António de Monforte
por Jorge Azevedo Correia
Raras vezes nos últimos
anos o pensamento do Integralismo Lusitano tem sido alvo de análises
isentas e descomplexadas. A sequência de livros que têm
vindo à estampa em tempos mais recentes tem vindo a cumprir
uma função apologética ou acusatória das
figuras do Integralismo Lusitano e do seu pensamento, tentando sempre
vincular ou ilibar os pensadores e seguidores do movimento de adesões
a ideias e posturas políticas que o nosso tempo execrou.
De quando em vez surgem
outro tipo de livros, com maior valia académica, que se
preocupam mais com o objecto de estudo, do que com o que nós
pensamos deles, como que demonstrando que os julgamentos da História
não são mais que uma instrumentalização
do passado para propósitos presentes.
O livro de Ana Isabel
Sardinha Desvignes pertence a um restrito conjunto de publicações
mais preocupadas em compreender do que em fazer compreender. Só
isso constitui uma boa notícia, mas não é esse o
único mérito da obra e da autora.
A obra apresentada é
excelente a bastantes títulos. Para além de realizar um
acompanhamento biográfico da sua vida e de estabelecer as
necessárias ligações da faceta intelectual com a
vida privada, a autora deixa o autor falar por si. Ao invés de
estabelecer prolongadas apreciações sobre o pensamento
do pensador português, a autora apresenta as influências
do pensamento de Sardinha com simplicidade e sem extrapolações
de maior, mas com uma fundamentada análise intelectual. Em
termos de biografias intelectuais dificilmente se poderá
almejar outro objectivo que não essa sobriedade que a obra
atingiu.
A obra, com a sua
extensa documentação (muita dela inédita),
consegue desferir alguns golpes nos lugares-comuns que atingiram a
memória de Sardinha por detractores e ingénuos de todas
as variantes. O mito do Republicanismo de Sardinha como mero
oportunismo interesseiro, a sua pretensa rendição aos
interesses espanhóis aquando da publicação da
“Aliança Peninsular”, a ideia de um Catolicismo de fachada
que esconderia uma posição semelhante ao utilitarismo
religioso e estético de Maurras e Barrés (tal posição
terá de facto existido no espírito de Sardinha, mas não
na sua fase madura e mais marcadamente católica), são
mitos tornados insustentáveis por esta excelente biografia,
assim como a ideia do homem de Monforte como cata-vento de emoções
e ideias perde toda a sua força. As preocupações
de Sardinha mantêm-se inalteradas durante toda a sua vida.
Regenerar Portugal, através da criação de mitos
ou da aceitação da Tradição como farol da
ordem política, foi apenas uma alteração da
acção no cumprimento de um grande e único amor.
Esta compreensão
do papel da Tradição na obra de Sardinha é,
porém, um aspecto problemático na estrutura da livro e
que parece não ter recebido da autora o valor devido. Se é
certo que a biografia pretende ser uma análise do pensamento
de Sardinha através da sua vida e não uma extensa
análise do Integralismo Lusitano, não é menos
verdade que o enquadramento geral da filosofia de Sardinha é,
ainda que bastante bem fundamentado, quase desfocado. Para o quadro
analítico foi aproveitada a concepção de
“Anti-Iluminismo” de Zeev Sternhell que pretende identificar as
correntes de Direita e do pensamento conservador (Burke, de Maistre,
o Romantismo Alemão) com uma “revolta contra a razão”
que irá desembocar em sistemas políticos totalitários.
Infelizmente esta concepção apresenta-se como bastante
insuficiente na compreensão dos fenómenos políticos
e a análise do Integralismo como filosofia política
escapa a esta lógica. Se Ana Isabel Desvignes analisa muito
bem o Primeiro Nacionalismo de Sardinha e toda a sua carga telúrica
e racial-determinista, não demonstra de que forma o
Universalismo Cristão e o papel da Verdade por ela proposta,
influencia o Segundo Nacionalismo de Sardinha. Este é um
problema na compreensão do Nacionalismo de Sardinha, porque
impossibilita a compreensão dos pontos em que Sardinha
transcendeu o legado do republicanismo positivista e
racial-determinista para se afirmar como pensador cristão. É
por demais evidente que o jusnaturalismo cristão escapa à
concepção de “anti-modernidade” de Sternhell, uma
vez que não postula a defesa do positivismo, do
determinismo-histórico, do relativismo, que eram defendidos
pela perspectiva idealista alemã (de Herder, de Hegel, de
Fichte e prosseguida por Müller e Thomas Carlyle) e que
corresponde a esse fechamento da racionalidade que Sternhell pretende
retratar. Observar Burke e o “Sardinha pós-conversão”,
como um mesmo fenómeno que os positivistas e relativistas
amantes da autoridade, é um erro que faz sentir a falta de uma
“lente” de maior aproximação.
A ideia de que toda a
“anti-modernidade” é oposta à racionalidade é,
não apenas uma incapacidade de observar o carácter
filosófico de Sócrates, Platão e Aristóteles,
Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, como uma teoria
do “complot” tão grave como as denunciadas por Sardinha.
Este problema da
análise politológica da obra não ofusca o
interesse da obra, uma vez que a sua principal virtude não se
encontra nesses domínios, mas na jornada sentimental e
intelectual que vemos desenhar-se através da correspondência
com Ana Júlia, sua mulher, bem como no ambiente político,
intelectual e universitário da “época” que vemos
descrito nos vários episódios da vida de Sardinha.
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