Ano I - Nº 6, Fevereiro de 2007
Alameda Digital
Política Cultural
A Europa existirá ainda?

por João de Castro de Mendia

Olhando com atenção para o que se diz, e sobretudo para o que se escreve lá por fora, e vendo a importância que o poder obstinadamente continua a não dar ao que é, de facto, muito importante cá por dentro, percebe-se que se comecem a desencadear reacções, já perigosas até, de franjas das nossas comunidades.

Os conteúdos do livro “América Alone. The End Of The Worl As We Know It”, do escritor e cronista do “Chicago Sun Times,” Mark Steyn, acompanhando o desenvolvimento de alguns perigos que a América e o Ocidente enfrentam; e o teor de uma recente entrevista concedida ao Semanário Económico pelo responsável pela SIBS em Portugal, Dr. Vítor Bento, dando conta de aspectos de uma relevância quase transcendente mas a que o governo não dá relevância alguma, faz com que se admita que o que está definitivamente em causa esteja a passar ao lado da mediocridade deste nosso executivo.

Independentemente de se ser ou não Cristão, mas eu sou, claro, é preocupante e confrangedor ver a entrada num acelerado processo de desagregação cívica e moral da chamada Comunidade Europeia, toda ela. Não apenas pela capitulação perante o que até há pouco ninguém duvidava ser um mal, como o fundamentalismo ateu e o crescimento da mancha islâmica, mas porque o poder já estará “no novo dia,” regido pelas tais regras contra as quais se martirizaram santos e se viraram exércitos. “Novo dia” este, que já vai para além do que resultou do sindroma de Pandora, que foi muito a consequência de 74, e que está na origem das soluções que não aparecem.

Mark Steyn intervém ainda neste tema com um interessante artigo publicado nas colunas da revista “Liberal” intitulado: L’Europa ci sará ancora? (a Europa existirá ainda? Nº 37 2007). Neste artigo Steyn escreve que «a Europa, no fim do século, irá perecer-se com um continente devastado por uma bomba de neutrões: os edifícios estarão ainda de pé mas as pessoas que os construíram abandonaram-nos. Vivemos actualmente um período especial da história: auto-extinção da raça que, bem ou mal, criou o mundo moderno». A questão demográfica está assim extremamente ligada à luta contra o fundamentalismo islâmico na medida em que o crescimento da população de religião muçulmana aumenta a um ritmo superior ao da europeia e ocidental. Dentro de 50 anos será mesmo em número superior.

No que diz respeito à política interna dos EUA, Steyn lembra que no quadro das eleições americanas de 2004, o candidato democrata Kerry terá tido melhores resultados em 16 estados com as menores taxas de natalidade enquanto que Bush teve os seus melhores resultados em 25 dos 26 estados com natalidade mais elevada. «Em 2050 – conclui Steyn – contar-se-á, assim, com menos 100 milhões de europeus e com mais 100 milhões de americanos, nascidos na sua grande maioria nos estados conservadores» (“Il Foglio” 17.10.2006).

Este mesmo Sr. Steyn, num outro ensaio intitulado “Regresso ao Patriarcado”, conclui que os estados conservadores dos EUA são mais populosos que os estados progressistas, como para indicar que, numa óptica Católica e conservadora, a procriação é mais forte que numa óptica laicista e progressista. Em Outubro último, a América, onde nasce uma pessoa em cada 11 segundos, viu a luz do dia o seu cidadão nº 300 milhões. O nascimento de 2,07 pessoas por mulher justifica a forte taxa de crescimento demográfico registada neste país, contra 1,1 da média europeia. Assim, na Europa, é esperada uma diminuição de 22% da população em 2050, contra um aumento de 120 milhões de pessoas nos Estados Unidos.

Em Portugal as médias de todos estes indicadores são as mais baixas dos 25 países da Comunidade. E, contrariamente ao que já se passa na maioria dos países europeus, a nossa legislação não só não estimula a natalidade como a combate ferozmente através de uma filosofia errada na política fiscal referente à família. E o erro desta política fiscal é de tal maneira que são as próprias autarquias a sentir necessidade de incentivar o aumento demográfico, compensando a lei anti natural do governo com subsídios aos nascimentos directamente dos orçamentos municipais. É assim como que a repor a natureza para sobrevivência da espécie, tentando evitar que se desertifiquem enormes manchas do nosso território.

Tentar, isoladamente, remar contra a maré seria um exercício precipitado e com poucas ou nenhumas vantagens para nós. Mas evitar que cá chegue a pior fase dessa maré, é não só necessário, como obrigatório que se tente. Pelo menos, apesar de ser ainda menor o poder que o nosso poder julga que tem. Os complexos dos governos em Portugal têm achado que as portas da imigração são para escancarar usando para isso os argumentos que já ninguém usa: a falta de mão de obra. Está mais que sabido que não é esta onda de fugitivos à barbárie africana que vai resolver seja que problema for, porque no desemprego, e a aceitar tarefas de pouca ou nenhuma dignidade, já estão todos: estrangeiros e portugueses.

Em conclusão, a reacção daqueles que em tempos eram o Ocidente Cristão, irá ser uma enorme incógnita, dado, a sua maior parte, ser a que tem força para ter razão - a americana - e a outra, que a teve até agora, deixou de se municiar para a manter. É que a fortíssima razão de termos razão, é temo-la há dois mil e sete anos.

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