Quase
Memórias. Almeida Santos* - Comentário ao
1.º Volume
por Silvino Silvério
Marques
Deslocara-me, creio que em 1972, de Nampula a Lourenço
Marques, para tomar parte num Conselho Provincial de Defesa, e
encontrei ali um bom amigo que me tinha dado uma colaboração
leal, esclarecida e importante em Angola: o Dr. Ferro Ribeiro,
transferido para Moçambique após a minha saída
de Angola. Falou-me das suas relações de amizade com o
Dr. Almeida Santos e do livro “Já Agora…” que ele, na
altura, havia publicado e no qual respondia a criticas que lhe haviam
sido feitas pelo jornalista Rui Cartaxana numa revista da Beira.
Comprado e lido o livro, nele me impressionaram duas confissões
do autor. Por um lado, uma relação das razões
por que não se importava de ser rico; por outro, a confissão
que fazia de que os seus sentimentos se repartiam pelo seu amor a
Portugal (entenda-se europeu) e o seu amor a Moçambique.
Ocorreu-me oferecer-lhe um exemplar de que dispunha do meu livro
“Estratégia Estrutural Portuguesa” e escrevi uma
dedicatória em que insinuava que talvez a doutrina tradicional
portuguesa sobre o Ultramar que nele se defendia desfizesse as suas
hesitações, pois o que se lhe apresentava como dois
sentimentos divergentes deveriam tornar-se apenas um e o mesmo: a
grande Pátria de todos. Creio que não me foi acusada
directamente a recepção do livro, mas pelo amigo comum,
Dr. Ferro Ribeiro, foi-me transmitido que o Dr. Almeida Santos não
concordava com o seu conteúdo político, porém,
quanto ao seu conteúdo social, “estava à nossa
frente”...
Mais tarde, logo a seguir ao 25 de Abril, o Gen. Spínola
chamou-me para me convidar para Governador-Geral e Comandante-Chefe
de Moçambique, convite anulado posteriormente, por elementos
da Província (Grupo Democrático de Moçambique?)
terem recusado o meu nome.
Nos princípios de Junho fui
convidado pelo autor, então Ministro da Coordenação
Interterritorial, para Governador-Geral de Angola, após
consulta feita pelo próprio à população
da Província. Aceite o convite, tive algumas conversas com Dr.
Almeida Santos, nas quais trocámos impressões sobre a
situação que se vivia lá e cá e a missão
que procuraria cumprir: essencialmente preparar a Província
para um referendo que se pensava fazer acerca do seu destino e
preparar eleições para a administração,
segundo legislação que ia ser promulgada. Recordo
ter-me contado a forma como decorreu a consulta feita e o resultado,
para si inesperado, e não desejado, da mesma. Recordo
igualmente de me ter contado que no Conselho de Ministros que
apreciou o assunto, ter havido um ministro que lhe perguntou se todos
os Movimentos haviam concordado com a escolha, ao que o Dr. A. Santos
lhe teria respondido “o Movimento em que está a pensar,
também concordou”.
Tratando-me sempre com franqueza e simpatia, poucos dias antes da
minha partida, advertiu-me de que eu não ia encontrar em
Luanda o ambiente que conhecera e que ia ser recebido, logo que
desembarcasse, com manifestação hostil. Assim
aconteceu, quando desembarquei. Um grupo de africanos colocado, com
dísticos que mal pude ler, no lado da rua em frente da saída
do aeroporto, dirigiu-me apupos. Porém logo se calou, quando
lhe acenei em estilo amigável e correspondeu com palmas.
