Ano I - Nº 6, Fevereiro de 2007
Alameda Digital
Política Cultural
Federico Garcia Lorca
Uma execução às avessas?

por J. Luís Andrade

No seio do meio intelectual de Espanha, um dos lugares de maior relevo cabe sem dúvida a Federico Garcia Lorca. Indubitavelmente um dos maiores poetas líricos do séc. XX, a morte de Lorca e nomeadamente as razões que a ela conduziram, permanece ainda envolta em mistério. O seu prestígio intelectual, a sua amizade com a gente menos retrógrada de díspares quadrantes políticos leva-nos a pensar que afinal Federico não foi imolado pelo que escreveu e disse como, no lado contrário, o seriam Ramiro de Maeztu, Muñoz Seca e muitos outros.

Mais do que qualquer outra, a trágica figura de García Lorca tem sido usada até à exaustão pela propaganda esquerdista como paradigma do que os franquistas fizeram aos intelectuais governamentais na GCE. Durante muito tempo, com o intuito de denegrir a imagem da Falange, difundiram e inculcaram a ideia de que Lorca havia sido executado por militantes daquele movimento. Uma infinidade de autores se tem debruçado sobre o tema do assassinato de Federico; quer historiadores especialistas da GCE quer críticos literários se têm ocupado, com maior ou menor profundidade, sobre o facto. Vila-San-Juan, Brenan, Auclair, Menarini, etc. são alguns dos principais mas foi o historiador socialista Ian Gibson, que num dos capítulos de seu livro Vida, pasión y muerte de Federico García Lorca, mais aprofundou os factos relacionados com a morte do poeta. Gibson, apesar de não esconder a sua polarização política, marcadamente anti-franquista, procurou investigar e registar de forma exaustiva todos os pormenores do facto. E, com a arrogância que normalmente nasce da ignorância, confundiu informação com conhecimento. Tendo subjacente uma matriz ideológica preconceituosa e maniqueísta, esta aliás muito comum em historiadores anglo-saxónicos, Gibson convenceu-se que tinha encerrado definitivamente o assunto. Mas a verdade é que ele não responde a um conjunto de interrogações pertinentes, havendo no seu estudo lacunas importantes e muitos factos que ele desconsidera por não lhe convirem e criarem embaraços à sua tese. Los últimos dias de Garcia Lorca de Eduardo Molina Fajardo, Plaza y Janes, 1983, supera em alguns pontos cruciais a investigação de Gibson. Inquestionavelmente incómoda para Gibson e tenazmente inquietante é a comunicação do Prof. Daniel Eisenberg, da Northern Arizona University, apresentada em 26 de Março de 1991, na reunião anual da Associação dos Hispanistas da Grã-Bretanha e Irlanda. Eisenberg, interroga-se porque é que Federico que segundo testemunhos andava deprimido, ansioso, aterrorizado mesmo, decidiu ir para Granada. Já a 11 de Julho, ele confidencia aos seus amigos que tencionava abalar para a sua terra. Agustin de Foxá aconselhou-o, por prudência, a ir para Biarritz. Outros tentaram igualmente dissuadi-lo mas ele retorquia sempre não sou inimigo de ninguém. O assassínio de Calvo Sotelo foi a gota de água; e apesar de ter em seu poder um bilhete para o México, de onde recebera um convite, o poeta decidiu-se de vez e afirmou: estes campos vão encher-se de mortos. Vou para Granada e seja o que Deus quiser...Mas, partindo do princípio de que a imagem de alinhado político de esquerda é verdadeira, porquê Granada cujas conservadoras e ignorantes elites ridicularizara e em que a Frente Popular fora derrotada na primeira volta das eleições, naquele que era um forte bastião da direita católica? Se Lorca era efectivamente um esquerdista engagé, ir para Granada era o mesmo que meter-se na boca do lobo. Eisenberg lança uma pista que Gibson descarta como absurda, pois é para ele inconcebível, tendo sempre subjacente como dogma o maniqueísmo fascismo-esquerdismo, que Lorca pudesse ser amigo e menos ainda simpatizante da causa da Falange de José António. A verdade, porém, é que apesar de próximo de alguns intelectuais da Frente Popular, o poeta era uma presença constante em tertúlias culturais de Madrid, onde tinha muitos amigos e sinceros admiradores, sobretudo entre os jovens intelectuais falangistas. Está comprovada a sua amizade com José António Primo de Rivera, Foxá, Santa Marina, Sánchez Mazas e tantos outros intelectuais da órbita falangista com quem confraternizava nas tertúlias da Ballena Alegre. Gabriel Celaya testemunhou que Lorca lhe confidenciou que, em 36, rara era a sexta-feira em que não jantava com José António. Na sua cegueira dogmática, Gibson jamais pode aceitar como verdade o facto de a Falange apresentar em todo o seu ideário um pensamento revolucionário, procurando afirmar-se como um partido da classe trabalhadora embora numa perspectiva de alternativa patriótica entre a aristocracia exploradora e o comunismo internacionalista. Esta é uma postura que agrada e coincide mesmo com a sensibilidade e preocupações sociais do poeta. É provável que no seu convívio com José António este lhe tenha confidenciado a sua desilusão com Mussolini e o cada vez maior distanciamento da Falange face ao fascismo.

