Ano I - Nº 6, Fevereiro de 2007
Alameda Digital
Política Cultural
CRÓNICAS DE UM LUSITANO INTERIOR NA ÁLBION
God save the culture … or the Queen!

por Rafael Castela Santos

Para além das políticas culturais está a verdadeira cultura. Aquilo que nos dias de hoje se chama "política cultural" não passa na maior parte dos casos de uma instrumentalização da cultura mais ou menos encapotada. Ou da degradação, prostituição e destruição da mesma.

De um ponto de vista etimológico, cultura tem a ver com cultivar, com o campo. A família semântica da palavra cultura tem a ver com ruralidade. Daí que a verdadeira cultura, tanto popular como mais erudita, tenha necessidade de raízes. Não serve de muito promover concertos de música clássica se não existir um trabalho de base, sustentado com educação musical, que crie raízes e apetência por esses concertos. Por outro lado, a falta de raízes leva à incultura, à falta de saber. Os povos nómadas desenvolveram sempre menos cultura do que os povos agrícolas, justamente por possuirem estes últimos maior enraizamento.

Um dos fenómenos assinalados por autores como Innis ou Marshall McLuhan é a retribalização da sociedade moderna. McLuhan, um autêntico génio da teoria da comunicação, entende que a transição duma cultura literária baseada na escrita, a que ele chama "linear", para uma "kultura" moderna assente no espaço audio-icónico (por exemplo, a televisão ou o computador multimédia), a que ele chama "quente", nos leva a caminhar para um espaço tribal onde o audio volta a ser mais importante que o visual e o icónico/emotivo tem maior peso do que a letra impressa e a reflexão racional.

Ao longo desta transição tiveram lugar vários fenómenos e um deles foi a erosão cultural. Um discípulo de McLuhan, Neil Postman, no seu livro "Amusing ourselves to death" levantava a questão de se saber o que vai acontecer à cultura, em particular à cultura política, num meio como o dos nossos dias em que a hegemonia da televisão é incontestada e incontestável. Da mesma forma, importa saber se não é esta mesma transição, mas também a falta de raízes, em boa parte a causadora deste fenómeno de erosão cultural que verificamos. Seja como for, junte-se a tudo isto uma dose de veneno como é a actual queda a pique dos níveis educativos no Ocidente e poderemos ter como resultado final o retorno à barbárie.

Podemos fazer frente a este neobarbarismo que ameaça abanar os alicerces da civilização ocidental? No momento em que o poder político constatou que o homem civilizado é muito mais difícil de manipular e tende a reagir ao totalitarismo que a Besta ameaça impor-lhe, quando o poder conta com a ajuda inestimável da erosão cultural contínua em todos os estratos, provocado pelo baixo nível educacional imposto e forçado, como vamos acreditar que o poder político possa travar esta situação através duma "política educativa" ou "política cultural" adequada? Numa ordem já instalada mas ainda não consumada, de um neocapitalismo amoral que nos é imposto, a hegemonia cultural foi entregue à esquerda, a esse marxismo difuso que acaba por ser demolidor exactamente por ser determinista. Quando a ciência e a filosofia demonstraram à exaustão a impossibilidade do determinismo, fundamentando se há lugar para a liberdade pessoal a um nível ontológico, a política cultural é a todos os títulos sinistra (com duplo sentido, também no etimológico, de esquerda).

