Clínica das Letras
por Bruno
Oliveira Santos
Chás
e mezinhas Do paupérrimo panorama das letras lusas não
encontro autor para encimar esta coluna senão José Riço
Direitinho, por motivo da reedição do seu «Breviário
das Más Inclinações», estreado em 1994.
Uma
narrativa de grande fôlego sobre a vida e morte de José
de Risso, numa intriga com lobisomens — e também com lobos
que descem à aldeia em noites de luar enquanto os cães
uivam de susto e de morte. O cenário é Vilarinho de
Loivos, aldeola perdida no Norte e fronteira à Espanha, país
onde entretanto eclode a Guerra Civil e “continuava aberta a
sangrenta época de caça às sotainas pretas” (p. 87).
Prosador
de mão cheia, lido em Aquilino e Torga, o autor desvenda em
páginas de realismo fantástico uma vida rural de mitos,
crenças e superstições. As personagens divagam
sobre o poder curativo das plantas e falam em receitas de chás
e de tisanas que curam do mau-olhado. As mulheres evitam a gravidez
com infusões de folhas de arruda e, se ainda assim emprenham,
evitam a carne de lebre para que a criança não nasça
com o lábio leporino. É o retrato estilístico
dum Portugal que não acabou; transmudou-se moderna e
urbanamente para os consultórios de quiromancia e as páginas
astrológicas dos jornais.
Nascido
em Lisboa e licenciado em Agronomia, nas especialidades de Economia
Agrária e Sociologia Rural, pode dizer-se que Direitinho
exerce o seu métier por via literária. Dos
autores da nova geração, que andam agora na casa dos
quarenta, é dos poucos que hão-de perdurar.
[José
Riço Direitinho, Breviário das Más
Inclinações, Asa Editores, 2007, 3.ª ed., 175
págs., €8,80]
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Elogio
sem demora Se
me pedirem que indique o grande poeta da nova geração,
nem hesito: Manuel de Freitas. Um registo próprio, uma voz
original. Há muito que se não editava por aqui um poeta
dos cafés, dos bares, das noitadas, ao mesmo tempo nostálgico
da meninice e escritor da solidão, do desespero, da morte. Uma
poesia que perdeu a infância e não encontrou o mundo. E
que, por isso, nasce nos bares que morrem noite alta com uma
vassourada de beatas e amendoins para o passeio, enquanto os últimos
clientes procuram a esmola do último táxi. Um pouco à
imagem de Portugal. "Este
país, de facto, é um cemitério sem saída" (p. 27), escreve ele. A quem o dizes, Manuel, a quem o dizes…
[Manuel
de Freitas, Juros
de Demora,
Assírio & Alvim, 2007, 32 págs., €8,00]
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A
César o que é de César Historiador, escritor
e jornalista — César Vidal é um dos nomes mais
controversos do país vizinho. Antes de mais porque se inscreve
na linha daqueles investigadores que, na esteira de Ricardo de la
Cierva e Pío Moa, rejeitam a interpretação
marxista da guerra civil e do franquismo. Um dos seus mais recentes
trabalhos, o volumoso «La guerra que ganó Franco»,
editado em 2006, rebate quase ponto por ponto as falsidades
difundidas pela ditadura do «politicamente correcto».
Senhor
duma vasta e premiada obra, Vidal fulgura também como autor de
romances históricos. É o caso de «La mandrágora
de las doce lunas» (2000) e «El fuego del cielo»
(2006), este último editado agora entre nós pela Dom
Quixote.
A
acção desenrola-se no final do século II, na
Roma de Marco Aurélio. A estabilidade política, a
segurança e a imigração constituem assuntos da
ordem do dia. Na trama urdida pelo autor, avultam quatro personagens
cardeais: o herói Cornélio, o mago Arnúfis,
o centurião Valério, a prostituta Rode. Quase sem
surpresa, os dois últimos acabam por casar-se.
O
romance é um lampejo de Vidal a propósito dum episódio
narrado em diversas fontes antigas: o fogo caído do céu
que permitiu a uma legião romana salvar-se e que infligiu
pesada derrota aos bárbaros. Uma história de amor,
paixão, morte e guerra, em que sobressai sempre nítido
o sentido de honra e fidelidade.
[César
Vidal, O Fogo do Céu, Dom Quixote, 2007, tradução
de Isabel Fraga, 255 págs., €15,50]
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O
coro das raízes John Le Carré tornou-se
mundialmente conhecido com o seu terceiro livro, «O Espião
que Veio do Frio». No mais recente «O Canto da Missão»,
o protagonista veio do calor. O meu homónimo Bruno nasceu em
Kisangani, que então se chamava Stanleyville, no coração
de África, filho acidental dum missionário católico
irlandês e duma aldeã congolesa.
