Até para o ano em Xavier…
por Joana Ludovice
Eis-me subitamente em Pamplona, coração excêntrico
da briosa Navarra.
Sentada na esplanada do Café Iruña, na Plaza del
Castillo, enquanto temperava a emoção com um sofrível café solo, imaginei-me acompanhada por D. Rafael Garcia
Serrano, o irónico e firme camisa vieja que tão
belas páginas escreveu. Plaza del Castillo, obviamente,
mas também Eugenio o proclamación de la primavera, La fiel infantería (que pena o filme, que pouco tem que
ver com o livro, ficar tão aquém dele), Cuando los
dioses nacían en Extremadura, ou os curtos Retrato al
minuto de un cabrón contemporáneo, El Obispo de
Gambo tiene el honor de invitarle a la próxima guerra civil,
etc. De entre as suas preciosas obras, destaco ainda Diccionario para un macuto, de leitura fundamental para quem
quer embrenhar-se no difícil cenário da Guerra Civil.
Ao trazê-lo à memória fresca, lembrei-me do meu
trelido exemplar que o Miguel Freitas da Costa gentilmente me
ofereceu. Enquanto me perdia em evocações de tempos que
já não voltam, eis que me surpreende um bruáa remoto, imediatamente processado como sinal de manifestação
pública. Para lá me dirigi, guiado por amigos navarros,
que me explicaram tratar-se de uma manifestação
apartidária de repúdio à política de
Zapatero para com a ETA, detonada pela recente gestão do affair José Ignácio de Juana Chaos. Em toda a
Espanha, àquela hora, haveria manifestações em
frente dos Ayuntamientos. (Na véspera, em Madrid,
milhares de pessoas tinham saído à rua para protestarem
contra o governo do Partido Socialista. A locutora da TVE, apesar das
imagens que passavam testemunharem magotes de pessoas, havia-se
referido a algumas centenas de manifestantes enquadrados por
elementos da extrema-direita que haviam feito a saudação nazi (sic) – e eu, claro, recordei-me do meu país e
dos seu honesto sistema de comunicação social).
Para os menos atentos, é importante realçar que em
Pamplona há um minoritário mas militante apoio etarra
(a ETA reivindica Nafárroa como parte integrante da Euskadi) mas nem por isso os seus espanholistas habitantes se
retraem de se manifestar contra os seus propósitos.
Navarra, pulmão incontornável do Catolicismo e do
espanholismo de Espanha, tem um carácter simultaneamente
simbólico e de reserva efectiva. Pude verificá-lo no
dia seguinte quando mãos amigas me puxaram para uma caminhada
(designada por Javierada) que, desde os anos 40, milhares de navarros
fazem em direcção a Xavier, rendendo culto ao seu Santo
padroeiro, o jesuíta navarro-lusitano São Francisco
Xavier, o Apóstolo do Oriente, que há 501 anos nasceu
naquela localidade.
Recendendo a imagens de antanho, milhares de peregrinos percorriam em
fila indiana o emaranhado de estradas que serpenteavam pelos montes
navarros. Símbolos de outrora, detentes, crucifixos na
ponta de hastes e txapelas encarnadas deixavam-se ver a espaços,
lembrando confluências bélicas da última guerra
civil em Espanha. Navarra, principal alfobre de requetés carlistas, permitiu com esse seu manancial guerreiro, inigualável
em toda a Espanha, a blitzkrieg de Mola, que num ápice
o colocou às portas de Madrid. Fazendo jus à máxima
que diz que a melhor defesa é o ataque, o General Mola
para firmar as estacas da sublevação, acordou com os
tenazes carlistas de Navarra a sua rápida progressão em
direcção ao Sul, para Madrid, e a Noroeste, para San
Sebastián. Armados rudimentarmente, com o ardor religioso do
Catolicismo e a sua legendária intrepidez telúrica,
três gerações de navarros, avós, filhos e
netos, por vezes organizados por sortes, com os seus curas à
frente, desceram das aldeias para Pamplona a fim de integrar aquela
que, mais tarde, viria a ser conhecida como a Cruzada Nacional.
Até o PNV de Navarra esteve com a sublevação da
Junta de Burgos, ao contrário do seu congénere das
províncias bascas que alinhou com a Frente Popular de
Madrid. Ciosos da suas liberdades forais, os navarros, fossem das
milícias falangistas ou carlistas ou do exército, eram
portadores de uma idiossincrasia especial que os marcava como
combatentes de elite, disciplinadamente obedientes, resistentes e
voluntários para as operações mais difíceis…
Com as suas canções de guerra, de onde ressaltava o Oriamendi (com música pilhada aos liberais), quer com a
letra em Castelhano quer em Euskera, ou a Guernikako Arbola,
no início, cedo marcharam para as frentes com os seus
crucifixos, as suas boinas, os seus detentes, os seus
estandartes e bandeiras.
Agora, em 2007, os seus filhos e netos, dão testemunho da sua
Fé católica e da sua devoção ao Santo
Padroeiro de Navarra, percorrendo os caminhos de outrora, a que algum
asfalto e a poluição paisagística dos
aerogeradores nas cumeeiras vieram tirar o bucolismo. Montes viris,
que espigam pelas belas serranias navarras, entrecortadas de
ubérrimos e viçosos vales, são os marcos de
orientação que ajudam os peregrinos de fora quer nas
trilhas de Xavier quer nos Caminhos de Santiago.
O percurso leva famílias inteiras ao Castelo onde o Santo,
nascido Navarro e fenecido Português, nasceu e foi baptizado.
E, finalmente, no Domingo a apoteose da peregrinação e
a celebração litúrgica com largos milhares de
participantes…
Até para o ano em Xavier. Datorren urtera arte… |