Um
crepúsculo europeu
por Abel
Morais
No
final de Maio de 2003, Jürgen Habermas e Jacques Derrida
subscrevem um texto, inicialmente publicado no Frankfurter
Allgemeine Zeitung e no Libération, defendendo a
necessidade de acelerar a unificação no espaço
da União Europeia (UE), assente no eixo franco-alemão.
A tese era a de que se tornava indispensável este processo,
que seria seguido de bom grado por Itália, Bélgica,
Holanda e Luxemburgo, para tornar exequível um contrapeso ao
“unilateralismo hegemónico dos Estados Unidos” no plano
internacional
Tendo
como pano de fundo os acontecimentos que antecederam a ofensiva
contra o regime de Saddam e a clivagem no interior da UE entre
governos em sintonia com Washington e aqueles que se opunham a uma
solução militar para o Iraque, o texto de
Habermas-Derrida contém e vive de todos os mitos e erros
presentes no processo dito de construção europeia. De
forma clara mostra que este desígnio não deixa de
responder às tradicionais categorias de conflito de interesses
e da hegemonia continental das grandes potências, não
sendo a sua lógica alheia à dos sucessivos equilíbrios
de poder e respectivas motivações ideológicas
verificados na Europa desde a época das alianças contra
a França de 1789 até 1914-18. Mais: no texto de
Habermas-Derrida o processo de unificação e
federalização europeia parece existir em função
de algo que lhe é externo – a superpotência americana
– e não como um fim imanente ao próprio espaço
europeu.
Escrever
que só o eixo franco-alemão está disponível
para atribuir à UE “certas características de um
Estado” e recorrer aos mecanismos da “cooperação
reforçada” previstos no Tratado de Nice, como faz o texto de
Habermas-Derrida, não será o mesmo que admitir a
existência de uma hierarquia de potências na Europa em
que (e isso não é preciso dizê-lo) os interesses
das principais devem sobrepor-se às considerações
das restantes? Os autores tornam claro que existe, de facto, uma
Europa das grandes, médias e pequenas potências em
termos clássicos. “Tomar a iniciativa não significa
excluir”, lê-se no texto, mas é indispensável
uma “locomotiva” – isto é, a condução do
processo – e os seus seguidores. E deve existir de antemão
uma estratégia não negociável para se obter o
resultado esperado: “A vontade ético-política que
motiva a hermenêutica dos processos de auto-entendimento não
é arbitrária. Distinguir entre o legado que queremos
preservar e o que pretendemos recusar exige tanta ou mais
circunspecção do que a decisão acerca da
interpretação através da qual nos apropriamos
daquele legado.”
Para
os autores, um alemão e um francês, a estratégia
a seguir não é susceptível de consensualização,
negociação ou unanimidade, o que pressuporia, pelo
menos, um certo grau de paridade entre os intervenientes no processo
– mas deve ser imposta, desde logo, em função de um
objectivo externo: a antiga e patética ambição
de imaginar uma Europa federal, à semelhança dos EUA, a
servir de contrapeso a estes. Mas em que qualidade? De superpotência
concorrente? De adversário geopolítico? De instrumento
de apoio aos habituais regimes ignóbeis do Médio
Oriente, África e América do Sul? Como se a dinâmica
das relações internacionais e dos equilíbrios de
poder geopolítico vivessem apenas na dependência de uma
tensão entre Europa e EUA e estes fossem, pela sua natureza,
algo a extirpar do plano internacional.
Ironia
paradoxal: a ambição de dotar a UE dos atributos de um
Estado-nação semicontinental não estará
destinada a sofrer os mesmos efeitos do “poder destrutivo deste
nacionalismo” que os autores atribuem à época de uma
“Europa composta por Estados-nação que se definem
entre si de forma polémica”? Criar uma identidade política
europeia “comum” – algo absolutamente distinto de uma matriz
civilizacional comum – não será sinónimo de
conceber uma outra “força explosiva” semelhante nas
consequências “às consciências nacionais,
constituídas pelas línguas nacionais, pelas literaturas
nacionais, pelas histórias nacionais” que Habermas-Derrida
querem revestir de um sem-número de efeitos perversos? Como se
a aniquilação da memória e do trajecto
específico de Estados, nações, comunidades,
povos na Europa fosse um dos objectivos essenciais deste projecto de
instaurar um regime de paz perpétua num espaço político
que, enquanto tal e por isso mesmo, nunca pode escapar a múltiplos
níveis de conflitualidade.
