Ano I - Nº 6, Fevereiro de 2007
Alameda Digital
Política Cultural
O Mito do Génio Incompreendido e a Sua Função Política

por Carlos Bobone

Os intelectuais vivem espiritualmente confinados em pequenos círculos de artistas e literatos que se tomam a si mesmos por objectos de veneração, conferindo desmesurada importância aos mínimos pensamentos, gestos e actos dos seus membros. Como todas as sociedades tribais, também estes grupos cultivam as suas lendas, os seus mitos, as suas gestas heróicas, transferindo a realidade para uma série de arquétipos e estereótipos, que servem o propósito de colocar a tribo e a sua gloriosa história no centro do universo.

Um dos mais mais persistentes mitos que encontramos nos meios intelectuais de todos os países é o do génio incompreendido. Tão divulgado ele se encontra que quase se tornou uma condição prévia para o reconhecimento da qualidade de génio. Todo aquele que aspira à grandeza deve incluir na sua biografia um período de luta contra o desinteresse, a indiferença, a insensibilidade dos seus contemporâneos. Uma comunidade intelectual que não tenha o seu génio engrandecido pelo combate contra a incompreensão, vê-se forçada a produzi-lo, a retirá-lo da realidade e fazê-lo entrar na lenda, coberto com os padrões da heroicidade genial, ou seja, com o desprezo e talvez mesmo o escárnio dos que o conheceram.

Um país rico em talentos literários, como Portugal, não poderia dispensar-se de criar as condições necessárias ao enaltecimento dos seus grandes valores, em especial dos que se destacaram no panorama da modernidade. Graças a isso encontramo-nos na situação de poder acompanhar a criação de uma lenda cultural em tempos recentes, verificando o papel que esta exerce nas relações entre os “produtores de cultura” e o poder.

Em 1934 o maior poeta português do século XX concorreu a um prémio literário instituído pelo Secretariado Nacional de Informação (SNI), órgão de propaganda do Estado Novo. Apresentou a concurso o poema “Mensagem”, obra que não preenchia os requisitos formais para ser premiada. Faltava-lhe pouco para chegar às cem páginas, volume mínimo exigido pelo regulamento do concurso. Verificada a alta qualidade do poema, e também a impossibilidade de lhe ser atribuído o prémio, a direcção do SNI tomou a iniciativa de criar um novo prémio, do mesmo valor, para premiar a obra de Fernando Pessoa. Assim nasceu o prémio Antero de Quental, com o fim de galardoar uma obra que não se tinha candidatado a ele. Uma decisão extraordinário premiou uma obra excepcional. Raro exemplo de reconhecimento imediato de um talento vanguardista, com poucos precedentes conhecidos nos anais da literatura, deveria ter ficado esta história gravada nos compêndios, como prova de que o poder político pode ter discernimento bastante para apoiar uma grande obra antes do seu reconhecimento público.

Mas o que se passou neste caso foi demasiado atípico para que a consciência da intelectualidade portuguesa pudesse absorvê-lo e interpretá-lo em tudo o que teve de original: O órgão de propaganda de um regime autoritário reconhece e premeia a primeira obra de um grande poeta, alterando as condições de um concurso e atribuindo-lhe uma distinção a que ele não concorrera. Há aqui demasiadas impurezas para o filtro ideológico dos literatos portugueses. Em poucas décadas a lenda apoderou-se deste episódio, dispondo-o em lugar honroso na biografia do poeta, mas reinterpretando-o segundo as convenções. A versão que vingou, largamente difundida por todos os círculos que veneram a memória do grande escritor, foi esta: Fernando Pessoa concorrera ao prémio literário do SNI e os membros do júri, escassamente impressionados pelos seus dotes poéticos, atribuiram-lhe um segundo lugar, dando o prémio a uma obra medíocre e convencional. Estava consumado o sacrifício do mestre, humilhado com uma classificação que o punha abaixo da mediocridade. E os organizadores do concurso recebiam para toda a eternidade o opróbio reservado aos carrascos do génio. Esta narrativa, que gozou de uma popularidade imperturbada até finais do século XX, apoiava-se num único dado verdadeiro e passível de manipulação: o prémio concedido a Fernando Pessoa não foi, de facto, aquele a que o autor da “Mensagem” concorreu. Para a maior parte dos pessoanos, com a versão retocada deste pormenor biográfico a vida do herói voltava a entrar nos eixos, retomava sentido. E tanto sentido adquiria, que o episódio ganhou foros de conto exemplar. Circulando constantemente pelos meios literários, tornou-se o caso padrão, o espectro a pairar sobre todos os prémios literários, o pesadelo dos jurados e o consolo dos escritores mal classificados. Na “Conta Corrente” de Vergílio Ferreira encontramos um exemplo dos constrangimentos que esta lenda exerceu ao longo de várias décadas sobre os intelectuais portugueses. O autor de “Manhã Submersa” concorrera a um prémio literário em que tinha por rival, entre outros, Agustina Bessa Luís. Tendo conhecimentos dentro do júri, soube que um dos seus membros declarara o seguinte: a obra apresentada por esta escritora era um texto de qualidade inferior aos de outros concorrentes, mas como ele não duvidava da grandeza de quem escrevera a “Sibila”, dar-lhe-ia o seu voto, pois não queria ficar na história a par daqueles que tinham posto Fernando Pessoa abaixo de um escritor menor. Neste caso particular, que lhe tocava de perto, Vergílio Ferreira revoltava-se contra a subversão dos princípios que ordenam os prémios literários. Mas não contestava o sentido nem a veracidade da lenda pessoana.

