Quase
Memórias. Almeida Santos* - Comentário ao
2.º Volume
por Silvino Silvério
Marques
No 1.º volume o autor justificou a sua adesão
ao golpe dos militares e a colaboração como Ministro no
processo a que o mesmo deu origem, pela sua oposição ao
regime derrubado e ao “colonialismo” que considerava ser
praticado no Ultramar português. Assume-se isento da barafunda
politico militar desencadeada pelo processo, e, apesar de nos
governos provisórios durante os quais se processou a chamada
“descolonização” ter sido a pessoa que tutelava o
Ultramar, considera-se também isento relativamente à
confusão que envolveu a decisão de “descolonizar” e
às circunstâncias em que tal teve de ser feito. Alguns
militares e alguns políticos teriam sido os responsáveis
directos pelo que aconteceu, mas a culpa original é atribuída
(agora já não em todas as páginas, mas com menos
frequência, só para não esquecer…) ao regime
derrubado, e aos seus chefes, pela forma como haviam conduzido o país
e resistido a que o Ultramar fosse ”descolonizado, quando quase
todos os outro países haviam “descolonizado.” Praticamente
em todo o 2º Volume, recheado de informações
historicamente importantes, e como o primeiro, bem meditado e
escrito, a estes se insinua a atribuição da referida
responsabilidade, e se dá conhecimento da acção
que o autor considera louvável e exaltante, e que foi de facto
complexa, de procurar remendar a situação algo caótica
criada.
Antes de entrarmos no comentário a este segundo
volume, uma observação geral. Toda a argumentação
que tem sido usada para justificar a secessão do Ultramar
português anda à volta de que, no ambiente internacional
que se vivia, a ”moda” (cuja aplicação depois
rapidamente passou, especialmente em relação aos
“grandes”) consistia “em auto-determinação e
independência” dois conceitos que intrinsecamente se podem
anular, pelo que só é correcto entendê-los, e
aplicá-los, separando-os. No caso português, não
tendo sido, após o “golpe”, feitos quaisquer esforços
para se tentar que as populações fossem consultadas,
por não ter sido possível, como se pretende, ou por se
temer um resultado não desejado, como suponho, os processos
levados a efeito não foram legítimos. Os responsáveis,
que mais pareceram desejar ver-se livres de um “fardo” do que
preocuparem-se em levar mais felicidade às populações
envolvidas, declaravam que não tínhamos outra solução
que não fosse seguir a moda. E acabaram por reverter,
satisfeitos, à Pátria deles, então, uma pequena
fracção da dos de cá e dos de lá, a
actual franja da Europa, sempre cobiçada por interesses
exteriores e sujeita a traições interiores. Ameaça
esta agravada na medida em que o País empobreceu e enfraqueceu
e o ambiente criado fez, entrar em crise as Forças Armadas, a
Universidade e a Igreja, pilares tradicionais da nossa existência.
Neste 2º Volume, a essência do texto é
a seguinte: a independência devia ter sido prometida
imediatamente após o golpe, antes que as tropas desistissem de
combater, dado o colapso moral em que se encontravam. Teria sido
possível assim negociar em condições diferentes
e melhores. Segundo o autor, a ideia de Spínola de transformar
o País numa Federação de Estados, tornada
inexequível, fez retardar o anúncio das independências,
levando a situação tão crítica que tropas
de Moçambique e de Cabo Verde (!) chegaram a apresentar
gravíssimos ultimatos ao Governo. Deixa o autor que o leitor
conclua assim que, Spínola primeiro, embora bem intencionado,
mas fantasista, com as suas delongas, e depois as tropas, com o
comportamento execrável de alguns (ressalvando, ou não
fossem de militares de Abril, por cansadas e ansiosas pela paz, após
as promessas do golpe…), são os culpados da forma como
decorreu a “descolonização”, forma cujo remedeio se
deverá essencialmente à sua acção. E como
