Ano I - Nº 6, Fevereiro de 2007
Alameda Digital
Política Cultural
O SPN e a Guerra de Espanha

por J. Luís Andrade

O Ministério da Cultura sempre foi para pôr aqueles que não sabiam onde os colocar. Desta vez foi preciso pôr mais uma mulher (Isabel Pires de Lima) no Governo e foi uma qualquer para lá. Foi mesmo uma qualquer. Depois do António Ferro não houve mais ninguém a pensar Portugal em termos de formação artística e cultural. Sou a antítese, sou completamente anti-fascista, anti-salazarista e anti-tudo, mas o António Ferro tinha uma ideia…

Paulo Branco (produtor cinematográfico) em tabu (nº 21-03.02.07)

Estimulado por tão categórica afirmação, de tão abalizada personagem, resolvi reunir algumas notas sobre aspectos concretos da política de fomento cinematográfico de Ferro.

Luís de Pina, em A aventura do Cinema Português (Lisboa, Vega, 1977), afirma que foi graças ao programa de apoio ao desenvolvimento cinematográfico, gizado pela política cultural do Estado Novo, que a produção nacional pode dar o salto qualitativo e quantitativo que a individualizaria até aos anos cinquenta. Na altura, o interesse das elites portuguesas pelo cinema era enorme, como o prova a existência de duas revistas cinéfilas (Cinéfilo e Cine-jornal) e de um programa radiofónico na Emissora Nacional intitulado Meia-hora de cinema. Quando começaram a ficar disponíveis comercialmente os primeiros documentários, a reacção do Regime, sustentada no seu forte pendor de cepticismo, apoliticismo e desconfiança face a tudo o que lhe pudesse fugir ao controlo, foi no sentido de instruir o Serviço de Inspecção-Geral dos Espectáculos para que não autorizasse a exibição dos mesmos. Salazar sabia quão delicadas eram as repercussões da Guerra de Espanha em Portugal pelo que pretendia assegurar a todo o custo o domínio da situação. Consciente da força comunicacional e persuasiva do cinema, a sua visão da sociedade levava-o a temer e repudiar manifestações descontroladas de apoio quer aos sublevados quer ao governo de Madrid. A sucursal da Fox Movietone News em Portugal chegou a publicar no Diário de Lisboa, de 18 de Outubro de 1936, um anúncio em que declinava toda a responsabilidade pela não exibição dos documentários.

Explicação:

A Companhia Cinematográfica de Portugal” previne o publico de que Jornal Fox não apresentou ainda em Lisboa as suas sensacionais reportagens dos acontecimentos em Espanha que há mais de dois meses correm o mundo pela simples razão de que as respectivas entidades oficiais assim o determinaram. O Jornal Fox, o mais categorizado em todo o mundo, demonstrará, logo que lhe seja permitido, o valor excepcional das suas reportagens da guerra civil de Espanha, algumas das quais já podiam ter sido estreadas em Portugal há dois meses.

Imediatamente depois seria levantada a proibição, sem que se tivessem verificado os tão receados desacatos, excessos ou alterações da ordem pública.

Nas vésperas do confronto ideológico que redundaria na Guerra Civil de Espanha eram as produtoras americanas, francesas e alemãs quem mais vendia filmes às distribuidoras portuguesas. O conflito viria a ser, simultaneamente, um objecto e um catalizador do desenvolvimento cinematográfico lusitano. No que diz respeito aos canais de difusão, como é evidente, assentavam sobretudo nas salas comerciais. Por exemplo, em Lisboa, quando começaram os combates, havia cerca de vinte; três anos depois havia trinta e duas. No Porto, rondavam a dúzia. No resto do país, sobretudo nas povoações mais importantes algumas salas de espectáculo funcionavam também como salas improvisadas de cinema. Mas a melhor sala era, de facto, o itinerante Cinema Popular Ambulante criado pelo Secretariado da Propaganda Nacional para levar aos mais recônditos sítios rurais o prazer e a oportunidade de ver cinema. À semelhança do que já fora idealizado por Ferro para o Teatro do Povo, a iniciativa propunha-se levar às massas assalariadas do País a informação necessária para a formação de consciências e mentalidades. Um camião especial, com tudo o que era necessário para projectar cinema ao ar livre, nas Casas do Povo, nas sedes dos Sindicatos movimentava-se pelo interior. A 3 de Abril de 37 podia ler-se no Diário da Manhã:

Bela jornada a do cinema popular ambulante – magnífica iniciativa do Secretariado de Propaganda Nacional. Por toda a parte, terras do Ribatejo, das Beiras, do Minho e de Trás-os-Montes – ele tem levado à gente das aldeias e das vilas a imagem dum Portugal que não cuida somente de concluir as obras de fomento rural necessárias mas também se preocupa com o bem-estar, as distracções e as alegrias dos trabalhadores do campo e do artesanato.

As notícias publicadas em vários pontos do País dizem-nos alguma coisa do alvoroço que para todas as populações constitui a visita do Cinema Popular. Durante algumas horas, o povo evadiu-se das suas imagens habituais, emigrou do seu pequenino mundo para ver como o Estado Novo modificou não só a sua terra, mas o País de lés-a-lés e comunicou às almas dos portugueses um novo entusiasmo criador. Em comparação com o sossego que torna fecundo o trabalho, com o amor da família que é respeitado e protegido por meio de instituições apropriadas, com a fé em Deus que é exaltada, o povo das serras e das planícies teve ocasião de ver os horrores praticados pelos comunistas em Espanha, que consideram o ódio como elemento criador de felicidade, espezinham a família e desejam constituir uma sociedade sem Deus. Um punhado de imagens comunica a todos os bons portugueses, o verdadeiro povo, em nome e à custa do qual, durante algum tempo, meia dúzia de aventureiros, de ideólogos e de energúmenos falaram e viveram – o grande drama da nossa época, a luta entre tudo o que constitue o espírito da Nação e as ideias de paixões estrangeiradas que ameaçam subverter o País. As cartas dos nossos correspondentes da província têm-nos dito que milhares de pessoas assistiram às sessões dadas em amplos locais e que as figuras de Carmona e Salazar foram sempre muito ovacionadas e aplaudidas. O povo reconhece, assim – após tantos anos de ludibrio e de esplêndidas promessas dos políticos – os seus verdadeiros amigos, aqueles que ainda há pouco afirmaram que a revolução continua “enquanto houver uma nuvem de perigo externo, um germe de desagregação interior, um português sem trabalho e sem pão”.

A primeira volta do Cinema Popular Ambulante realizou-se entre Janeiro e Maio de 37, tendo o itinerário compreendido 127 projecções em cerca de 74 povoações do Norte e Centro do país, num total de espectadores superiores a de cem mil e que, na sua maioria, desconheciam o cinema. No segundo semestre do mesmo ano a equipa de projecção deslocou-se para o Sul e, face ao sucesso da iniciativa, o SPN resolveu criar mais uma conseguindo assim alargar ainda mais a sua área de intervenção. Tirando partido da força persuasiva das imagens (a que normalmente se associavam discursos políticos de ocasião), o SPN, usando como pièce de résistance as reportagens e filmes sobre a Guerra Civil de Espanha, ia inculcando nas populações o conhecimento do que efectivamente se passava em Espanha. Era uma espécie de vacinação em massa, que, por vezes, contava com tentativas de boicote, com a rede clandestina do Partido Comunista a ameaçar exercer represálias sobre quem comparecesse…

