O SPN e a Guerra de Espanha
por J. Luís Andrade
O Ministério da Cultura sempre foi para pôr aqueles
que não sabiam onde os colocar. Desta vez foi preciso pôr
mais uma mulher (Isabel Pires de Lima) no Governo e foi uma qualquer
para lá. Foi mesmo uma qualquer. Depois do António
Ferro não houve mais ninguém a pensar Portugal em
termos de formação artística e cultural. Sou a
antítese, sou completamente anti-fascista, anti-salazarista e
anti-tudo, mas o António Ferro tinha uma ideia…
Paulo Branco (produtor cinematográfico) em tabu (nº 21-03.02.07)
Estimulado por tão categórica afirmação,
de tão abalizada personagem, resolvi reunir algumas notas
sobre aspectos concretos da política de fomento
cinematográfico de Ferro.
Luís de Pina, em A aventura do Cinema Português (Lisboa, Vega, 1977), afirma que foi graças ao programa de
apoio ao desenvolvimento cinematográfico, gizado pela política
cultural do Estado Novo, que a produção nacional pode
dar o salto qualitativo e quantitativo que a individualizaria até
aos anos cinquenta. Na altura, o interesse das elites portuguesas
pelo cinema era enorme, como o prova a existência de duas
revistas cinéfilas (Cinéfilo e Cine-jornal)
e de um programa radiofónico na Emissora Nacional intitulado Meia-hora de cinema. Quando começaram a ficar
disponíveis comercialmente os primeiros documentários,
a reacção do Regime, sustentada no seu forte pendor de
cepticismo, apoliticismo e desconfiança face a tudo o que lhe
pudesse fugir ao controlo, foi no sentido de instruir o Serviço
de Inspecção-Geral dos Espectáculos para que não
autorizasse a exibição dos mesmos. Salazar sabia quão
delicadas eram as repercussões da Guerra de Espanha em
Portugal pelo que pretendia assegurar a todo o custo o domínio
da situação. Consciente da força comunicacional
e persuasiva do cinema, a sua visão da sociedade levava-o a
temer e repudiar manifestações descontroladas de apoio
quer aos sublevados quer ao governo de Madrid. A sucursal da Fox
Movietone News em Portugal chegou a publicar no Diário
de Lisboa, de 18 de Outubro de 1936, um anúncio em que
declinava toda a responsabilidade pela não exibição
dos documentários.
Explicação:
“A Companhia Cinematográfica de Portugal” previne o
publico de que Jornal Fox não apresentou ainda em Lisboa as
suas sensacionais reportagens dos acontecimentos em Espanha que há
mais de dois meses correm o mundo pela simples razão de que as
respectivas entidades oficiais assim o determinaram. O Jornal Fox, o
mais categorizado em todo o mundo, demonstrará, logo que
lhe seja permitido, o valor excepcional das suas reportagens da
guerra civil de Espanha, algumas das quais já podiam ter sido
estreadas em Portugal há dois meses.
Imediatamente depois seria levantada a proibição, sem
que se tivessem verificado os tão receados desacatos, excessos
ou alterações da ordem pública.
Nas vésperas do confronto ideológico que redundaria na
Guerra Civil de Espanha eram as produtoras americanas, francesas e
alemãs quem mais vendia filmes às distribuidoras
portuguesas. O conflito viria a ser, simultaneamente, um objecto e um
catalizador do desenvolvimento cinematográfico lusitano. No
que diz respeito aos canais de difusão, como é
evidente, assentavam sobretudo nas salas comerciais. Por exemplo, em
Lisboa, quando começaram os combates, havia cerca de vinte;
três anos depois havia trinta e duas. No Porto, rondavam a
dúzia. No resto do país, sobretudo nas povoações
mais importantes algumas salas de espectáculo funcionavam
também como salas improvisadas de cinema. Mas a melhor sala era, de facto, o itinerante Cinema Popular Ambulante criado
pelo Secretariado da Propaganda Nacional para levar aos mais
recônditos sítios rurais o prazer e a oportunidade de
ver cinema. À semelhança do que já fora
idealizado por Ferro para o Teatro do Povo, a iniciativa
propunha-se levar às massas assalariadas do País a
informação necessária para a formação
de consciências e mentalidades. Um camião especial, com
tudo o que era necessário para projectar cinema ao ar livre,
nas Casas do Povo, nas sedes dos Sindicatos movimentava-se pelo
interior. A 3 de Abril de 37 podia ler-se no Diário da
Manhã:
Bela jornada a do cinema popular ambulante – magnífica
iniciativa do Secretariado de Propaganda Nacional. Por toda a parte,
terras do Ribatejo, das Beiras, do Minho e de Trás-os-Montes –
ele tem levado à gente das aldeias e das vilas a imagem dum
Portugal que não cuida somente de concluir as obras de fomento
rural necessárias mas também se preocupa com o
bem-estar, as distracções e as alegrias dos
trabalhadores do campo e do artesanato.
