Política cultural do Estado: patriotismo, exaltação e fixação
por Miguel Castelo Branco
Não há dissociação entre política e cultura, como não há produção
cultural fora da Cidade, ou alheia ao homem. Uma e outra são
expressões da interpretação, domesticação e classificação do real –
traduzido em valores, normas e instituições – estabelecendo o
irreversível salto da hominização para a humanização, do natural para
o simbólico, do imediato para o eterno.
Falar em política cultural surge como tópico duplamente ambíguo, pois
se exprime a um tempo uma redundância – falar do que é evidente –
remete também para a historicidade desta relação, cuja expressão
fenomenológica se apresenta numa multiplicidade de experiências que
não mais são que variações do mesmo fenómeno. Há "política cultural"
em todos os grupos humanos, mesmo os ante-históricos (ágrafos) na
relação directa da etnogénese com a organização simbólica.
Se atentarmos nos baixos-relevos da Mesopotâmia, nos grandes
recitativos que partejaram a literatura, nas manifestações primitivas
da percepção do sobrenatural, tudo ali estabelece um vínculo com a
vida colectiva, com esse universal exclusivo de um grupo que detém com
segurança a compreensibilidade e a inteligibilidade das forças que
comandam a vida e a morte. É precisamente por isso que a cultura, ao
invés de libertar, aprisiona. Ser livre, culturalmente, implica deter
um conhecimento que se aproxima dos limites do saber adquirido. A
margem máxima dessa aquisição – a ponte para o desconhecido e para o
nada – termina na crítica, na ironia, na paródia e na caricatura,
charneiras sempre exploradas e espaço para a marginalidade consentida,
de Petrónio a Sade, de Pitigrilli a Chesterton.
Não há "contra-cultura" na acepção que muitos lhe conferem. Uma
"contra-cultura não é mais que uma sub-cultura – crítica, irónica,
parodiadora e caricaturista – que quer entrar, remetendo a cultura
dominante para a periferia que se envergonha de si mesma. Assim foi
com o Cristianismo para a cultura clássica; assim parece estar a ser a
atitude dos "novos movimentos alternativos" contra a nossa cultura
ocidental, ancorada no travejamento intrincado saído de sucessivos
momentos: o cristão-helenizado, o renascentista e o iluminista. A
evidência – só não a vê quem não quer – é que o combate político
caminha a par do combate cultural. Se durante séculos a cultura foi
instrumento do poder político, passou a instrumento de entrada no
forum político pela ascensão dos chamados intelectuais. Este fenómeno,
relativamente recente, data do enciclopedismo, dos philosophes e
livres-pensadores, passando a partido informal através de Marx, de
Freud e da Escola de Frankfurt. Não detendo as habilidades do
exercício da arte da política, fazem da cultura e seus instrumento (a
crítica, o jornal, a tv, o cinema, a actividade editorial) o meio de
exercitar uma actividade política que acaba por alterar as regras do
jogo de fazer a política.
Os Estados exercem o poder através das leis, dos tribunais, das
prisões, da fiscalidade, do porte exclusivo da força militar, mas
também da educação. Ora, a segurança da preservação do futuro reside
na educação e inculcação da "cultura". Se o Estado perde essa
faculdade de escrever a história antes que esta se realize, perde-se a
unidade de atitude que se contenta com a existência [e evidência] de
que há coisas que são porque o são. É isto, no fundo, a cultura:
aquilo que é porque sempre foi. No dia em que essa evidência se
reduzir à marginalidade – à provocação, à ironia, à paródia – não há
espaço para o Estado, para o governo, para a Universidade e para a
"cultura". A "política cultural" deve assentar, pois, na promoção,
dignificação, exaltação do que se sabe, do que é e do que sempre foi.
Daí que ao Estado cumpra animar, dar sentido e actualidade a tudo
aquilo que leve o indivíduo a identificar-se com a comunidade,
ensinando-lhe a descobrir, descodificar e espantar-se, venerando,
fruindo, admirando os vestígios materiais e espirituais dessa
permanência que antecede, acompanha e sucede ao indivíduo. Quando tal
se perder, a comunidade morreu.
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