Federico Garcia
Lorca
Uma execução
às avessas?
por J. Luís Andrade
No seio do meio
intelectual de Espanha, um dos lugares de maior relevo cabe sem
dúvida a Federico Garcia Lorca. Indubitavelmente um dos
maiores poetas líricos do séc. XX, a morte de Lorca e
nomeadamente as razões que a ela conduziram, permanece ainda
envolta em mistério .
O seu prestígio intelectual, a sua amizade com a gente menos
retrógrada de díspares quadrantes políticos
leva-nos a pensar que afinal Federico não foi imolado pelo que
escreveu e disse como, no lado contrário, o seriam Ramiro de
Maeztu, Muñoz Seca e muitos outros.
Mais do que qualquer
outra, a trágica figura de García Lorca tem sido usada
até à exaustão pela propaganda esquerdista como
paradigma do que os franquistas fizeram aos intelectuais
governamentais na GCE .
Durante muito tempo, com o intuito de denegrir a imagem da Falange,
difundiram e inculcaram a ideia de que Lorca havia sido executado por
militantes daquele movimento. Uma infinidade de autores se tem
debruçado sobre o tema do assassinato de Federico; quer
historiadores especialistas da GCE quer críticos literários
se têm ocupado, com maior ou menor profundidade, sobre o facto.
Vila-San-Juan, Brenan, Auclair, Menarini, etc. são alguns dos
principais mas foi o historiador socialista Ian Gibson, que num dos
capítulos de seu livro Vida, pasión y muerte de
Federico García Lorca, mais aprofundou os factos
relacionados com a morte do poeta. Gibson, apesar de não
esconder a sua polarização política,
marcadamente anti-franquista, procurou investigar e registar de forma
exaustiva todos os pormenores do facto. E, com a arrogância que
normalmente nasce da ignorância, confundiu informação
com conhecimento. Tendo subjacente uma matriz ideológica
preconceituosa e maniqueísta, esta aliás muito comum em
historiadores anglo-saxónicos, Gibson convenceu-se que tinha
encerrado definitivamente o assunto. Mas a verdade é que ele
não responde a um conjunto de interrogações
pertinentes, havendo no seu estudo lacunas importantes e muitos
factos que ele desconsidera por não lhe convirem e criarem
embaraços à sua tese. Los últimos dias de
Garcia Lorca de Eduardo Molina Fajardo, Plaza y Janes, 1983,
supera em alguns pontos cruciais a investigação de
Gibson. Inquestionavelmente incómoda para Gibson e tenazmente
inquietante é a comunicação do Prof. Daniel
Eisenberg, da Northern Arizona University, apresentada em 26 de Março
de 1991, na reunião anual da Associação dos
Hispanistas da Grã-Bretanha e Irlanda. Eisenberg, interroga-se
porque é que Federico que segundo testemunhos andava
deprimido, ansioso, aterrorizado mesmo, decidiu ir para Granada. Já
a 11 de Julho, ele confidencia aos seus amigos que tencionava abalar
para a sua terra. Agustin de Foxá aconselhou-o, por prudência,
a ir para Biarritz. Outros tentaram igualmente dissuadi-lo mas ele
retorquia sempre não sou inimigo de ninguém. O
assassínio de Calvo Sotelo foi a gota de água; e apesar
de ter em seu poder um bilhete para o México, de onde recebera
um convite, o poeta decidiu-se de vez e afirmou: estes campos vão
encher-se de mortos. Vou para Granada e seja o que Deus quiser...Mas,
partindo do princípio de que a imagem de alinhado político
de esquerda é verdadeira, porquê Granada cujas
conservadoras e ignorantes elites ridicularizara e em que a Frente
Popular fora derrotada na primeira volta das eleições,
naquele que era um forte bastião da direita católica?
Se Lorca era efectivamente um esquerdista engagé, ir
para Granada era o mesmo que meter-se na boca do lobo. Eisenberg
lança uma pista que Gibson descarta como absurda, pois é
para ele inconcebível, tendo sempre subjacente como dogma o
maniqueísmo fascismo-esquerdismo, que Lorca pudesse ser amigo
e menos ainda simpatizante da causa da Falange de José
António. A verdade, porém, é que apesar de
próximo de alguns intelectuais da Frente Popular, o
poeta era uma presença constante em tertúlias culturais
de Madrid, onde tinha muitos amigos e sinceros admiradores, sobretudo
entre os jovens intelectuais falangistas. Está
comprovada a sua amizade com José António Primo de
Rivera, Foxá, Santa Marina, Sánchez Mazas e tantos
outros intelectuais da órbita falangista com quem
confraternizava nas tertúlias da Ballena Alegre .
