As Regras do jogo
por Luís Atapalha
Como condição prévia para esculpir
uma Nova Ordem Mundial sem fronteiras, os Senhores do Mundo
procuraram, a todo o transe, desagregar e pulverizar os poderes
multinacionais, nomeadamente coloniais, paradoxalmente em nome do
direito dos povos à Nacionalidade. Essa contradição,
bem escamoteada pelos interesses dos contendores da Guerra Fria,
resultou numa irreflectida onda de descolonizações que
está na origem, seguramente, da profunda desestabilização
que, de maneira trágica, tanto afecta os chamados países
do terceiro mundo. Impuseram-se artificialmente Nações
em espaços e a povos sem qualquer património
identitário comum. Nem a melhor das boas vontades permite
esconder o facto de que a genuína revolta individual contra um
poder colonial arbitrário e paternalista nada tem que ver com
os levantamentos nacionalistas que na Europa haviam ocorrido no
século anterior. Com uma arrogância irresponsável,
fruto da mais profunda ignorância e do mais intolerante
preconceito ideológico, inventaram-se caricaturas de Estado,
desprezando a verdadeira natureza da Nação como
comunidade de destino colectivo, sedimentada e coesa. Um neo-monroenismo, agora ditado pela confrontação
entre os Poderes Mundiais, votou à miséria, ao
extermínio e à servidão um número
incalculável de povos a quem, em nome dos mais elevados
interesses da Humanidade, havia sido outorgada a Liberdade.
Mas cedo essa Liberdade abstracta se viu substituída pela
falta de liberdades concretas e, de uma forma geral, o caos se
instalou de forma inequívoca. Dessa conflitualidade permanente
e da débacle do Bloco Soviético respingaram
continuamente fluxos de populações em busca de uma vida
melhor ou pelo menos da esperança de sobreviver. A sua entrada
incontrolada nos espaços tradicionalmente mais abertos e
deficitários de mão-de-obra, como é o caso dos
países da dita União Europeia, arrasta todo um conjunto
de novos problemas que, directa ou indirectamente, afectam a
segurança global das populações. Quase sempre o
insucesso na inserção no tecido social dessas
sociedades leva à marginalidade e, por vezes, quando as
comunidades expatriadas são significativas, à
auto-exclusão. Esta evolui, com facilidade, para a ghettização, com toda a conhecida panóplia
de comportamentos e atitudes reactivas que fazem gala em buscar
noutras sub-culturas marginais inspiração e energia.
Embora na acção e participação
político-partidárias as questões de natureza
ideológica se tenham esbatido, perdendo terreno para a acéfala
agregação clubista ou para a oportunística
gestão dos interesses particulares, na esfera cultural que
condiciona as matrizes do pensamento político, o seu lugar é
cada vez mais importante, mesmo que seja percebido como menos
aparente. É óbvio que a tradicional e linear dicotomia esquerda - direita começa a dar lugar a um referencial
menos reducionista, em que os eixos permitem definir melhor os
posicionamentos políticos e filosóficos face a
critérios como individualismo-colectivismo,
internacionalismo-nacionalismo ou materialismo-espiritualismo.
Mas as ameaças que afligem a nossa Cultura
não são só motivadas maioritariamente por
pressões exógenas mas também as há de
natureza eminentemente endógena. Com efeito, há muito
que sobre a maioria das sociedades ocidentais se vem exercendo uma
manifesta opressão intelectual, dominada por uma abstrusa
convergência de esquerdismo sem fronteiras e liberalismo niilista. Há décadas que os senhores da Cultura e da
Educação têm vindo a desenvolver políticas
e acções de desmontagem e desagregação
dos valores tradicionais, considerados por eles inquinados pela
Religião e entraves ao progresso. Prenhes de ignorante
arrogância, os presumidos netos de Rousseau, filhos de Marx e
sobrinhos de Freud que influenciam grande parte das decisões
que nos governam, implementaram a sua visão utópica da
nova sociedade sem cuidar de saber nem das consequências nem da
coerência dos próprios conceitos. Cheios de si mesmos,
cavalgando a vitória política da Segunda Guerra Mundial
esqueceram, aparentemente, a principal lição que deviam
ter tirado. É que não é possível
aproveitar as potencialidades, viabilidades e recursos de uma
sociedade, subalternizando os grupos que não estão no
Poder e impondo-lhes critérios de hegemonia sem alternativa.
