Ano I - Nº 7, Março/Abril de 2007
Alameda Digital
Europeísmos

Clínica das Letras

por Bruno Oliveira Santos

Chás e mezinhas Do paupérrimo panorama das letras lusas não encontro autor para encimar esta coluna senão José Riço Direitinho, por motivo da reedição do seu «Breviário das Más Inclinações», estreado em 1994.

Uma narrativa de grande fôlego sobre a vida e morte de José de Risso, numa intriga com lobisomens — e também com lobos que descem à aldeia em noites de luar enquanto os cães uivam de susto e de morte. O cenário é Vilarinho de Loivos, aldeola perdida no Norte e fronteira à Espanha, país onde entretanto eclode a Guerra Civil e “continuava aberta a sangrenta época de caça às sotainas pretas” (p. 87).

Prosador de mão cheia, lido em Aquilino e Torga, o autor desvenda em páginas de realismo fantástico uma vida rural de mitos, crenças e superstições. As personagens divagam sobre o poder curativo das plantas e falam em receitas de chás e de tisanas que curam do mau-olhado. As mulheres evitam a gravidez com infusões de folhas de arruda e, se ainda assim emprenham, evitam a carne de lebre para que a criança não nasça com o lábio leporino. É o retrato estilístico dum Portugal que não acabou; transmudou-se moderna e urbanamente para os consultórios de quiromancia e as páginas astrológicas dos jornais.

Nascido em Lisboa e licenciado em Agronomia, nas especialidades de Economia Agrária e Sociologia Rural, pode dizer-se que Direitinho exerce o seu métier por via literária. Dos autores da nova geração, que andam agora na casa dos quarenta, é dos poucos que hão-de perdurar.

[José Riço Direitinho, Breviário das Más Inclinações, Asa Editores, 2007, 3.ª ed., 175 págs., €8,80]

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Elogio sem demora Se me pedirem que indique o grande poeta da nova geração, nem hesito: Manuel de Freitas. Um registo próprio, uma voz original. Há muito que se não editava por aqui um poeta dos cafés, dos bares, das noitadas, ao mesmo tempo nostálgico da meninice e escritor da solidão, do desespero, da morte. Uma poesia que perdeu a infância e não encontrou o mundo. E que, por isso, nasce nos bares que morrem noite alta com uma vassourada de beatas e amendoins para o passeio, enquanto os últimos clientes procuram a esmola do último táxi. Um pouco à imagem de Portugal. "Este país, de facto, é um cemitério sem saída" (p. 27), escreve ele. A quem o dizes, Manuel, a quem o dizes…

[Manuel de Freitas, Juros de Demora, Assírio & Alvim, 2007, 32 págs., €8,00]

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A César o que é de César Historiador, escritor e jornalista — César Vidal é um dos nomes mais controversos do país vizinho. Antes de mais porque se inscreve na linha daqueles investigadores que, na esteira de Ricardo de la Cierva e Pío Moa, rejeitam a interpretação marxista da guerra civil e do franquismo. Um dos seus mais recentes trabalhos, o volumoso «La guerra que ganó Franco», editado em 2006, rebate quase ponto por ponto as falsidades difundidas pela ditadura do «politicamente correcto».

Senhor duma vasta e premiada obra, Vidal fulgura também como autor de romances históricos. É o caso de «La mandrágora de las doce lunas» (2000) e «El fuego del cielo» (2006), este último editado agora entre nós pela Dom Quixote.

A acção desenrola-se no final do século II, na Roma de Marco Aurélio. A estabilidade política, a segurança e a imigração constituem assuntos da ordem do dia. Na trama urdida pelo autor, avultam quatro personagens cardeais: o herói Cornélio, o mago Arnúfis, o centurião Valério, a prostituta Rode. Quase sem surpresa, os dois últimos acabam por casar-se.

O romance é um lampejo de Vidal a propósito dum episódio narrado em diversas fontes antigas: o fogo caído do céu que permitiu a uma legião romana salvar-se e que infligiu pesada derrota aos bárbaros. Uma história de amor, paixão, morte e guerra, em que sobressai sempre nítido o sentido de honra e fidelidade.

[César Vidal, O Fogo do Céu, Dom Quixote, 2007, tradução de Isabel Fraga, 255 págs., €15,50]

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O coro das raízes John Le Carré tornou-se mundialmente conhecido com o seu terceiro livro, «O Espião que Veio do Frio». No mais recente «O Canto da Missão», o protagonista veio do calor. O meu homónimo Bruno nasceu em Kisangani, que então se chamava Stanleyville, no coração de África, filho acidental dum missionário católico irlandês e duma aldeã congolesa.

