Ano I - Nº 7, Março/Abril de 2007
Alameda Digital
Europeísmos
Uma Europa Mundialista

por Marcos Pinho de Escobar

Há cinquenta anos poucos foram os que se aperceberam do que realmente estava por trás do Tratado de Roma (1957). Desde o Tratado de Paris e a criação da Comunidade Económica do Carvão e do Aço – integração económica que, dizia-se, terminaria com as rivalidades que haviam conduzido França e Alemanha à guerra por três vezes no espaço de três gerações – que Jean Monnet, Robert Schuman e demais colaboradores anunciavam um novo tempo, uma nova era que, baseada na integração económica e sepultando para sempre os “erros” do passado, traria a paz, a liberdade e o desenvolvimento económico. A trajectória que arranca com a CECA, passa pela CEE e conduz à UE, é bem nossa conhecida. Inicia-se com uma cooperação económica entre estados-nação soberanos e finaliza com o com a virtual dissolução das entidades – e identidades – nacionais, as quais abdicam da sua soberania política a favor de um super Estado, o Leviathan aquartelado em Bruxelas.

Jean Monnet e os projectistas da integração europeia sabiam muito bem o que queriam e para onde iam. O problema é que tal informação comezinha permaneceu guardada numa secretíssima agenda, enquanto as populações dos países “integrados” eram cobertas por um apropriado véu de ignorância. O internacionalista francês tinha plena consciência de que seria absolutamente essêncial para o êxito da sua construção manter fora do conhecimento público qualquer referência a uma união política – e assim foi feito. Pouco a pouco, à socapa, etapa por etapa, durante um longo e paciente processo que incluía a dinâmica de facto consumado, o modelo monnetiano para a Europa foi sendo implementado com a devida colaboracão das principais forças políticas dos respectivos países, enquanto às populações e ao resto do mundo oferecia-se a versão da mera integração económica que promovia o comércio e a prosperidade. A lógica do projecto mundialista para o velho continente era seguir avançando com o processo de forma a torná-lo irreversível.

O Leviathan europeu possui poderes executivos, legislativos e judiciários; está dotado de um banco central, uma moeda única e um braço militar – manda e desmanda, faz e desfaz. Nem falemos dos elementos mais folclóricos para instilar no gentio a noção clubista de pertença – a bandeira, o passaporte, o hino, as matrículas veiculares, etc. Os governos dos países membros não passam de meros gestores de regiões, com a sua actuação fortemente restringida pelas regras de uma extensa e detalhada cartilha. A maioria das leis vigentes nos países membros origina-se neste novo Leviathan e os parlamentos “nacionais” não significam muito mais do que um areópago onde são discutidas questiúnculas locais que não interessam ao poder central – onde estão os democratas de costume a protestar contra o extraordinário esvaziamento dos parlamentos nacionais, subordinados aos ditames da burocracia nomenklaturesca, tentacular e não-eleita de Bruxelas? As tradições nacionais são alteradas em função das determinações do poder central europeu e este tem até mesmo o direito à ultima palavra sobre os padrões morais e de comportamento social – a recusa em reconhecer a origem cristã da Europa, as várias campanhas contra a família tradicional, o aborto, as uniões de facto, as leis escritas e não escritas que punem aqueles que ousam defender a identidade nacional, etc., tudo é promovido directa ou indirectamente pela União Europeia com o intuito de construir o seu homem novo. As fronteiras são abolidas, o jus sanguinis como base natural da nacionalidade é eliminado e a imigração-invasão torna-se a principal ferramenta com a qual a UE mundialista dissolve – com extraordinária celeridade – as identidades nacionais.

A maior parte dos europeus parece não se ter apercebido de que as suas respectivas nações não só perderam a sua independência, mas que o processo gerador desta perda esteve caracterizado pelo segredo e pelo ludíbrio. Os arautos da nova era trombetearam o delírio do consumo, a expansão do comércio, o crescimento económico, a criação de postos de trabalho, a paz e a segurança. Anestesiaram e compraram tantas consciências foram necessárias para avançar com a destruição da independência de velhas nações e com o estabelecimento de um poder central que as submetesse e fundisse num super Estado burocrático-socialista.

Não sou profeta, mas julgo que há grandes possibilidades de que esta União Europeia ainda venha a acabar como a União Soviética ou a Jugoslávia – implodida pelo falhanço do modelo imposto e pela violência do despertar de povos que decidem recuperam a sua identidade, o seu espaço e a sua independência.

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