já no 1.º Volume havia o autor devotadamente demonstrado que a culpa da situação era
de…Salazar, é, em última e muito responsável
instância, a ele que a atribui. Salazar que até se tinha
metido em bravatas militares, como gosta de repetir, em contra
ciclo com a moda dos países que seriam colonialistas, como
nós. Alguns mesmo até com mais mestiços, menos
colonialistas, entende-se…
O autor não considera necessário, ou
adequado, recordar que, quando Salazar proclamou o “rapidamente e
em força”, a Nação em peso o acompanhou, como
sempre de Minho a Timor, o acompanhara, nas situações
de crise, embora se tivesse de progredir ao ritmo consentido pela
situação deixada pela Primeira República. Até
oposicionistas daqui o acompanharam, com o entusiasmo dos de lá,
estes certamente receosos pelos massacres cometidos e talvez alguns
esperançados em governos nos quais viessem a estar mais
presentes…
Omite-se o esforço que, afastado o perigo
inicial, por acção governamental e militar, a oposição
entendeu oportuno aplicar numa campanha de destruição
das Forças Armadas difamando os seus chefes e promovendo a
deserção das tropas. Esforço acompanhado de
insistente acção sobre os milicianos convidando-os a
fugirem ao Serviço Militar e facultando-lhes, no estrangeiro,
apoios de acolhimento, actuação em prol das pátrias
de outros. E também, relativamente a muitos, procurando que,
desde que incorporados, procurassem influenciar os “incultos” das
Academias Militares no sentido de se insubordinarem. Quanto a estes
devem contudo ter sido poucos os que se deixaram convencer, dado
serem tantos os milicianos que desejaram passar a servir nas Forças
Armadas. Pode-se mesmo pensar se não teria ocorrido uma
inversão de actuações, ou, pelo menos de
resultados…
Não se recorda a apelativa voz (que agora,
uma vez por outra revela, parece, sincera tristeza pelo caminho a que
aqui e lá se foi conduzido…), apelativa voz que tempo a fio,
a partir de Argel, denegriu as chefias militares, convidou à
insubordinação e à deserção os
nossos combatentes… Quando é que militares, ou civis,
aceitam o desafio, tantas vezes já feito, para darem a
conhecer aqui, ao povo, o teor dessas emissões? Não se
recordam as cantatas demolidoras que convidavam à insurreição.
E quem se não lembra da invocação da guerra
perdida feita logo a seguir ao 25 de Abrir por tantos altos políticos
responsáveis que um grupo de
generais sérios, teve de contestar e provar que era injusta e
estava errada, como o próprio inimigo de então chegou,
algumas vezes, a confirmar. Não compreenderam que perdida só com e depois do golpe de Abril, como era de prever e, pelos
vistos, certamente desejado …
Quem não se lembra da lenga-lenga da solução
política que certamente os expatriados políticos (e
devotadamente o próprio autor que por ela aceitou ser
Ministro) andaram a preparar, a combinar, e que desencadeada a altura
de a aplicar, não souberam como, pois, conforme o autor deixa
entendido, no 1º.Volume, os entusiastas pela solução
política não sabiam nem o que, nem o como fazer…e deu
o que se conhece: uma tragédia, segundo um outro dos seus
responsáveis. Eu não esqueço esses grandes
patriotas que tanto se esforçaram pela destruição
da minha Pátria a qual não era dos poucos
estrangeirados, estes sim miticamente cidadãos de um Mundo
futuro, que, bons e pressurosos alunos quiserem antecipar,
indiferentes às dores que vão semeando e que grandes
tragédias originaram já em tantas populações
portuguesas, dores provocadas em circunstâncias que conhecemos
por as termos vivido e não noutras que evocam, sofridas em
circunstâncias históricas do tempo de outros. Dores que,
em relação a África, se continuam a verificar
nas migrações actuais, fruto do que, para alguns, foram
meras largadas de “fardos”, designadas eufemisticamente por
descolonizações...