A
“idade de ouro” vivida pela Europa Ocidental durante a Guerra
Fria, com a pacificação dos conflitos sociais no âmbito
do Estado de bem-estar social e a auto-limitação da
soberania do Estado, de que falam Habermas-Derrida, e a emergência
de “uma mentalidade política comum” só foram
possíveis devido à garantia de segurança
providenciada pelo poder militar dos EUA. O que, evidentemente, não
admitem os autores deste texto que, em muitos aspectos, recupera
linhas de argumentação e cenários conhecidos
desde os anos 50 e 60 quando, também então, Paris
desconfiava de Washington e de Londres e podia depender do apoio do
governo de Bona, desejoso de neutralizar a memória recente das
políticas de agressão do III Reich. Em síntese,
o “nascimento da esfera pública europeia” vive dos mesmos
cálculos e da mesma mentalidade que ditou muitas decisões
na então CEE, a que a ausência de uma ameaça
externa clássica vem outorgar uma nova arrogância.
E
a utopia política do texto de Habermas-Derrida procura a
legitimação invocando uma outra situação
paradoxal, a que se atribui natureza fundacional. “ (…) Devemos
lembrar o dia 15 de Fevereiro de 2003 como o dia das manifestações
de massas em Londres e Roma, Madrid e Barcelona, Berlim e Paris (…).
A simultaneidade destas gigantescas manifestações –
as maiores desde o final da II Guerra Mundial – podem ficar na
História como marco do nascimento da esfera pública
europeia”.
Tirando
o jogo de palavras e a inábil manipulação da
realidade, o texto de Habermas-Derrida escamoteia um facto: quem saíu
à rua naquela data foram os mais irredutíveis inimigos
da Europa enquanto espaço de civilização e
história, a mescla habitual das esquerdas – entre as quais
se destacam os herdeiros do regime soviético e da
interpretação marxista das sociedades, além dos
radicais chic e dos habituais idiotas úteis. Mescla
para a qual a “construção europeia” é,
quando convém, uma conspiração capitalista e da
elite burocrática das instituições comunitárias.
Transformar uma “jornada de luta anti-imperialista”, em certos
casos motivada por agendas políticas internas, numa data
fundacional de uma pretensa consciência europeia não é
outra coisa senão uma pura mistificação.
O
texto de Habermas-Derrida desencadeou uma salva de respostas,
críticas e solidárias, referindo aspectos culturais,
diplomáticos e políticos, em que vale a pena destacar
as reflexões de Ulrich Preuss, professor de Direito na
Universidade de Berlim, que chama a atenção para a
necessidade americana de “segurança absoluta”, área
em que a Europa não parece conceder a importância
necessária, e de Gianni Vattimo, professor de Filosofia na
Universidade de Turim, que salienta movimentarem-se europeus e
americanos “num diferente plano existencial”, motivado por
distintas noções e conceitos das dimensões de
vida em sociedade. Outros autores, como Timothy Garton Ash ou Rauf
Dahrendorf, referem que o texto de Habermas-Derrida não
concede suficiente importância ao próprio processo de
alargamento e ao facto de muitos dos novos Estados membros terem
vivido durante meio século a opressão comunista, cujos
continuadores desfrutam hoje, na Europa Ocidental, de uma
complacência política nada conducente com a natureza e
os actos dos regimes pró-soviéticos da Europa Central e
de Leste. Por isso, nestes novos Estados membros, a “esfera pública
europeia” detectada por Habermas-Derrida nas manifestações
de 2003 não se materializou em nenhuma das suas capitais.
Nestas, nunca houve dúvidas sobre quem estava nas ruas das
principais cidades de uma UE demasiado complacente com o passado e a
história recente.
A
diferença de atitudes entre os antigos Estados membros e os
novos Estados membros da UE, que trazem consigo e estão a
recuperar a dimensão cultural, as tradições e as
referências civilizacionais obscurecidas por regimes ao serviço
do centro soviético, não deixará de influenciar
e reflectir-se no funcionamento e nas referências da própria
UE. A Europa destes Estados não é, em muitos casos,
coincidente com a Europa dos complacentes e da memória
selectiva. Estes foram os Estados e as populações
abandonados por aqueles que hoje reivindicam o direito de determinar
o conteúdo e as normas da UE e o futuro da Europa.