É um facto que Lorca era membro de uma loja maçónica e do grupo Amigos da União Soviética e que grande parte da sua fama internacional se devia à protecção e promoção do Embaixador em Washington, Fernando de los Rios (de quem fora secretário) mas não é menos verdade que, por alturas da Primavera de 36, de todos os proeminentes esquerdistas com quem se dera no passado apenas Manuel Altolaguirre se relacionava com ele. Apesar de, pelas suas limitações de conhecimento e entendimento, derivadas do tão habitual preconceito maniqueísta anglo-saxónico, as considerar absurdas, são múltiplas as homenagens públicas que diversas publicações falangistas dedicam a Federico Garcia Lorca, sobretudo na primavera de 37, mencionadas por Gibson no seu estudo. La España imperial ha perdido su mejor poeta podia ler-se na primeira página do Arriba España de 3 de Abril de 1937! Com base nestes pressupostos, Eisenberg entende que uma possível resposta à pergunta esteja numa aproximação de Lorca à Falange, acelerada, eventualmente, pela sua indignação face à tentativa de extermínio do movimento político decidida pelo governo da Frente Popular e que levou à prisão alguns seus amigos e conhecidos. Federico, embora angustiado e assustado, decidiu arriscar e refugiar-se em Granada, fugindo de Madrid e da mais que iminente sublevação. Ou talvez tivesse pensado que, ganhasse quem ganhasse, numa revolta que todos imaginavam que se iria decidir em poucos dias, à maneira dos pronunciamentos antigos, estaria lá mais imune às repressões e contra-repressões.

Quando a revolta ocorreu, Granada tomou voz por ela e ficou isolada numa ilha rodeada por um agitado mar frentepopulista. Na cidade, viveu-se então um ambiente de conturbada acção revanchista, com os sublevados a procurarem vingar os martírios e humilhações por que haviam recentemente passado; no meio da confusão, não poucos se aproveitaram para dar largas a vinganças e ódios pessoais. Os simpatizantes dos sublevados, cercados em Granada, não ficaram imunes a este jogo de intimidações e represálias, até as tropas de Varela terem conseguido penetrar na cidade e assumir o controlo da situação. Mas Lorca contava com amigos de peso entre alguns simpatizantes dos rebeldes: Joaquín Amigo, Manuel de Falla, José García Carrillo e Martinez Nadal (embora este fosse mais um não alinhado) eram seus amigos sinceros. Muitos sugerem-lhe que fuja para o lado contrário, a pouca distância de Granada, propondo-lhe mesmo ajuda para levar a cabo essa aventura mas Lorca recusa, recusa sempre.

É um Federico assustado e com os nervos em franja como se suspeitasse de alguma perseguição que se refugia junto da família, na Huerta de San Vicente, próximo de Granada. Quando um bando armado revista a propriedade à procura de um caseiro acusado de ser um assassino e petrolero, alguns dos elementos dirigem-lhe impropérios e ameaças. Lorca, temendo represálias de inimigos políticos e/ou pessoais, resolve refugiar-se em casa do seu amigo Luís Rosales, também ele poeta e, ademais, simpatizante dos sublevados. Apesar do alinhamento liberal do pai de Luís, na casa dos Rosales funcionava o informal Quartel-general da Falange de Granada, sendo um dos filhos, António, um dos mais antigos membros locais e o seu chefe operacional.