Ao contrário do que acontece com as lendas e os mitos dos povos primitivos, nesta história os dados originais não se perderam na bruma. Para um desenlace tão invulgar muito contribuiu a circunstância de um dos protagonistas do caso, António Ferro, ter sido o fundador de uma dinastia literária que zelou pela sua memória. Em finais da década de 1980 vieram a público as “Memórias” de Fernanda de Castro, que dedicam algumas páginas à reposição da verdade sobre o prémio atribuído a Fernando Pessoa. Entretanto, a publicação de textos inéditos ou dispersos de Fernando Pessoa, pacientemente coligidos por António Quadros, trouxe a público as reacções do próprio poeta ao prémio que lhe foi conferido em 1934, acompanhadas de notas bibliográficas que esclareciam o papel de António Ferro na criação do prémio Antero de Quental.

Poderia prever-se que na última década do século XX a lenda estivesse prestes a estrebuchar, pelo menos dentro dos círculos que prezam a investigação bem documentada. Mas não só continuou a circular com toda a impunidade como foi objecto de uma tentativa de reconstrução, a partir dos dados recentemente revelados. A “História de Portugal” publicada em 1998 sob a direcção de João Medina, professor catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa, faz um derradeiro esforço para dar crédito ao mito do génio incompreendido. Num capítulo assinado por Jacinto Baptista e intitulado “Um Prémio de Categoria B para Fernando Pessoa”, sugere-se, mais uma vez, a insensibilidade dos homens do SNI perante a “Mensagem”. O texto de Jacinto Baptista, breve mas rico em contradições, diz que os prémios inventados por António Ferro “preteririam a genial Mensagem do maior poeta português do século XX em favor de uma convencional Romaria do padre Vasco Reis”. Um pouco mais à frente esclarece que a culpa desta situação pertenceu a um “defeito do respectivo regulamento”. Abstém-se de revelar aos seus leitores qual era o defeito, mas os que conhecem esse pormenor não deixarão de sorrir quando vêm um regulamento a ser incriminado com os nomes de culpado e defeituoso por exigir o mínimo de 100 páginas às obras admitidas a concurso. Continuando no mesmo estilo, informa-nos do escândalo que poderia ter nascido naquela ocasião. Seria o maior escândalo da nossa história literária, se não tivesse ocorrido a intervenção de António Ferro, amigo e admirador de Pessoa, que “a fim de remediar a situação, criou um prémio de categoria B”, outorgando-o a Fernando Pessoa. Toda a argumentação de Jacinto Baptista contra o SNI parece residir na insistência com que chama “prémio de categoria B” ao prémio Antero de Quental. Mas também este argumento fraqueja quando, a meio da narração, reconhece distraidamente que o valor pecuniário deste era igual ao do primeiro, a que chama “prémio de categoria A”. No final nada se colhe deste texto, a não ser a admiração com que encaramos o esforço de um crente convicto para sustentar a sua fé, contra ventos e marés.

Em vista do arreigado apego com que a intelectualidade portuguesa se conserva fixada nas suas vetustas crenças, resistindo a todo o esforço de crítica ou investigação, ocorre-nos lembrar a utilidade que teria um estudo científico sobre a mentalidade pré-racional desta comunidade, tão branda e tão passiva, certamente mais acessível ao antropólogo do que os habitantes da floresta tropical.

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