Educado no Congo, vive em Londres e é tradutor e intérprete profissional de várias línguas e dialectos africanos. A páginas tantas, é contratado para intérprete duma conferência entre empresários ocidentais e senhores da guerra. A meio da mesma, apercebe-se de que o grupo ocidental, com o apoio dos serviços secretos de Londres, pretende organizar um golpe de Estado na região rica em recursos naturais de Kivu, onde Bruno estudara, com o argumento (sempre) falso de levar a democracia ao povoléu. A inesperada descoberta espevita no afro-londrino a consciência africana adormecida. Os arcanos e arquétipos da raça despertam todos ao mesmo tempo, apesar dos anos passados no Ocidente e de ser “cidadão do Reino Unido e da Irlanda do Norte”. Um relato, enfim, da vitória do sangue sobre a aculturação. Por outras palavras: a prova de que às vezes a matéria triunfa sobre o espírito.

Uma leitura bem a propósito quando nas salas de cinema se exibe ainda a fita «O Último Rei da Escócia», sobre o líder ugandês e canibal Idi Amin, que chegou ao poder em 1971 com o apoio dos serviços secretos britânicos e israelitas. Mandou matar centenas de milhares de pessoas, fora as que comeu. Émulo de Bokassa, recebeu o cognome de “O talhante de Kampala”.

[John Le Carré, O Canto da Missão, Dom Quixote, 2007, trad. de José Luís Luna, 391 págs., €19,95]

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O fundo da baía Regressa aos escaparates o autor do extraordinário e único «O Segredo de Joe Gould», o pouco conhecido Joseph Mitchell. Jornalista do The World e do The Herald Tribune, entre outras publicações, fez a cobertura dos tribunais criminais, em casos célebres como o dos políticos do «Tammany Hall», dos grandes julgamentos de homicídio ou do rapto do filho de Lindbergh. Foi o melhor repórter do bas fond nova-iorquino. Com paleta de cores variadas, desenhou o dia-a-dia (e a noite-a-noite) de vagabundos, pedintes, bêbados, prostitutas, artistas falhados, bares clandestinos, cabarés. Uma Nova Iorque de cais do Sodré — e de gente tão imprevisível como a «gente de Dublin» de Joyce.

Este «O Fundo da Baía» reúne 6 crónicas-quase-novelas publicadas na revista The New Yorker nas décadas de 40 e 50 do século passado. As histórias, bem que as suas personagens, estão todas ligadas à zona ribeirinha de Nova Iorque. Para lá dos arranha-céus e de Wall Street, Mitchell pinta com riqueza de pormenores uma cidade de lotas de pesca e marinheiros, com capatazes rudes e ratos da beira-rio.

[Joseph Mitchell, O Fundo da Baía, Ambar, 2007, trad. de José Lima, 219 págs., €19,00]

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Porque saímos delas e a elas regressamos Os grandes autores romenos manifestam um pessimismo e desesperança quase trágicos. Eliade descreu do homem; Ionesco inventou o teatro do absurdo quase pela mesma razão; Cioran foi o filósofo mais niilista do século XX, escrevendo entre silogismos de amargura o breviário da nossa decomposição.

Ao primeiro lance, Mircea Cartarescu, neste registo autobiográfico que cruza sonho e realidade, parece optimista, moderno, alegre, desinibido. Passeia ao longo do livro de mulher em mulher como se fosse num boulevard. Apresenta páginas cruas e quase obscenas que lembram Houellebecq. Mas depois cai também, por fatalidade dos Cárpatos, na tentação do pessimismo, expondo a sua vida como “uma longa série de crueldades, indiferenças, mal-entendidos, maldades pelo gosto da maldade e idiotices cometidas por pura estupidez, como são, talvez, as vidas de muitos de nós” (p. 79). Enfim, o homem como “um simples consumidor que se devora, em primeiro lugar, a si mesmo” (p. 107).

