| Editorial
por Carlos Bobone
Os vendedores de
futuros prometem-nos um século XXI europeu e integrado, como
prometeram há cem anos um século XX internacionalista e
pacífico. Para quem foi educado na devoção ao
progresso contínuo da humanidade parecerá ter havido
aqui uma reviravolta estranha, um estreitamento da esfera de acção
dos visionários. Aquilo que nos finais do século XIX
seria considerado tacanho e sem ambição, o investimento
das energias de um continente dentro dos seus limites físicos,
é-nos servido agora com manifestações de orgulho
próprias de quem apresenta o mais ousado projecto ao alcance
da imaginação humana. Para se chegar a este ponto, para
se ter tornado aceitável um tão radical recuo nas
expectativas, foi preciso passar-se por um traumático processo
de desencanto com o “homem” abstracto, racional e cosmopolita que
o século XVIII idealizou. Foi na ressaca desse desencanto que
nasceu o novo europeísmo. A desilusão ficou impressa
nos genes da União Europeia e moldou-lhe o carácter.
Não é só no traçado das fronteiras que o
europeísmo se distingue do internacionalismo. O seu olhar
sobre o homem é o de quem assistiu ao desabar de um grandioso
ídolo chamado “humanidade emancipada”.
Os primeiros
responsáveis pela desilusão foram os próprios
porta-vozes do pacifismo internacionalista, tanto intelectuais de
verbo inflamado como militantes do movimento operário. Assim
que soaram os tambores de guerra, em 1914, correram a alistara sua
pena ou a sua força de trabalho nas fileiras do mais
desenfreado belicismo. Desmentiam de uma penada décadas de
escrita ou de propaganda oratória, em que haviam tocado
incessantemente as teclas da fraternidade universal, da união
dos povos e da abolição de todas as barreiras entre os
homens. Quem lê as memórias dos poucos intelectuais que
se mantiveram fiéis ao pacifismo durante o conflito de 1914 /
1918 repara com alguma surpresa que o grande choque, o que mais os
desorientou, não foi a violência, a crueldade ou a
amplitude da destruição causada pelos exércitos
em combate. Aquilo que verdadeiramente os deixou prostrados foi a
prontidão com que os seus companheiros de ideal, os seus pares
numa pretensa vanguarda da humanidade, se puseram a difundir doutrina
sobre a justiça da guerra, ou sobre a inferioridade e barbárie
dos outros povos. Muitos dos que se fizeram então arautos da
guerra e do domínio de um povo sobre outro, usaram nesta
função o prestígio adquirido anteriormente a
cantar as virtudes da paz. As organizações que visavam
a união dos proletários de todo o mundo conheceram a
cisão, rendendo-se ao patriotismo e reconhecendo cada uma
delas a justiça que cabia ao governo do seu país. A
camada de internacionalismo que cobria estes profetas de amanhãs
sem nuvens revelou-se afinal demasiado fina, estalando ao som dos
hinos marciais.
A União
Europeia, concebida nos escombros da ilusão internacionalista,
quis erguer-se sobre fundamentos mais sólidos, escusando-se a
chocar frontalmente com os laços de amizade ou inimizade
enraizados na sensibilidade dos povos. Apelando aos interesses comuns
do velho continente, devastado pela guerra e suplantado na cena
internacional pelas novas potências, tentou tornar mais
sedutora a coligação dos povos, divididos pelos
vestígios de antigas oposições, dando-lhe um
carácter de regresso à casa comum. Pondo o acento na
comunhão de cultura que une os europeus, divididos pelos
acasos da política, procurou diminuir a importância
histórica dos estados-nação, tardiamente
aparecidos na cena europeia. Foi preciso lembrar que mesmo nos
séculos mais recentes as nações europeias,
separadas por fronteiras políticas, tiveram uma literatura,
uma arquitectura, uma música, um desenvolvimento filosófico
que foi acompanhado em todas as latitudes, partilhando influências
vindas de todos os cantos do velho mundo. Seguindo esta linha de
pensamento para fins propagandísticos os próceres do
europeísmo estão conscientes dos limites do mesmo. É
difícil fazer do estado-nação o inimigo dos
povos europeus e ao mesmo tempo realçar a riqueza da produção
cultural nascida durante a vigência do mesmo. Para se lembrar a
unidade da literatura e da arte europeias nos últimos séculos
tem de se reconhecer que a existência de fronteiras entre as
nações não obstou a um frutuoso intercâmbio
de ideias.
A tentativa de
construir uma unidade política assente sobre a força de
atracção da cultura foi uma estratégia mista,
usando a realidade para impor uma ficção, mas está
ainda longe do que o mundo concreto pode conceder. O verdadeiro elo
entre os povos, um traço de união que se faça
notar fora do estreito círculo da classe política, está
ainda por descobrir. A ausência de fé europeísta
verifica-se cada vez que se reúne uma cimeira dos dirigentes
europeus. Em cada país a cimeira é acolhida como se de
uma batalha decisiva se tratasse. A imprensa e a oposição
exigem ao governo que seja duro, que não ceda nas exigências,
que obtenha para o seu país todas as vantagens possíveis.
Depois da reunião cada ministro declara aos seus compatriotas
que obteve uma grande vitória, tendo extraído da
comunidade mais do que ela estava disposta a dar. Não se nota
sombra de preocupação com os objectivos comuns da
Europa, não se esboça sequer uma sugestão quanto
à subordinação dos interesses nacionais a
objectivos mais largos.
Neste ambiente não
admira o carácter errático e a incerta vocação
dos órgãos que governam a Europa, oscilando entre uma
prudente abstenção de interferências nos assuntos
internos dos estados-membros e uma vontade de regular a vida, a moral
ou a higiene dos europeus, por meio de normas e recomendações
cuja aplicação não podem vigiar. |