Nas atoardas emitidas pela troante “voz de Argel”;
no espezinhar-se, em Londres, em manifestação conduzida
por gente aqui nascida, a bandeira portuguesa que no Ultramar era
içada e arriada perante a respeitosa e impressionante
homenagem de quantos, passando, paravam e, em sentido, se quedavam a
assistir; no escrever-se, em letra de forma, que Timor devia ser
entregue à Indonésia; no acto terrorista do Sta. Maria;
nas bombas lançadas sobre instalações militares;
no aliciamento e apoio nacional e estrangeiro às fugas e
deserções a partir do Portugal europeu… vários
civis, intrinsecamente por ódio a Salazar, visaram e
prepararam a desmoralização, face à defesa do
Ultramar, dos portugueses, em particular dos combatentes. Defesa do
Ultramar e das suas populações a que se fora obrigado,
que se iniciara com o assentimento generalizada da Nação,
após o massacre terrorista de que se havia sido vítima,
em Angola. Lançados para negociações os que
tinham desejado que a guerra fosse perdida, e passaram, após o
golpe abrilista a “saber” que a guerra estava perdida (por essa
razão, diziam e escreviam, os militares tinham feito o golpe),
viram, nessas condições, facilitada a tarefa que se
haviam imposto de “largar” o fardo, alguns até de o
entregar a amigos. Nas Províncias onde não havia
guerra, inventaram-na e deixaram que, como tal, se desencadeasse.
Com, por vezes, insólita, e despropositada, colaboração
de golpistas, ditos militares, passou-se às negociações,
com a decisão de “largar”, ou entregar, facilitada pela
pressa que as circunstâncias criadas por alguns militares foram
impondo. Os que tentavam um procedimento diferente face à
situação jurídica criada, foram abandonados
impiedosamente até pelos que os tutelavam e quando procuravam
executar as missões que tinham aceitado…
As chamadas “descolonizações”
limitaram-se a entregar as Províncias aos movimentos que
havíamos combatido, que não às populações,
após negociações facilitadas pelo clima de
derrotados que militares e civis tinham preparado para se livrarem do
fardo…Onde não tinha havido guerra, apareceram ou criaram-se
grupos para receber a dádiva. Em Macau, não houve quem
o quisesse receber…Tem todo o interesse ler o texto que às
descolonizações das várias Províncias
está consagrado neste volume pelas importantes, e algumas
muito tristes, informações que contém, e pelo
labor e dedicação a que obrigou, infelizmente em
sentido errado, agora contra os ventos da chamada globalização… Não era a integração portuguesa uma globalização
que bem desejável e natural seria que se multiplicasse? Não
será globalização outro nome da nossa
integração? Não estaríamos já a
promovê-la de uma forma humana muito mais abrangente? Não
se andou a contra-ciclo? Fica-nos a convicção de que
tanta energia e dedicação consagrada a uma missão
errada, se invertida, poderia bem ter impulsionado, sem tanta
desgraça, cá e lá, em paz, a integração
portuguesa que se vinha construindo, essa sim, a lança no
futuro …!
Fica-me a admiração por quantos,
tratando-se de um Golpe de Militares encabeçado por dois
Generais, então de prestígio reconhecido, nas posições
militares cimeiras em que foram colocados pelo Governo do País,
acreditaram no Programa das Forças Armadas e nas declarações
da Junta de Salvação Nacional, e nos membros militares
que a compunham. Afinal foi-se verificando que o golpe era
intrinsecamente de portugueses mal formados, pois alguns que vestiam
farda militar não possuíam a alma que os deve
distinguir. Anoto, como exemplo, aquele, importante, que, vestindo
farda, declarava, exultante, no Expresso, que «a profissão
militar não era um modo de morte, mas um modo de vida!».
Já me não recordo qual o civil fardado que o declarou,
mas certamente um dos heróis que por aí anda abraçado
a outro herói, por vezes um “desertor assumido, com muita
honra.” Alguém que não havia apreendido que ser
militar, é apenas uma “vocação” ao serviço
dos grandes deveres e interesses da sua Pátria e do seu povo.
Pesa-me que muitos que se viram enganados e
ultrapassados, tenham decidido continuar a colaborar no que no
íntimo, se eram sérios e não mitómanos,
não podiam deixar de considerar errado. Mas foi assim que
pessoas de talento, oposicionistas do antigo regime, que, apesar de
ultrapassado o regime, como tinham levado grande parte da vida a
desejar (erradamente como muitos estarão no seu íntimo,
a concluir) embora discordantes do que estava a ser desencadeado, não
tiveram a força que a autoridade lhes dava para aproveitar a
muita gente capaz que existia para dar ao golpe, contra ventos e
marés, a guinada, o rumo, que se justificava em prol de todas
as populações e da paz. As qualidades de inteligência
e de perseveração de muitos que aderiram ao 25 de
Abril, e assim se mantiveram, mesmo quando começaram a viver
os desastres que se avizinhavam aqui e no Ultramar, foi pena que não
tivessem sido colocadas ao serviço da Pátria e de todas
as suas populações, mesmo que se viessem a aconselhar
mudanças que se considerassem necessárias. Assim muitos
acabaram por se tornar responsáveis pelo que deixaram fazer e
sobre tudo pelo que fizeram… Talvez que as qualidades que
possuíssem lhes permitissem ajudar a evitar as tragédias
que se vieram a verificar.