Grande parte do orçamento do SPN foi assim usado para a divulgação e distribuição de longas-metragens, noticiários e documentários adquiridos no Estrangeiro como por exemplo à Éclair-Journal, ou mandados fazer no País, como aconteceu com alguns trabalhos da Lisboa Film. Outra larga fatia ia para os equipamentos de projecção que praticamente esgotavam as cópias disponíveis no Cinema Ambulante. A insuficiência de laboratórios de reprodução bem equipados e o parco orçamento impediu que o SPN produzisse ou promovesse filmes portugueses, como era sua intenção inicial, e que correspondesse aos inúmeros e insistentes pedidos que lhe chegavam de Espanha. Mesmo assim, dois anos após a sua criação em Setembro de 1935, o catálogo da secção de cinema do SPN, possuía já cerca de cinquenta filmes, muitos deles sonoros, integralmente realizados pelos seus operadores ou por produtoras portuguesas especialmente contratadas. Muitos entraram mesmo nos circuitos internacionais através de companhias como a Paramount News, a Fox Movietone News, a Éclair-Journal, da France-Actualités ou a Ufa Wchenschan.

De entre as adaptações de material de origem estrangeira para o público nacional sobressai a curta-metragem muda A Guerra Civil de Espanha, provavelmente de origem francesa, que apresenta imagens da retaguarda frentepopulista em Barcelona. Mostra inúmeros planos de igrejas incendiadas, edifícios em ruínas e até as famosas imagens dos cadáveres expostos de freiras no exterior de um templo. Visões da guerra de Espanha, sobre a batalha do Ebro e os combates na Cidade Universitária, em Madrid, Imagens da guerra de Espanha, sobre a ocupação de Barcelona pelas forças sublevadas e, já após a vitória de Franco, o pacote A tomada de Madrid e o Desfile da Vitória foram alguns dos filmes que sobre a mesma temática o SPN promoveu. Especial relevo merece a longa-metragem de origem ítalo-espanhola Nada de novo no Alcázar que na sua versão portuguesa apresenta cenas acrescidas sobre a importância da ajuda proporcionada pelo Rádio Club Português, omitidas na versão original.

A latere do conflito, mas sempre com ele subjacente, foi produzido, ainda em 36, um curto documentário intitulado Comícios Anti-comunistas, que faz desfilar no ecrã as imagens das manifestações patrióticas de repúdio e desafio ao comportamento faccioso do Governo de Madrid que ocorreram um pouco por todo o País. O SPN produziu igualmente o Jornal Português, incluindo no seu conteúdo programático noticiários sobre a Guerra Civil Espanhola. O nº1, de 38, por exemplo, documenta, em cerca de 1 minuto, a vinda a Portugal de uma delegação da Falange (na altura já a franquista FET y de las Jons), composta por centenas de membros que, desfilando pela Avenida da Liberdade, vão depor uma coroa de flores no Monumento aos Combatentes da I Guerra, defronte do Consulado de Espanha.

Entre as longas-metragens surgidas na altura merecem especial destaque A Revolução de Maio (37) e A Caminho de Madrid (36).

Esta última, realizada pelo consagrado cineasta Aníbal Contreiras, foi porventura a mais ambiciosa obra da produção cinematográfica nacional sobre a Guerra de Espanha. Considerado o primeiro documentário sonoro português, surgiu como uma adjudicação da Sociedade Universal de Superfilmes (SUS), propriedade do Diário de Notícias. Acompanhado pelo Conde de Carnide, por Francisco Ribeiro Ferreira, por Jorge Rodrigues e pelo repórter José Augusto, Contreiras atravessou a fronteira, munido de uma autorização especial de Franco, para captar imagens de paisagens, cenas bélicas e protagonistas sempre com o fito de estar em Madrid aquando da capitulação da cidade. Eis a recensão pré-estreia que se pode ler no República de 8 de Dezembro:

Desde Salamanca até à frente de Madrid, o filme revela-nos, entre outros aspectos, os formidáveis entrincheiramentos da coluna de Mangada conquistados pelas tropas do general Mola; as vedações de subterrâneos, dissimulados em Navalperal; a monumental comporta de Alberche que os governamentais abriram com o propósito de, inundando as estradas, suster o avanço dos insurrectos; aldeias abandonadas e saqueadas; o campo de aviação de Escalona; o Castelo de Maqueda, onde a luta foi feroz, os aviões abatidos pelo fogo violento dos “caças”; uma camioneta destruída pela metralha; a frente de Guadarrama; restos de um trimotor francês; o primeiro “tank” nacionalista que entrou em Madrid, tripulado por um voluntário português; os agasalhos oferecidos pelas mulheres portuguesas às tropas nacionalistas; a fuzilaria das forças que combatem em Casa de Campo; as linhas de fogo em Cerro de Los Ángeles, centro da Penísula Ibérica; o ataque final a Madrid, etc. “A caminho de Madrid”constitui um espectáculo sensacional de flagrante interêsse.

Intrépido, Contreiras passou por vários apertos. Quando se encontrava nas rodagens das cenas finais, na Casa de Campo, ao registar o bombardeamento da Central Telefónica, uma granada de morteiro governamental rebentou muito próximo. Noutra ocasião, ao buscar a obscuridade de um armário para mudar a película, foi surpreendido por uma patrulha marroquina que o considerou espião e que só muito dificilmente se deixou convencer quanto aos seus propósitos. Mas não escapou a ser ferido; quando filmava no aeródromo de Escalona foi atingido por uma bala perdida.

Apesar da excelente qualidade das imagens obtidas, a SUS recusou-se a adquirir a longa-metragem e teve de ser o cineasta a apresentá-la e distribuí-la a título individual, estreando-a a 10 de Dezembro de 36, no Politeama, com o apoio do SPN. A Paramount e a Lisboa Film adquiriram-na. Restam poucas dúvidas de que a curta-metragem preparada por esta última para a Representação da Junta de Defesa de Burgos em Lisboa e intitulada Cerco y bombardeamento de la capital de España, resultou de uma amputação, em montagem, de A Caminho de Madrid. Em ambos se repetem os mesmos takes, os mesmos planos, os mesmos protagonistas (o oficial português da Legião, Leite de Faria, por exemplo), as mesmas referências à ajuda de Portugal à cruzada espanhola (pouco prováveis num documentário de verdadeira origem espanhola).

E por fim, nas grandes pinceladas com que pretendi tratar o assunto, cabe falar de A Revolução de Maio, essa brilhante obra de ficção concebida por esses míticos baluartes da cultura nacional António Ferro e António Lopes Ribeiro, já abordada na Alameda Digital pelo meu querido amigo, João Marchante. Finalizada em 37, é a primeira longa-metragem produzida pelo SPN que a destinava ao consumo interno e ao estrangeiro, como uma forma de justificação e apresentação do regime que se denominava por Estado Novo. Pela sua importância e valor não cabe aqui analisá-la. Deixemo-la para um próximo artigo…

descarregar documento em PDF
   
O SPN e a Guerra de Espanha
Futuro do Cinema Português
Política cultural do Estado: patriotismo, exaltação e fixação
O Mito do Génio Incompreendido e a Sua Função Política
As Regras do jogos
Multiculturalismo
God save the culture … or the Queen!
Gramsci e as políticas kulturais

Organizar a resistência
Duas eleições
Transparências
Contadores de electricidade, gás e água
Reforma da Administração Pública | Reorganização dos Ministérioso

A Europa existirá ainda?
Franceses votam para escolher um presidente “vazio”
Em Cabinda, nada de novo
O Cerco da Europa e as Novas Realidades Geopolíticas

Navarra
O Equilíbrio do Ocidente

Mar Português
Clínica das Letras
Bruckner ou a singularidade de um génio
“O seu a seu poema” de José Valle de Figueiredo

Federico Garcia Lorca - Uma execução às avessas?
João de Deus e a Sua Época

Grã-Bretanha
Buenos Aires

Editorial
Ecos da blogosfera
Capa

 

Nacional Internacional Cultura História Política Cultural Sociedade Ficha Técnica Publicidade Contactos Apoie-nos