As notícias publicadas em vários pontos do País
dizem-nos alguma coisa do alvoroço que para todas as
populações constitui a visita do Cinema Popular.
Durante algumas horas, o povo evadiu-se das suas imagens habituais,
emigrou do seu pequenino mundo para ver como o Estado Novo modificou
não só a sua terra, mas o País de lés-a-lés
e comunicou às almas dos portugueses um novo entusiasmo
criador. Em comparação com o sossego que torna fecundo
o trabalho, com o amor da família que é respeitado e
protegido por meio de instituições apropriadas, com a
fé em Deus que é exaltada, o povo das serras e das
planícies teve ocasião de ver os horrores praticados
pelos comunistas em Espanha, que consideram o ódio como
elemento criador de felicidade, espezinham a família e desejam
constituir uma sociedade sem Deus. Um punhado de imagens comunica a
todos os bons portugueses, o verdadeiro povo, em nome e à
custa do qual, durante algum tempo, meia dúzia de
aventureiros, de ideólogos e de energúmenos falaram e
viveram – o grande drama da nossa época, a luta entre tudo o
que constitue o espírito da Nação e as ideias de
paixões estrangeiradas que ameaçam subverter o País.
As cartas dos nossos correspondentes da província têm-nos
dito que milhares de pessoas assistiram às sessões
dadas em amplos locais e que as figuras de Carmona e Salazar foram
sempre muito ovacionadas e aplaudidas. O povo reconhece, assim –
após tantos anos de ludibrio e de esplêndidas promessas
dos políticos – os seus verdadeiros amigos, aqueles que
ainda há pouco afirmaram que a revolução
continua “enquanto houver uma nuvem de perigo externo, um germe de
desagregação interior, um português sem trabalho
e sem pão”.
A primeira volta do Cinema Popular Ambulante realizou-se entre
Janeiro e Maio de 37, tendo o itinerário compreendido 127
projecções em cerca de 74 povoações do
Norte e Centro do país, num total de espectadores superiores a
de cem mil e que, na sua maioria, desconheciam o cinema. No segundo
semestre do mesmo ano a equipa de projecção deslocou-se
para o Sul e, face ao sucesso da iniciativa, o SPN resolveu criar
mais uma conseguindo assim alargar ainda mais a sua área de
intervenção. Tirando partido da força persuasiva
das imagens (a que normalmente se associavam discursos políticos
de ocasião), o SPN, usando como pièce de résistance as reportagens e filmes sobre a Guerra Civil de Espanha, ia
inculcando nas populações o conhecimento do que
efectivamente se passava em Espanha. Era uma espécie de vacinação em massa, que, por vezes, contava com
tentativas de boicote, com a rede clandestina do Partido Comunista a
ameaçar exercer represálias sobre quem comparecesse…
Grande parte do orçamento do SPN foi assim usado para a
divulgação e distribuição de
longas-metragens, noticiários e documentários
adquiridos no Estrangeiro como por exemplo à Éclair-Journal,
ou mandados fazer no País, como aconteceu com alguns trabalhos
da Lisboa Film. Outra larga fatia ia para os equipamentos de
projecção que praticamente esgotavam as cópias
disponíveis no Cinema Ambulante. A insuficiência
de laboratórios de reprodução bem equipados e o
parco orçamento impediu que o SPN produzisse ou promovesse
filmes portugueses, como era sua intenção inicial, e
que correspondesse aos inúmeros e insistentes pedidos que lhe
chegavam de Espanha. Mesmo assim, dois anos após a sua criação
em Setembro de 1935, o catálogo da secção de
cinema do SPN, possuía já cerca de cinquenta filmes,
muitos deles sonoros, integralmente realizados pelos seus operadores
ou por produtoras portuguesas especialmente contratadas. Muitos
entraram mesmo nos circuitos internacionais através de
companhias como a Paramount News, a Fox Movietone News,
a Éclair-Journal, da France-Actualités ou
a Ufa Wchenschan.
De entre as adaptações de material de origem
estrangeira para o público nacional sobressai a curta-metragem
muda A Guerra Civil de Espanha, provavelmente de origem
francesa, que apresenta imagens da retaguarda frentepopulista em Barcelona. Mostra inúmeros planos de igrejas incendiadas,
edifícios em ruínas e até as famosas imagens dos
cadáveres expostos de freiras no exterior de um templo. Visões
da guerra de Espanha, sobre a batalha do Ebro e os combates na
Cidade Universitária, em Madrid, Imagens da guerra de
Espanha, sobre a ocupação de Barcelona pelas forças
sublevadas e, já após a vitória de Franco, o
pacote A tomada de Madrid e o Desfile da Vitória foram alguns dos filmes que sobre a mesma temática o SPN
promoveu. Especial relevo merece a longa-metragem de origem
ítalo-espanhola Nada de novo no Alcázar que na
sua versão portuguesa apresenta cenas acrescidas sobre a
importância da ajuda proporcionada pelo Rádio Club
Português, omitidas na versão original.