Segundo me disseram, manifestação do mesmo ou de outro
grupo estaria postada ou se postou em frente da residência, mas
não dei por ela. Soube posteriormente que a organização
das manifestações tinha cabido ao Movimento Democrático
de Angola e que havia sido paga a poucos escudos por cabeça…Também
num dos encontros, fui encontrar o Dr. Almeida Santos profundamente
desgostado pela forma como decorrera a sua reunião em Londres
com elementos do PAIGC. Chocado com a composição e a
atitude da representação do PAIGC, confidenciou-me que
não mais estaria disponível para conversações
semelhantes. Algumas referências públicas, de que tive
conhecimento, que me foram feitas pelo Dr. Almeida Santos já
depois do meu regresso de Angola, foram correctas e simpáticas.
De meu conhecimento, apenas a sua confessada discordância com a
ideia do referendo a qual tem declarado como apadrinhada pelo Gen.
Spínola, me causou profunda surpresa por não ter
descortinado, nas instruções saídas das nossas
conversas, qualquer sua oposição a essa ideia, então
corrente, e infelizmente repelida, nem tentada…Estes os contactos
que tive com o autor do livro agora publicado.
Em dezenas de páginas com que se inicia esta importante obra
em dois volumes, quase que todo o texto se refere a erros, desvios,
ignomínias da acção portuguesa no que foi o seu
Ultramar, essencialmente em África. Da escravatura, aos
trabalhos forçados; da soberania imposta a populações
que parece serem tratadas como constituindo, desde sempre, estados e
não, como durante muito tempo, grupos étnicos tantas
vezes digladiando-se, fazendo escravatura e traficando-a; das nossas”
bravatas militares” (como com desdém refere várias
vezes), do nosso “quadrado à beira de ser feito num oito, se
não num zero, em Marracuene, Macontene e Magul”… estes e
muitos outros senãos da cultura e da acção
portuguesa são contrastados com as culturas e qualidades das
populações que contactávamos. Os erros e crimes
do Acto Colonial (escrito pelo punho de Salazar, segundo o que ensina
e salienta), o indigenato, e as políticas da assimilação
e da integração, tudo é desfeito no texto do
autor. Alguns casos, entre os muitos que profissionalmente viveu, ou
que conheceu, exemplificam o que aconteceria por todo o lado, e
demonstram o erro de se querer impor uma cultura onde existia outra
que devia ser conhecida e respeitada. E todo um estendal de erros,
iniquidades e crimes da autoria do cidadão comum, da
administração ou dos governos, são encaminhados
para apontar como responsável o “ditador”. Talvez uma meia
dúzia ou uma dúzia de linhas digam algo de bem. Entre
elas a sua surpresa perante a admiração que lhe
manifestara um vice-presidente da ONU, o qual acompanhava em visita a
Angola, por ali existirem várias cidades que poderiam ser
capitais, ao contrário do que era habitual em África
onde uma só cidade, em cada país, tinha condições
para capital. Nem uma palavra sobre o que foi feito pelos territórios
e pelas suas populações no estudo e na investigação,
incluindo a cartografia, na saúde, na escolarização,
nas comunicações, rodo e ferroviárias, portos e
aeroportos, nas barragens, na urbanização, na
agricultura, na indústria, no comércio, a partir de
fins do século XIX, e essencialmente entre 1926 e 1974 (nos
tempos dos “ditadores”). Omite-se que tudo andou para trás
nos últimos 30 anos com destruições e crimes
cometidos entre as próprias populações e entre
os seus próprios governantes. Omite-se que foi com o
indigenato e a assimilação, e estava a ser com a
integração, que as populações se
prepararam para que os seus governantes pudessem hoje aplicar-lhes as
soluções jurídicas, políticas,
administrativas e sociais, que assimilaram, semelhantes às
generalizadas no mundo…. Omite-se que as políticas que agora
se consideram erradas foram transição. Esquece-se até
que, se de facto se caminha para a “globalização”,
era para lá, no seu entendimento material e espiritualmente
positivo, que apontava a nossa integração (a portuguesa
e verdadeira descolonização). Como poderíamos
ter avançado mais rapidamente, havendo partido em tantos
aspectos do zero deixado em todo o Portugal pela primeira República?