Gabriel Celaya testemunhou que Lorca lhe confidenciou que, em 36,
rara era a sexta-feira em que não jantava com José
António. Na sua cegueira dogmática, Gibson jamais pode
aceitar como verdade o facto de a Falange apresentar em todo o seu
ideário um pensamento revolucionário, procurando
afirmar-se como um partido da classe trabalhadora embora numa
perspectiva de alternativa patriótica entre a aristocracia
exploradora e o comunismo internacionalista. Esta é uma
postura que agrada e coincide mesmo com a sensibilidade e
preocupações sociais do poeta. É provável
que no seu convívio com José António este lhe
tenha confidenciado a sua desilusão com Mussolini e o cada vez
maior distanciamento da Falange face ao fascismo .
É um facto que
Lorca era membro de uma loja maçónica e do grupo Amigos
da União Soviética e que grande parte da sua fama
internacional se devia à protecção e promoção
do Embaixador em Washington, Fernando de los Rios (de quem fora
secretário) mas não é menos verdade que, por
alturas da Primavera de 36, de todos os proeminentes esquerdistas com
quem se dera no passado apenas Manuel Altolaguirre se relacionava com
ele .
Apesar de, pelas suas limitações de conhecimento e
entendimento, derivadas do tão habitual preconceito
maniqueísta anglo-saxónico, as considerar absurdas, são
múltiplas as homenagens públicas que diversas
publicações falangistas dedicam a Federico Garcia
Lorca, sobretudo na primavera de 37, mencionadas por Gibson no seu
estudo. La España imperial ha perdido su mejor poeta podia ler-se na primeira página do Arriba España de 3 de Abril de 1937! Com base nestes pressupostos, Eisenberg entende que uma possível
resposta à pergunta esteja numa aproximação de
Lorca à Falange, acelerada, eventualmente, pela sua
indignação face à tentativa de extermínio
do movimento político decidida pelo governo da Frente
Popular e que levou à prisão alguns seus amigos e
conhecidos. Federico, embora angustiado e assustado, decidiu arriscar
e refugiar-se em Granada, fugindo de Madrid e da mais que iminente
sublevação. Ou talvez tivesse pensado que, ganhasse
quem ganhasse, numa revolta que todos imaginavam que se iria decidir
em poucos dias, à maneira dos pronunciamentos antigos, estaria
lá mais imune às repressões e contra-repressões.
Quando a revolta
ocorreu, Granada tomou voz por ela e ficou isolada numa ilha rodeada
por um agitado mar frentepopulista. Na cidade, viveu-se então
um ambiente de conturbada acção revanchista, com os
sublevados a procurarem vingar os martírios e humilhações
por que haviam recentemente passado; no meio da confusão, não
poucos se aproveitaram para dar largas a vinganças e ódios
pessoais. Os simpatizantes dos sublevados, cercados em Granada, não
ficaram imunes a este jogo de intimidações e
represálias, até as tropas de Varela terem conseguido
penetrar na cidade e assumir o controlo da situação.
Mas Lorca contava com amigos de peso entre alguns simpatizantes dos
rebeldes: Joaquín Amigo, Manuel de Falla, José García
Carrillo e Martinez Nadal (embora este fosse mais um não
alinhado) eram seus amigos sinceros. Muitos sugerem-lhe que fuja para
o lado contrário, a pouca distância de Granada,
propondo-lhe mesmo ajuda para levar a cabo essa aventura mas Lorca
recusa, recusa sempre.
É um Federico
assustado e com os nervos em franja como se suspeitasse de alguma
perseguição que se refugia junto da família, na
Huerta de San Vicente, próximo de Granada. Quando um
bando armado revista a propriedade à procura de um caseiro
acusado de ser um assassino e petrolero, alguns dos elementos
dirigem-lhe impropérios e ameaças. Lorca, temendo
represálias de inimigos políticos e/ou pessoais,
resolve refugiar-se em casa do seu amigo Luís Rosales ,
também ele poeta e, ademais, simpatizante dos sublevados.
