Franceses
votam para escolher um presidente “vazio”
por Abel Morais
As
eleições presidenciais francesas, em Abril e Maio, vão
escolher o próximo inquilino do Eliseu entre “candidatos do
vazio”, uma surpresa e uma constante.
Os
“candidatos do vazio”, na expressão do sociólogo
Emmanuel Todd, são o representante do partido da maioria no
governo, a União para um Movimento Popular (UMP), Nicolas
Sarkozy, e a representante dos socialistas, Ségolène
Royal; a surpresa é François Bayrou, que procura a
equidistância entre os dois anteriores ao mesmo tempo que
investe sobre o eleitorado de ambos; a constante é Jean-Marie
Le Pen, que conta com um eleitorado fiel mas limitado .
Para
Todd, um analista do processo eleitoral com candidato próprio ,
o choque previsível entre Sarkozy e Royal mascara a
organização e as reais linhas divisórias dos
elementos políticos e sociais mais relevantes na actualidade
francesa. O facto de cada um deles possuir uma longa carreira na
política – de mais de duas décadas em ambos os casos
–, mas sentirem a necessidade de se reinventarem como candidatos da
“ruptura” (Sarkozy) ou da “novidade” (Royal), procura iludir
a realidade de, nenhum dos dois, “representar rigorosamente nada”
– são “fantasmas políticos”, declara Todd. A
prova é que Sarkozy e Royal foram designados pelos respectivos
partidos sem ser conhecido o seu programa. A designação
dos candidatos pouco tem a ver com uma ideia política e muito
com a construção de uma imagem comprovada ou desmentida
pela sua quota nas sondagens. Estas são hoje determinantes e
podem obscurecer as regras e a “estrutura do jogo político” .
O que se irá comprovar, ou não, no dia das eleições.
O
diagnóstico sobre o vazio dos candidatos é também
partilhado por André Glucksmann e Pascal Bruckner –
apoiantes todavia de Sarkozy –, que consideram estar a esquerda
enferma da mesma doença devido ao seu “narcisismo” .
A
estratégia de Sarkozy e Royal de renascerem politicamente
para as presidenciais de 2007 procura baralhar as reais linhas
divisórias na política francesa, de que falava Todd,
notando este que qualquer dos dois candidatos foi pelo Sim no
referendo ao tratado constitucional da União Europeia, um acto
eleitoral em que os franceses se pronunciaram maioritariamente pelo
Não e em que a linha de separação dos dois
campos passou pelo interior dos socialistas.
Assim,
entre Dezembro e Fevereiro, quando Royal procurou situar-se além
da sua área política, balançando-se para o
centro, foi quando se iniciou o declínio nas sondagens, um
declínio a que também não foi alheia a demora na
divulgação do seu programa e algumas declarações
infelizes em questões de política externa, excessivas
para quem se quer presidente. Como afirmou a autora de um livro sobre
a candidata socialista, “ela está envolvida numa realidade
que a ultrapassa um pouco” .
Mesmo
as 100 propostas do seu pacto presidencial “para uma França
mais justa”, que recuperam os temas e fraseologia caros à
esquerda, geram dúvidas nesta área, havendo quem as
considere irrealistas e dispendiosas para além do aceitável.
O especialista para as questões económicas dos
socialistas, Éric Besson, demitiu-se três dias depois de
Royal divulgar aquelas medidas, que custariam 35 mil milhões
de euros, explicou aquele. A especificação deste valor
irritou a candidata, que via confirmarem-se as críticas de
irresponsabilidade e ligeireza na elaboração do seu
programa. Crítica a aplicar também a Sarkozy,
responsável por um projecto de estímulo da economia e
de reduções fiscais, caso seja eleito, que deixou
perplexos muitos economistas independentes. Quanto a este, o seu
maior desafio é o de, surgindo quase invariavelmente à
frente nas sondagens, materializar estes números numa vitória
na primeira e, principalmente, na segunda volta, em Maio.
A
queda nas sondagens de Royal significa que o seu eleitorado é
de esquerda – e mobilizável apenas à esquerda (nem
que seja por instinto de sobrevivência) –, para quem seria o
vexame absoluto não ter um dos seus na segunda volta, com a
escolha a operar-se entre Sarkozy, Bayrou, Le Pen.
Ora,
nos últimos dias de Fevereiro, as sondagens indicavam que para
79% dos inquiridos tudo era possível – na primeira e na
segunda voltas. Dado relevante, que comprova o grau de resistência
dos franceses aos “candidatos do vazio”: Bayrou, a chegar à
segunda volta, poderia vencer Sarkozy, com 52% dos votos, e Royal,
com 54% .
