Uma Europa Mundialista
por Marcos Pinho de Escobar
Há
cinquenta anos poucos foram os que se aperceberam do que realmente
estava por trás do Tratado de Roma (1957). Desde o Tratado de
Paris e a criação da Comunidade Económica do
Carvão e do Aço – integração económica
que, dizia-se, terminaria com as rivalidades que haviam conduzido
França e Alemanha à guerra por três vezes no
espaço de três gerações – que Jean
Monnet, Robert Schuman e demais colaboradores anunciavam um novo
tempo, uma nova era que, baseada na integração
económica e sepultando para sempre os “erros” do passado,
traria a paz, a liberdade e o desenvolvimento económico. A
trajectória que arranca com a CECA, passa pela CEE e conduz à
UE, é bem nossa conhecida. Inicia-se com uma cooperação
económica entre estados-nação soberanos e
finaliza com o com a virtual dissolução das entidades –
e identidades – nacionais, as quais abdicam da sua soberania
política a favor de um super Estado, o Leviathan aquartelado em Bruxelas.
Jean Monnet e
os projectistas da integração europeia sabiam muito bem
o que queriam e para onde iam. O problema é que tal informação
comezinha permaneceu guardada numa secretíssima agenda,
enquanto as populações dos países “integrados”
eram cobertas por um apropriado véu de ignorância. O
internacionalista francês tinha plena consciência de que
seria absolutamente essêncial para o êxito da sua
construção manter fora do conhecimento público
qualquer referência a uma união política – e
assim foi feito. Pouco a pouco, à socapa, etapa por etapa,
durante um longo e paciente processo que incluía a dinâmica
de facto consumado, o modelo monnetiano para a Europa foi
sendo implementado com a devida colaboracão das principais
forças políticas dos respectivos países,
enquanto às populações e ao resto do mundo
oferecia-se a versão da mera integração
económica que promovia o comércio e a prosperidade. A
lógica do projecto mundialista para o velho continente era
seguir avançando com o processo de forma a torná-lo
irreversível.
O Leviathan europeu possui poderes executivos, legislativos e judiciários;
está dotado de um banco central, uma moeda única e um
braço militar – manda e desmanda, faz e desfaz. Nem falemos
dos elementos mais folclóricos para instilar no gentio a noção clubista de pertença – a bandeira, o passaporte, o
hino, as matrículas veiculares, etc. Os governos dos países
membros não passam de meros gestores de regiões, com a
sua actuação fortemente restringida pelas regras de uma
extensa e detalhada cartilha. A maioria das leis vigentes nos países
membros origina-se neste novo Leviathan e os parlamentos
“nacionais” não significam muito mais do que um areópago
onde são discutidas questiúnculas locais que não
interessam ao poder central – onde estão os democratas de
costume a protestar contra o extraordinário esvaziamento dos
parlamentos nacionais, subordinados aos ditames da burocracia nomenklaturesca, tentacular e não-eleita de Bruxelas?
As tradições nacionais são alteradas em função
das determinações do poder central europeu e este tem
até mesmo o direito à ultima palavra sobre os padrões
morais e de comportamento social – a recusa em reconhecer a origem
cristã da Europa, as várias campanhas contra a família
tradicional, o aborto, as uniões de facto, as leis escritas e
não escritas que punem aqueles que ousam defender a identidade
nacional, etc., tudo é promovido directa ou indirectamente
pela União Europeia com o intuito de construir o seu homem
novo. As fronteiras são abolidas, o jus sanguinis como
base natural da nacionalidade é eliminado e a
imigração-invasão torna-se a principal
ferramenta com a qual a UE mundialista dissolve – com
extraordinária celeridade – as identidades nacionais.
A maior parte
dos europeus parece não se ter apercebido de que as suas
respectivas nações não só perderam a sua
independência, mas que o processo gerador desta perda esteve
caracterizado pelo segredo e pelo ludíbrio. Os arautos da nova
era trombetearam o delírio do consumo, a expansão do
comércio, o crescimento económico, a criação
de postos de trabalho, a paz e a segurança. Anestesiaram e
compraram tantas consciências foram necessárias para
avançar com a destruição da independência
de velhas nações e com o estabelecimento de um poder
central que as submetesse e fundisse num super Estado
burocrático-socialista.
Não
sou profeta, mas julgo que há grandes possibilidades de que
esta União Europeia ainda venha a acabar como a União
Soviética ou a Jugoslávia – implodida pelo falhanço
do modelo imposto e pela violência do despertar de povos que
decidem recuperam a sua identidade, o seu espaço e a sua
independência.
|