Se recuarmos na nossa memória histórica, constatamos
que foi a falta de dialéctica estimulante e a consequente
baixa entropia intelectual que provocou a estagnação
quando não o afundamento da cultura portuguesa nos séc.
XVI-XVII. A expulsão ou silenciamento das camadas mais
intelectualizadas acabaria por conduzir, na prática, ao
monolitismo de pensamento e à ausência de estímulos
culturais. E, como se isso não bastasse, com a afirmação
crescente de Espanha como potência mundial, fomos ficando cada
vez mais remetidos para a periferia dos centros de decisão e
difusão cultural. Infelizmente, por mais que se a transvista e negue, essa é também a nossa realidade actual.
Espelho actual do estado e ambição
cultural da nossa sociedade, espectáculos como os televisivos reality shows fidelizam multidões de seres que,
procurando fugir às apagadas e vis tristezas da suas vidas
reais, se deixam envolver pelas teias pegajosas daquela pobreza de
espírito. Outros, ou porque se assumem como pertença de
classes mais intelectualizadas ou porque têm ainda algum
resquício de pudor, desculpam o seu interesse com a
curiosidade da observação de uma experiência de
cariz sociológico ou, mais francamente, com a atracção
que o sórdido sempre provoca.
Quando não buscam nos instintos mais rasteiros a
fórmula eficaz para captar as audiências, os senhores
que controlam os media injectam-nos com informação
e espectáculo que pouco têm que ver com as referências
culturais intrínsecas da nossa gente. Há muito que se
deixou de fazer a promoção da língua e da
literatura, da cultura popular, da música erudita e
tradicional, etc.. E, das poucas vezes que o tentam, fazem-no quase
sempre de forma politicamente polarizada, tratando esses âmbitos
culturais mais como um instrumento de captação ou
marcação ideológica do que como um fim em si
mesmo. A promoção da Kultur é uma
permanente feira de vaidades, onde só um bem delimitado
conjunto tem entrada. Procurando aguentar-se em circuito fechado,
tentam passar a ideia da maior abertura de espírito e
tolerância não prescindindo de convidar, por vezes, um
ou outro outsider, porventura mais sequioso de
visibilidade pública ou de consideração social,
como forma de iludir a imagem fortemente restrita do círculo.
Com efeito, a superstrutura cultural e educativa é
maioritariamente controlada por forças anacionais, ou
mesmo anti-nacionais. Sobretudo após os anos 50, a construção
sustentada de uma autêntica estratégia gramsciana permitiu-lhes constituírem-se em referência
incontornável primeiro, para, depois, assumirem um domínio
alargado, quase hegemónico.
No sistema político, as formações
partidárias agrupadas por matrizes ideológicas de há
muito que cederam lugar às plataformas formadas pelo menor
denominador comum dos interesses individuais ou de grupos limitados.
Os partidos, nomeadamente os que configuram o balancé do
Poder, são muitas vezes doutrinariamente intermutáveis,
partilhando basicamente as mesmas ideias e orientações,
apenas se distinguindo pelas cores clubistas, por um diferente
património de memória histórica e, sobretudo,
por distintas agregações de grupos de interesse. Tendo
por referência a característica imobilidade burguesa dos
Blocos Centrais, tendem a estratificar uma Liga de Poder estanque em
que pontificam o clientelismo e o caciquismo, bloqueando qualquer
iniciativa ou movimento que possa pôr em causa as regras do
jogo, em particular, e o status quo, em geral. Acresce ainda
que muitas outras forças vivas do Estado, nomeadamente as que
têm por incumbência exercer funções de
árbitro, tendem muitas vezes a constituírem-se em
instrumentos políticos quando não partidários. À
margem da essência do Direito e da Justiça que deve ser
imparcial, simbolicamente cega e igual para todos, manipulam muitas
vezes as omissões e o seu poder arbitrário ofendendo a
Ética, a Decência e a Harmonia que devem presidir às
regras do jogo social.
Vê-se, por todo o lado, a pusilanimidade ser
premiada, a honradez e a abnegação ridicularizadas, a
corrupção mimada e desvalorizada. As elites servem-se
em vez de servirem, o compadrio sobrepõe-se ao mérito e
a mediocridade alinhada grassa. |