SÉTIMA ARTE
Futuro do Cinema Português
por João Marchante
Um País
que não tenha uma Cinematografia própria, reconhecida
de imediato a olho nu pelos cinéfilos do mundo inteiro
através das suas marcas identitárias, não tem
futuro. Não se trata de filmar o folclore e de registar as
belas paisagens — a publicidade (institucional e comercial) tomou
conta desse departamento, para vender o seu peixe, e até o faz
bem.
O que
quero com isto dizer é que Portugal precisa de fazer um
Cinema com uma linguagem autêntica, que corresponda de facto ao
modo de pensar e sentir dos portugueses. O teste parece-me fácil: se o público gostar é porque os Filmes são
genuínos. Este tornou-se, aliás, o principal problema;
as pessoas andam zangadas com os Filmes portugueses. Como às
vezes sucede na vida, até se zangam com o que desconhecem; mas, cheira-lhes que nem vale a pena espreitar. E — atente-se —,
o Povo é sábio nos seus instintos, por mais ignorante
que possa parecer e — hoje, infelizmente — ser.
O Cinema
é uma necessidade cultural do século XXI, como já
tinha sido, também, durante todo o século XX — ou,
pelo menos, desde que criou, para si próprio, as bases
estéticas para se exprimir de forma autónoma em relação
às outras Artes (esse nascimento da linguagem cinematográfica
deu-se com Griffith, em 1915). Portanto, se um País não
for capaz de criar produtos no domínio da maior indústria
cultural conhecida, é lícito afirmar-se que está
a abrir uma brecha para a entrada de Filmes estrangeiros que venham
ocupar esse espaço. Não há aqui qualquer
nostalgia do tipo «patriotismo da sardinha assada», que,
desde sempre, me repugna. Há, isso sim, a consciência de
que um Povo só tem futuro se existir culturalmente, e que,
sendo o Cinema a maior e mais moderna forma de expressão
artística, quem não tem Filmes, a que possa chamar
seus, é como quem não tem Língua própria.
Os Filmes
de uma Cinematografia nacional reconhecem-se de imediato. Todos nos
quedamos fascinados perante o Cinema Clássico Americano (o das
décadas de 1930 e 1940), como certamente admiramos — os que
o conhecemos… — o Cinema Mudo Alemão e Russo, ou, ainda,
nos identificamos com o Cinema Moderno Italiano e Francês, para
só falar dos exemplos mais divulgados da História do
Cinema.
A estas
Fitas associamos rostos e corpos — as “estrelas” (do que os
americanos chamaram «Star System»). Reside aqui
uma lacuna nacional a superar urgentemente: o Cinema Português
precisa de novas estrelas, como de pão para a boca (salvo
seja!). São elas que alimentam os sonhos dos espectadores na
sala escura, através de processos de identificação
ou negação, amor ou ódio, fascínio ou
repulsa (sem entrar em tretas psicanalíticas, que só
servem par esvaziar de magia e sensualidade personagens e pessoas).
Certo, certinho, é que sem o brilho das estrelas o Cinema não
cativa. Uma estrela é mais do que um bom actor. Tem aquele
“não sei o quê” que só o espectador, no seu
íntimo, sabe reconhecer; e, primeiro do que ele, o realizador
— a quem cabe a tarefa de descobrir, revelar e lançar esses
seres únicos. Apesar de tudo, Portugal teve já as suas
“divas” do celulóide. Sobre elas falarei nesta revista em
futuros artigos desta coluna.
Outro
aspecto fundamental a não perder de vista são as
histórias que estão na base dos Filmes. Tecnicamente
designados por Argumentos ou Guiões — após a sua
passagem para linguagem cinematográfica —, é nestes
que reside o segredo do sucesso das Películas.
A
propósito, ocorre-me dizer o seguinte: «Pela boca morre
o peixe»; isto é, podemos ter uma iluminação
magnífica, belos enquadramentos, actores irrepreensíveis,
e tudo o mais; mas, se os diálogos forem ridículos —
sabem do que estou a falar… —, a Fita não tem pernas para
andar.
Antes de
chegar aos diálogos, no entanto, o tropeção pode
ainda dar-se numa outra fase — na história, propriamente
dita (aproveito a ocasião para perguntar se alguém sabe
porque carga de água é que ultimamente aparece história impropriamente escrita?...). Esta, pode ser baseada numa obra
literária (falando-se, assim, em adaptação) ou
escrita de raiz (argumento original). Aqui, é obrigatório
ter a noção de que escrever para Cinema não é
o mesmo do que escrever um Livro ou ser-se jornalista… Há
toda uma técnica que urge aprender e dominar. Graças a
Deus, temos bons exemplos portugueses para estudar, já por mim
aqui citados em anteriores textos.
