João
de Deus e a Sua Época
por Mário Casa-Nova Martins
O ano de 1830 foi um ano de todas as contradições,
igual a muitos outros que ocorreram ao longo do século XIX
português. Sem qualquer dificuldade pode-se afirmar que foi o
século mais ideológico de toda a história
portuguesa.
A Revolução Francesa, nos finais do século
XVIII, e as suas consequências políticas, económicas
e sociais começaram a sentir-se em Portugal logo nos inícios
de oitocentos. A posição portuguesa de aliança
com a Inglaterra vai colocar o país em situação
difícil que progressivamente se agrava, ao mesmo tempo que
Napoleão consolida o seu poder imperial pela Europa. O
Bloqueio Continental decretado pela França napoleónica,
cuja aplicação Portugal ia continuamente protelando,
irá dar origem às chamadas Invasões Francesas, à
concretização do projecto da partida da Família
Real para o Brasil e à posterior independência desse
Brasil, e o consequente desmembramento do todo nacional.
A Europa desta época acabava de sofrer uma tentativa de
homogeneização política com Napoleão. A
última experiência podia atribuir-se a Carlos Magno com
o seu Sacro Império Romano e Germânico. Foi um período
traumático para os Povos e Estados que sofreram a guerra, ao
ponto de em alguns deles existirem guerras civis, sempre mais
sanguinárias e de cicatrização mais morosa.
Por todo este conjunto de factos, importa agora equacionar alguns
elementos que se revelaram importantes para o comportamento político
nacional. O fim do Antigo Regime com a Revolução
Francesa, cujas ideias vinham sendo desenvolvidas principalmente na
segunda metade do século XVII com os Enciclopedistas, Diderot,
d’ Alembert, Lagrange ou Turgot, transformaram a Europa num campo
de destruição e morte. As duas principais potências
de então eram a França e a Inglaterra. A primeira
representava, em termos geoestratégicos, a potência
continental e a segunda a potência marítima. No xadrez
europeu a Alemanha estava dividida em Estados que só mais
tarde com Bismarck se unificariam, enquanto a Rússia iniciava
uma lenta abertura a ocidente. A Áustria, sempre com problemas
nas suas fronteiras, com Metternich, líder da Santa Aliança,
era a retaguarda da contra-revolução. E a Espanha, ora
ao lado de Napoleão, ora em oposição, sempre com
o iberismo como objectivo da sua política externa, de acordo
com a situação se apresentasse mais ou menos favorável
desferia ataques de todo o tipo contra Portugal, como é
exemplo a chamada Guerra das Laranjeiras, de que resultou a ocupação
de Olivença, nunca restituída, mesmo obrigada a tal
pelo Tratado de Viena.
Em Portugal, a estada da Família Real no Brasil, levou a um
exacerbado sentimento de independência de alguns colonos que
influenciando o mais que influenciável Príncipe D.
Pedro de Bragança conduzem à independência
daquela colónia, resultando desse acontecimento factores de
grande instabilidade emocional para a Nação. A
obrigação de D. João VI jurar a Carta
Constitucional, quando do regresso da Família Real a Lisboa,
leva a que a Nação se divida em duas partes que se
tornaram inconciliáveis, enfraquecendo-a. O Infante D. Miguel
encarnando o que de mais autêntico eram os costumes e a
tradição do Povo, representava o sentir desse mesmo
Povo e dessa crença que tinha construído e levado
Portugal ao Mundo. Era o líder da contra-revolução,
o porta-estandarte do Portugal Antigo que agonizava.
Em 1830 Portugal estava em plena Guerra Civil. Os tradicionalistas
tinham dois anos antes, em 11 de Julho de 1828, proclamado Rei o
Infante D. Miguel em Cortes, acto legítimo perante a tradição,
onde estiveram representados os três estados. O miguelismo
caracterizou-se por ser fortemente nacionalista e, por esse facto,
anti-britânico. E foram estes os aspectos que determinaram o
seu fim. A pérfida Albion vai por todos os meios tentar
restaurar o constitucionalismo, como forma de retomar a influência
perdida sobre Portugal para as potências europeias, e vai
servir-se de D. Pedro, Imperador do Brasil, que para tal irá
abdicar em favor do filho, D. Pedro II do Brasil em 7 de Abril de
1831.
Na Europa 1830 foi o ano em que a opinião pública, por
obra de insurreições populares, se alterou no sentido
contrário ao reconhecimento da realeza de D. Miguel. Em França
Carlos X abdica e é instaurada a monarquia burguesa de Luís
Filipe, em Inglaterra um tumulto de rua faz cair o governo
conservador de Wellington que é substituído pelo
liberal Grey, a Bélgica torna-se independente, a Rússia
concede uma Constituição à Polónia. É
a Santa Aliança a desmoronar-se e o liberalismo burguês
a vencer na Europa.
*
Se o início do século XIX foi marcado pelo advento do
liberalismo e do constitucionalismo, o fim deste tormentoso século
marca a divulgação do ideário socialista e
republicano. Proudhon, Marx e Engels e as diferentes formas de
socialismo são difundidas e estudadas, enquanto a ideia
republicana começa a contabilizar adesões.
