A corrupção
por J. Luís Andrade
Uma das ameaças que mais contribui para pôr
em causa a estabilidade e a coesão das sociedades é,
certamente o nível de corrupção de um país,
muitas vezes generalizada, engendrada ou aproveitada pela actividade
do crime organizado internacional.
Para além de corromperem elementos das forças
anti-crime ou da administração pública de médio
e baixo nível, os criminosos, procuram corromper políticos
e altos funcionários por razões óbvias. Procuram
conseguir protecção de alto nível para si e para
as suas actividades ou obter informação interna sobre
as investigações judiciárias a nível
nacional. São igualmente motivações, a obtenção
de informação, classificada como secreta ou
confidencial, sobre as intenções e propensões
dos governos a propósito de legislação e
orientação económica, fiscal ou anti-crime que
possa vir a afectar os seus interesses.
Países em que o Estado controle directamente as
companhias de produção e distribuição de
energia ou os principais grupos financeiros, são
particularmente vulneráveis à corrupção
de alto nível. Altos funcionários que detenham
autoridade para decidir sobre a atribuição de subsídios
ou que tenham capacidade para isentar, relevar ou perdoar coimas e
taxas são igualmente alvos preferenciais do crime organizado.
O mesmo acontece com quem influencia ou intervém nos processos
de decisão sobre grandes contractos estatais ou processos de
privatização.
Mas algumas vezes, essa gente também tem os seus
próprios interesses quando toma a iniciativa de procurar ou
aceitar uma aliança com os criminosos. As razões por
que o fazem podem ir desde o tentar evitar as pressões ou as
represálias quando aqueles pretendem favores até tirar
proveito, para benefício próprio, da autoridade ou
poder que detêm não hesitando em recorrer, para isso, a
actividades ilegais ou ilícitas. A ambição
desmedida pode levar alguns indivíduos, em posição
para decidir ou influenciar as operações ou
investigações judiciárias, a pedir comissões
ou subornos para bloquear ou aliviar a interferência estatal
nos negócios dos grupos criminosos. Usando a sua posição
pública ou a potencial capacidade de influência procuram
tirar dividendos disso, promovendo decisões a favor do crime
organizado com que se relacionam. Nalgumas sociedades e nalguns
meios, o tráfico de influências tornou-se numa das
actividades mais lucrativas permitindo o aparecimento surpreendente
de fortunas que, noutras condições, demorariam gerações
a ser criadas. Da mesma forma, políticos e empresários
sem escrúpulos não se inibem de procurar as
organizações criminosas a fim de conseguir informações
que lhes permitam desacreditar rivais políticos ou económicos
ou, tão somente, garantir o financiamento secreto das suas
campanhas políticas.
Em acréscimo a minar a legitimidade e o
desempenho de um governo ou das instituições públicas,
a corrupção, muitas vezes associada ao nepotismo,
altera significativamente a distribuição dos talentos e
da igualdade de oportunidades no seio da sociedade. Provoca
dificuldades na angariação da receita fiscal, uma vez
que os contribuintes têm a percepção de que as
decisões económicas e fiscais fundamentais são
baseadas mais nos interesses dos grupos com capacidade para
influenciar os sectores chaves da Administração do que
nos reais interesses do País. Dissolve gradualmente as
referências morais e cívicas retirando consistência
à ética estruturante da sociedade a qual, sem reacção,
tenderá irreversivelmente a colapsar.
No nosso país, também se tornam cada vez
mais evidentes as abstrusas ligações entre altos
responsáveis do Estado e alguns lobbies capazes de
movimentar grandes quantidades de dinheiro como o são a
construção civil, os fabricantes e distribuidores de
medicamentos, os negociantes de armamento, o mundo do desporto
profissional, algumas enigmáticas e pseudo-filantrópicas
sociedades e Fundações, etc.. As relações
entre estes grupos evoluem geralmente em espiral, aumentando o seu
Poder potencial através da simples regra do coça as
minhas costas que eu coçarei as tuas. E, amiúde,
quer o mundo do espectáculo quer o da comunicação
social, muitas vezes propriedade sua, ou sob o seu controlo, são
usados para denunciar ou para esconder, para desgastar ou promover,
para condenar ou incensar os adversários ou os membros afectos
ao círculo, respectivamente.
De uma forma geral, a corrupção enfraquece
as instituições chegando mesmo, quando endémica,
a afectar a Identidade Nacional de um Povo. Estabelece a dúvida,
esbate e relativiza as referências morais, fomentando uma
sociedade permissiva e laxista que, por apatia ou vergonha
intrínseca, tende a esquecer a consistência dos seus
valores colectivos. |