Talvez
por isso, a resposta mais interessante à argumentação
de Habermas-Derrida tenha sido dada antes do tempo – em 1997 –,
numa conferência de Vaclav Havel na Alemanha .
Um Havel que conheceu a natureza do regime pró-soviético
na Checoslováquia.
Falando
antes ainda do alargamento a 25, antes do 11 de Setembro e antes da
questão do tratado constitucional, que ditou a sua recusa nas
consultas em referendo na França e Holanda, Havel prefere
falar da Europa como esfera civilizacional, como estado de espírito,
negando-lhe importância como projecto de poder ou antítese
dos EUA. O então presidente da República Checa recorda
que a Europa como entidade política esteve na origem da
“supressão de outras culturas, da conquista, pilhagem e
colonização” e da “exportação de
conceitos altamente duvidosos”, como o comunismo, que tiranizou as
sociedades da Europa Central e de Leste, mas que estas viram sucumbir
no final.
Da
Europa como realidade geográfica destaca-se uma outra Europa,
“o grupo de países europeus que foi poupado à
experiência do comunismo” e que está hoje,
maioritariamente, na UE, refere o dramaturgo checo, para analisar, em
seguida, o estado de espírito “desta Europa” - uma Europa
pouco disposta a “proceder a um profundo exame sobre o seu papel na
nossa civilização”, uma Europa quantitativa e virada
para o jogo dos ganhos e perdas e na redistribuição de
fundos de Bruxelas e entre os Estados membros. Mas existe ainda uma
terceira Europa. A Europa como estado de espírito, como Roma o
foi na Antiguidade. Uma Europa que não se encontra nos livros
de geografia ou na lista dos membros da UE, diz Havel. “Esta é
a Europa dos valores”, uma “esfera civilizacional interligada por
um sem-número de relações que, posta em causa
qualquer uma delas, equivaleria, em certas circunstâncias, a
provocar a sua total desintegração”.
Assim,
a tarefa central da Europa – note-se, da Europa e não da UE
– deve ser “a redescoberta da sua consciência e do seu
sentido de responsabilidade (…), não só no que
respeita à sua arquitectura política, mas em relação
a tudo o que respeita ao mundo”. Um estrito projecto político
é uma diminuição da própria ideia de
Europa, parece dizer o então presidente checo. A tarefa da
Europa não deve ser a de uma superpotência, “governar
o mundo, impor a sua força através dos seus conceitos
de bem-estar social e do que é positivo, de impor a sua
cultura; deve ser a “de fazer renascer as suas melhores tradições
espirituais e de contribuir para a criação de novos
padrões de coexistência global”. No fundo, o contrário
da ambição atribuída por Habermas-Derrida ao
eixo franco-alemão e às suas prioridades geopolíticas.
E isto, insiste Havel, “sem aniquilar as respectivas identidades
nacionais ou consciências, que são uma das dimensões
naturais de toda e cada identidade humana”.
Havel
começara por dizer na sua conferência que a alegada
origem do vocábulo Europa parece provir do termo erebu,
expressão acadiana para crepúsculo. Mas, notava de
imediato, o crepúsculo, se o associamos habitualmente a uma
ideia de fim ou declínio, não assinala menos o início
de uma outra realidade. Nesta perspectiva, as manifestações
de 2003, tão exaltadas no texto de Habermas-Derrida e por
outros, não marcam, de todo, o nascimento de uma “esfera
pública europeia”, o que a existir, aliás, seria uma
entidade inferior ao estado de espírito europeu, preferido por
Havel. Assinala, isso sim, o tempo de crepúsculo para os mitos
e erros da ambição política de unificação
europeia, como as votações na Holanda e na França
tornaram claro, e o início de uma nova reflexão sobre a
natureza e o destino da Europa.
(1) O texto de Habermas-Derrida, de facto da autoria apenas do autor
alemão, assim como a série de textos de resposta e
comentário estão reunidos em Old Europe, New
Europe, Core Europe – Transatlantic Relations After the Iraq War,
Ed. Verso, Londres 2005.
(2) The Future of European History, texto adaptado da conferência
pronunciada na Alemanha, in The Brown journal of World Affairs,
Volume IV, n.º2, Verão/Outono de 1997 |