Bayrou
ou a estratégia de Janus
Constatada
a manipulação no processo de designação
de candidatos como Sarkozy e Royal – independentemente do poder das
respectivas máquinas partidárias e da previsível
disciplina de voto – há uma quota de eleitorado flutuante ou
indeciso, que não será os quase 80% das sondagens de
Fevereiro, mas que é suficiente para determinar a passagem ou
não de um candidato à segunda volta numa lógica
de voto de protesto. Neste quadro, a ausência de um Sarkozy ou
de uma Royal na segunda volta das presidenciais francesas seria um
escândalo, mas comprovaria de algum modo as conclusões
de Todd, apontando para uma crise do sistema político da V
República e da representação partidária
em França.
Bayrou,
que dirige a União para a Democracia Francesa (UDF, partido
centrista), não tem parado de subir nas intenções
de voto. O seu desafio será, em Abril, concretizá-las
em votos expressos. Tendo começado abaixo de Le Pen, há
sondagens a conceder-lhe no final de Fevereiro quase 20% das
intenções de voto, valor que o coloca próximo de
Sarkozy e Royal.
Perante
um ambiente de crise doentia nas relações entre
Sarkozy, o presidente Jacques Chirac e o seu primeiro-ministro,
Dominique de Villepin, a que não faltam elementos de ajuste de
contas (o primeiro é herdeiro político de um inimigo
figadal de Chirac, um seu antigo primeiro-ministro e candidato
presidencial, Edouard Balladur), Bayrou tem tirado partido da tensão
no campo da maioria, a que se soma o natural desgaste do governo
(onde Sarkozy desempenha as funções de ministro do
Interior), as suas derrotas em termos de iniciativa política –
de que permanece como exemplo máximo a contestação
ao Contrato Primeiro Emprego na Primavera de 2006 – e os revezes
eleitorais da UMP.
Bayrou,
cujo partido tem um ministro no actual governo, Gilles de Robien, na
Educação, apresentou várias moções
de censura ao executivo de Dominique de Villepin, apesar de a UDF
integrar a coligação governamental, e tem sido um dos
seus mais severos críticos.
O
dirigente da UDF tem construído uma campanha em negativo das
de Sarkozy e Royal. Recusa os grandes comícios “adulatórios”,
que estão a tornar-se a imagem de marca do candidato da UMP e
da socialista, pratica uma linguagem simples e directa, oposta à
pseudo-sofisticação e aos “grandes projectos” dos
outros dois principais candidatos; por demagogia ou convicção,
fala à “França profunda” – a França que
votou Não e teme o liberalismo e cosmopolitismo de Sarkozy –
ao lembrar as raízes rurais da sua família, situando-se
claramente como alguém não filiado nem dependente dos
círculos de privilegiados e dos centros de poder, a que não
hesita por vezes a atribuir uma natureza pouco clara.
Num
universo marcado pela desmobilização política e
por uma crise de confiança nas forças políticas
tradicionais, a figura de outsider do dirigente de um partido
convencional no espectro partidário francês está
a revelar-se lucrativa para Bayrou.
Aquele
insiste na imagem de um candidato de um pequeno partido que fala ao
francês comum. Forçando talvez as fronteiras das
definições, Bayrou surge, atento às realidades e
temas de 2007, um pouco à semelhança de Pierre Poujade,
cultivando um populismo sofisticado e um clássico
distanciamento crítico face ao “sistema dos grandes”. Mas,
tenha-se presente, que o seu partido e ele próprio sempre se
manifestaram favoráveis ao tratado constitucional da UE.
Se
há franjas eleitorais a conquistar à direita, da
“França profunda” aos “anti-sarkozystas de direita” e
outros, há também um eleitorado de centro-esquerda à
disposição de Bayrou. Foi este último segmento
de votantes que Royal tentou conquistar sem sucesso antes de
regressar a orientações mais convencionais da esquerda
e que a campanha do candidato centrista garante estar em condições
de atrair.
Há
ainda os sectores “à direita” daquilo que em França
é conhecido como a segunda esquerda, que se manifesta no
interior dos socialistas franceses, de Michael Rocard a Jacques
Delors, aos quais alguns dos registos no discurso de Bayrou não
deixariam indiferentes. Por exemplo, na questão do tratado
constitucional da UE estiveram, como o dirigente da UDF, do lado do
Sim. Esta corrente abrange ainda organizações
ecologistas que, na impossibilidade de cumprirem as condições
para uma candidatura presidencial, poderiam apoiar Bayrou de maneira
formal ou informal.
Sintoma
da preocupação criada pela progressão de Bayrou,
um antigo primeiro-ministro da UMP, Jean-Pierre Raffarin, afirmava
recentemente que “o projecto político irrealista” do
candidato da UDF significava, “para ter sentido”, “a cisão
dos socialistas em dois” ,
com os sociais-democratas, de um lado, e a esquerda do outro. Pode
não ser esse o objectivo de Bayrou, mas não há
dúvida de que os votos dos primeiros lhe interessam
sobremaneira. Conseguindo fixar estes e mantendo o eleitorado
centrista e franjas de tendenciais votantes em Le Pen, Bayrou
consegue manter dois rostos distintos para duas realidades distintas
em França e aumenta as hipóteses de estar na segunda
volta.
