“O seu a seu poema” de José Valle de Figueiredo
por Martim
de Gouveia e Sousa
“O seu a seu poema” de José Valle
de Figueiredo compreende grande parte da obra literária do
Autor publicada entre 1959 e 2002. Impresso o conjunto de poemas em
finais do ano que há pouco findou, só no início
de 2007 é que o título começou a ser visto pelas
livrarias. Trata-se, para mim, de um dos grandes livros de 2006,
estando por isso de parabéns a Imprensa Nacional-Casa da Moeda
por esta oportuna publicação.
Prefaciada competentemente por José
Carlos Seabra Pereira, a colectânea poética permite,
finalmente, um mais fácil acesso a obras do poeta tondelense
há muito esgotadas ou pouco divulgadas, possibilitando ainda
uma visita quase completa a criação dispersa por
jornais, revistas e opúsculos.
Mais do que recomendável,
encontramos em Valle de Figueiredo um signo oriental que não
cessa de se fechar, registando-se, nesse fechamento, uma unidade
macrotextual admirável e produtiva. Mas não só.
Espantar-se-á o leitor, ferido pelo desconhecimento, por tão
virtuosa força de estranhização
retórico-estilística, a ponto de se poder falar de um
dos mais fecundos idiolectos poéticos da literatura
portuguesa.
Oracular e próxima do “mistério
redentivo cristão” (Seabra Pereira), esta poesia é
também saborosamente nostálgica de um tempo outro,
merecendo menção interpretativa a presença de
uma “mágua”, que é um sofrimento marítimo e
aquático que urge reparar.
Escutadora da palavra como uma
“sacralidade arquetípica” (Fernando Martinho), a poética
de José Valle faz-se do corpo físico dos semas e dos
signos mais agudos.
Ultimando-se a escritura poética
em rito textual de força sófica, destaco do vasto
conjunto aquela bela “Proposição” de “O Afinador
de Versos” (1998), que transcrevo:
Exígua luz que alumia
ao sol
do poema
que se me escreve na parede fria.
Nada me resta:
só
a luz de cada dia
visita a minha morte
e mais outro dia.
E sob o mesmo signo me retiro, para
ler o fulgurante “Requiem por Jan Palach:
Arde o coração de Praga.
Arde
o corpo de Jan Palach.
Podemos dizer que o Rei Venceslau,
montado
em seu cavalo,
também viu crescer o fogo
em que arde o
coração de Praga.
João Huss, queimando o seu
corpo,
também arde na Praça de Praga.
E os
cavaleiros da Boémia,
o povo e os grão-Senhores,
os
operários de Pilsen,
os poetas e cantores da
Eslovóquia,
todos ardem nessa tarde e nessa
praça.
Queimamos a coragem e o heroísmo,
queimamos
a nossa infinita resistência.
Não é verdade,
Soldado Schweik?
Eles vieram das estepes e disseram:
É
proibido morrer pela Pátria,
é proibido resistir à
opressão,
é proibido combater a ocupação.
(Refrão)
É proibido amar os campos verdes do seu
país.
É proibido amar o verde da esperança.
É
proibido amar a Esperança
Estás proibido, Jan
Palach!
És proibido, Jan Palach!
Estás
proibido de existir, Jan Palach!
Estás proibido de
morrer!
Eles vieram das estepes e disseram
todas estas
palavras.
Mas também é verdade que disse um dia o
Rei Venceslau,
montado em seu cavalo:
«Esta nossa terra
será livre,
e nela crescerão livres
as virgens,
as mães e os filhos.
E nela crescerão livres as
flores.»
E das flores virão rosas,
rosas brancas,
para cobrir a campa
de Jan Palach.
Arde o Coração
de Praga,
arde o corpo de Jan Palach,
arde o corpo do Futuro.
E
já cresce a Primavera!
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O SEU A SEU POEMA
1959-2002
Autor: José Valle de Figueiredo
Editora: Imprensa Nacional Casa da Moeda
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