Ano I - Nº 6, Fevereiro de 2007
Alameda Digital
Política Cultural

Mar Português

por José Valle de Figueiredo

Sendo a «Mensagem» um Poema que o Autor quis publicar no dia Primeiro de Dezembro, com toda a carga simbólica nacional que a data encerra, também é uma Obra em que se exalta, no propósito expresso do Poeta, «a fraternidade com todos os homens».

Simultaneamente nacional e universalista, a «Mensagem» – a que chamei Poema por tratar – se de uma unidade perfeita de composições integradas na mesma arquitectura – estando para denominar-se « Portugal » é, entretanto, portadora de um anúncio de fraternidade universal.

Sendo uma «criação» (Poiésis) de Portugalidade, ao instituir-se como uni-verso, constrói-se como Poema, «sem fim», orientado para o Mundo em Expansão, ou para a Expansão do e no Mundo, e afecta-se da mais profunda e universal Fraternidade.

Como nos explica Jaime Cortesão, «o grande feito e glória dos Portugueses foi ter dado o primeiro grande passo para a unificação da Humanidade». A História de Portugal «entranha num sentido ecuménico», acrescenta o Poeta e Historiador, que, entretanto, nos esclarece: «quanto mais buscamos as raízes do Português, tanto na essência do nacional descobrimos o Universal».

«Tudo pela Humanidade; nada contra a «Nação», foi o «lema» que o próprio Fernando Pessoa elegeu como «guia» na «Nota Biográfica» que redigiu.

A «Mensagem» divide-se em três «partes» ou «épocas»: «Brazão», «Mar Português» e «O Encoberto». Correspondem respectivamente, à Idade do Pai (Os Fundadores da Nação Portuguesa), à Idade do Filho (os que, recolhendo a Herança, a dilataram pelos Mares e Continentes, descobrindo o Mundo) e à Idade do Espírito (o que há–de-vir), a Idade da Terceira Pessoa, a Idade da Fraternidade, a que se acede pela dilatação proporcionada pelo Caminho do Mar, « que não tem tempo ou « espaço», o «mar universal» (« e a Saudade»), conquistando-se a «Distância» com a «Ousadia da mão que desvendou».

O poeta morreu em trinta de Novembro de 1935. Publicou a «Mensagem» em 1934. Conhecida por um pequeno número de escolhidos, a sua Obra estava muito longe do reconhecimento público que viria a alcançar. Muito poucos tinham a percepção e entendimento da sua real validade, até porque a sua Poesia (e Prosa) permanecia inédita, na sua maior parte.

Cerca de um ano após a sua morte e bem longe da Capital portuguesa, onde germinava o restrito círculo dos seus amigos e admiradores, o único livro que Fernando Pessoa publicou em vida vai ter eco sonoro na longínqua terra de Macau numa edição assinalável e singular.

«Edição gratuita oferecida aos alunos de Macau em vinte e oito de Maio de mil novecentos e noventa e seis, ano X da Revolução Nacional», ela dá-nos a segunda parte da «Mensagem» – «Mar Português» – num grafismo de extraordinária beleza e de expressivo vanguardismo, os quais, diga-se de passagem, não encontram paralelo em nenhuma das edições posteriores do poeta.

«O Mar Português» divide-se em doze poemas (cinco+sete). Como escreveu Antonio Quadros, a «simbólica deste número» é «muito rica»: «é um número de eleição, o número do Povo de Deus, (…) o s 12 fundamentos da Cidade do futuro, em ouro fino, o número do ciclo completo do cumprimento, que por isso é o número dos Cavaleiros do Rei Artur, que hão-de encontrar o Graal perdido».

(…)

Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unir, já não separasse,

(…)

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

(…)

(« O Infante »)

o que se descreve em «Mar Português» é, primeiro, a epifania oceânica do novo povo eleito, depois, a sua perdição na noite e na tormenta, e, enfim, a sua prece a Deus, para o ressurgimento ou a reconquista da «Distância», símbolo que se eleva desde o sentido literal, de distância geográfica para a Ásia e as Américas, até ao sentido analógico, de distância para o mistério do «Absoluto ou Divino».

Vejamos, agora, as características desta edição singular.

Importa referir, essencialmente, as diferenças entre esta publicação e as outras edições da «Mensagem»: os primeiro, segundo, e terceiro poemas do «Mar Português» são iguais. O quarto designa-se aqui «O Morcego», diferente do celebradíssimo «O Mostrengo». O quinto é igual. O sexto tem, nesta edição de Macau, a designação de «Ironia». E, nas outras, «Os Colombos», sendo, além do mais, os textos muito diferentes. O sétimo tem aqui o nome de «Os Descobrimentos do Ocidente» e nos outros, simplesmente «Ocidente». O oitavo é a «Dança dos Titans», tendo nos outros o título de «Fernão Magalhães».

Os restantes poemas são iguais.

Não conseguimos apurar a razão das divergências apontadas nem como esta versão de «Mar Português» – que, aliás, em todas as edições, excepto nesta de Macau, principia com a legenda «Possessio Maris» – chegou a Macau.

De qualquer modo, importara registar esta edição, assinalando-a no quadro da bibliografia pessoana com a sua relevantíssima singularidade.

«Mar Português» é, no quadro da decifração da «Mensagem», a expressão da «Época» ou Idade do Filho, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

Se se entender a História de Portugal como o desenvolvimento temporal e colectivo da vivência das três virtudes teologais – Fé, Esperança, Caridade – à segunda Pessoa, ao Filho, corresponderá a virtude da Esperança.

Que foi o Sebastianismo, aqui anunciando no poema «A última Nau», senão a ardente vivência pela Nação Portuguesa do valor ou virtude de Espera ou Esperança?

«Levando a bordo El-Rei D. Sebastião», navegando no «Mar Português» (onde Deus « espelhou o céu») o Poeta já vê, «entre a cerração», o «vulto baço/que torna». Não sabe a «hora» mas sabe «que há a hora» – a Hora que des-encobrirá o (nosso) destino.

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(1) “Os Factores Democráticos na Formação de Portugal”, pg. 8, Portugália Editora, Lisboa, 1964.

(2) “Páginas sobre Literatura e Estética”(Obra em Prosa de Fernando Pessoa). Organização, Introdução, Notas e Bibliografia de António Quadros, Ed. Europa América, Lisboa, 1986.

(3) Ver neste número da Alameda Digital o artigo de Carlos Bobone sobre O Mito do Génio Incompreendido e a sua Função Política.

(4) Edições “Propaganda Cultural”, número primeiro. Refira-se que o número dois destas edições, também de 1936 e dedicada aos alunos das escolas de Macau é uma antologia de Camões em português, inglês e chinês, com uma breve nota introdutória, infelizmente não assinada. Em 1959 o Governo de Macau mandou publicar, “para distribuição aos alunos do Liceu Nacional Infante D. Henriques” uma versão integral da “ Mensagem”, reproduzindo a primeira edição.

(5) António Quadros in “A Ideia de Portugal na Literatura Portuguesa dos últimos 100 anos”, pg 166. Ed. Fundação Lusíada, Lisboa, 1989.

(6) António Quadros, op. cit., pg. 166c

(7) A edição que possuo faz parte de uma série especial e tem o número 185. Estava no espólio de meu Pai, que esteve em Macau nos anos 30-40.

   
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