Gramsci
e as políticas kulturais
por Pedro Guedes da Silva
Em
tese, a existência de políticas culturais a levar a cabo
pelo Estado sobretudo como forma de tentar incentivar a procura deste
tipo de indústrias – do cinema ao teatro, da música
aos livros – seria uma boa notícia não se desse o
facto, hoje pacífico, deste tipo de políticas serem na
actualidade nada mais do que a mera colocação em
prática das convicções em tempos propostas a
destino por Gramsci. Ou seja, para além do título que
ostentam, estas “políticas culturais” que hoje se lobrigam
por toda a Europa nada têm a ver com a Cultura que supostamente
deveriam servir, sendo antes a sua exacta negação. Na verdade,
falamos de uma espécie de política de “terra
queimada” que vira as costas à herança cultural
tradicional e ao património nacional, assentando o seu poder
na progressiva deseducação das gerações –
quando se não logra mesmo a sua desejada estupidificação.
Gramsci,
um comunista especialmente inteligente e que facilmente se
distinguia, também por isso, dos seus companheiros, defendia a
tese de que o poder efectivo havia de ser conquistado recolhendo os
frutos de um prolongado e persistente combate cultural. Para isso
haveriam os comunistas de, progressivamente, ocupar lugares de
destaque nas artes, nas academias, nos círculos intelectuais,
na imprensa e no mais que pudesse condicionar eficazmente a
percepção que o cidadão comum tem da realidade
que o rodeia. Com o passar dos anos, travestidos entretanto os
comunistas para que se pareçam com sociais-democratas de toda
uma vida, foi a esquerda europeia a tomar em mãos as acertadas
estratégias gramscianas.
Sabia
bem o italiano que não se consquista o poder sem anter ter
marcado posições de relevo na frente cultural -
qualquer tentativa de ignorar este simples facto estará,
inevitavelmente, condenada ao fracasso - marcando o ponto, dando o
mote para as agendas de cada momento, encaminhando os cidadãos
em determinado sentido. Dirá a kultura dominante que
falamos de métodos totalitários mas, queiram ou não,
é justamente isso que se passa hoje.
Justiça
lhes seja feita, o esquema foi muito bem montado e regista doses
elevadas de êxitos diversos, de que a recente vitória do
‘sim’ no referendo ao aborto será apenas um exemplo. A
direita liberal e permitida, quase sempre tão
predisposta a andar de braço-dado com a intelectualidade
reinante, havia de pensar um nadinha nestas minudências, tanto
mais que por via de regra acaba sempre a discutir alegremente as
mesmas agendas que à herança de Gramsci aproveitam. Já
devidamente preparadas a régua e esquadro pelas artes, pelo
teatro experimental e pelo cinema com rótulo de filme
de qualidade, aplaudidas pela imprensa de referência,
estão para rebentar as novas alíneas da agenda
política, sedimentando as linhas gerais da política kultural: as salas de chuto, os casamentos homossexuais, os
ataques à família e ao sentir patriótico, a
descristianização da sociedade, a promoção
de um individualismo acrítico que tudo questiona... sem que de
facto questione o que quer que seja. Tudo para se constituir em
negação da Cultura que supostamente deveria servir.
Fora
destes quadros aceites como bons para a paisagem cultural, o músico
que se lhes oponha não passará na rádio; o poeta
não será declamado; o escritor não será
editado; o encenador não terá nunca uma sala disponível
e o cineasta não conseguirá elenco. Permanecerão
numa espécie de “cultura de catacumbas”, perto dos seus
fiéis mas longe dos olhares indiscretos do grande público.
Todos serão, isso sim, kulturalmente vigiados para que
a super-estrutura permaneça intocável.
Nos
casos em que o mecanismo não funciona por si, entram em campo
os subsídios, esmolas caríssimas e pagas por todos nós
em nome da educação dos públicos que,
ainda assim, teimam em não comparecer nas salas de espectáculo
aplaudindo efusivamente os colectivos de arte. Recordam-se por
certo os leitores daquele episódio mais ou menos recente d’ A Comuna do Rivoli, quando uma série de artistas – no
sentido que lhes queiram dar – resolveram ocupar durante três
dias o afamado teatro portuense, reclamando querer viver à
custa do dinheiro administrado por Rui Rio.
A
verdade é que colocar em causa as teses de Gramsci não
é barato – os comunistas são aliás muito
fracos no que às ciências económicas respeita,
conforme a história se vai encarregando de provar. Ora
vejamos: segundo os dados tornados públicos, o funcionamento
do Teatro Rivoli tinha proveitos globais de 3.314.370 euros, dos
quais 2.794.502 (cerca de 85% do total) eram suportados por subsídios
camarários. As receitas de bilheteira, essas que demonstram a
adesão incondicional das massas, ficavam-se pelos 180 mil
euros, arredondando caridosamente para cima. Mesmo assim, com muita
caridade e muito pouco público, as contas finais apresentavam custos
na ordem dos 3.659.134 euros. Em resumo: um prejuízo de
344.764 euros, que também ajuda a perceber porque faliu –
literalmente - o comunismo. É uma espécie de kultura feita para o produtor.
Depois
há casos mais grotescos, ainda no domínio do teatro
experimental, que acumulam os subsídios a um maior
descaramento – posto que visam apenas ofender os pagantes (através
dos recorrentes subsídios à tal educação
dos públicos). Foi assim que por cá estreou, desta
feita no Teatro da Comuna (chama-se mesmo assim) em Lisboa, a peça
“Me Cago en Dios”, um vómito com autoria de Iñigo
Ramirez de Haro cujo esplendor artístico consistia em colocar
uma sanita em pleno palco, onde se deitavam Crucifixos, imagens de Nossa
Senhora de Fátima ou simbologia do Crescente Vermelho. O
sucesso terá sido idêntico ao que já se havia
registado em Madrid, onde a coisa estreou financiada pelo município
e pela Iberia.
Como
é evidente, a estratégia gramsciana é eficaz mas
necessita de um aliado tão relevante quanto dramático:
a deseducação, a ignorância e a boçalidade,
uma escola que não ensina – antes doutrina, também
ela, para a mediocridade, evitando transmitir o desejo de buscar, de
saber, de conhecer, de apurar os sentidos. Uma escola que debita meia
dúzia de frases feitas e de verdades absolutas, que ensina a
encontrar a Verdade em regime prêt-a-porter, seja na Wikipedia ou nas páginas d’ “O Código da
Vinci” e dos seus já incontáveis sucedâneos,
todos vendedores do mesmo confusionismo que é semente de
ignorância. Tudo o mais é relegado para os domínios
do distante e do incompreensível.
Haverá
saída num quadro destes? Talvez sim, é questão
de se tentar. Talvez começar pelo princípio, por
perceber o fenómeno que condiciona as sociedades europeias
contemporâneas, ajudando a desmontá-lo aqui e ali,
desmascarando-o quando possível, explicando-o aos mais novos,
mesmo se apenas para pequenos grupos de receptores interessados. E no
entretanto, ler Gramsci é capaz de ser um bom acompanhamento.
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