Organizar
a resistência
por Manuel Azinhal
A
ressaca da mobilização verificada com a campanha do
referendo sobre o aborto pode trazer um fenómeno já
conhecido nestas situações de derrota. É um
efeito que podemos caracterizar como de esvaziamento, com a
desertificação do campo que se tinha organizado em
torno desse tema e a consequente dispersão e desânimo
dos núcleos e pessoas que para esse combate se tinham
congregado.
Sendo
conhecido o fenómeno, pode ser evitado. Resta ver se haverá
gente e ânimo para obstar com êxito a essa tendência.
Um
dado da experiência parece certo: são indispensáveis
bandeiras, temas de mobilização que ofereçam
causas e tarefas capazes de manter o nível da mobilização.
O
problema é que provavelmente essas causas mobilizadoras não
existem feitas, como no pronto-a-vestir.
Subsistem
apenas questões parcelares, localizadas, que cada sector
atingido sente como afronta particular mas que não tem sido
possível federar de modo a dar-lhe a expressão de um
descontentamento generalizado.
Na
ausência, por incapacidade ou por vontade, da oposição
partidária organizada, falta o cimento político para
todos esses núcleos de revolta.
Assistimos
assim às manifestações contra o encerramento de
centros de saúde e urgências, anunciam-se já os
protestos contra a concentração dos meios policiais,
ouvem-se queixas de militares, de professores, de magistrados, de
médicos ou de doentes – sem que a nada disso corresponda um
efectivo desgaste da equipa governamental.
O
que parece é que Sócrates conseguiu realmente
neutralizar a oposição político-partidária,
e triunfa na estratégia de salamização da
oposição social, isolando e esmagando à vez cada
um dos sectores visados – e reforçando-se com a humilhação
de cada um dos alvos.
É
possível inverter-se o sentido de marcha dos acontecimentos?
Vem
a propósito a este respeito recordar que também houve
alturas em que o cavaquismo e o guterrismo pareceram solidificar-se
como algo de definitivo. Precisamente antes de desabarem
fragorosamente.
Claro
que pode observar-se que tanto o cavaquismo como o guterrismo caíram
por dentro, como aliás é tradição em
Portugal caírem os governos e os regimes.
Mas
será assim tão seguro que no edifício da
governação socrática não haja rachas nem
fissuras? Não parece que alguém o possa afirmar com
segurança.
O
que podemos e devemos fazer em cada momento é preparar o
momento seguinte. Dar voz aos grupos sociais ameaçados, dar um
sentido coerente à revolta difusa, dar expressão
política ao descontentamento, integrar e organizar a
dissidência.
Se
deixamos que se afundem ou dissolvam à míngua de apoios
todos os movimentos sociais espontâneos de contestação
não podemos estranhar a consequência lógica de
ficar o poder sozinho em campo, dono do jogo e sem oposição.
Nesta
altura é indispensável reforçar as estruturas
organizadas especificamente políticas, sem esquecer nunca que
o sucesso destas depende essencialmente da qualidade da comunicação
que possam estabelecer com a opinião pública. É
ponto assente de há muito que tem sido nesta área, da
qualidade da comunicação, que se têm verificado
as maiores fragilidades das forças políticas
habitualmente alinhadas à Direita. Temos que ter sempre
presente o facto, e apostar, ou continuar a apostar, na criação
e desenvolvimento de canais de comunicação eficazes,
operacionais, eficientes. Mas ao mesmo temo não desertar do
terreno propriamente político, porque se é certo que
sem os mecanismos de acesso à opinião pública
todos os esforços se perdem também é verdade que
não vale a pena ter os meios se nada houver para comunicar.
O
trabalho directamente político, a partir do real,
incrementando a organização existente, tem que
conjugar-se com o combate de fundo, metapolítico, o único
que pode construir os alicerces do futuro, viabilizando o bom sucesso
no médio e longo prazo de um movimento que, para isso, tem que
existir já.
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