O Mito do Génio
Incompreendido e a Sua Função Política
por Carlos Bobone
Os intelectuais vivem
espiritualmente confinados em pequenos círculos de artistas e
literatos que se tomam a si mesmos por objectos de veneração,
conferindo desmesurada importância aos mínimos
pensamentos, gestos e actos dos seus membros. Como todas as
sociedades tribais, também estes grupos cultivam as suas
lendas, os seus mitos, as suas gestas heróicas, transferindo a
realidade para uma série de arquétipos e estereótipos,
que servem o propósito de colocar a tribo e a sua gloriosa
história no centro do universo.
Um dos mais mais
persistentes mitos que encontramos nos meios intelectuais de todos os
países é o do génio incompreendido. Tão
divulgado ele se encontra que quase se tornou uma condição
prévia para o reconhecimento da qualidade de génio.
Todo aquele que aspira à grandeza deve incluir na sua
biografia um período de luta contra o desinteresse, a
indiferença, a insensibilidade dos seus contemporâneos.
Uma comunidade intelectual que não tenha o seu génio
engrandecido pelo combate contra a incompreensão, vê-se
forçada a produzi-lo, a retirá-lo da realidade e
fazê-lo entrar na lenda, coberto com os padrões da
heroicidade genial, ou seja, com o desprezo e talvez mesmo o escárnio
dos que o conheceram.
Um país rico em
talentos literários, como Portugal, não poderia
dispensar-se de criar as condições necessárias
ao enaltecimento dos seus grandes valores, em especial dos que se
destacaram no panorama da modernidade. Graças a isso
encontramo-nos na situação de poder acompanhar a
criação de uma lenda cultural em tempos recentes,
verificando o papel que esta exerce nas relações entre
os “produtores de cultura” e o poder.
Em 1934 o maior poeta
português do século XX concorreu a um prémio
literário instituído pelo Secretariado Nacional de
Informação (SNI), órgão de propaganda do
Estado Novo. Apresentou a concurso o poema “Mensagem”, obra que
não preenchia os requisitos formais para ser premiada.
Faltava-lhe pouco para chegar às cem páginas, volume
mínimo exigido pelo regulamento do concurso. Verificada a alta
qualidade do poema, e também a impossibilidade de lhe ser
atribuído o prémio, a direcção do SNI
tomou a iniciativa de criar um novo prémio, do mesmo valor,
para premiar a obra de Fernando Pessoa. Assim nasceu o prémio
Antero de Quental, com o fim de galardoar uma obra que não se
tinha candidatado a ele. Uma decisão extraordinário
premiou uma obra excepcional. Raro exemplo de reconhecimento imediato
de um talento vanguardista, com poucos precedentes conhecidos nos
anais da literatura, deveria ter ficado esta história gravada
nos compêndios, como prova de que o poder político pode
ter discernimento bastante para apoiar uma grande obra antes do seu
reconhecimento público.
Mas o que se passou
neste caso foi demasiado atípico para que a consciência
da intelectualidade portuguesa pudesse absorvê-lo e
interpretá-lo em tudo o que teve de original: O órgão
de propaganda de um regime autoritário reconhece e premeia a
primeira obra de um grande poeta, alterando as condições
de um concurso e atribuindo-lhe uma distinção a que ele
não concorrera. Há aqui demasiadas impurezas para o
filtro ideológico dos literatos portugueses. Em poucas décadas
a lenda apoderou-se deste episódio, dispondo-o em lugar
honroso na biografia do poeta, mas reinterpretando-o segundo as
convenções. A versão que vingou, largamente
difundida por todos os círculos que veneram a memória
do grande escritor, foi esta: Fernando Pessoa concorrera ao prémio
literário do SNI e os membros do júri, escassamente
impressionados pelos seus dotes poéticos, atribuiram-lhe um
segundo lugar, dando o prémio a uma obra medíocre e
convencional. Estava consumado o sacrifício do mestre,
humilhado com uma classificação que o punha abaixo da
mediocridade. E os organizadores do concurso recebiam para toda a
eternidade o opróbio reservado aos carrascos do génio.
