Ano I - Nº 6, Fevereiro de 2007
Alameda Digital
Política Cultural
Franceses votam para escolher um presidente “vazio”

por Abel Morais

As eleições presidenciais francesas, em Abril e Maio, vão escolher o próximo inquilino do Eliseu entre “candidatos do vazio”, uma surpresa e uma constante.

Os “candidatos do vazio”, na expressão do sociólogo Emmanuel Todd, são o representante do partido da maioria no governo, a União para um Movimento Popular (UMP), Nicolas Sarkozy, e a representante dos socialistas, Ségolène Royal; a surpresa é François Bayrou, que procura a equidistância entre os dois anteriores ao mesmo tempo que investe sobre o eleitorado de ambos; a constante é Jean-Marie Le Pen, que conta com um eleitorado fiel mas limitado.

Para Todd, um analista do processo eleitoral com candidato próprio, o choque previsível entre Sarkozy e Royal mascara a organização e as reais linhas divisórias dos elementos políticos e sociais mais relevantes na actualidade francesa. O facto de cada um deles possuir uma longa carreira na política – de mais de duas décadas em ambos os casos –, mas sentirem a necessidade de se reinventarem como candidatos da “ruptura” (Sarkozy) ou da “novidade” (Royal), procura iludir a realidade de, nenhum dos dois, “representar rigorosamente nada” – são “fantasmas políticos”, declara Todd. A prova é que Sarkozy e Royal foram designados pelos respectivos partidos sem ser conhecido o seu programa. A designação dos candidatos pouco tem a ver com uma ideia política e muito com a construção de uma imagem comprovada ou desmentida pela sua quota nas sondagens. Estas são hoje determinantes e podem obscurecer as regras e a “estrutura do jogo político”. O que se irá comprovar, ou não, no dia das eleições.

O diagnóstico sobre o vazio dos candidatos é também partilhado por André Glucksmann e Pascal Bruckner – apoiantes todavia de Sarkozy –, que consideram estar a esquerda enferma da mesma doença devido ao seu “narcisismo”.

A estratégia de Sarkozy e Royal de renascerem politicamente para as presidenciais de 2007 procura baralhar as reais linhas divisórias na política francesa, de que falava Todd, notando este que qualquer dos dois candidatos foi pelo Sim no referendo ao tratado constitucional da União Europeia, um acto eleitoral em que os franceses se pronunciaram maioritariamente pelo Não e em que a linha de separação dos dois campos passou pelo interior dos socialistas.

Assim, entre Dezembro e Fevereiro, quando Royal procurou situar-se além da sua área política, balançando-se para o centro, foi quando se iniciou o declínio nas sondagens, um declínio a que também não foi alheia a demora na divulgação do seu programa e algumas declarações infelizes em questões de política externa, excessivas para quem se quer presidente. Como afirmou a autora de um livro sobre a candidata socialista, “ela está envolvida numa realidade que a ultrapassa um pouco”.

Mesmo as 100 propostas do seu pacto presidencial “para uma França mais justa”, que recuperam os temas e fraseologia caros à esquerda, geram dúvidas nesta área, havendo quem as considere irrealistas e dispendiosas para além do aceitável. O especialista para as questões económicas dos socialistas, Éric Besson, demitiu-se três dias depois de Royal divulgar aquelas medidas, que custariam 35 mil milhões de euros, explicou aquele. A especificação deste valor irritou a candidata, que via confirmarem-se as críticas de irresponsabilidade e ligeireza na elaboração do seu programa. Crítica a aplicar também a Sarkozy, responsável por um projecto de estímulo da economia e de reduções fiscais, caso seja eleito, que deixou perplexos muitos economistas independentes. Quanto a este, o seu maior desafio é o de, surgindo quase invariavelmente à frente nas sondagens, materializar estes números numa vitória na primeira e, principalmente, na segunda volta, em Maio.

A queda nas sondagens de Royal significa que o seu eleitorado é de esquerda – e mobilizável apenas à esquerda (nem que seja por instinto de sobrevivência) –, para quem seria o vexame absoluto não ter um dos seus na segunda volta, com a escolha a operar-se entre Sarkozy, Bayrou, Le Pen.

Ora, nos últimos dias de Fevereiro, as sondagens indicavam que para 79% dos inquiridos tudo era possível – na primeira e na segunda voltas. Dado relevante, que comprova o grau de resistência dos franceses aos “candidatos do vazio”: Bayrou, a chegar à segunda volta, poderia vencer Sarkozy, com 52% dos votos, e Royal, com 54%.