Num
habilidoso equilíbrio táctico, Bayrou defendeu que não
hesitaria em nomear um primeiro-ministro de esquerda, caso chegasse
ao Eliseu. Numa entrevista televisiva, Bayrou teve um comentário
positivo para um dos adversários de Royal nas primárias
socialistas, Dominique Strauss-Kahn, considerado um representante da
segunda esquerda. Significativamente, não se preocupou com
qualquer declaração positiva sobre a possibilidade de
nomear um primeiro-ministro saído da UMP, sabendo não
ser no eleitorado desta organização que conseguirá
grandes apoios. Quando proferiu estas declarações, 55%
dos franceses gostariam de o ver na segunda volta das presidenciais .
O
problema Le Pen
Se
o dirigente da UDF encena e convoca em benefício próprio
alguns sinais que fizeram a fortuna do poujadismo, que espaço
de manobra fica para o dirigente da Frente Nacional (FN), Jean-Marie
Le Pen?
Com
cerca de 12% nas intenções de voto, com Bayrou a
distanciar-se claramente, o líder da FN, depois de ter
eliminado o candidato socialista nas presidenciais de 2002, parece
incapaz de conseguir pouco mais do que a fixação do seu
eleitorado em 2007. Cercado pela disciplina de voto à
esquerda, pela progressão do candidato da UDF e por um
eleitorado cativo de Sarkozy, Le Pen vê-se de volta aos
resultados eleitorais de há duas décadas.
A
confirmarem-se estas intenções de voto, e com o
problema da sucessão de Le Pen cada vez mais próximo, a
FN vive um momento crítico. Tendo demonstrado, apesar de todas
as pressões, que representa um segmento relevante do
eleitorado francês ,
parece bloqueado qualquer cenário de crescimento e, a
confirmar-se a possível nomeação de sua filha,
Marine Le Pen, o partido poderia conhecer algumas convulsões
internas.
Os
temas que tem privilegiado, da imigração aos problemas
rurais, das questões de segurança que preocupam a
população das áreas suburbanas à
hegemonia de Bruxelas, aliados a preocupações
específicas de certas regiões francesas, garantem-lhe,
em princípio, a permanência no espaço político.
Mas a competência dos seus dirigentes e militantes em explorar
estas questões não tem sido suficiente para transformar
a FN de partido de protesto em organização política
– de princípios, ideologia e estratégia clara –
transversal, capaz de crítica ao sistema político sem
surgir como ameaça a erradicar, evidenciando as suas
desigualdades e fracassos.
O
sucesso da FN, que resulta da sua natureza de veículo de
protesto e da personalidade de Le Pen, pode não encontrar uma
fórmula igualmente eficaz no período que se avizinha.
Um nome não é uma personalidade e a estratégia
que se tem revelado produtiva, em termos eleitorais, no passado e no
presente, não garante o sucesso para o futuro. Há
desafios modernos que ultrapassam o discurso e a prática da
actual FN, o que o seu fundador não parece considerar
seriamente.
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(1) Em 1988, obteve 14,38%; em 1995, 15%; em 2002, 16,86 na primeira
volta, superando o socialista Lionel Jospin, e 17, 79 na segunda
volta, em que defrontou Jacques Chirac, vencedor com 82,21%.
(2) Emmanuel Todd apoiou
Laurent Fabius nas primárias dos socialistas franceses de que
resultou a escolha de Ségolène Royal. As suas
declarações constam de uma entrevista ao jornal Le
Parisien, 13/09/06. Ver ainda Libération,
24/11/06.
(3) Cyril Lemieux, Le Monde, 26/02/07
(4) International Herald Tribune, 31/01/07
(5) Evelyne Pathouot, Le Fígaro, 02/02/07. Pathouot é
autora de Ségolène Royal, Ombre et Lumière,
livro em que pretende revelar as características psicológicas
da candidata socialista nas suas relações de trabalho
a partir de uma experiência vivida nos anos 90 com Royal.
(6) Le Monde, 19/02/07.
(7) Entrevista de Jean-Pierre Raffarin, Le Fígaro,
27/02/07
(8) Libération, 19/02/07
(9) 4 376 742 votos nas
presidenciais de 1988, mas 2 129 668 nas europeias do ano seguinte;
4 807 713 em 2002, mas 1 005 225 nas europeias de 1999, num universo
eleitoral de cerca de 40 milhões de eleitores (Dados do
Ministério do Interior francês) |