Talvez com gente de melhor qualidade e certos responsáveis
mais esclarecidos que, localmente, ignoraram e fizeram por ignorar,
que tais doutrinas procuravam defender as culturas encontradas, sem
que se desembocasse no apartheid, e que era necessário impedir
que, na sua aplicação, gente local, ambiciosa e mal
formada, cometesse abusos e vilanias que, aliás, havia
localmente obrigação de evitar e poder para punir. E,
não esquecendo que Moçambique tinha fronteiras com
países reconhecidamente racistas, teria de haver localmente
uma “pedagogia” anti-racista, conduzida por elites oficiais e
privadas, que repusesse a acção política nos
termos da lei que não admitia desvios e abusos que se
verificassem.
Porem acontecia que, em vez disto, as elites, e nestas o Grupo dos
Democratas, integradas no meio tolerante habitual em que gostavam de
conviver, desabafavam protestos, atribuindo a responsabilidade desses
erros, desvios e abusos não aos que localmente os praticavam
e, ou, os toleravam, mas ao regime, a Salazar, utilizando-os como
importante e demolidora oposição. Oposição
conduzida essencialmente por altos líderes locais que, nunca
esconderam e sempre foram mantendo, a ambição do
auto-governo, de início “branco”, o qual, adaptando-se às
circunstâncias, foram, sucessivamente, tolerando ir-se
“escurecendo”…Em Angola, por mais de uma vez, figuras
importantes de uma Associação Africana respeitada me
manifestaram o receio de Governos Provinciais “brancos”, mesmo
que “escurecidos”, e a sua confiança no Governo Central …
Apesar de defender, e bem, o respeito pela cultura africana
(certamente sem esquecer os princípios cristãos
conhecidos como direitos humanos) e de se manifestar contra a
assimilação, não deixa de assinalar que, em
Moçambique, eram poucos os assimilados… Compara os muitos
“mestiços” que encontrou na África do Sul com os
poucos de Moçambique e não pode deixar de desmistificar
as nossas farroncas machistas… (pág. 98). Cita Gilberto
Freire que “ganhou esporas de doutrinador oficial do Governo de
Lisboa, ao escrever em prosa os novos Lusíadas, da
nossa vocação luso-tropical”, para referir que,
“segundo ele”, os Portugueses tinham logrado a harmonia racial.
Deixa como instrumento privilegiado desse milagre: “a miscegenação,
ou seja a cama”…Não compreende, parece, que a miscegenação
portuguesa foi sendo desde sempre, e cada vez mais étnica,
física, espiritual e também cultural, recebendo e
dando….
Afirmando-se como prestigiado e afortunado advogado de Moçambique,
nem uma palavra deixa sobre o largo e brilhante contraditório
que foi sendo formulado e difundido, na oportunidade, pelo governo
português, abdica dos naturais e espontâneos sentimentos
de pessoa nascida no Portugal do seu tempo, e reforça, com a
sua, a argumentação dos adversários que
hostilizavam a Pátria dos portugueses. Esta não era,
pelos vistos, a sua, tal como acontecia com o Dr. Eduardo Lourenço,
conforme esclareceu, respondendo, num debate que vi televisionado, ao
Gen. Kaulza, que invocara a traição havida. Não
teme, assim, o risco que o seu colega, igualmente prestigiado, Palma
Carlos, não quis correr, quando se demitiu de
Primeiro-Ministro. Mas, apaixonado advogado dos nossos adversários,
num período importante e grave da História de Portugal,
como nela será julgado?
