Ano I - Nº 6, Fevereiro de 2007
Alameda Digital
Política Cultural
As Regras do jogo

por Luís Atapalha

Como condição prévia para esculpir uma Nova Ordem Mundial sem fronteiras, os Senhores do Mundo procuraram, a todo o transe, desagregar e pulverizar os poderes multinacionais, nomeadamente coloniais, paradoxalmente em nome do direito dos povos à Nacionalidade. Essa contradição, bem escamoteada pelos interesses dos contendores da Guerra Fria, resultou numa irreflectida onda de descolonizações que está na origem, seguramente, da profunda desestabilização que, de maneira trágica, tanto afecta os chamados países do terceiro mundo. Impuseram-se artificialmente Nações em espaços e a povos sem qualquer património identitário comum. Nem a melhor das boas vontades permite esconder o facto de que a genuína revolta individual contra um poder colonial arbitrário e paternalista nada tem que ver com os levantamentos nacionalistas que na Europa haviam ocorrido no século anterior. Com uma arrogância irresponsável, fruto da mais profunda ignorância e do mais intolerante preconceito ideológico, inventaram-se caricaturas de Estado, desprezando a verdadeira natureza da Nação como comunidade de destino colectivo, sedimentada e coesa. Um neo-monroenismo, agora ditado pela confrontação entre os Poderes Mundiais, votou à miséria, ao extermínio e à servidão um número incalculável de povos a quem, em nome dos mais elevados interesses da Humanidade, havia sido outorgada a Liberdade. Mas cedo essa Liberdade abstracta se viu substituída pela falta de liberdades concretas e, de uma forma geral, o caos se instalou de forma inequívoca. Dessa conflitualidade permanente e da débacle do Bloco Soviético respingaram continuamente fluxos de populações em busca de uma vida melhor ou pelo menos da esperança de sobreviver. A sua entrada incontrolada nos espaços tradicionalmente mais abertos e deficitários de mão-de-obra, como é o caso dos países da dita União Europeia, arrasta todo um conjunto de novos problemas que, directa ou indirectamente, afectam a segurança global das populações. Quase sempre o insucesso na inserção no tecido social dessas sociedades leva à marginalidade e, por vezes, quando as comunidades expatriadas são significativas, à auto-exclusão. Esta evolui, com facilidade, para a ghettização, com toda a conhecida panóplia de comportamentos e atitudes reactivas que fazem gala em buscar noutras sub-culturas marginais inspiração e energia.

Embora na acção e participação político-partidárias as questões de natureza ideológica se tenham esbatido, perdendo terreno para a acéfala agregação clubista ou para a oportunística gestão dos interesses particulares, na esfera cultural que condiciona as matrizes do pensamento político, o seu lugar é cada vez mais importante, mesmo que seja percebido como menos aparente. É óbvio que a tradicional e linear dicotomia esquerda - direita começa a dar lugar a um referencial menos reducionista, em que os eixos permitem definir melhor os posicionamentos políticos e filosóficos face a critérios como individualismo-colectivismo, internacionalismo-nacionalismo ou materialismo-espiritualismo.

Mas as ameaças que afligem a nossa Cultura não são só motivadas maioritariamente por pressões exógenas mas também as há de natureza eminentemente endógena. Com efeito, há muito que sobre a maioria das sociedades ocidentais se vem exercendo uma manifesta opressão intelectual, dominada por uma abstrusa convergência de esquerdismo sem fronteiras e liberalismo niilista. Há décadas que os senhores da Cultura e da Educação têm vindo a desenvolver políticas e acções de desmontagem e desagregação dos valores tradicionais, considerados por eles inquinados pela Religião e entraves ao progresso. Prenhes de ignorante arrogância, os presumidos netos de Rousseau, filhos de Marx e sobrinhos de Freud que influenciam grande parte das decisões que nos governam, implementaram a sua visão utópica da nova sociedade sem cuidar de saber nem das consequências nem da coerência dos próprios conceitos. Cheios de si mesmos, cavalgando a vitória política da Segunda Guerra Mundial esqueceram, aparentemente, a principal lição que deviam ter tirado. É que não é possível aproveitar as potencialidades, viabilidades e recursos de uma sociedade, subalternizando os grupos que não estão no Poder e impondo-lhes critérios de hegemonia sem alternativa. Se recuarmos na nossa memória histórica, constatamos que foi a falta de dialéctica estimulante e a consequente baixa entropia intelectual que provocou a estagnação quando não o afundamento da cultura portuguesa nos séc. XVI-XVII. A expulsão ou silenciamento das camadas mais intelectualizadas acabaria por conduzir, na prática, ao monolitismo de pensamento e à ausência de estímulos culturais. E, como se isso não bastasse, com a afirmação crescente de Espanha como potência mundial, fomos ficando cada vez mais remetidos para a periferia dos centros de decisão e difusão cultural. Infelizmente, por mais que se a transvista e negue, essa é também a nossa realidade actual.