Esta narrativa, que gozou de uma popularidade imperturbada até
finais do século XX, apoiava-se num único dado
verdadeiro e passível de manipulação: o prémio
concedido a Fernando Pessoa não foi, de facto, aquele a que o
autor da “Mensagem” concorreu. Para a maior parte dos pessoanos,
com a versão retocada deste pormenor biográfico a vida
do herói voltava a entrar nos eixos, retomava sentido. E tanto
sentido adquiria, que o episódio ganhou foros de conto
exemplar. Circulando constantemente pelos meios literários,
tornou-se o caso padrão, o espectro a pairar sobre todos os
prémios literários, o pesadelo dos jurados e o consolo
dos escritores mal classificados. Na “Conta Corrente” de Vergílio
Ferreira encontramos um exemplo dos constrangimentos que esta lenda
exerceu ao longo de várias décadas sobre os
intelectuais portugueses. O autor de “Manhã Submersa”
concorrera a um prémio literário em que tinha por
rival, entre outros, Agustina Bessa Luís. Tendo conhecimentos
dentro do júri, soube que um dos seus membros declarara o
seguinte: a obra apresentada por esta escritora era um texto de
qualidade inferior aos de outros concorrentes, mas como ele não
duvidava da grandeza de quem escrevera a “Sibila”, dar-lhe-ia o
seu voto, pois não queria ficar na história a par
daqueles que tinham posto Fernando Pessoa abaixo de um escritor
menor. Neste caso particular, que lhe tocava de perto, Vergílio
Ferreira revoltava-se contra a subversão dos princípios
que ordenam os prémios literários. Mas não
contestava o sentido nem a veracidade da lenda pessoana.
Ao contrário do
que acontece com as lendas e os mitos dos povos primitivos, nesta história os
dados originais não se perderam na bruma. Para um desenlace
tão invulgar muito contribuiu a circunstância de um dos
protagonistas do caso, António Ferro, ter sido o fundador de
uma dinastia literária que zelou pela sua memória. Em
finais da década de 1980 vieram a público as “Memórias”
de Fernanda de Castro, que dedicam algumas páginas à
reposição da verdade sobre o prémio atribuído
a Fernando Pessoa. Entretanto, a publicação de textos
inéditos ou dispersos de Fernando Pessoa, pacientemente
coligidos por António Quadros, trouxe a público as
reacções do próprio poeta ao prémio que
lhe foi conferido em 1934, acompanhadas de notas bibliográficas
que esclareciam o papel de António Ferro na criação
do prémio Antero de Quental.
Poderia prever-se que
na última década do século XX a lenda estivesse
prestes a estrebuchar, pelo menos dentro dos círculos que
prezam a investigação bem documentada. Mas não
só continuou a circular com toda a impunidade como foi objecto
de uma tentativa de reconstrução, a partir dos dados
recentemente revelados. A “História de Portugal” publicada
em 1998 sob a direcção de João Medina, professor
catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa, faz um
derradeiro esforço para dar crédito ao mito do génio
incompreendido. Num capítulo assinado por Jacinto Baptista e
intitulado “Um Prémio de Categoria B para Fernando Pessoa”,
sugere-se, mais uma vez, a insensibilidade dos homens do SNI perante
a “Mensagem”. O texto de Jacinto Baptista, breve mas rico em
contradições, diz que os prémios inventados por
António Ferro “preteririam a genial Mensagem do maior poeta
português do século XX em favor de uma convencional
Romaria do padre Vasco Reis”. Um pouco mais à frente
esclarece que a culpa desta situação pertenceu a um
“defeito do respectivo regulamento”. Abstém-se de revelar
aos seus leitores qual era o defeito, mas os que conhecem esse
pormenor não deixarão de sorrir quando vêm um
regulamento a ser incriminado com os nomes de culpado e defeituoso
por exigir o mínimo de 100 páginas às obras
admitidas a concurso. Continuando no mesmo estilo, informa-nos do
escândalo que poderia ter nascido naquela ocasião. Seria
o maior escândalo da nossa história literária, se
não tivesse ocorrido a intervenção de António
Ferro, amigo e admirador de Pessoa, que “a fim de remediar a
situação, criou um prémio de categoria B”,
outorgando-o a Fernando Pessoa. Toda a argumentação de
Jacinto Baptista contra o SNI parece residir na insistência com
que chama “prémio de categoria B” ao prémio Antero
de Quental. Mas também este argumento fraqueja quando, a meio
da narração, reconhece distraidamente que o valor
pecuniário deste era igual ao do primeiro, a que chama “prémio
de categoria A”. No final nada se colhe deste texto, a não
ser a admiração com que encaramos o esforço de
um crente convicto para sustentar a sua fé, contra ventos e
marés.
Em vista do arreigado
apego com que a intelectualidade portuguesa se conserva fixada nas
suas vetustas crenças, resistindo a todo o esforço de
crítica ou investigação, ocorre-nos lembrar a
utilidade que teria um estudo científico sobre a mentalidade
pré-racional desta comunidade, tão branda e tão
passiva, certamente mais acessível ao antropólogo do
que os habitantes da floresta tropical. |