Educado
no Congo, vive em Londres e é tradutor e intérprete
profissional de várias línguas e dialectos africanos. A
páginas tantas, é contratado para intérprete
duma conferência entre empresários ocidentais e senhores
da guerra. A meio da mesma, apercebe-se de que o grupo ocidental, com
o apoio dos serviços secretos de Londres, pretende organizar
um golpe de Estado na região rica em recursos naturais de
Kivu, onde Bruno estudara, com o argumento (sempre) falso de levar a
democracia ao povoléu. A inesperada descoberta espevita no
afro-londrino a consciência africana adormecida. Os arcanos e
arquétipos da raça despertam todos ao mesmo tempo,
apesar dos anos passados no Ocidente e de ser “cidadão do
Reino Unido e da Irlanda do Norte”. Um relato, enfim, da
vitória do sangue sobre a aculturação. Por
outras palavras: a prova de que às vezes a matéria
triunfa sobre o espírito.
Uma
leitura bem a propósito quando nas salas de cinema se exibe
ainda a fita «O Último Rei da Escócia»,
sobre o líder ugandês e canibal Idi Amin, que chegou ao
poder em 1971 com o apoio dos serviços secretos britânicos
e israelitas. Mandou matar centenas de milhares de pessoas, fora as
que comeu. Émulo de Bokassa, recebeu o cognome de “O
talhante de Kampala”.
[John
Le Carré, O Canto da Missão, Dom Quixote, 2007,
trad. de José Luís Luna, 391 págs., €19,95]
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O
fundo da baía Regressa aos escaparates o autor do
extraordinário e único «O Segredo de Joe Gould»,
o pouco conhecido Joseph Mitchell. Jornalista do The World e
do The Herald Tribune, entre outras publicações,
fez a cobertura dos tribunais criminais, em casos célebres
como o dos políticos do «Tammany Hall», dos
grandes julgamentos de homicídio ou do rapto do filho de
Lindbergh. Foi o melhor repórter do bas fond nova-iorquino. Com paleta de cores variadas, desenhou o dia-a-dia (e
a noite-a-noite) de vagabundos, pedintes, bêbados, prostitutas,
artistas falhados, bares clandestinos, cabarés. Uma Nova
Iorque de cais do Sodré — e de gente tão imprevisível
como a «gente de Dublin» de Joyce.
Este
«O Fundo da Baía» reúne 6
crónicas-quase-novelas publicadas na revista The New Yorker nas décadas de 40 e 50 do século passado. As histórias,
bem que as suas personagens, estão todas ligadas à zona
ribeirinha de Nova Iorque. Para lá dos arranha-céus e
de Wall Street, Mitchell pinta com riqueza de pormenores uma cidade
de lotas de pesca e marinheiros, com capatazes rudes e ratos da
beira-rio.
[Joseph
Mitchell, O Fundo da Baía, Ambar, 2007, trad. de José
Lima, 219 págs., €19,00]
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Porque
saímos delas e a elas regressamos Os grandes autores
romenos manifestam um pessimismo e desesperança quase
trágicos. Eliade descreu do homem; Ionesco inventou o teatro
do absurdo quase pela mesma razão; Cioran foi o filósofo
mais niilista do século XX, escrevendo entre silogismos de
amargura o breviário da nossa decomposição.
Ao
primeiro lance, Mircea Cartarescu, neste registo autobiográfico
que cruza sonho e realidade, parece optimista, moderno, alegre,
desinibido. Passeia ao longo do livro de mulher em mulher como se
fosse num boulevard. Apresenta páginas cruas e quase
obscenas que lembram Houellebecq. Mas depois cai também, por
fatalidade dos Cárpatos, na tentação do
pessimismo, expondo a sua vida como “uma longa série de
crueldades, indiferenças, mal-entendidos, maldades pelo gosto
da maldade e idiotices cometidas por pura estupidez, como são,
talvez, as vidas de muitos de nós” (p. 79). Enfim, o
homem como “um simples consumidor que se devora, em primeiro
lugar, a si mesmo” (p. 107).