A latere do conflito, mas sempre com ele subjacente, foi
produzido, ainda em 36, um curto documentário intitulado Comícios Anti-comunistas, que faz desfilar no ecrã
as imagens das manifestações patrióticas de
repúdio e desafio ao comportamento faccioso do Governo de
Madrid que ocorreram um pouco por todo o País. O SPN produziu
igualmente o Jornal Português, incluindo no seu conteúdo
programático noticiários sobre a Guerra Civil
Espanhola. O nº1, de 38, por exemplo, documenta, em cerca de 1
minuto, a vinda a Portugal de uma delegação da Falange
(na altura já a franquista FET y de las Jons), composta
por centenas de membros que, desfilando pela Avenida da Liberdade,
vão depor uma coroa de flores no Monumento aos Combatentes da
I Guerra, defronte do Consulado de Espanha.
Entre as longas-metragens surgidas na altura merecem especial
destaque A Revolução de Maio (37) e A Caminho
de Madrid (36).
Esta última, realizada pelo consagrado cineasta Aníbal
Contreiras, foi porventura a mais ambiciosa obra da produção
cinematográfica nacional sobre a Guerra de Espanha.
Considerado o primeiro documentário sonoro português,
surgiu como uma adjudicação da Sociedade Universal
de Superfilmes (SUS), propriedade do Diário de
Notícias. Acompanhado pelo Conde de Carnide, por Francisco
Ribeiro Ferreira, por Jorge Rodrigues e pelo repórter José
Augusto, Contreiras atravessou a fronteira, munido de uma autorização
especial de Franco, para captar imagens de paisagens, cenas bélicas
e protagonistas sempre com o fito de estar em Madrid aquando da
capitulação da cidade. Eis a recensão
pré-estreia que se pode ler no República de 8 de
Dezembro:
Desde Salamanca até à frente de Madrid, o filme
revela-nos, entre outros aspectos, os formidáveis
entrincheiramentos da coluna de Mangada conquistados pelas tropas do
general Mola; as vedações de subterrâneos,
dissimulados em Navalperal; a monumental comporta de Alberche que os
governamentais abriram com o propósito de, inundando as
estradas, suster o avanço dos insurrectos; aldeias abandonadas
e saqueadas; o campo de aviação de Escalona; o Castelo
de Maqueda, onde a luta foi feroz, os aviões abatidos pelo
fogo violento dos “caças”; uma camioneta destruída
pela metralha; a frente de Guadarrama; restos de um trimotor francês;
o primeiro “tank” nacionalista que entrou em Madrid, tripulado
por um voluntário português; os agasalhos oferecidos
pelas mulheres portuguesas às tropas nacionalistas; a
fuzilaria das forças que combatem em Casa de Campo; as linhas
de fogo em Cerro de Los Ángeles, centro da Penísula
Ibérica; o ataque final a Madrid, etc. “A caminho de
Madrid”constitui um espectáculo sensacional de flagrante
interêsse.
Intrépido, Contreiras passou por vários apertos. Quando
se encontrava nas rodagens das cenas finais, na Casa de Campo, ao
registar o bombardeamento da Central Telefónica, uma granada
de morteiro governamental rebentou muito próximo.
Noutra ocasião, ao buscar a obscuridade de um armário
para mudar a película, foi surpreendido por uma patrulha
marroquina que o considerou espião e que só muito
dificilmente se deixou convencer quanto aos seus propósitos.
Mas não escapou a ser ferido; quando filmava no aeródromo
de Escalona foi atingido por uma bala perdida.
Apesar da excelente qualidade das imagens obtidas, a SUS recusou-se a adquirir a longa-metragem e teve de ser o cineasta a
apresentá-la e distribuí-la a título individual,
estreando-a a 10 de Dezembro de 36, no Politeama, com o apoio do SPN.
A Paramount e a Lisboa Film adquiriram-na. Restam
poucas dúvidas de que a curta-metragem preparada por esta
última para a Representação da Junta de Defesa
de Burgos em Lisboa e intitulada Cerco y bombardeamento de la
capital de España, resultou de uma amputação,
em montagem, de A Caminho de Madrid. Em ambos se repetem os
mesmos takes, os mesmos planos, os mesmos protagonistas (o
oficial português da Legião, Leite de Faria, por
exemplo), as mesmas referências à ajuda de Portugal à
cruzada espanhola (pouco prováveis num documentário de
verdadeira origem espanhola).
E por fim, nas grandes pinceladas com que pretendi tratar o assunto,
cabe falar de A Revolução de Maio, essa
brilhante obra de ficção concebida por esses míticos
baluartes da cultura nacional António Ferro e António
Lopes Ribeiro, já abordada na Alameda Digital pelo meu
querido amigo, João Marchante. Finalizada em 37, é a
primeira longa-metragem produzida pelo SPN que a destinava ao consumo
interno e ao estrangeiro, como uma forma de justificação
e apresentação do regime que se denominava por Estado
Novo. Pela sua importância e valor não cabe aqui
analisá-la. Deixemo-la para um próximo artigo…
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