Ano I - Nº 6, Fevereiro de 2007
Alameda Digital
Política Cultural

Organizar a resistência

por Manuel Azinhal

A ressaca da mobilização verificada com a campanha do referendo sobre o aborto pode trazer um fenómeno já conhecido nestas situações de derrota. É um efeito que podemos caracterizar como de esvaziamento, com a desertificação do campo que se tinha organizado em torno desse tema e a consequente dispersão e desânimo dos núcleos e pessoas que para esse combate se tinham congregado.

Sendo conhecido o fenómeno, pode ser evitado. Resta ver se haverá gente e ânimo para obstar com êxito a essa tendência.

Um dado da experiência parece certo: são indispensáveis bandeiras, temas de mobilização que ofereçam causas e tarefas capazes de manter o nível da mobilização.

O problema é que provavelmente essas causas mobilizadoras não existem feitas, como no pronto-a-vestir.

Subsistem apenas questões parcelares, localizadas, que cada sector atingido sente como afronta particular mas que não tem sido possível federar de modo a dar-lhe a expressão de um descontentamento generalizado.

Na ausência, por incapacidade ou por vontade, da oposição partidária organizada, falta o cimento político para todos esses núcleos de revolta.

Assistimos assim às manifestações contra o encerramento de centros de saúde e urgências, anunciam-se já os protestos contra a concentração dos meios policiais, ouvem-se queixas de militares, de professores, de magistrados, de médicos ou de doentes – sem que a nada disso corresponda um efectivo desgaste da equipa governamental.

O que parece é que Sócrates conseguiu realmente neutralizar a oposição político-partidária, e triunfa na estratégia de salamização da oposição social, isolando e esmagando à vez cada um dos sectores visados – e reforçando-se com a humilhação de cada um dos alvos.

É possível inverter-se o sentido de marcha dos acontecimentos?

Vem a propósito a este respeito recordar que também houve alturas em que o cavaquismo e o guterrismo pareceram solidificar-se como algo de definitivo. Precisamente antes de desabarem fragorosamente.

Claro que pode observar-se que tanto o cavaquismo como o guterrismo caíram por dentro, como aliás é tradição em Portugal caírem os governos e os regimes.

Mas será assim tão seguro que no edifício da governação socrática não haja rachas nem fissuras? Não parece que alguém o possa afirmar com segurança.

O que podemos e devemos fazer em cada momento é preparar o momento seguinte. Dar voz aos grupos sociais ameaçados, dar um sentido coerente à revolta difusa, dar expressão política ao descontentamento, integrar e organizar a dissidência.

Se deixamos que se afundem ou dissolvam à míngua de apoios todos os movimentos sociais espontâneos de contestação não podemos estranhar a consequência lógica de ficar o poder sozinho em campo, dono do jogo e sem oposição.

Nesta altura é indispensável reforçar as estruturas organizadas especificamente políticas, sem esquecer nunca que o sucesso destas depende essencialmente da qualidade da comunicação que possam estabelecer com a opinião pública. É ponto assente de há muito que tem sido nesta área, da qualidade da comunicação, que se têm verificado as maiores fragilidades das forças políticas habitualmente alinhadas à Direita. Temos que ter sempre presente o facto, e apostar, ou continuar a apostar, na criação e desenvolvimento de canais de comunicação eficazes, operacionais, eficientes. Mas ao mesmo temo não desertar do terreno propriamente político, porque se é certo que sem os mecanismos de acesso à opinião pública todos os esforços se perdem também é verdade que não vale a pena ter os meios se nada houver para comunicar.

O trabalho directamente político, a partir do real, incrementando a organização existente, tem que conjugar-se com o combate de fundo, metapolítico, o único que pode construir os alicerces do futuro, viabilizando o bom sucesso no médio e longo prazo de um movimento que, para isso, tem que existir já.

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