Impregnado do gosto, dito progressista, de se copiar o que se faz lá
fora para fazer lei cá dentro, arruma-nos a par e passo do seu
texto, ao mesmo tempo que vitupera Salazar e a sua acção,
com as descolonizações levadas a cabo quase
exclusivamente pela Inglaterra e pela França. Contei nas
citações que o autor foi deixando cair, cerca de
cinquenta descolonizações efectuadas, entre 1930 e
1974. O autor cita o que em memorando enviado, em 1963, por George
Ball a Salazar, é referido (pág. 218): “No breve
espaço de vinte anos, mil milhões de pessoas deixaram
de estar sujeitos a sistemas coloniais”. Compare-se isto com a
modéstia daquilo que, para nos denegrir, mesmo pessoas aqui
nascidas, passaram a designar como “colonialismo”, representavam
as nossas oito Províncias Ultramarinas e os seus cerca de
quinze milhões de habitantes que constituíam pouco mais
de metade da nossa população total…Poucas gentes
envolvidas. Muito espaço cobiçado, muitas ambições
decepcionadas…
O autor, pessoa que sabia inteligente e julgava simples, mostra, com
meu sincero pesar, sobre estimar-se, na medida em que não
controla o ódio que revela por Salazar que culpa de tudo e a
quem trata de forma grosseira e desprezível. Além dos
manifestos que sentiu e redigiu, dos discursos que proferiu, das
páginas que escreveu, da justiça que procurou que fosse
aplicada, que de muito importante e grande deixou para o país
em que nasceu e para o respectivo povo, que justifique a
superioridade arrogante e verdadeiramente totalitária, na
abrangência destruidora envolvida. Porquê tal complexo.
Que trauma? A suposta tentativa de defenestração? Os
erros que entende cometidos pelo regime anterior? Os crimes que
atribui à Polícia Internacional? O “ditador”
responsável e culpado de tudo o que de mal (em sua opinião)
havia acontecido?
Orientador de uma oposição contínua e
intolerante ao regime - bem legitimado pelas relações
cordiais com a generalidade dos Estados e das organizações
do mundo e aclamado pela defesa do Ultramar- e, apoiante em tempo de
guerra dos inimigos que então nos combatiam, sabia que teria
de contar com muitos que, politicamente, o detestavam. Sabia que, até
em tempo de guerra, tinha mantido uma tarefa que lhe traria
dissabores e riscos. Não creio que apenas dai tenha vindo o
ódio que não reprime e que tanto desvaloriza o
reconhecido brilho da sua escrita corrente. Outras razões
explicarão, creio, o recalque que evidencia. Ao começar
a ler o Capítulo “Os Primeiros Passos” não pude
deixar de o associar ao sonho da sua vida, relativo a Moçambique,
“a terra que por amor havia escolhido para viver e da qual teria de
desenraizar os cinco filhos que ali haviam nascido” (págs.
230-231), sonho abandonado ao aceitar o desafio de fazer parte do
Primeiro Governo Provisório, dado que havia “lutado por uma
descolonização política” e entendeu não
poder recusar “ajudar a fazê-la” (pág. 232). De
Moçambique, onde tinha vivido vinte e um anos e que visitado
por si, quatro dias depois de empossado como Ministro, amigos de
sempre, e outros novos, viveram tempos de esperança…Amigos
correligionários, muitos dos quais, mais tarde o erigiram “em bode expiatório” (pág. 246). Certamente
o que se estava a passar não era o que teriam esperado…
Talvez que o ódio destilado se destine, essencialmente, a,
cómoda mas friamente, personalizar a oposição a
um regime, de muita gente ilustre, que os líderes
oposicionistas “brancos” de Angola e Moçambique
necessitavam destruir para realizar os seus sonhos, inicialmente de
“autonomia branca” que, sucessivamente, foram tolerando se
limitassem a ser de federação ou confederação
com um pouco de escuro, e até mesmo de separação
esbranquiçada. E que, quando julgaram que nem isso era
possível, se juntaram ao inimigo de então e passaram
também a bater-se pela independência, ainda com
derradeira esperança num reconhecimento que lhes consentisse
