A Europa existirá ainda?
por João de Castro de Mendia
Olhando
com atenção para o que se diz, e sobretudo para o que
se escreve lá por fora, e vendo a importância que o
poder obstinadamente continua a não dar ao que é, de
facto, muito importante cá por dentro, percebe-se que se
comecem a desencadear reacções, já perigosas
até, de franjas das nossas comunidades.
Os
conteúdos do livro “América Alone. The End Of The
Worl As We Know It”, do escritor e cronista do “Chicago Sun
Times,” Mark Steyn, acompanhando o desenvolvimento de alguns
perigos que a América e o Ocidente enfrentam; e o teor de uma
recente entrevista concedida ao Semanário Económico
pelo responsável pela SIBS em Portugal, Dr. Vítor
Bento, dando conta de aspectos de uma relevância quase
transcendente mas a que o governo não dá relevância
alguma, faz com que se admita que o que está definitivamente
em causa esteja a passar ao lado da mediocridade deste nosso
executivo.
Independentemente
de se ser ou não Cristão, mas eu sou, claro, é
preocupante e confrangedor ver a entrada num acelerado processo de
desagregação cívica e moral da chamada
Comunidade Europeia, toda ela. Não apenas pela capitulação
perante o que até há pouco ninguém duvidava ser
um mal, como o fundamentalismo ateu e o crescimento da mancha
islâmica, mas porque o poder já estará “no novo
dia,” regido pelas tais regras contra as quais se martirizaram
santos e se viraram exércitos. “Novo dia” este, que já
vai para além do que resultou do sindroma de Pandora, que foi
muito a consequência de 74, e que está na origem das
soluções que não aparecem.
Mark
Steyn intervém ainda neste tema com um interessante artigo
publicado nas colunas da revista “Liberal” intitulado: L’Europa
ci sará ancora? (a Europa existirá ainda? Nº 37
2007). Neste artigo Steyn escreve que «a Europa, no fim do
século, irá perecer-se com um continente devastado por
uma bomba de neutrões: os edifícios estarão
ainda de pé mas as pessoas que os construíram
abandonaram-nos. Vivemos actualmente um período especial da
história: auto-extinção da raça que, bem
ou mal, criou o mundo moderno». A questão
demográfica está assim extremamente ligada à
luta contra o fundamentalismo islâmico na medida em que o
crescimento da população de religião muçulmana
aumenta a um ritmo superior ao da europeia e ocidental. Dentro de 50
anos será mesmo em número superior.
No
que diz respeito à política interna dos EUA, Steyn
lembra que no quadro das eleições americanas de 2004, o
candidato democrata Kerry terá tido melhores resultados em 16
estados com as menores taxas de natalidade enquanto que Bush teve os
seus melhores resultados em 25 dos 26 estados com natalidade mais
elevada. «Em 2050 – conclui Steyn – contar-se-á,
assim, com menos 100 milhões de europeus e com mais 100
milhões de americanos, nascidos na sua grande maioria nos
estados conservadores» (“Il Foglio” 17.10.2006).
Este
mesmo Sr. Steyn, num outro ensaio intitulado “Regresso ao
Patriarcado”, conclui que os estados conservadores dos EUA são
mais populosos que os estados progressistas, como para indicar que,
numa óptica Católica e conservadora, a procriação
é mais forte que numa óptica laicista e progressista.
Em Outubro último, a América, onde nasce uma pessoa em
cada 11 segundos, viu a luz do dia o seu cidadão nº 300
milhões. O nascimento de 2,07 pessoas por mulher justifica a
forte taxa de crescimento demográfico registada neste país,
contra 1,1 da média europeia. Assim, na Europa, é
esperada uma diminuição de 22% da população
em 2050, contra um aumento de 120 milhões de pessoas nos
Estados Unidos.
Em
Portugal as médias de todos estes indicadores são as
mais baixas dos 25 países da Comunidade. E, contrariamente ao
que já se passa na maioria dos países europeus, a nossa
legislação não só não estimula a
natalidade como a combate ferozmente através de uma filosofia
errada na política fiscal referente à família. E
o erro desta política fiscal é de tal maneira que são
as próprias autarquias a sentir necessidade de incentivar o
aumento demográfico, compensando a lei anti natural do governo
com subsídios aos nascimentos directamente dos orçamentos
municipais. É assim como que a repor a natureza para
sobrevivência da espécie, tentando evitar que se
desertifiquem enormes manchas do nosso território.
Tentar,
isoladamente, remar contra a maré seria um exercício
precipitado e com poucas ou nenhumas vantagens para nós. Mas
evitar que cá chegue a pior fase dessa maré, é
não só necessário, como obrigatório que
se tente. Pelo menos, apesar de ser ainda menor o poder que o nosso
poder julga que tem. Os complexos dos governos em Portugal têm
achado que as portas da imigração são para
escancarar usando para isso os argumentos que já ninguém
usa: a falta de mão de obra. Está mais que sabido que
não é esta onda de fugitivos à barbárie
africana que vai resolver seja que problema for, porque no
desemprego, e a aceitar tarefas de pouca ou nenhuma dignidade, já
estão todos: estrangeiros e portugueses.
Em
conclusão, a reacção daqueles que em tempos eram
o Ocidente Cristão, irá ser uma enorme incógnita,
dado, a sua maior parte, ser a que tem força para ter razão
- a americana - e a outra, que a teve até agora, deixou de se
municiar para a manter. É que a fortíssima razão
de termos razão, é temo-la há dois mil e sete
anos. |