Sem que se saiba até hoje, com certeza, como se soube do seu paradeiro, aí o foram buscar três elementos da estrutura local da C.E.D.A. -o ex-deputado Ramón Ruíz Alonso (a quem José António Primo de Rivera ironicamente chamava o obrero amaestrado), Juan Luis Trescastro e o secretario local Alix. Há controvérsia sobre a resistência dos Rosales; nenhum membro masculino da família se encontrava presente em casa mas quando avisados protestaram de tal forma que os direitistas se viram obrigados a recorrer a um poder mais alto, no caso ao responsável pelo Governo Civil – Valdés Guzmán, que acabaria por confirmar a ordem de detenção para averiguações. Ainda hoje é uma incógnita porque é que António Rosales que, na altura tinha mais espingardas que Valdés, não se impôs tendo mesmo um comportamento displicente e ausente quando o seu irmão Luís foi obrigado a justificar-se por ter ajudado Federico. Provavelmente, como no caso de tantos outros, talvez menos conhecidos, nunca se saberá ao certo porque é que Federico García Lorca foi morto. E não seria tão tragicamente irónico, se ele tivesse sido, afinal, uma vítima inocente apanhada no meio de uma luta pelo Poder entre os direitistas da C.E.D.A. e os falangistas de Granada, como sustenta González de Canales, citado por Molina Fajardo?

García Lorca, apesar dos denodados esforços de alguns dos Rosales e de outros amigos, seria fuzilado na madrugada de 17 de Agosto em Víznar, juntamente com um professor primário esquerdista, dois bandarilheiros anarquistas e dois pistoleiros frentepopulistas, Gadalí e El Cabezas. O pelotão de execução foi constituído, ao que tudo indica, pelos dois primeiros elementos da C.E.D.A. supracitados, por outros voluntários civis e por pessoal dos Guardias de Asalto, obrigados a essas tarefas como castigo por não terem aderido ao Levantamento de forma clara e inequívoca.

Penso que dificilmente se saberá quem deu a ordem de execução, se foi Valdés Guzmán ou o próprio Gen. Queipo de Llano, segundo consta, consultado logo após o restabelecimento das ligações telefónicas com Sevilha. Em qualquer dos casos, não é claro que para os militares a condição de homossexual tivesse constituído, como hoje ainda se repete, um factor agravante na arbitrária decisão de executar o intelectual andaluz. Este, afinal, do ponto de vista político, só depois de morto viu hiperbolizado o seu putativo alinhamento ideológico que, até aí, havia sido tão discreto e secundário na sua existência. Salvador Dalí, seu amigo íntimo e confesso amante, quando foi informado da morte do poeta berrou um sonoro Olé!. Dalí realça que o tema da morte e sobretudo da estética da morte era quase obsessivo em Federico que sobre ela falava e criava febricitantemente, tendo sempre subjacente uma tentação de abismo. O pintor manifesta em Les morts et moi, La Parisienne, em Maio de 1954, a sua abalizada opinião sobre a exploração da morte do grande poeta andaluz:

Os vermelhos, os semi-vermelhos, os rosas e mesmo os malva pálido lucraram seguramente com uma vergonhosa e demagógica propaganda sobre a morte de Lorca, evidenciando uma ignóbil chantagem. Tentaram e ainda tentam fazer dele um herói político. Mas eu, que fui o seu melhor amigo, posso testemunhar perante Deus e perante a História, que Lorca, poeta cem por cento puro, era consubstancialmente o ser mais apolítico que jamais conheci. Ele foi simplesmente a vítima propícia de questões pessoais, ultrapessoais, locais, e sobretudo a presa inocente da confusão omnipresente, convulsiva e cósmica da guerra civil espanhola.