continuar lá, sem problemas, a sua actividade…Afinal,
consumada a almejada independência que tinham ajudado a
desencadear, não ficaram. Tiveram de correr à Pátria
que passaram a tratar, justificando-se, que essa sim era a sua. A
outra que os vira nascer e os formara era um mito de utópicos…
No caso do autor, todo o amor a Moçambique e toda a devotada
e, quero crer que em geral justa, defesa dos africanos contra
excessos de alguns “brancos de lá” se desmoronam quando,
como Ministro escreve (não sei se por seu punho como tantas
outras leis que se lhe devem) e publica,”a mais patriótica
das leis”, como ousa afirmar (pág.283), a chamada “lei
celerada” com a qual, por medo de uma, pacífica, invasão
de Portugal por ultramarinos africanos, lhes faz retirar a
nacionalidade, num verdadeiro genocídio espiritual que
envolveu muitos milhares de vítimas… Quando aqui os
revolucionários civis e militares designavam por colonialistas
os “brancos” de África e apregoavam o ódio que os
ditos explorados africanos tinham aos “brancos” não se
percebe o receio manifestado pelo Ministro de que os explorados
desejassem, e pudessem, refugiar-se entre os seus ditos
exploradores…Parece ser de concluir que o seu amor a Moçambique
era ao País que não à sua população…
Racismo? Em política, o que parece é. E como se trata
de alguém nascido em Portugal, talvez que só por
influência de países vizinhos… Fica-se na dúvida
se nas ambições políticas do Grupo dos
Democratas de Moçambique não haveria, pelo menos, uma
réstia de apartheid…Talvez, também, daí que,
em resposta a um jornalista numa entrevista publicada a 10 de Abril
de 2004 no “Público”, de que só agora tive
conhecimento, me tenha considerado, antes do 25 de Abril, defensor de
uma Angola branca… Como isto é um disparate de que me
repugna não tivesse consciência, só o posso
compreender como sendo propositado, talvez por, enfim, sentir
necessidade de insinuar que se excluía de tal ideia racista…
Não concretizado, em nenhum grau, o sonho que
haviam vivido, coube-lhes regressar à Europa e passar a tentar
justificar a tragédia a que deram origem lá, e estão
dando aqui…
A habilidade semântica de designar como mito utópico
Portugal de Minho a Timor, de que o autor, e com ele tantos, passaram
a usar como tábua de salvação para justificar o
que fizeram, não pode convencer um povo que não é
estúpido, e que se foi espalhando, vivendo e morrendo em tão
grande Pátria. E é estranho que isso parta de quem amou
Moçambique, conheceu Angola e, em Timor, se comoveu com o amor
a Portugal, exibido ali pelos timorenses. Dir-se-à que, ou não
conhece o Minho, ou entende que o Minho não é
Portugal…E, talvez, tenha sido em Timor, onde me dizem que chegou a
lacrimejar pelo portuguesismo ali manifestado, que, recalcando
sentimentos, lhe ocorreu, para se compensar, a ideia “utopia” que
depois passou a usar como refúgio de culpas próprias,
assim lançadas sobre os outros…
Considerando justificado o golpe militar e a descolonização,
com as razões apresentadas nas numerosas páginas para o
efeito carregadas de desprezo e ódio, com que inicia a sua
obra, e assim certamente confortada a sua consciência, deixa
compreendido que não pode recusar, embora com sacrifício
o convite para Ministro da Coordenação Interterritorial
no novo Governo, para, como escreve (pág.232) ajudar a fazer a
descolonização política por que havia lutado.
Fá-lo com sacrifício, “por deixar Moçambique,
a terra que por amor havia escolhido para nela viver…”(pág.30-231).
Mas não deixa de vir a esclarecer que como Ministro, no “que
diz respeito quanto a orientações políticas
sobre o Ultramar, iria em dizer que, por meu mal, tive mais liberdade
de actuação do que seria desejável no
respeitante aos salvados da administração dos
territórios, e menos liberdade do que eu próprio
desejei quanto ao seu processo autodeterminativo” (pág.