Bayrou ou a estratégia de Janus

Constatada a manipulação no processo de designação de candidatos como Sarkozy e Royal – independentemente do poder das respectivas máquinas partidárias e da previsível disciplina de voto – há uma quota de eleitorado flutuante ou indeciso, que não será os quase 80% das sondagens de Fevereiro, mas que é suficiente para determinar a passagem ou não de um candidato à segunda volta numa lógica de voto de protesto. Neste quadro, a ausência de um Sarkozy ou de uma Royal na segunda volta das presidenciais francesas seria um escândalo, mas comprovaria de algum modo as conclusões de Todd, apontando para uma crise do sistema político da V República e da representação partidária em França.

Bayrou, que dirige a União para a Democracia Francesa (UDF, partido centrista), não tem parado de subir nas intenções de voto. O seu desafio será, em Abril, concretizá-las em votos expressos. Tendo começado abaixo de Le Pen, há sondagens a conceder-lhe no final de Fevereiro quase 20% das intenções de voto, valor que o coloca próximo de Sarkozy e Royal.

Perante um ambiente de crise doentia nas relações entre Sarkozy, o presidente Jacques Chirac e o seu primeiro-ministro, Dominique de Villepin, a que não faltam elementos de ajuste de contas (o primeiro é herdeiro político de um inimigo figadal de Chirac, um seu antigo primeiro-ministro e candidato presidencial, Edouard Balladur), Bayrou tem tirado partido da tensão no campo da maioria, a que se soma o natural desgaste do governo (onde Sarkozy desempenha as funções de ministro do Interior), as suas derrotas em termos de iniciativa política – de que permanece como exemplo máximo a contestação ao Contrato Primeiro Emprego na Primavera de 2006 – e os revezes eleitorais da UMP.

Bayrou, cujo partido tem um ministro no actual governo, Gilles de Robien, na Educação, apresentou várias moções de censura ao executivo de Dominique de Villepin, apesar de a UDF integrar a coligação governamental, e tem sido um dos seus mais severos críticos.

O dirigente da UDF tem construído uma campanha em negativo das de Sarkozy e Royal. Recusa os grandes comícios “adulatórios”, que estão a tornar-se a imagem de marca do candidato da UMP e da socialista, pratica uma linguagem simples e directa, oposta à pseudo-sofisticação e aos “grandes projectos” dos outros dois principais candidatos; por demagogia ou convicção, fala à “França profunda” – a França que votou Não e teme o liberalismo e cosmopolitismo de Sarkozy – ao lembrar as raízes rurais da sua família, situando-se claramente como alguém não filiado nem dependente dos círculos de privilegiados e dos centros de poder, a que não hesita por vezes a atribuir uma natureza pouco clara.

Num universo marcado pela desmobilização política e por uma crise de confiança nas forças políticas tradicionais, a figura de outsider do dirigente de um partido convencional no espectro partidário francês está a revelar-se lucrativa para Bayrou.

Aquele insiste na imagem de um candidato de um pequeno partido que fala ao francês comum. Forçando talvez as fronteiras das definições, Bayrou surge, atento às realidades e temas de 2007, um pouco à semelhança de Pierre Poujade, cultivando um populismo sofisticado e um clássico distanciamento crítico face ao “sistema dos grandes”. Mas, tenha-se presente, que o seu partido e ele próprio sempre se manifestaram favoráveis ao tratado constitucional da UE.

Se há franjas eleitorais a conquistar à direita, da “França profunda” aos “anti-sarkozystas de direita” e outros, há também um eleitorado de centro-esquerda à disposição de Bayrou. Foi este último segmento de votantes que Royal tentou conquistar sem sucesso antes de regressar a orientações mais convencionais da esquerda e que a campanha do candidato centrista garante estar em condições de atrair.

Há ainda os sectores “à direita” daquilo que em França é conhecido como a segunda esquerda, que se manifesta no interior dos socialistas franceses, de Michael Rocard a Jacques Delors, aos quais alguns dos registos no discurso de Bayrou não deixariam indiferentes. Por exemplo, na questão do tratado constitucional da UE estiveram, como o dirigente da UDF, do lado do Sim. Esta corrente abrange ainda organizações ecologistas que, na impossibilidade de cumprirem as condições para uma candidatura presidencial, poderiam apoiar Bayrou de maneira formal ou informal.