O Brasil, que tanto marcou o debate nacional nos inícios de
oitocentos é desde 15 de Novembro de 1889 uma República.
Noutros países europeus esta experiência está ou
em gestação, ou em consolidação. Por
outro lado, a classe trabalhadora vai progressivamente tomando
consciência da sua importância na economia e aumentam as
reivindicações laborais, em conjunto com as greves. A
mulher começa a querer desempenhar um papel mais interveniente
na sociedade e luta para adquirir os seus direitos cívicos e
sociais. E o fenómeno do anarquismo assume por essa Europa
fora proporções imensas, multiplicando-se as acções
violentas contra pessoas e bens.
Em Portugal as doutrinas socialistas e republicana têm os seus
adeptos e divulgadores principalmente nos meios universitários
e na nova classe média que surge com a nova revolução
industrial. O ateísmo e o anti-clericalismo, ambos muito em
moda, e muito ligados às novas ideias racionalistas, atingem
situações de alguma violência. E em 11 de Janeiro
de 1890 o Ultimato inglês, qual chaga profunda na alma
portuguesa, prenuncia a queda da monarquia constitucional.
Toda esta miscelânea de acontecimentos políticos
económicos, intelectuais e religiosos marcam este fim de
século português. Os governos sucediam-se, e o
gravíssimo problema das finanças públicas não
só se arrastava motivado pela inexistência de governos
estáveis como pela falta de coragem política para tomar
as medidas fundamentais e saneadoras da economia, e cujo exemplo mais
significativo foi a meteórica passagem de Oliveira Martins
pela pasta das finanças. Os credores internacionais, cada vez
mais impacientes, sugavam o exaurido tesouro nacional, apoiados pelos
respectivos governos.
O Rei, procurando sempre situar-se dentro dos limites constitucionais
marcados pela Carta, era o centro de toda a calúnia e de todas
as culpas. Mas a verdade é que o modelo de rotativismo
bipartidário, que umas vezes menos bem, outras mais mal, geriu
os destinos do País durante o Segundo Liberalismo estava
esgotado. De facto o que acontecia é que como consequência
indirecta do Ultimato, a alternativa ao sistema político do
rotativismo não era o ensaio de outra forma de
parlamentarismo, mas sim a alternativa ao regime monárquico
que se consubstanciava no regime republicano. Qualquer incidente
protocolar, político ou qualquer rixa popular era o motivo ou
o pretexto para desproporcionados ataques ao governo, que se
confundiam com a condenação do regime.
É por esta altura que o braço armado do Partido
Republicano, a Carbonária, começa a lançar os
seus ataques. Essencialmente popular, anticlerical e revolucionária,
era uma milícia muito combativa por cujos crimes nunca foi
responsabilizada. Também o movimento anarquista encontra
terreno fértil para desenvolver a sua propaganda e as suas
actividades junto das massas trabalhadores e de um certo
proletariado, usando a nomenclatura marxista, que se ia constituindo
junto das periferias urbanas de algumas cidades do litoral com um
certo grau de industrialização. Em paralelo os
socialistas advogavam a união ibérica, tal como alguns
teóricos republicanos e outros monárquicos
progressistas. Os defensores do Trono e do Altar, vencidos em 1834,
estavam no exílio ou expropriados, mas sempre vigiados pelos
vencedores do Mindelo, e os chamados monárquicos
constitucionais preocupados com as honrarias, longe do Povo que
diziam defender e representar, simbolizavam uma monarquia sem
monárquicos.
Esquecida pelos políticos, mas não pelo Povo, a afronta
do Ultimato, altura em que Portugal recebeu apenas mostras de
solidariedade de outros países europeus que receando
represálias da potência inglesa recusavam envolver-se
demasiado, com a assinatura do Tratado Anglo-Luso de 28 de Maio de
1891, a Inglaterra continuava a manobrar os seus peões
anglófilos de acordo com os interesses políticos,
económicos e estratégicos no País. Nem os
casamentos reais nas Casas de Itália e de França
conseguiram ou permitiram uma ligeira liberdade em relação
à sufocante Inglaterra vitoriana.
Porém, era em África que Portugal se encontrava com o
seu Passado. Depois da partilha de África, realizada a metro e
a esquadro, esquecendo as divisões étnicas dos
autóctones, consignada na Conferência de Berlim de 1884,
era o tempo dos portugueses consolidarem as novas fronteiras e de
estabelecerem novos tratados de amizade e alianças com os
poderes locais. E das lutas gloriosas aí travadas ressalta a
prisão de Gungunhana em Chaimite por Afonso de Albuquerque, em
29 de Dezembro de 1895.
*
E é nos inícios de 1896, a 11 de Janeiro em Lisboa,
seis anos após o Ultimato, que morre João de Deus. João
de Deus de Nogueira Ramos tinha nascido em São Bartolomeu de
Messines a 8 de Março de 1830. Licenciado em Direito pela
Universidade de Coimbra, foi jornalista, poeta e pedagogo. Como poeta
é considerado um lírico, como pedagogo lutou contra o
analfabetismo. A sua obra, cento e dez anos após a sua morte
ainda é um marco de cultura no Universalismo da Língua
Portuguesa.
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