Nesta situação, a cultura converte-se numa comodidade mais, uma cinta imposta para diminuir a antiga contemplação (aquela que Aristóteles já assinalava como a mais elevada faculdade do ser humano), até um conceito moderno de puro ócio. Chamo-lhe moderno porque os romanos, mais próximos da hierarquia natural coroada por esta contemplação, chamavam otium ao oposto a nec-otium. Era a vida da ágora romana, da política, das artes e das letras, em oposto ao que era necessário fazer para ganhar a vida, o nec-otium latino, ou seja, o negócio. Hoje em dia, impera o economicismo cultural de dupla herança marxista e protestante, que transformou o negócio no centro, já não do trabalho humano, mas até do pensamento. Aquilo a que hoje chamamos ócio, já Ernst Jünger o mostrava, não é mais do que uma sucessão de sístole e diástole, um mero descansar para continuar a trabalhar. O escritor alemão chamava a atenção para um excelente livro sobre relógios e tempo, para a forma como se havia transformado o sentimento normal e natural do tempo, associado aos ritmos naturais do ano agrícola - no qual se inseria perfeitamente o ano litúrgico - num sentir mecânico, com o bater dum relógio mecânico, dum martelo e das sirenes das fábricas.

De facto esta divagação sobre a contemplação permite-nos voltar à etimologia da palavra cultura, que também tem a ver com culto, quer dizer, com o religioso. E novamente voltamos às políticas culturais heterogéneas do Ocidente, que são convergentes num ponto: na sua arreligiosidade. Por arreligiosidade deve entender-se que estamos um passo mais para além do que a mera irreligiosidade. É impossível uma cultura sem culto e, de facto, vivemos um tempo em que o culto feneceu. A auto-demolição da Igreja Católica, já denunciada por Paulo VI, levou à erradicação do culto e à sua substituição por um sucedâneo tão inculto como incapaz de ressurgir.

O fenómeno que aqui descrevemos é talvez mais perceptível em Inglaterra do que em qualquer outro lugar. Temos ainda podido viver nestes últimos 30 anos uma situação onde usos e formas pré-industriais conviviam com uma das mais pujantes sociedades do mundo em termos industriais. Porém, a sociedade inglesa como bem a observava Charles Dickens nos seus livros, já tem propensão para essa mistura de incultura, desenraizamento e mecanicismo que caracteriza a Revolução Industrial. A cultura pop, tão instalada no actual modelo social britânico, não passa de um desenvolvimento, digamos, lúdico. O lado visível do culto, que ainda se conserva em alguns estratos da Igreja Anglicana, praticamente desapareceu. Para mais, também desapareceu qualquer referência à vida rural inglesa. A altíssima mobilidade, a ruptura familiar e a circunstancialidade da vida britânica configuram um ambiente de elevado desenraizamento. Tal como Voegelin entendia a revolução puritana de Cromwell como a quintessência da Revolução, assim se poderia dizer que a ausência de cultura da actual sociedade britânica é o paradigma da incultura.

Em tempos áureos de verdadeira política cultural, o governo do bem comum deve começar pelos estratos mais baixos. Por cada um. Pela família. Pelos amigos. Para tal, será necessário ensaiar um retorno às raízes greco-romanas e judaico-cristãs que caracterizam a sociedade ocidental. A Palavra de Cristo é a consumação do Antigo Testamento e utiliza a filosofia helénica e as formas jurídicas, políticas e até linguísticas romanas, em que se encontra perfeitamente encarnada. Não existe nem existirá cultura sem um regresso ao culto, ao culto codificado por São Pio V, exemplo de uma ordem romana marcial, de serenidade e beleza sem par, olhando o Infinito e a Eternidade de Deus. Nesse culto, nessa raiz onde devemos procurar as bases da família, nuclear ou mais alargada - como agora se diz - e numa vida com uma componente litúrgica diária que transcenda o culto religioso (por exemplo, no código de encontro social intersexos, ou nos usos e costumes ritualizados da milícia), poderemos encontrar um renascer da cultura.

Por isso, dizemos que Deus salve a Cultura… e a Rainha! Ou, melhor dizendo, a cultura florescerá à volta do culto devido a Deus executado. Nesse sentido, a Monarquia é o que melhor representa, nas suas formas rituais, a cultura. É nela, na simbiose do Altar e do Trono, que melhor se nos afigura o mecenas e onde a Igreja Católica exerce o seu mais saudável exercício. As melhores políticas culturais assentam na Igreja Católica e no mecenas. Assim o dizem as provas históricas.

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