Apesar do alinhamento liberal do pai de Luís, na casa dos
Rosales funcionava o informal Quartel-general da Falange de Granada,
sendo um dos filhos, António, um dos mais antigos membros
locais e o seu chefe operacional.
Sem que se saiba até
hoje, com certeza, como se soube do seu paradeiro ,
aí o foram buscar três elementos da estrutura local da
C.E.D.A. -o ex-deputado Ramón Ruíz Alonso (a quem José
António Primo de Rivera ironicamente chamava o obrero
amaestrado), Juan Luis Trescastro e o secretario local Alix. Há
controvérsia sobre a resistência dos Rosales ;
nenhum membro masculino da família se encontrava presente em
casa mas quando avisados protestaram de tal forma que os direitistas
se viram obrigados a recorrer a um poder mais alto, no caso ao
responsável pelo Governo Civil – Valdés Guzmán,
que acabaria por confirmar a ordem de detenção para
averiguações. Ainda hoje é uma incógnita
porque é que António Rosales que, na altura tinha mais espingardas que Valdés, não se impôs tendo
mesmo um comportamento displicente e ausente quando o seu irmão
Luís foi obrigado a justificar-se por ter ajudado Federico.
Provavelmente, como no caso de tantos outros, talvez menos
conhecidos, nunca se saberá ao certo porque é que
Federico García Lorca foi morto. E não seria tão
tragicamente irónico, se ele tivesse sido, afinal, uma vítima
inocente apanhada no meio de uma luta pelo Poder entre os direitistas
da C.E.D.A. e os falangistas de Granada, como sustenta González
de Canales ,
citado por Molina Fajardo?
García Lorca,
apesar dos denodados esforços de alguns dos Rosales e de
outros amigos, seria fuzilado na madrugada de 17 de Agosto em Víznar,
juntamente com um professor primário esquerdista, dois
bandarilheiros anarquistas e dois pistoleiros frentepopulistas, Gadalí e El Cabezas. O pelotão de
execução foi constituído, ao que tudo indica,
pelos dois primeiros elementos da C.E.D.A. supracitados, por outros
voluntários civis e por pessoal dos Guardias de Asalto,
obrigados a essas tarefas como castigo por não terem aderido
ao Levantamento de forma clara e inequívoca.
Penso que dificilmente
se saberá quem deu a ordem de execução, se foi
Valdés Guzmán ou o próprio Gen. Queipo de Llano,
segundo consta, consultado logo após o restabelecimento das
ligações telefónicas com Sevilha. Em qualquer
dos casos, não é claro que para os militares a condição
de homossexual tivesse constituído, como hoje ainda se repete,
um factor agravante na arbitrária decisão de executar o
intelectual andaluz. Este, afinal, do ponto de vista político,
só depois de morto viu hiperbolizado o seu putativo
alinhamento ideológico que, até aí, havia sido
tão discreto e secundário na sua existência.
Salvador Dalí, seu amigo íntimo e confesso amante,
quando foi informado da morte do poeta berrou um sonoro Olé!.
Dalí realça que o tema da morte e sobretudo da estética
da morte era quase obsessivo em Federico que sobre ela falava e
criava febricitantemente, tendo sempre subjacente uma tentação
de abismo. O pintor manifesta em Les morts et moi, La
Parisienne, em Maio de 1954, a sua abalizada opinião sobre a
exploração da morte do grande poeta andaluz:
Os vermelhos, os
semi-vermelhos, os rosas e mesmo os malva pálido lucraram
seguramente com uma vergonhosa e demagógica propaganda sobre a
morte de Lorca, evidenciando uma ignóbil chantagem. Tentaram e
ainda tentam fazer dele um herói político. Mas eu, que
fui o seu melhor amigo, posso testemunhar perante Deus e perante a
História, que Lorca, poeta cem por cento puro, era
consubstancialmente o ser mais apolítico que jamais conheci.
Ele foi simplesmente a vítima propícia de questões
pessoais, ultrapessoais, locais, e sobretudo a presa inocente da
confusão omnipresente, convulsiva e cósmica da guerra
civil espanhola.