«Porque
gostamos de mulheres» é um grande livro. No capítulo
“Sincu, o Grande”, Cartarescu faz-nos rir com o ensino do
estruturalismo de Saussure na Roménia dos anos 70. Em “O
Diabo de papel”, conta-se a história repetida de muitos
adolescentes, nas figuras de Victor e Ingrid, namorados de liceu, que
durante os intervalos se beijavam e “andavam de mãos
dadas sem se preocuparem com o que os colegas pudessem dizer.” (p. 94). Ele sente o dilema de tantos outros: ainda não
consegue imaginar um futuro com Ingrid, mas também não
consegue imaginar um futuro sem ela. Nestes assuntos, porém,
as mulheres são mais pragmáticas. Ingrid troca-o por
outro, sem uma palavra, sem uma justificação, sem um
aceno. Eis um dos paradoxos da juventude, apresentada sempre como a
idade da descoberta e da conquista, mas que também pode ser de
perda e de tragédia.
É
de tudo isto que nos fala Cartarescu. Sem pretensões
filosóficas mas com mais profundidade do que a leitura
superficial faz supor. Qualquer um pode escrever sobre sexo. Muitos
podem escrever sobre o amor. Mas só um romeno alcança
estas latitudes do ser.
[Mircea
Cartarescu, Porque gostamos de mulheres, Guerra & Paz,
2007, trad. de Maria João Coutinho e Simion Doru Cristea, 232
págs., €17,00]
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Senhores
do seu nariz Há estudos respeitáveis sobre o nariz
dos banqueiros. Ora o nariz do banqueiro Vitangelo Moscarda não
será tão famoso como o de Cyrano de Bergerac. Nem tão
independente como o daquele oficial de São Petersburgo que o
Gógol imaginou e para quem o Shostakovich compôs ópera
alusiva. Mas é, sem discussão, um belo nariz literário.
O
que os otorrinolaringologistas de hoje capitulariam sem dificuldade
de pequeno desvio do septo nasal, deu azo a que Moscarda, muito
senhor do seu nariz, empreendesse uma viagem ontológica à
descoberta de si mesmo e dos outros. «Um, Ninguém e Cem
Mil» é talvez o mais divertido livro de Pirandello.
[Luigi
Pirandello, Um, Ninguém e Cem Mil, Cavalo de Ferro,
2007, trad. de Margarida Periquito, 161 págs., €13,00]
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Gerardo
Mello Mourão (1917-2007) Morreu no passado mês de
Março, com 90 anos certos, o escritor e poeta brasileiro
Gerardo Mello Mourão. Oriundo da primeira geração
integralista, o ex-camisa verde é um dos grandes nomes
da cultura de língua portuguesa. São dele alguns dos
melhores poemas que li na minha vida. As suas obras mais
significativas: o romance expressionista «O Valete de Espadas»,
o poundiano e vanguardista «O
País dos Mourões», o
insuperável e luso poema épico «Invenção
do Mar» e o mais recente «O Bêbado de Deus».
Sobre
o génio de Mourão, a palavra de Ezra Pound: «Em
toda a minha obra, o que tentei foi escrever a epopeia da América.
Creio que não o consegui. Quem o conseguiu foi o poeta de ‘O
país dos Mourões’».
Para
encerrar por hoje a Clínica ofereço aos leitores um
retrato de Mourão pelo punho do próprio: “Sou
católico, apostólico, romano. Acho que as pessoas de
outras religiões têm as mesmas chances de salvação.
Sou cearense há mais de quatrocentos anos. Sou casado, fui
viuvo. Tenho três filhos, o que acho muito importante, pois
creio, como está no Credo de Santo Atanásio, na
ressurreição da carne. E os filhos são a
prefiguração da ressurreição da carne.
Amo as alegrias do corpo e da alma. Mas estou afetado pela tristeza
existencial (ou será ontológica?) do ser humano, pois
sei, como Léon Bloy, que a maior desgraça que pode
ocorrer ao ser humano é a desgraça de não ser
santo. Eu não sou santo. Esta é a tristeza medular de
minha vida. Pois nasci e fui criado para ser santo e manter intacta a
imagem e semelhança de Deus. Tal qual a tinha em meu dia de
nascimento, a 8 de janeiro de 1917, em Ipueiras, no Ceará, e
na data de meu batismo, quatro dias depois providenciado pelos
cuidados pressurosos de minha mãe, no dia 12 do mesmo mês,
ministrado na Igreja de Nossa Senhora da Conceição por
nosso primo, Monsenhor José de Lima. Minha mãe era uma
pessoa dramaticamente religiosa. Eu tinha um irmão mais velho.
Minha mãe leu na vida de São Luís Gonzaga, que
sua mãe Branca de Castela, fizera um voto a Deus: queria ver
seu filho morto antes que cometesse um único pecado mortal.
Quando meu irmão morreu, ela se convenceu de que seu voto o
matara. E retirou de mim a promessa terrível. Resultado: estou
vivo e fui maculado por quase todos os pecados mortais, os chamados
pecados mortais. Quem quiser que os imagine. Etc.” |