Ano I - Nº 7, Março/Abril de 2007
Alameda Digital
Europeísmos
Editorial

por Carlos Bobone

Os vendedores de futuros prometem-nos um século XXI europeu e integrado, como prometeram há cem anos um século XX internacionalista e pacífico. Para quem foi educado na devoção ao progresso contínuo da humanidade parecerá ter havido aqui uma reviravolta estranha, um estreitamento da esfera de acção dos visionários. Aquilo que nos finais do século XIX seria considerado tacanho e sem ambição, o investimento das energias de um continente dentro dos seus limites físicos, é-nos servido agora com manifestações de orgulho próprias de quem apresenta o mais ousado projecto ao alcance da imaginação humana. Para se chegar a este ponto, para se ter tornado aceitável um tão radical recuo nas expectativas, foi preciso passar-se por um traumático processo de desencanto com o “homem” abstracto, racional e cosmopolita que o século XVIII idealizou. Foi na ressaca desse desencanto que nasceu o novo europeísmo. A desilusão ficou impressa nos genes da União Europeia e moldou-lhe o carácter. Não é só no traçado das fronteiras que o europeísmo se distingue do internacionalismo. O seu olhar sobre o homem é o de quem assistiu ao desabar de um grandioso ídolo chamado “humanidade emancipada”.

Os primeiros responsáveis pela desilusão foram os próprios porta-vozes do pacifismo internacionalista, tanto intelectuais de verbo inflamado como militantes do movimento operário. Assim que soaram os tambores de guerra, em 1914, correram a alistara sua pena ou a sua força de trabalho nas fileiras do mais desenfreado belicismo. Desmentiam de uma penada décadas de escrita ou de propaganda oratória, em que haviam tocado incessantemente as teclas da fraternidade universal, da união dos povos e da abolição de todas as barreiras entre os homens. Quem lê as memórias dos poucos intelectuais que se mantiveram fiéis ao pacifismo durante o conflito de 1914 / 1918 repara com alguma surpresa que o grande choque, o que mais os desorientou, não foi a violência, a crueldade ou a amplitude da destruição causada pelos exércitos em combate. Aquilo que verdadeiramente os deixou prostrados foi a prontidão com que os seus companheiros de ideal, os seus pares numa pretensa vanguarda da humanidade, se puseram a difundir doutrina sobre a justiça da guerra, ou sobre a inferioridade e barbárie dos outros povos. Muitos dos que se fizeram então arautos da guerra e do domínio de um povo sobre outro, usaram nesta função o prestígio adquirido anteriormente a cantar as virtudes da paz. As organizações que visavam a união dos proletários de todo o mundo conheceram a cisão, rendendo-se ao patriotismo e reconhecendo cada uma delas a justiça que cabia ao governo do seu país. A camada de internacionalismo que cobria estes profetas de amanhãs sem nuvens revelou-se afinal demasiado fina, estalando ao som dos hinos marciais.

A União Europeia, concebida nos escombros da ilusão internacionalista, quis erguer-se sobre fundamentos mais sólidos, escusando-se a chocar frontalmente com os laços de amizade ou inimizade enraizados na sensibilidade dos povos. Apelando aos interesses comuns do velho continente, devastado pela guerra e suplantado na cena internacional pelas novas potências, tentou tornar mais sedutora a coligação dos povos, divididos pelos vestígios de antigas oposições, dando-lhe um carácter de regresso à casa comum. Pondo o acento na comunhão de cultura que une os europeus, divididos pelos acasos da política, procurou diminuir a importância histórica dos estados-nação, tardiamente aparecidos na cena europeia. Foi preciso lembrar que mesmo nos séculos mais recentes as nações europeias, separadas por fronteiras políticas, tiveram uma literatura, uma arquitectura, uma música, um desenvolvimento filosófico que foi acompanhado em todas as latitudes, partilhando influências vindas de todos os cantos do velho mundo. Seguindo esta linha de pensamento para fins propagandísticos os próceres do europeísmo estão conscientes dos limites do mesmo. É difícil fazer do estado-nação o inimigo dos povos europeus e ao mesmo tempo realçar a riqueza da produção cultural nascida durante a vigência do mesmo. Para se lembrar a unidade da literatura e da arte europeias nos últimos séculos tem de se reconhecer que a existência de fronteiras entre as nações não obstou a um frutuoso intercâmbio de ideias.

A tentativa de construir uma unidade política assente sobre a força de atracção da cultura foi uma estratégia mista, usando a realidade para impor uma ficção, mas está ainda longe do que o mundo concreto pode conceder. O verdadeiro elo entre os povos, um traço de união que se faça notar fora do estreito círculo da classe política, está ainda por descobrir. A ausência de fé europeísta verifica-se cada vez que se reúne uma cimeira dos dirigentes europeus. Em cada país a cimeira é acolhida como se de uma batalha decisiva se tratasse. A imprensa e a oposição exigem ao governo que seja duro, que não ceda nas exigências, que obtenha para o seu país todas as vantagens possíveis. Depois da reunião cada ministro declara aos seus compatriotas que obteve uma grande vitória, tendo extraído da comunidade mais do que ela estava disposta a dar. Não se nota sombra de preocupação com os objectivos comuns da Europa, não se esboça sequer uma sugestão quanto à subordinação dos interesses nacionais a objectivos mais largos.

Neste ambiente não admira o carácter errático e a incerta vocação dos órgãos que governam a Europa, oscilando entre uma prudente abstenção de interferências nos assuntos internos dos estados-membros e uma vontade de regular a vida, a moral ou a higiene dos europeus, por meio de normas e recomendações cuja aplicação não podem vigiar.

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