Sintoma da preocupação criada pela progressão de Bayrou, um antigo primeiro-ministro da UMP, Jean-Pierre Raffarin, afirmava recentemente que “o projecto político irrealista” do candidato da UDF significava, “para ter sentido”, “a cisão dos socialistas em dois”, com os sociais-democratas, de um lado, e a esquerda do outro. Pode não ser esse o objectivo de Bayrou, mas não há dúvida de que os votos dos primeiros lhe interessam sobremaneira. Conseguindo fixar estes e mantendo o eleitorado centrista e franjas de tendenciais votantes em Le Pen, Bayrou consegue manter dois rostos distintos para duas realidades distintas em França e aumenta as hipóteses de estar na segunda volta.

Num habilidoso equilíbrio táctico, Bayrou defendeu que não hesitaria em nomear um primeiro-ministro de esquerda, caso chegasse ao Eliseu. Numa entrevista televisiva, Bayrou teve um comentário positivo para um dos adversários de Royal nas primárias socialistas, Dominique Strauss-Kahn, considerado um representante da segunda esquerda. Significativamente, não se preocupou com qualquer declaração positiva sobre a possibilidade de nomear um primeiro-ministro saído da UMP, sabendo não ser no eleitorado desta organização que conseguirá grandes apoios. Quando proferiu estas declarações, 55% dos franceses gostariam de o ver na segunda volta das presidenciais.

O problema Le Pen

Se o dirigente da UDF encena e convoca em benefício próprio alguns sinais que fizeram a fortuna do poujadismo, que espaço de manobra fica para o dirigente da Frente Nacional (FN), Jean-Marie Le Pen?

Com cerca de 12% nas intenções de voto, com Bayrou a distanciar-se claramente, o líder da FN, depois de ter eliminado o candidato socialista nas presidenciais de 2002, parece incapaz de conseguir pouco mais do que a fixação do seu eleitorado em 2007. Cercado pela disciplina de voto à esquerda, pela progressão do candidato da UDF e por um eleitorado cativo de Sarkozy, Le Pen vê-se de volta aos resultados eleitorais de há duas décadas.

A confirmarem-se estas intenções de voto, e com o problema da sucessão de Le Pen cada vez mais próximo, a FN vive um momento crítico. Tendo demonstrado, apesar de todas as pressões, que representa um segmento relevante do eleitorado francês, parece bloqueado qualquer cenário de crescimento e, a confirmar-se a possível nomeação de sua filha, Marine Le Pen, o partido poderia conhecer algumas convulsões internas.

Os temas que tem privilegiado, da imigração aos problemas rurais, das questões de segurança que preocupam a população das áreas suburbanas à hegemonia de Bruxelas, aliados a preocupações específicas de certas regiões francesas, garantem-lhe, em princípio, a permanência no espaço político. Mas a competência dos seus dirigentes e militantes em explorar estas questões não tem sido suficiente para transformar a FN de partido de protesto em organização política – de princípios, ideologia e estratégia clara – transversal, capaz de crítica ao sistema político sem surgir como ameaça a erradicar, evidenciando as suas desigualdades e fracassos.

O sucesso da FN, que resulta da sua natureza de veículo de protesto e da personalidade de Le Pen, pode não encontrar uma fórmula igualmente eficaz no período que se avizinha. Um nome não é uma personalidade e a estratégia que se tem revelado produtiva, em termos eleitorais, no passado e no presente, não garante o sucesso para o futuro. Há desafios modernos que ultrapassam o discurso e a prática da actual FN, o que o seu fundador não parece considerar seriamente.

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(1) Em 1988, obteve 14,38%; em 1995, 15%; em 2002, 16,86 na primeira volta, superando o socialista Lionel Jospin, e 17, 79 na segunda volta, em que defrontou Jacques Chirac, vencedor com 82,21%.

(2) Emmanuel Todd apoiou Laurent Fabius nas primárias dos socialistas franceses de que resultou a escolha de Ségolène Royal. As suas declarações constam de uma entrevista ao jornal Le Parisien, 13/09/06. Ver ainda Libération, 24/11/06.

(3) Cyril Lemieux, Le Monde, 26/02/07

(4) International Herald Tribune, 31/01/07

(5) Evelyne Pathouot, Le Fígaro, 02/02/07. Pathouot é autora de Ségolène Royal, Ombre et Lumière, livro em que pretende revelar as características psicológicas da candidata socialista nas suas relações de trabalho a partir de uma experiência vivida nos anos 90 com Royal.

(6) Le Monde, 19/02/07.

(7) Entrevista de Jean-Pierre Raffarin, Le Fígaro, 27/02/07

(8) Libération, 19/02/07

(9) 4 376 742 votos nas presidenciais de 1988, mas 2 129 668 nas europeias do ano seguinte; 4 807 713 em 2002, mas 1 005 225 nas europeias de 1999, num universo eleitoral de cerca de 40 milhões de eleitores (Dados do Ministério do Interior francês)

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