Se o
Cinema é a Arte da repetição (mas essa é
outra conversa), aproveito para deixar aqui mais um dito que anda na
boca do nosso Povo há anos, e que reza mais ou menos assim:
«Tendo nós novecentos anos de História, com
tantas histórias, porque é que não retiramos daí
inspiração para criarmos Argumentos para os nossos
Filmes?». Pois… Não sei, ou prefiro não saber.
Mas, é fácil de perceber que a vida de Dom Afonso
Henriques daria uma extraordinária Longa-Metragem, com todos
os ingredientes de que os espectadores gostam: um herói,
acção, aventuras, perseguições, sexo,
amor, batalhas, viagens, paisagens, mistério, segredos,
traição, ódio, sangue, e por aí fora…
Já que estamos lançados, aproveito para lembrar que
todo e qualquer um dos nossos Reis daria um Filme de Fundo bom em
qualquer parte do planeta. Não é exagero, é uma
convicção formada no visionamento e análise de
centenas de Filmes históricos. Um possível slogan para estas Películas “de época” seria: «Oitocentos
anos de Monarquia dão-nos garantia».
Pelo meio
— entre as histórias, que se escrevem e planificam a fim de
passarem a imagens em movimento com som e tudo, e as estrelas, também
já nossas conhecidas, que brilham na tela — ficam os
recursos técnicos de várias áreas estéticas:
Imagem, Som, Direcção Artística (Cenários
e Guarda-Roupa), Montagem. Nestas matérias, não julgo
haver problemas de maior. Afinal, temos dos melhores profissionais do
mundo nestes ofícios artísticos. Bem sei que alguns
andam lá por fora a lutar pela vida, mas talvez regressem para
ajudar a criar, definitivamente, uma Indústria de Cinema em
Portugal. Havendo mercado, haverá dinheiro e remuneração
condigna para quem a merece.
Falemos
agora de mercado, palavra que aparentemente não cola com Arte.
Mas, se não casar é que é o diabo, pois a Arte
ficará solitária e estéril… É chegada a
hora de deitar fora todos os preconceitos contra a relação
dos Filmes com o público. As Fitas só têm razão
de ser na medida em que comuniquem com as pessoas e que estas se
revejam nas Películas. Tudo isto pode — e deve — ser feito
sem cedências de carácter artístico. Um bom Filme
deve ser fruído por toda a gente (note-se que o público
não é uma massa e é composto por indivíduos
de culturas e sensibilidades distintas), com prazer e proveito, à
medida dos seus apetites estéticos ou, simplesmente, lúdicos.
Entendamo-nos: os mais simples contentar-se-ão com a
superfície do Filme, os mais atentos mergulharão na
história, e os mais exigentes tirarão as suas próprias
conclusões. As grandes Fitas estão assim construídas.
São feitas a pensar em todos, mas à medida das
necessidades individuais de cada um.
É
tudo tão simples que quando oiço para aí certos
pequenos e médios intelectuais da nossa praça a
escreverem palavras extraordinárias sobre cinema, que só servem para
complicar o que é claro como a água límpida, até
me arrepio todo.
Finalmente,
guardei ainda um pouco de tinta para falar de financiamentos. Embora
Portugal tenha hoje — mais do que nunca — uma burguesia burgessa,
inculta e pouco dada a investimentos culturais (salvas raríssimas
e honrosas excepções), é aí — apesar de
tudo — que reside a esperança para um salto de escala da
produção nacional. Os cineastas do futuro terão
de libertar-se dos subsídios e começar a pensar na
preparação dos seus projectos com outras mais saudáveis
engenharias financeiras. Todas as grandes Cinematografias
estrangeiras (tirando a Soviética) se edificaram sobre uma
estrutura económico-financeira empresarial privada. Já
tinham reparado nisso?
E, por
aqui me fico, antes que ofenda alguma alma mais sensível de
algum camarada de ofício.
Apesar de
todo o meu desgosto, atrás expresso, em relação
ao actual panorama do Cinema Português (sendo sérios,
não poderia ser de outra maneira, pois não?), o meu
entusiasmo é muito maior do que o meu pessimismo e acredito no
surgimento, no século XXI, de uma Indústria de Cinema
em Portugal (feita por portugueses, mas aberta às co-produções
lusófonas e europeias) capaz de produzir Obras suficientes,
em qualidade e quantidade, para serem exportadas para o mundo
inteiro, superando barreiras linguísticas com boas traduções
e legendagens; e — especialmente —, tratando assuntos que cativem
os públicos mundiais pela sua originalidade e identidade.
Em
frente, Cineastas do meu País! |