Mar Português
por José Valle de Figueiredo
Sendo a «Mensagem» um Poema que o Autor quis publicar no
dia Primeiro de Dezembro, com toda a carga simbólica nacional
que a data encerra, também é uma Obra em que se exalta,
no propósito expresso do Poeta, «a fraternidade com
todos os homens».
Simultaneamente nacional e universalista, a «Mensagem» –
a que chamei Poema por tratar – se de uma unidade perfeita de
composições integradas na mesma arquitectura –
estando para denominar-se « Portugal » é,
entretanto, portadora de um anúncio de fraternidade universal.
Sendo uma «criação» (Poiésis) de
Portugalidade, ao instituir-se como uni-verso,
constrói-se como Poema, «sem fim», orientado para
o Mundo em Expansão, ou para a Expansão do e no Mundo,
e afecta-se da mais profunda e universal Fraternidade.
Como nos explica Jaime Cortesão, «o grande feito e
glória dos Portugueses foi ter dado o primeiro grande passo
para a unificação da Humanidade». A História
de Portugal «entranha num sentido ecuménico»,
acrescenta o Poeta e Historiador, que, entretanto, nos esclarece:
«quanto mais buscamos as raízes do Português,
tanto na essência do nacional descobrimos o Universal» .
«Tudo pela Humanidade; nada contra a «Nação»,
foi o «lema» que o próprio Fernando Pessoa elegeu
como «guia» na «Nota Biográfica» que
redigiu .
A «Mensagem» divide-se em três «partes»
ou «épocas»: «Brazão»,
«Mar Português» e «O Encoberto».
Correspondem respectivamente, à Idade do Pai (Os
Fundadores da Nação Portuguesa), à Idade do
Filho (os que, recolhendo a Herança, a dilataram pelos
Mares e Continentes, descobrindo o Mundo) e à Idade do
Espírito (o que há–de-vir), a Idade da Terceira
Pessoa, a Idade da Fraternidade, a que se acede pela dilatação
proporcionada pelo Caminho do Mar, « que não tem tempo
ou « espaço», o «mar universal» («
e a Saudade»), conquistando-se a «Distância»
com a «Ousadia da mão que desvendou».
O poeta morreu em trinta de Novembro de 1935. Publicou a «Mensagem»
em 1934. Conhecida por um pequeno número de escolhidos, a sua
Obra estava muito longe do reconhecimento público que viria a alcançar. Muito poucos tinham a percepção
e entendimento da sua real validade, até porque a sua Poesia
(e Prosa) permanecia inédita, na sua maior parte.
Cerca de um ano após a sua morte e bem longe da Capital
portuguesa, onde germinava o restrito círculo dos seus amigos e
admiradores, o único livro que Fernando Pessoa publicou em
vida vai ter eco sonoro na longínqua terra de Macau numa
edição assinalável e singular.
«Edição gratuita oferecida aos alunos de Macau em
vinte e oito de Maio de mil novecentos e noventa e seis, ano X da
Revolução Nacional», ela dá-nos a segunda
parte da «Mensagem» – «Mar Português»
– num grafismo de extraordinária beleza e de expressivo
vanguardismo, os quais, diga-se de passagem, não encontram
paralelo em nenhuma das edições posteriores do poeta .
«O Mar Português» divide-se em doze poemas
(cinco+sete). Como escreveu Antonio Quadros, a «simbólica
deste número» é «muito rica»: «é
um número de eleição, o número do Povo de
Deus, (…) o s 12 fundamentos da Cidade do futuro, em ouro fino, o
número do ciclo completo do cumprimento, que por isso é
o número dos Cavaleiros do Rei Artur, que hão-de
encontrar o Graal perdido» .
(…)
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unir, já não separasse,
(…)
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
(…)
(« O
Infante »)
o que se descreve em «Mar Português» é,
primeiro, a epifania oceânica do novo povo eleito, depois, a
sua perdição na noite e na tormenta, e, enfim, a sua
prece a Deus, para o ressurgimento ou a reconquista da «Distância»,
símbolo que se eleva desde o sentido literal, de distância
geográfica para a Ásia e as Américas, até
ao sentido analógico, de distância para o mistério
do «Absoluto ou Divino» .
Vejamos, agora, as características desta edição
singular.
Importa referir, essencialmente, as diferenças entre esta
publicação e as outras edições da
«Mensagem»: os primeiro, segundo, e terceiro poemas do
«Mar Português» são iguais. O quarto
designa-se aqui «O Morcego», diferente do celebradíssimo
«O Mostrengo». O quinto é igual. O sexto tem,
nesta edição de Macau, a designação de
«Ironia». E, nas outras, «Os Colombos»,
sendo, além do mais, os textos muito diferentes. O sétimo
tem aqui o nome de «Os Descobrimentos do Ocidente» e nos
outros, simplesmente «Ocidente». O oitavo é a
«Dança dos Titans», tendo nos outros o título
de «Fernão Magalhães».
Os restantes poemas são iguais.
Não conseguimos apurar a razão das divergências
apontadas nem como esta versão de «Mar Português»
– que, aliás, em todas as edições, excepto
nesta de Macau, principia com a legenda «Possessio Maris»
– chegou a Macau .
De qualquer modo, importara registar esta edição,
assinalando-a no quadro da bibliografia pessoana com a sua
relevantíssima singularidade.
«Mar Português» é, no quadro da decifração
da «Mensagem», a expressão da «Época»
ou Idade do Filho, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade.
Se se entender a História de Portugal como o desenvolvimento
temporal e colectivo da vivência das três virtudes
teologais – Fé, Esperança, Caridade – à
segunda Pessoa, ao Filho, corresponderá a virtude da
Esperança.
Que foi o Sebastianismo, aqui anunciando no poema «A última
Nau», senão a ardente vivência pela Nação
Portuguesa do valor ou virtude de Espera ou Esperança?
«Levando a bordo El-Rei D. Sebastião», navegando
no «Mar Português» (onde Deus « espelhou o
céu») o Poeta já vê, «entre a
cerração», o «vulto baço/que torna».
Não sabe a «hora» mas sabe «que há a
hora» – a Hora que des-encobrirá o (nosso) destino.
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(1) “Os Factores Democráticos na Formação de
Portugal”, pg. 8, Portugália Editora, Lisboa, 1964.
(2) “Páginas sobre Literatura e Estética”(Obra em
Prosa de Fernando Pessoa). Organização, Introdução,
Notas e Bibliografia de António Quadros, Ed. Europa América,
Lisboa, 1986.
(3) Ver neste número da Alameda Digital o artigo de Carlos Bobone
sobre O Mito do Génio Incompreendido e a sua Função
Política.
(4) Edições “Propaganda Cultural”, número
primeiro. Refira-se que o número dois destas edições,
também de 1936 e dedicada aos alunos das escolas de Macau é
uma antologia de Camões em português, inglês e
chinês, com uma breve nota introdutória, infelizmente
não assinada. Em 1959 o Governo de Macau mandou publicar,
“para distribuição aos alunos do Liceu Nacional
Infante D. Henriques” uma versão integral da “ Mensagem”,
reproduzindo a primeira edição.
(5) António Quadros in “A Ideia de Portugal na Literatura
Portuguesa dos últimos 100 anos”, pg 166. Ed. Fundação
Lusíada, Lisboa, 1989.
(6) António Quadros, op. cit., pg. 166c
(7) A edição que possuo faz parte de uma série
especial e tem o número 185. Estava no espólio de meu
Pai, que esteve em Macau nos anos 30-40. |