240). Fica assim (e deixa-se ficar…) menos livre do que desejava
para ajudar a fazer a descolonização política
por que havia lutado, descolonização que redundou em
“tragédia” como foi referido por um dos mais celebrados
teóricos fundadores do MFA. Processo que passa a historiar com
minúcia, nas suas confusões, intrigas, e nos seus erros
(dos quais assim algo se exclui).
Com o à-vontade, de hábil interveniente, inteligente e
bom advogado e escritor e de, precatado observador, escreve, com
pormenores, certamente verdadeiros, pouco conhecidos, e assim,
portanto, com interesse para a História, a baralhada militar,
política e social que se desenrolou, e muitos de nós
vivemos, a partir do 25 de Abril. Da baralhada vergonhosa, que
considera, adoçando-a, como “embriaguez da liberdade”, e
das chamadas descolonizações, o autor segue a dar conta
dos desaires, dos erros cometidos, dos juízos errados quanto à
prática de uma solução política em que
sempre falavam, e para cuja preparação tantos contactos
os próceres tinham estabelecido aqui e lá fora, a qual
afinal se verificava que não sabiam como fazer, como aplicar.
As responsabilidades e culpas vão ser, atribuídas, aos
militares e entre estes, especialmente ao MFA e a Spínola…
Refere mesmo a “quebra de moral, da coesão da disciplina dos
nossos soldados…e… em verdadeiros actos de rebelião”
(pág. 242), o que não pode deixar, recorrendo aos seus
ódios, de explicar: ” Foi a erupção do gás
por longo tempo represada.” Isto certamente para não
confessar a culpa que os civis políticos tinham (e continuam a
ter) na destruição das Forças Armadas que
infelizmente não deixou de prosseguir…
As circunstâncias em que decorre a chamada descolonização
e que a determinam são descritas com pormenor. Em síntese,
são:
- A embriaguês da liberdade que inclui a baralhada, a bagunça
política, social e militar, desencadeada logo a seguir ao 25
de Abril e que vai perdurar durante muito tempo. E escreve: “A hora
vestia farda. Militar era in totum a glória, militar o
essencial do poder, E no próprio âmbito das escassas
competências, o Governo era confrontado com a explosiva erupção
de poderes de facto, de reacções da sociedade
emergente, das primeiras exibições de poder popular.
Era escassamente obedecido. Nas escolas instalou-se a rebelião
permanente. No mais, a confusão total.” (pág.293). E,
como não pode deixar de ser, “ ao nível das causas”
atribui a responsabilidade, de forma odiosa, ao regime anterior…É
demasiado!...
- As pressões internacionais, omitindo que, enfim, tinham
encontrado aqui já não o Estado determinado que se
havia batido denodadamente pela política tradicional e do
interesse do conjunto de todo o seu povo, mas o Estado fraco,
dividido, desorientado, acomodado de que necessitavam para imporem os
seus interesses.