Como bem realça Eisenberg, objectivamente, a notícia da execução de Garcia Lorca, mais do que qualquer outro acontecimento da GCE, foi o acender do rastilho no processo do generalizado alistamento nas Brigadas Internacionais, por parte do esquerdismo sem fronteiras. A cronologia ajusta-se que nem uma luva. A notícia da execução é conhecida em Madrid, em Setembro, rapidamente difundida por todo o mundo, e em Outubro gera-se a grande onda de inscrições nas Brigadas Internacionais.

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(1) De entre os rios de tinta que têm corrido sobre o assunto, ressaltam as mais variadas hipóteses: desde uma vendetta pelo rompimento de um compromisso de noivado, passando por um apócrifo poemeto lido na Rádio de Madrid, atribuído a Federico, que desancava nos leaders dos sublevados e cuja iniciativa e autoria Peréz de Ayala atribui a Rafael Albertí, passando pela raiva e ódio que as suas mordazes críticas provocaram na sociedade bem de Granada, tudo se tem afirmado.

(2) Branqueando o facto de a grande maioria deles se ter retirado prudentemente para o estrangeiro (mesmo durante a Guerra). A mais conhecida excepção foi a de Miguel Hernández.

(3) Merecem também referência destacada os trabalhos de Luís Fernandéz Cifuentes (La verdad de la vida. Gibson versus Lorca, 1988), Piero Menarini (Razões verdadeiras e falsas para um fuzilamento: porquê Garcia Lorca?, 1974) e Ronald Fraser (Staying at Home, 1989)

(4) Na cave do Café Lyon, na Alcalá, reuniam-se dois grupos que cordialmente se digladiavam num amistoso e rival convívio. Um era liderado pelo escritor progressista cristão José Bergamín promotor da revista cultural Cruz y Raya onde escreviam intelectuais dos dois grupos e o outro, sucedâneo do que se criara no El café Europeo animado por Mourlane, pontificavam os falangistas. Segundo testemunho do próprio, o esquerdista Bergamín chegou a ser convidado pelo seu íntimo amigo Sánchez Mazas e por José António para integrar a Falange.

(5) Segundo testemunhará o seu amigo Luis Rosales, Federico, antes da sua detenção/rapto, andava a reler as Cantigas de Alfonso, o Sábio, bem como outros cancioneiros medievais, buscando inspiração para compor um hino aos mortos da Falange.

(6) O facto de ser maçon não era propriamente um obstáculo a ser um putativo simpatizante quer da Falange quer da esperada sublevação. Basta lembrar que o Presidente da Junta de Burgos, o Gen. Cabanellas o era assim como Ramon Franco e alguns outros dos sublevados. Lorca há muito que se vinha distanciando do Embaixador de los Rios e nos últimos tempos antes do Levantamento era manifesto o seu desconforto e discordância face à forma como a maioria dos intelectuais esquerdistas liam o momento político.

(7) Vide os números da revista Imperio da Falange de Toledo, de Janeiro a Março de 1937, sobre Lorca.

(8) Prémio Cervantes, em 1982.

(9) Joaquim Namorado, no seu livro A Guerra Civil de Espanha na poesia portuguesa - uma Antologia, manifestamente sectário, deixa entrever a sua ignorância sobre o assunto ao dar a entender que pensava que a casa de Los Rosales era uma propriedade de Lorca e não a morada dos seus amigos falangistas de apelido Rosales.

(10) Há quem diga que foi um deslize da sua irmã Concha, outros pensam que foi António que, por razões políticas ou pessoais, decidiu não o proteger. Ignacio Olagüe pensa que foi o pai porque desconfiava de amores ilícitos entre o seu filho Luís e Federico ou eventualmente, entre o jovem Pepiniqui (José) e Federico como se infere de testemunhos posteriores citados por Gibson.

(11) Vide El silêncio de los Rosales. Última huella de Federico Garcia Lorca, Geraldo Rosales, Planeta, 2002.

(12) Marcelle Auclair, numa entrevista que deu ao Fígaro Litteraire, em Abril de 1968, a propósito do seu livro Enfance et mort de García Lorca, afirma que o próprio Luis Rosales lhe confidenciou partilhar a mesma tese.

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