«Porque gostamos de mulheres» é um grande livro. No capítulo “Sincu, o Grande”, Cartarescu faz-nos rir com o ensino do estruturalismo de Saussure na Roménia dos anos 70. Em “O Diabo de papel”, conta-se a história repetida de muitos adolescentes, nas figuras de Victor e Ingrid, namorados de liceu, que durante os intervalos se beijavam e “andavam de mãos dadas sem se preocuparem com o que os colegas pudessem dizer.” (p. 94). Ele sente o dilema de tantos outros: ainda não consegue imaginar um futuro com Ingrid, mas também não consegue imaginar um futuro sem ela. Nestes assuntos, porém, as mulheres são mais pragmáticas. Ingrid troca-o por outro, sem uma palavra, sem uma justificação, sem um aceno. Eis um dos paradoxos da juventude, apresentada sempre como a idade da descoberta e da conquista, mas que também pode ser de perda e de tragédia.

É de tudo isto que nos fala Cartarescu. Sem pretensões filosóficas mas com mais profundidade do que a leitura superficial faz supor. Qualquer um pode escrever sobre sexo. Muitos podem escrever sobre o amor. Mas só um romeno alcança estas latitudes do ser.

[Mircea Cartarescu, Porque gostamos de mulheres, Guerra & Paz, 2007, trad. de Maria João Coutinho e Simion Doru Cristea, 232 págs., €17,00]

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Senhores do seu nariz Há estudos respeitáveis sobre o nariz dos banqueiros. Ora o nariz do banqueiro Vitangelo Moscarda não será tão famoso como o de Cyrano de Bergerac. Nem tão independente como o daquele oficial de São Petersburgo que o Gógol imaginou e para quem o Shostakovich compôs ópera alusiva. Mas é, sem discussão, um belo nariz literário.

O que os otorrinolaringologistas de hoje capitulariam sem dificuldade de pequeno desvio do septo nasal, deu azo a que Moscarda, muito senhor do seu nariz, empreendesse uma viagem ontológica à descoberta de si mesmo e dos outros. «Um, Ninguém e Cem Mil» é talvez o mais divertido livro de Pirandello.

[Luigi Pirandello, Um, Ninguém e Cem Mil, Cavalo de Ferro, 2007, trad. de Margarida Periquito, 161 págs., €13,00]

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Gerardo Mello Mourão (1917-2007) Morreu no passado mês de Março, com 90 anos certos, o escritor e poeta brasileiro Gerardo Mello Mourão. Oriundo da primeira geração integralista, o ex-camisa verde é um dos grandes nomes da cultura de língua portuguesa. São dele alguns dos melhores poemas que li na minha vida. As suas obras mais significativas: o romance expressionista «O Valete de Espadas», o poundiano e vanguardista «O País dos Mourões», o insuperável e luso poema épico «Invenção do Mar» e o mais recente «O Bêbado de Deus».

Sobre o génio de Mourão, a palavra de Ezra Pound: «Em toda a minha obra, o que tentei foi escrever a epopeia da América. Creio que não o consegui. Quem o conseguiu foi o poeta de ‘O país dos Mourões’».

Para encerrar por hoje a Clínica ofereço aos leitores um retrato de Mourão pelo punho do próprio: “Sou católico, apostólico, romano. Acho que as pessoas de outras religiões têm as mesmas chances de salvação. Sou cearense há mais de quatrocentos anos. Sou casado, fui viuvo. Tenho três filhos, o que acho muito importante, pois creio, como está no Credo de Santo Atanásio, na ressurreição da carne. E os filhos são a prefiguração da ressurreição da carne. Amo as alegrias do corpo e da alma. Mas estou afetado pela tristeza existencial (ou será ontológica?) do ser humano, pois sei, como Léon Bloy, que a maior desgraça que pode ocorrer ao ser humano é a desgraça de não ser santo. Eu não sou santo. Esta é a tristeza medular de minha vida. Pois nasci e fui criado para ser santo e manter intacta a imagem e semelhança de Deus. Tal qual a tinha em meu dia de nascimento, a 8 de janeiro de 1917, em Ipueiras, no Ceará, e na data de meu batismo, quatro dias depois providenciado pelos cuidados pressurosos de minha mãe, no dia 12 do mesmo mês, ministrado na Igreja de Nossa Senhora da Conceição por nosso primo, Monsenhor José de Lima. Minha mãe era uma pessoa dramaticamente religiosa. Eu tinha um irmão mais velho. Minha mãe leu na vida de São Luís Gonzaga, que sua mãe Branca de Castela, fizera um voto a Deus: queria ver seu filho morto antes que cometesse um único pecado mortal. Quando meu irmão morreu, ela se convenceu de que seu voto o matara. E retirou de mim a promessa terrível. Resultado: estou vivo e fui maculado por quase todos os pecados mortais, os chamados pecados mortais. Quem quiser que os imagine. Etc.”

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