Uma epidemia de infanticídios
por Joana Ludovice Andrade
Uma epidemia de infanticídios tem vindo a chocar a Alemanha.
Pelo menos 23 bebés foram já mortos este ano, muitos
deles espancados até à morte ou estrangulados pelas
mães antes de serem “despejados” em lixeiras, contentores
ou abandonados em terrenos ermos.
O mês passado, numa cidade da ex-Alemanha Oriental, Sabine H.,
uma mulher de 27 anos entregou-se à polícia depois do
seu filho recém-nascido ter sido encontrado num saco de lixo
preso no lodo de um lago.
Na mesma semana, Monika K., de 26 anos foi presa sob a suspeita de
ter atirado o seu bebé embrulhado num saco de plástico
de um décimo andar de um prédio em Hamburgo. Monika
tinha dado à luz apenas meia-hora antes.
Suzanne H., de 39 anos, natural da Baviera, foi arguida num
julgamento por alegadamente ter estrangulado e congelado a sua filha
bebé. Mãe de dois , confessou o crime dizendo que o
namorado a tinha ameaçado: “ ele disse que me deixava se eu
levasse a cabo mais alguma gravidez dele”.
Em Kiel, uma mulher foi presa uma semana depois da polícia ter
encontrado dois bebés mortos no seu congelador. Um dos bebés
era recém-nascido e o outro tinha cerca de doze meses. Na
mesma altura, um condutor encontrou o corpo de um bebé num
caixote de lixo de um parque de estacionamento da mesma cidade. O ADN
do bebé encontrado coincidia com o de outra criança
descoberta num depósito de lixo um ano antes. O paradeiro da
mãe das crianças é ainda desconhecido pela
polícia.
Apesar dos 23 casos registados estarem muito acima da média
deste tipo de crimes há peritos que consideram que o número
real deverá ser ainda maior, provavelmente próximo de
60. Um criminalista Alemão diz que algumas mulheres têm
mais medo de perder os seus companheiros do que os seus filhos e
portanto recorrem a medidas desesperadas para tentar salvar a
relação.
As investigações da polícia não conseguem
explicar a súbita “aparição” destes casos
que envolvem mães de todas as idades pelo país inteiro.
A situação que tem preocupado e agitado a população,
levou a que várias Câmaras Municipais lançassem
uma campanha de publicidade para divulgar o recurso a uma velha
panaceia – a roda dos expostos dos tempos medievais. A
campanha incita e promove um maior uso dos berços Baby-Klappe que permitem às mulheres abandonarem os seus filhos num espaço
seguro a fim de serem encontrados e acolhidos sem que elas sejam
identificadas.
Esta medida já foi alvo da crítica das hierarquias
religiosas e de várias instituições de caridade,
como a Caritas que consideram que a campanha pode vir a encorajar
mais mães a abandonarem os seus filhos. As Igrejas consideram
urgente adoptar medidas de fundo para combater um problema que se
pode transformar numa epidemia de infanticídio, acreditando
que o regresso da roda dos tempos medievais não é
a solução.
O súbito aumento do infanticídio choca mas, de certa
forma, não surpreende. Afinal de contas, em muitas sociedades
estes bebés poderiam ter sido abortados sem complicações
legais de facto quase até o tempo da gravidez. A lógica
do infanticídio é um pouco a do aborto, esticada para
além do momento de nascimento.
O facto dos alemães estarem a responder com indignação
a esta vaga criminosa, embora reconfortante, não deixa de
realçar a profunda hipocrisia da cultura em que vivemos. Como
é que o infanticídio pode ser considerado errado e
criminoso e aborto ser aceitável, se não mesmo um
direito básico?
A existência destes casos que se têm verificado não
só na Alemanha mas por toda a Europa demonstra a
desvalorização crescente da vida humana. Os quadros
legais dos países europeus são na sua maioria
permissivos e, nalguns casos, até promotores de atentados
contra a vida como é o caso da eutanásia e do aborto. É
portanto natural que a Cultura da Morte esteja perfeitamente
enraizada e seja gradualmente aceite, pela força persuasiva
dos focos de informação que, salvo raras e honrosas
excepções, a defendem.
Provavelmente, este aumento galopante do abandono e do homicídio
de bebés pelos seus progenitores deveria obrigar a uma
reflexão sincera e profunda da nossa própria sociedade
e da crescente perda de valores da mesma e não à
promoção de campanhas de medidas medievais como a roda que apenas incitam as mães e os pais a desresponsabilizarem-se
pelas vidas que geraram, na mesma lógica do aborto.
Que tristes perspectivas se conjugam para este séc. XXI!
. |