Ano I - Nº 6, Fevereiro de 2007
Alameda Digital
Política Cultural
O Equilíbrio do Ocidente

por Jorge Azevedo Correia

Ao contrário do que é palavra comum o Ocidente não repousa sobre divisões e brigadas, sobre concertações económicas e monopolismos globais ou mesmo segundo um conjunto de princípios que norteiam a sua acção.

O Ocidente é fruto, essencialmente, de um modo de pensar que foi inscrito na sua tradição desde os tempos da Grécia Clássica e que se prolongou e aperfeiçoou com a emergência da Civilização Cristã.

A compreensão das limitações do Homem, na percepção deste mundo como misto de bem e de mal, de divindade e de bestialidade, de materialidade e de uma espiritualidade que a deve enformar, sempre fez parte do legado dos povos que fizeram jus à tradição de Atenas e Jerusalém, da Roma Pagã e da Roma Cristã.

Esta compreensão do mundo, ao contrário do que escrevem os nossos jornalo-propagandistas que se formaram com súmulas da Europa-América, não postula a existência de dois mundos distintos. Esta tradição, cristalizada nas Duas Cidades da “Cidade de Deus” de Santo Agostinho, descreve a forma como a cidade dos homens se deve aproximar, por suas virtudes, da cidade celeste, embora sempre consciente das limitações que encontra na sua acção. Existe apenas um mundo, porque não existe um corte na realidade ou uma cisão lógica. O Bem da cidade celeste é o mesmo que o da cidade terrena, embora esteja a última condicionada pela materialidade.

As comunidades políticas ocidentais vivem no equilíbrio entre “ser” e “dever ser”, numa formulação perpetuada pela paulina reflexão da pertença a César e a Deus.

Ao observarmos os grandes tumultos da nossa História devemos reflectir a forma como essa estrutura relacional foi articulada à época e tentar compreender a forma como as alterações que então se operaram ao pensamento afectaram a existência humana.

Por um lado temos a remoção da divergência entre política e religião, que ao contrário do que a desfocada ciência positivista procura afirmar, foi operada não pela Idade Média, mas pela Reforma Protestante, através da ideia de que o Pregador deveria ser o Governante da Comunidade, no intuito de realizar o paraíso terreno. O objectivo da política da Genebra calvinista não era estabelecer relações de justiça entre os cidadãos, mas salvar-lhes as almas, mesmo que tal tarefa acartasse o Inferno neste mundo, o que de facto veio a acontecer em proporções que, adicionada uma religião historicista e materialista e uma sociedade tecnológica, prenunciavam os holocaustos comunistas do século XX.

Esta sociedade fundamentalista que se viria a reviver na França da metafísica revolucionária não deixa margem para a dissenção, mesmo que irrelevante para a comunidade política, transformando a Religião num Código Civil, numa estrutura bastante semelhante à religião islâmica.

Se o fundamentalismo é um perigo que atenta contra as próprias bases da nossa civilização, há outra face, igualmente perigosa, que lhe é inverso e gera outro tipo de fundamentalismo.

Existe no pensamento moderno uma tendência que consiste na destruição da ligação entre o “ser” e “dever ser”. Esta tradição de pensamento é longa e provém essencialmente da rejeição de que a Política deve estar subordinada a uma racionalidade e enquadrada numa ideia de Bem que seja mais ampla que o simples interesse dos indivíduos ou do Estado. A tradição da sofística, oposta à tradição filosófica ocidental, traz consigo essa ideia de que qualquer concepção de justiça seria subjectiva e que a política, na perspectiva do sofista Trasímaco, nada mais seria que o poder do mais forte.

Desta incapacidade de estabelecer uma compreensão de normas que devam governar a comunidade e ordenar o Poder e a força, surge uma relação de indiscutibilidade. O Poder é conflito e não uma normatividade que possa ser apreendida pelos que fazem parte da “cidade”. Esta incompreensibilidade na racionalidade da ordem política prolonga-se na pretensa afirmação do “secularismo político” e na formação de uma “religião positivista”.

Esta forma de “religiosidade intramundana”, como diagnosticou Eric Voegelin, caracteriza-se pela crença de que nada existe para além do material que seja relevante para a esfera política. A imprescrutabilidade do Bem cria um horizonte político limitado e incondicional. Quer na obra de Rousseau, onde a vontade da comunidade é indiscutível, quer na obra de Locke onde a propriedade é um limite do pensamento político, quer na obra de Nietzsche onde o Poder regressa a Trasímaco e pertence ao mais forte, não existe qualquer espaço para o “dever ser”, mas uma tirania do que “é”.

O exemplo do Hitlerismo nazi é bastante ilustrativo desta situação, pois a inquestionabilidade do poder político do Líder demonstra o que pode acontecer quando o soberano (seja ele um indivíduo ou um colectivo) se encontra “para além do bem e do mal”.

Ambas as doenças descritas afligem as sociedades ocidentais e são causa dos erros e tumultos políticos dos últimos séculos. É imperioso compreender que sem a transcendência as sociedades estão condenadas à escravatura, mas que onde essa transcendência é imediata, como reflecte Roger Scruton sobre a situação em que “pecado” e “crime” são sinónimos, não há lugar para qualquer “autonomia” e “liberdade”, estando a sociedade forçada à escravatura totalitária.

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