Ano I - Nº 6, Fevereiro de 2007
Alameda Digital
Política Cultural
Até para o ano em Xavier…

por Joana Ludovice

Eis-me subitamente em Pamplona, coração excêntrico da briosa Navarra.

Sentada na esplanada do Café Iruña, na Plaza del Castillo, enquanto temperava a emoção com um sofrível café solo, imaginei-me acompanhada por D. Rafael Garcia Serrano, o irónico e firme camisa vieja que tão belas páginas escreveu. Plaza del Castillo, obviamente, mas também Eugenio o proclamación de la primavera, La fiel infantería (que pena o filme, que pouco tem que ver com o livro, ficar tão aquém dele), Cuando los dioses nacían en Extremadura, ou os curtos Retrato al minuto de un cabrón contemporáneo, El Obispo de Gambo tiene el honor de invitarle a la próxima guerra civil, etc. De entre as suas preciosas obras, destaco ainda Diccionario para un macuto, de leitura fundamental para quem quer embrenhar-se no difícil cenário da Guerra Civil. Ao trazê-lo à memória fresca, lembrei-me do meu trelido exemplar que o Miguel Freitas da Costa gentilmente me ofereceu. Enquanto me perdia em evocações de tempos que já não voltam, eis que me surpreende um bruáa remoto, imediatamente processado como sinal de manifestação pública. Para lá me dirigi, guiado por amigos navarros, que me explicaram tratar-se de uma manifestação apartidária de repúdio à política de Zapatero para com a ETA, detonada pela recente gestão do affair José Ignácio de Juana Chaos. Em toda a Espanha, àquela hora, haveria manifestações em frente dos Ayuntamientos. (Na véspera, em Madrid, milhares de pessoas tinham saído à rua para protestarem contra o governo do Partido Socialista. A locutora da TVE, apesar das imagens que passavam testemunharem magotes de pessoas, havia-se referido a algumas centenas de manifestantes enquadrados por elementos da extrema-direita que haviam feito a saudação nazi (sic) – e eu, claro, recordei-me do meu país e dos seu honesto sistema de comunicação social). Para os menos atentos, é importante realçar que em Pamplona há um minoritário mas militante apoio etarra (a ETA reivindica Nafárroa como parte integrante da Euskadi) mas nem por isso os seus espanholistas habitantes se retraem de se manifestar contra os seus propósitos.

Navarra, pulmão incontornável do Catolicismo e do espanholismo de Espanha, tem um carácter simultaneamente simbólico e de reserva efectiva. Pude verificá-lo no dia seguinte quando mãos amigas me puxaram para uma caminhada (designada por Javierada) que, desde os anos 40, milhares de navarros fazem em direcção a Xavier, rendendo culto ao seu Santo padroeiro, o jesuíta navarro-lusitano São Francisco Xavier, o Apóstolo do Oriente, que há 501 anos nasceu naquela localidade.

Recendendo a imagens de antanho, milhares de peregrinos percorriam em fila indiana o emaranhado de estradas que serpenteavam pelos montes navarros. Símbolos de outrora, detentes, crucifixos na ponta de hastes e txapelas encarnadas deixavam-se ver a espaços, lembrando confluências bélicas da última guerra civil em Espanha. Navarra, principal alfobre de requetés carlistas, permitiu com esse seu manancial guerreiro, inigualável em toda a Espanha, a blitzkrieg de Mola, que num ápice o colocou às portas de Madrid. Fazendo jus à máxima que diz que a melhor defesa é o ataque, o General Mola para firmar as estacas da sublevação, acordou com os tenazes carlistas de Navarra a sua rápida progressão em direcção ao Sul, para Madrid, e a Noroeste, para San Sebastián. Armados rudimentarmente, com o ardor religioso do Catolicismo e a sua legendária intrepidez telúrica, três gerações de navarros, avós, filhos e netos, por vezes organizados por sortes, com os seus curas à frente, desceram das aldeias para Pamplona a fim de integrar aquela que, mais tarde, viria a ser conhecida como a Cruzada Nacional. Até o PNV de Navarra esteve com a sublevação da Junta de Burgos, ao contrário do seu congénere das províncias bascas que alinhou com a Frente Popular de Madrid. Ciosos da suas liberdades forais, os navarros, fossem das milícias falangistas ou carlistas ou do exército, eram portadores de uma idiossincrasia especial que os marcava como combatentes de elite, disciplinadamente obedientes, resistentes e voluntários para as operações mais difíceis… Com as suas canções de guerra, de onde ressaltava o Oriamendi (com música pilhada aos liberais), quer com a letra em Castelhano quer em Euskera, ou a Guernikako Arbola, no início, cedo marcharam para as frentes com os seus crucifixos, as suas boinas, os seus detentes, os seus estandartes e bandeiras.

Agora, em 2007, os seus filhos e netos, dão testemunho da sua Fé católica e da sua devoção ao Santo Padroeiro de Navarra, percorrendo os caminhos de outrora, a que algum asfalto e a poluição paisagística dos aerogeradores nas cumeeiras vieram tirar o bucolismo. Montes viris, que espigam pelas belas serranias navarras, entrecortadas de ubérrimos e viçosos vales, são os marcos de orientação que ajudam os peregrinos de fora quer nas trilhas de Xavier quer nos Caminhos de Santiago.

O percurso leva famílias inteiras ao Castelo onde o Santo, nascido Navarro e fenecido Português, nasceu e foi baptizado. E, finalmente, no Domingo a apoteose da peregrinação e a celebração litúrgica com largos milhares de participantes…

Até para o ano em Xavier. Datorren urtera arte…

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