Espelho actual do estado e ambição cultural da nossa sociedade, espectáculos como os televisivos reality shows fidelizam multidões de seres que, procurando fugir às apagadas e vis tristezas da suas vidas reais, se deixam envolver pelas teias pegajosas daquela pobreza de espírito. Outros, ou porque se assumem como pertença de classes mais intelectualizadas ou porque têm ainda algum resquício de pudor, desculpam o seu interesse com a curiosidade da observação de uma experiência de cariz sociológico ou, mais francamente, com a atracção que o sórdido sempre provoca.

Quando não buscam nos instintos mais rasteiros a fórmula eficaz para captar as audiências, os senhores que controlam os media injectam-nos com informação e espectáculo que pouco têm que ver com as referências culturais intrínsecas da nossa gente. Há muito que se deixou de fazer a promoção da língua e da literatura, da cultura popular, da música erudita e tradicional, etc.. E, das poucas vezes que o tentam, fazem-no quase sempre de forma politicamente polarizada, tratando esses âmbitos culturais mais como um instrumento de captação ou marcação ideológica do que como um fim em si mesmo. A promoção da Kultur é uma permanente feira de vaidades, onde só um bem delimitado conjunto tem entrada. Procurando aguentar-se em circuito fechado, tentam passar a ideia da maior abertura de espírito e tolerância não prescindindo de convidar, por vezes, um ou outro outsider, porventura mais sequioso de visibilidade pública ou de consideração social, como forma de iludir a imagem fortemente restrita do círculo. Com efeito, a superstrutura cultural e educativa é maioritariamente controlada por forças anacionais, ou mesmo anti-nacionais. Sobretudo após os anos 50, a construção sustentada de uma autêntica estratégia gramsciana permitiu-lhes constituírem-se em referência incontornável primeiro, para, depois, assumirem um domínio alargado, quase hegemónico.

No sistema político, as formações partidárias agrupadas por matrizes ideológicas de há muito que cederam lugar às plataformas formadas pelo menor denominador comum dos interesses individuais ou de grupos limitados. Os partidos, nomeadamente os que configuram o balancé do Poder, são muitas vezes doutrinariamente intermutáveis, partilhando basicamente as mesmas ideias e orientações, apenas se distinguindo pelas cores clubistas, por um diferente património de memória histórica e, sobretudo, por distintas agregações de grupos de interesse. Tendo por referência a característica imobilidade burguesa dos Blocos Centrais, tendem a estratificar uma Liga de Poder estanque em que pontificam o clientelismo e o caciquismo, bloqueando qualquer iniciativa ou movimento que possa pôr em causa as regras do jogo, em particular, e o status quo, em geral. Acresce ainda que muitas outras forças vivas do Estado, nomeadamente as que têm por incumbência exercer funções de árbitro, tendem muitas vezes a constituírem-se em instrumentos políticos quando não partidários. À margem da essência do Direito e da Justiça que deve ser imparcial, simbolicamente cega e igual para todos, manipulam muitas vezes as omissões e o seu poder arbitrário ofendendo a Ética, a Decência e a Harmonia que devem presidir às regras do jogo social.

Vê-se, por todo o lado, a pusilanimidade ser premiada, a honradez e a abnegação ridicularizadas, a corrupção mimada e desvalorizada. As elites servem-se em vez de servirem, o compadrio sobrepõe-se ao mérito e a mediocridade alinhada grassa.

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