CRÓNICAS DE UM LUSITANO INTERIOR NA ÁLBION
God save the culture … or the Queen!
por Rafael
Castela Santos
Para
além das políticas culturais está a verdadeira
cultura. Aquilo que nos dias de hoje se chama "política
cultural" não passa na maior parte dos casos de uma
instrumentalização da cultura mais ou menos encapotada.
Ou da degradação, prostituição e
destruição da mesma.
De
um ponto de vista etimológico, cultura tem a ver com cultivar,
com o campo. A família semântica da palavra cultura tem
a ver com ruralidade. Daí que a verdadeira cultura, tanto
popular como mais erudita, tenha necessidade de raízes. Não
serve de muito promover concertos de música clássica se
não existir um trabalho de base, sustentado com educação
musical, que crie raízes e apetência por esses
concertos. Por outro lado, a falta de raízes leva à
incultura, à falta de saber. Os povos nómadas
desenvolveram sempre menos cultura do que os povos agrícolas,
justamente por possuirem estes últimos maior enraizamento.
Um
dos fenómenos assinalados por autores como Innis ou Marshall
McLuhan é a retribalização da sociedade moderna.
McLuhan, um autêntico génio da teoria da comunicação,
entende que a transição duma cultura literária
baseada na escrita, a que ele chama "linear", para uma
"kultura" moderna assente no espaço audio-icónico (por exemplo, a televisão ou o computador multimédia),
a que ele chama "quente", nos leva a caminhar para um
espaço tribal onde o audio volta a ser mais importante
que o visual e o icónico/emotivo tem maior peso do que
a letra impressa e a reflexão racional.
Ao
longo desta transição tiveram lugar vários
fenómenos e um deles foi a erosão cultural. Um
discípulo de McLuhan, Neil Postman, no seu livro "Amusing
ourselves to death" levantava a questão de se saber o
que vai acontecer à cultura, em particular à cultura
política, num meio como o dos nossos dias em que a
hegemonia da televisão é incontestada e incontestável.
Da mesma forma, importa saber se não é esta mesma
transição, mas também a falta de raízes,
em boa parte a causadora deste fenómeno de erosão
cultural que verificamos. Seja como for, junte-se a tudo isto uma
dose de veneno como é a actual queda a pique dos níveis
educativos no Ocidente e poderemos ter como resultado final o retorno
à barbárie.
Podemos
fazer frente a este neobarbarismo que ameaça abanar os
alicerces da civilização ocidental? No momento em que o
poder político constatou que o homem civilizado é muito
mais difícil de manipular e tende a reagir ao totalitarismo
que a Besta ameaça impor-lhe, quando o poder conta com a ajuda
inestimável da erosão cultural contínua em todos
os estratos, provocado pelo baixo nível educacional imposto e
forçado, como vamos acreditar que o poder político
possa travar esta situação através duma
"política educativa" ou "política
cultural" adequada? Numa ordem já instalada mas ainda não
consumada, de um neocapitalismo amoral que nos é imposto, a
hegemonia cultural foi entregue à esquerda, a esse marxismo
difuso que acaba por ser demolidor exactamente por ser determinista.
Quando a ciência e a filosofia demonstraram à exaustão
a impossibilidade do determinismo, fundamentando se há lugar
para a liberdade pessoal a um nível ontológico, a
política cultural é a todos os títulos sinistra
(com duplo sentido, também no etimológico, de
esquerda).
Nesta
situação, a cultura converte-se numa comodidade mais,
uma cinta imposta para diminuir a antiga contemplação
(aquela que Aristóteles já assinalava como a mais
elevada faculdade do ser humano), até um conceito moderno de
puro ócio. Chamo-lhe moderno porque os romanos, mais próximos
da hierarquia natural coroada por esta contemplação,
chamavam otium ao oposto a nec-otium. Era a vida da
ágora romana, da política, das artes e das letras, em
oposto ao que era necessário fazer para ganhar a vida, o nec-otium latino, ou seja, o negócio. Hoje em dia,
impera o economicismo cultural de dupla herança marxista e
protestante, que transformou o negócio no centro, já
não do trabalho humano, mas até do pensamento. Aquilo a
que hoje chamamos ócio, já Ernst Jünger o
mostrava, não é mais do que uma sucessão de
sístole e diástole, um mero descansar para continuar a
trabalhar. O escritor alemão chamava a atenção
para um excelente livro sobre relógios e tempo, para a forma
como se havia transformado o sentimento normal e natural do tempo,
associado aos ritmos naturais do ano agrícola - no qual se
inseria perfeitamente o ano litúrgico - num sentir mecânico,
com o bater dum relógio mecânico, dum martelo e das
sirenes das fábricas.