- A progressiva deterioração das Forças Armadas,
que incluem verdadeiros ultimatos ao poder político. São
páginas do comportamento vergonhoso de muitos militares que
deveriam ter sido inquiridas, objecto de punição,
sempre que se justificasse, divulgadas e objecto de profundo estudo
dos Estados-Maiores da Instituição Militar para que se
procurasse evitar repetições. Elas explicam muito da
passividade da Nação face ao tratamento que a
Instituição Militar passou a sofrer depois do golpe
militar, quando, para o levar a cabo, até tanto se invocou o
aludido desprestígio de então… Mas o autor não
pode deixar de justificar tal comportamento vergonhoso, que constitui
uma mancha a degradar a História Militar portuguesa. E
explica: “A guerra havia durado tempo de mais. Até à
exaustão física e psicológica...Com o avolumar
das deserções…surgiu a necessidade de recorrer a
contingentes africanos e a levas massivas de milicianos que
introduziram nos quartéis o anti-colonialismo, o pacifismo, o
anti-militarismo… Durante as longas vigílias, ou as tediosas
esperas, os milicianos leccionavam a injustiça do colonialismo
e das guerras coloniais. Daí que, já mesmo antes de
Abril, a guerra fosse alvo em que não entrava a vontade de
muitos, ou em que muitos se recusavam a pôr a alma…Resultado:
as consciências devinham fenomenológicas, e a distinção
entre o bem e o mal esbatia-se por entre convulsões cívicas
sem controlo…Essa «revolução» em marcha,
que desde o pós-guerra vinha fazendo por toda a parte o seu
caminho, e havia penetrado a custo no bunker da ditadura
Salazar-Caetanista. “Abertas as portas que Abril abriu,
deu-se a inundação. Em dias apenas, Portugal acertou o
passo com ela. E acertou-o da pior maneira: assimilando-o mal, e por
via reactiva às injustiças, às privações
e aos constrangimentos do passado” (pág.325)
Atribui-se, como tem sido hábito, com profunda injustiça,
generalizadamente aos milicianos, entre os quais, antes do golpe
militar, estiveram dos melhores operacionais, por um lado, um seu
comportamento que alguns políticos revolucionários de
Abril se esforçaram que tivessem, por outro uma cultura muito
pobre dos quadros saídos da Escolas militares, grande
influência na disposição dos militares para
golpe. Esquece-se que eram numerosos os milicianos que desejavam
continuar como militares e que, reconhecidamente, o tinham merecido.
Estes eram tantos ou tão poucos que serviram de motivo ao
golpe dos seus alunos de política, “durante as longas
vigílias ou as tediosa horas de espera”…. Esquece-se que
foi essencialmente de milicianos patriotas que ao surgirem sinais de
lassidão que convinha ultrapassar, partiu a ideia do Congresso
dos Combatentes, tão contrariado...
E, como era de esperar, sem referir o reconhecido comportamento
operacional exemplar das Forças Armadas até ao 25 de
Abril, recorre-se ao passado, omitindo a acção de
forças políticas de várias tendências
sobre quadros militares que nalguns poucos casos (praticamente os de
uma promoção de contemporâneos) se deixaram
infectar, do que é exemplo o MFA. Com quadros contaminados, e
não dignos, nada se pode exigir de soldados, que assim deixam
de o ser. Já o Marechal Montgomery havia advertido uma
promoção de cadetes da Academia Militar, de que eram
grandes as suas responsabilidades pois se destinavam a comandar
soldados que, quando bem comandados, eram dos melhores do Mundo. E
exortou-os, em formatura a que assisti, para que soubessem ser sempre
dignos deles! Antes do golpe, raros, se alguns, foram os que o não
souberam ser!
É extraordinário que pessoa que, ao longo do seu texto,
tanto ódio concentra nas suas continuadas acusações,
reaja, (pág.558) com tão pouco respeito, às
acusações de Luís Aguiar, engenheiro em
Moçambique, profundo conhecedor da chamada descolonização,
em numerosos artigos e no seu histórico “Livro Negro da
Descolonização” que tanto incomodou e continuará
a incomodar os responsáveis pelo que fizeram. Livro sobre o
qual, com a sobranceria que o domina, o Dr. Almeida Santos concede
“escrito com algum talento - diga-se - e sobre tudo com enorme
paixão”, mas comenta não ”merece resposta. Por isso
nunca a teve. Nem agora pormenorizadamente a terá.” Pois
não, não é fácil…
Quanto à queixa apresentada em tribunal contra os
descolonizadores, que considera a “acusação de todas
a mais delirante” , escreve duas páginas (págs.
575-576). E refere: “levei tão pouco a sério aquela
esquipática imputação de «traição»
que nem procurei, por largos tempos tomar conhecimento dela.”