Como bem realça
Eisenberg, objectivamente, a notícia da execução
de Garcia Lorca, mais do que qualquer outro acontecimento da GCE, foi
o acender do rastilho no processo do generalizado alistamento
nas Brigadas Internacionais, por parte do esquerdismo sem fronteiras.
A cronologia ajusta-se que nem uma luva. A notícia da execução
é conhecida em Madrid, em Setembro, rapidamente difundida por
todo o mundo, e em Outubro gera-se a grande onda de inscrições
nas Brigadas Internacionais.
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(1) De entre os rios de tinta que têm corrido sobre o assunto,
ressaltam as mais variadas hipóteses: desde uma vendetta pelo rompimento de um compromisso de noivado, passando por um
apócrifo poemeto lido na Rádio de Madrid, atribuído
a Federico, que desancava nos leaders dos sublevados e cuja
iniciativa e autoria Peréz de Ayala atribui a Rafael Albertí,
passando pela raiva e ódio que as suas mordazes críticas
provocaram na sociedade bem de Granada, tudo se tem afirmado.
(2) Branqueando
o facto de a grande maioria deles se ter retirado prudentemente para
o estrangeiro (mesmo durante a Guerra). A mais conhecida excepção
foi a de Miguel Hernández.
(3) Merecem também referência destacada os trabalhos de
Luís Fernandéz Cifuentes (La verdad de la vida.
Gibson versus Lorca, 1988), Piero Menarini (Razões
verdadeiras e falsas para um fuzilamento: porquê Garcia
Lorca?, 1974) e Ronald Fraser (Staying at Home, 1989)
(4) Na cave do Café Lyon, na Alcalá, reuniam-se dois
grupos que cordialmente se digladiavam num amistoso e rival
convívio. Um era liderado pelo escritor progressista cristão
José Bergamín promotor da revista cultural Cruz y
Raya onde escreviam intelectuais dos dois grupos e o outro,
sucedâneo do que se criara no El café Europeo animado por Mourlane, pontificavam os falangistas. Segundo
testemunho do próprio, o esquerdista Bergamín chegou a
ser convidado pelo seu íntimo amigo Sánchez Mazas e
por José António para integrar a Falange.
(5) Segundo
testemunhará o seu amigo Luis Rosales, Federico, antes da sua
detenção/rapto, andava a reler as Cantigas de Alfonso,
o Sábio, bem como outros cancioneiros medievais, buscando
inspiração para compor um hino aos mortos da Falange.
(6) O facto de ser maçon não era propriamente um
obstáculo a ser um putativo simpatizante quer da Falange quer
da esperada sublevação. Basta lembrar que o Presidente
da Junta de Burgos, o Gen. Cabanellas o era assim como Ramon Franco
e alguns outros dos sublevados. Lorca há muito que se vinha
distanciando do Embaixador de los Rios e nos últimos tempos
antes do Levantamento era manifesto o seu desconforto e discordância
face à forma como a maioria dos intelectuais esquerdistas liam o momento político.
(7) Vide os números da revista Imperio da Falange de Toledo, de
Janeiro a Março de 1937, sobre Lorca.
(8) Prémio Cervantes, em 1982.
(9) Joaquim Namorado, no seu livro A Guerra Civil de Espanha na
poesia portuguesa - uma Antologia, manifestamente sectário,
deixa entrever a sua ignorância sobre o assunto ao dar a
entender que pensava que a casa de Los Rosales era uma
propriedade de Lorca e não a morada dos seus amigos
falangistas de apelido Rosales.
(10) Há quem diga que foi um deslize da sua irmã Concha,
outros pensam que foi António que, por razões
políticas ou pessoais, decidiu não o proteger. Ignacio
Olagüe pensa que foi o pai porque desconfiava de amores
ilícitos entre o seu filho Luís e Federico ou
eventualmente, entre o jovem Pepiniqui (José) e
Federico como se infere de testemunhos posteriores citados por
Gibson.
(11) Vide
El silêncio de los Rosales. Última huella de Federico
Garcia Lorca, Geraldo Rosales, Planeta, 2002.
(12) Marcelle Auclair, numa entrevista que deu ao Fígaro
Litteraire, em Abril de 1968, a propósito do seu livro Enfance et mort de García Lorca, afirma que o próprio
Luis Rosales lhe confidenciou partilhar a mesma tese. |