De qualquer maneira, os textos deste 2º.volume
constituem uma importante e pormenorizada descrição da
história das descolonizações que foram ou, como
pretende o autor, face às circunstâncias, puderam ser
levadas a cabo. Circunstâncias, porém, muito preparadas
e criadas pelos civis oposicionistas que se esforçaram por
destruir a “tropa” e que quando verificaram que precisavam dela
não a tinham. Poucas referências me merecem os textos,
que considero históricos pelas muitas ocorrências que
dão a conhecer, entre as quais algumas profundamente
desonrosas para as tropas e para Instituição Militar
que, por reflexo, as sofre. Não posso entretanto deixar passar
o seguinte reparo: Não se compreende como o autor, para
descrever a situação da guerra nos três teatros
de operações em que se verificava, antes do golpe
militar, a não vá buscar ao que foi declarado pelos
derradeiros Comandantes-Chefes, mas a opiniões de empenhados
no golpe que procuram justificar, ou, a autores estrangeiros que a
não viveram. A situação na Guiné
prescinde da opinião de um dos mais prestigiados generais
portugueses, último Governador e Comandante-Chefe da Província
o que torna escandalosa a forma displicente como o General
Bettencourt Rodrigues, a pág. 34, é tratado. Em seu
lugar vai-se buscar a opinião de Norrie Mac Qeen, que, arruma
o assunto, escrevendo que, no início de 1974, “o moral
das Forças Armadas Portuguesas, que nunca fora muito
elevado…roçava já o do amotinamento”. O mesmo
se poderá observar quanto às opiniões sobre a
situação em Moçambique e até quanto a
Angola…A guerra para o autor estava perdida, nos três
teatros. Tinha mesmo de estar perdida…Por pouco, como tal incluiria
guerras onde as não tinha havido… Essas, se perdidas, não
faziam porém tanta falta para facilitar a “descolonização”
que se desejava feita contra as bravatas militares de
derrotados…
O autor termina o trabalho, contente com o que escreveu
e por o ter escrito. Manifesta-se também satisfeito com o que
fez e, optimista, entende, ao contrário de um seu companheiro
na acção, considerado ilustre, já falecido, que
a descolonização não foi nenhuma tragédia.
Nem cá nem lá. E é ele, que considera os outros
mitómanos, que, exuberante, refere (pág. 442), depois
de tudo o que aconteceu e em que se envolveu, esquecendo até
que abandonou, como impossibilidade não tentada, a federação
de Spínola:
“O novo desígnio foi a Europa. E foi nela
que embarcámos, desta vez rumo ao «Prestes João»
do futuro do mundo. Um mundo que a prazo será tão
globalmente federado - ou no mínimo confederado - como a União
Europeia já em si o é… Foi bom termos desvendado os
mares? Claro que foi. Termos escrito a nossa odisseia com remos, e
por fim com a pena genial de Camões, constituirá sempre
o pico mais alto da nossa glória enquanto povo.
E termos podido estar na origem do fenómeno da
globalização que agora se aproxima do ponto de chegada,
converte-nos em percursores do futuro. E um percursor não pode
travar o movimento que lança.”
Travaram-no! Com ódio, imaginação e
ambição a mais, faltou-lhes, em problemas essenciais,
discernimento para compreender e sentir que a integração
que estávamos realizando, com aptidão herdada, era, no
seu conjunto, essa sim, já real, e sobretudo profunda e
abrangentemente humana, globalização, sempre a
aperfeiçoar, das paragens por onde andaram os nossos maiores
que desvendaram os mares.
Bem pode o autor confirmar que no social, mas não
só,
Estávamos à sua frente…
___________________________
(1) O
itálico é meu
* Publicado em revista Estratégia,
vol XVI, Instituto Português da Conjuntura Estratégica,
Lisboa, 2007. |