Revela assim, possuindo-a, uma consciência menos sensível
do que a do seu muito prestigiado colega Palma Carlos. Dedica 14
linhas a referir o que, precavendo-se com justo medo, foram
preparando para tentar evitar aquela terrível imputação
de serem incursos no artigo 141 previsto no Código Penal, que
estava em vigor. A lei 7/74, de 27 de Julho que o autor refere foi
considerada pelos queixosos um desvio, uma vez que os povos
envolvidos, não tendo sido ouvidos, não exerceram o
direito previsto no acórdão do Supremo. Posteriormente,
o Dr. Almeida Santos foi relator da Lei 34/77 apresentada pelo
Partido Socialista, na qual são, prescritas para o mesmo Crime
de Traição à Pátria, quando da
responsabilidade dos titulares de cargos políticos, penas de
10 a 15 anos de prisão enquanto na legislação
anterior eram de 15 a 20. Saliente-se que, tempos antes, o Dr.
Almeida Santos tinha sido mal tratado, nos Açores, por
independentistas ….
O desabafo do autor sobre o “Sentar os descolonizadores no banco
dos réus” (págs.575-576) é rematado dizendo:
“Que a grotesca queixa-crime em apreço se afoga no próprio
ridículo, tem merecido e continuará a merecer o
desprezo dos socialistas visados e…” O autor, confundiu-se:
estava certamente a pensar na grotesca, na apalhaçada, sessão
do parlamento de 24 de Novembro de 1981 resposta apavorada à
notícia difundida pelo semanário “O Expresso” sob o
título “Descolonizadores poderão ser julgados”.
Grotesco esse sim que o autor omite… Que vergonha para o parlamento
e seus deputados: ameaça aos juízes, insultos,
legislação a preparar, certamente com efeitos
retroactivos. Grotesca, ainda, e que, sem deixar o apalhaçado,
é também profundamente ridícula, a sessão
de 3 de Dezembro de 1981 na qual os deputados do povo ostentam o
embaraço de um emendar de mão…Tudo é omitido
por quem (como explicar?) não levava a queixa a sério…
Sobre esta queixa o autor nem parece o advogado ilustre de Lourenço
Marques. Mostra-se pouco escrupuloso… Nem os históricos
pareceres do grande criminalogista Professor Doutor Manuel Cavaleiro
de Ferreira relativos ao processo lhe merecem a humildade do
respeito.(1)
Resumiria o Primeiro Volume do Livro a três objectivos:
- Justificar o golpe com o “colonialismo” que, segundo o autor,
seria prática generalizada, e tolerada, na acção
de “brancos” em Moçambique e no Ultramar, o que verificado
por uma tropa cansada e influenciada pelos camaradas milicianos a
levou ao 25 de Abril. Justificar, essencialmente, com o
“colonialismo” do regime, a sua adesão ao processo que se
lhe seguiu…
- Isentar-se da barafunda polítco-militar e social
desencadeada e atribuir as responsabilidades e culpas essencialmente
aos militares. E nestes muito especialmente ao MFA e a Spínola,
adoçando-as como consequência do antigo regime…
- Isentar-se da confusão da chamada “descolonização”
e assumir-se essencialmente como negociador e produtor dos acordos
com os interlocutores que foram entendidos como representativos das
populações: os movimentos que nos haviam combatido.
É pena que o autor, que levou o tempo que o separa dos
acontecimentos por desejar escrever História, tenha deixado,
num texto bem escrito como o sabe fazer, numerosas informações
e notícias importantes, conspurcadas por muito ódio,
por exageros, por omissões, por injustiças, tudo
essencialmente, creio, que por um sonho de muitos anos que não
conseguiu concretizar.
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(1) Para se avaliar da ligeireza
e do desdém com que o Dr. Almeida Santos trata este assunto
consulte-se o livro “Os Descolonizadores e o Crime de Traição
à Pátria” S. Marques, L. Aguiar e G. Santos e Castro,
1983, Ed.Ulisseia e, no jornal “O Dia “ de 15 de Dezembro de
1987, o artigo “Para que se não esqueça”.
* Publicado em revista Estratégia,
vol XVI, Instituto Português da Conjuntura Estratégica,
Lisboa, 2007.
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