De
facto esta divagação sobre a contemplação
permite-nos voltar à etimologia da palavra cultura, que
também tem a ver com culto, quer dizer, com o religioso. E
novamente voltamos às políticas culturais heterogéneas
do Ocidente, que são convergentes num ponto: na sua arreligiosidade. Por arreligiosidade deve entender-se
que estamos um passo mais para além do que a mera irreligiosidade. É impossível uma cultura sem
culto e, de facto, vivemos um tempo em que o culto feneceu. A
auto-demolição da Igreja Católica, já
denunciada por Paulo VI, levou à erradicação do
culto e à sua substituição por um sucedâneo
tão inculto como incapaz de ressurgir.
O
fenómeno que aqui descrevemos é talvez mais perceptível
em Inglaterra do que em qualquer outro lugar. Temos ainda podido
viver nestes últimos 30 anos uma situação onde
usos e formas pré-industriais conviviam com uma das mais
pujantes sociedades do mundo em termos industriais. Porém, a
sociedade inglesa como bem a observava Charles Dickens nos seus
livros, já tem propensão para essa mistura de
incultura, desenraizamento e mecanicismo que caracteriza a Revolução
Industrial. A cultura pop, tão instalada no actual
modelo social britânico, não passa de um
desenvolvimento, digamos, lúdico. O lado visível do
culto, que ainda se conserva em alguns estratos da Igreja Anglicana,
praticamente desapareceu. Para mais, também desapareceu
qualquer referência à vida rural inglesa. A altíssima
mobilidade, a ruptura familiar e a circunstancialidade da vida
britânica configuram um ambiente de elevado desenraizamento.
Tal como Voegelin entendia a revolução puritana de
Cromwell como a quintessência da Revolução, assim
se poderia dizer que a ausência de cultura da actual sociedade
britânica é o paradigma da incultura.
Em
tempos áureos de verdadeira política cultural, o
governo do bem comum deve começar pelos estratos mais baixos.
Por cada um. Pela família. Pelos amigos. Para tal, será
necessário ensaiar um retorno às raízes
greco-romanas e judaico-cristãs que caracterizam a sociedade
ocidental. A Palavra de Cristo é a consumação do
Antigo Testamento e utiliza a filosofia helénica e as formas
jurídicas, políticas e até linguísticas
romanas, em que se encontra perfeitamente encarnada. Não
existe nem existirá cultura sem um regresso ao culto, ao culto
codificado por São Pio V, exemplo de uma ordem romana marcial,
de serenidade e beleza sem par, olhando o Infinito e a Eternidade de
Deus. Nesse culto, nessa raiz onde devemos procurar as bases da
família, nuclear ou mais alargada - como agora se diz - e numa
vida com uma componente litúrgica diária que transcenda
o culto religioso (por exemplo, no código de encontro social
intersexos, ou nos usos e costumes ritualizados da milícia),
poderemos encontrar um renascer da cultura.
Por
isso, dizemos que Deus salve a Cultura… e a Rainha! Ou, melhor
dizendo, a cultura florescerá à volta do culto devido a
Deus executado. Nesse sentido, a Monarquia é o que melhor
representa, nas suas formas rituais, a cultura. É nela, na
simbiose do Altar e do Trono, que melhor se nos afigura o mecenas e
onde a Igreja Católica exerce o seu mais saudável
exercício. As melhores políticas culturais assentam na
Igreja Católica e no mecenas. Assim o dizem as provas
históricas. |