidental, traz consigo essa
ideia de que qualquer concepção de justiça seria
subjectiva e que a política, na perspectiva do sofista
Trasímaco, nada mais seria que o poder do mais forte.
Desta incapacidade de
estabelecer uma compreensão de normas que devam governar a
comunidade e ordenar o Poder e a força, surge uma relação
de indiscutibilidade. O Poder é conflito e não uma
normatividade que possa ser apreendida pelos que fazem parte da
“cidade”. Esta incompreensibilidade na racionalidade da ordem
política prolonga-se na pretensa afirmação do
“secularismo político” e na formação de uma
“religião positivista”.
Esta forma de
“religiosidade intramundana”, como diagnosticou Eric Voegelin,
caracteriza-se pela crença de que nada existe para além
do material que seja relevante para a esfera política. A
imprescrutabilidade do Bem cria um horizonte político limitado
e incondicional. Quer na obra de Rousseau, onde a vontade da
comunidade é indiscutível, quer na obra de Locke onde a
propriedade é um limite do pensamento político, quer na
obra de Nietzsche onde o Poder regressa a Trasímaco e pertence
ao mais forte, não existe qualquer espaço para o “dever
ser”, mas uma tirania do que “é”.
O exemplo do Hitlerismo
nazi é bastante ilustrativo desta situação, pois
a inquestionabilidade do poder político do Líder
demonstra o que pode acontecer quando o soberano (seja ele um
indivíduo ou um colectivo) se encontra “para além do
bem e do mal”.
Ambas as doenças
descritas afligem as sociedades ocidentais e são causa dos
erros e tumultos políticos dos últimos séculos.
É imperioso compreender que sem a transcendência as
sociedades estão condenadas à escravatura, mas que onde
essa transcendência é imediata, como reflecte Roger
Scruton sobre a situação em que “pecado” e “crime”
são sinónimos, não há lugar para qualquer
“autonomia” e “liberdade”, estando a sociedade forçada
à escravatura totalitária.
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