Ano I - Nº 7, Março/Abril de 2007
Alameda Digital
Europeísmos

Uma epidemia de infanticídios

por Joana Ludovice Andrade

Uma epidemia de infanticídios tem vindo a chocar a Alemanha. Pelo menos 23 bebés foram já mortos este ano, muitos deles espancados até à morte ou estrangulados pelas mães antes de serem “despejados” em lixeiras, contentores ou abandonados em terrenos ermos.

O mês passado, numa cidade da ex-Alemanha Oriental, Sabine H., uma mulher de 27 anos entregou-se à polícia depois do seu filho recém-nascido ter sido encontrado num saco de lixo preso no lodo de um lago.

Na mesma semana, Monika K., de 26 anos foi presa sob a suspeita de ter atirado o seu bebé embrulhado num saco de plástico de um décimo andar de um prédio em Hamburgo. Monika tinha dado à luz apenas meia-hora antes.

Suzanne H., de 39 anos, natural da Baviera, foi arguida num julgamento por alegadamente ter estrangulado e congelado a sua filha bebé. Mãe de dois , confessou o crime dizendo que o namorado a tinha ameaçado: “ ele disse que me deixava se eu levasse a cabo mais alguma gravidez dele”.

Em Kiel, uma mulher foi presa uma semana depois da polícia ter encontrado dois bebés mortos no seu congelador. Um dos bebés era recém-nascido e o outro tinha cerca de doze meses. Na mesma altura, um condutor encontrou o corpo de um bebé num caixote de lixo de um parque de estacionamento da mesma cidade. O ADN do bebé encontrado coincidia com o de outra criança descoberta num depósito de lixo um ano antes. O paradeiro da mãe das crianças é ainda desconhecido pela polícia.

Apesar dos 23 casos registados estarem muito acima da média deste tipo de crimes há peritos que consideram que o número real deverá ser ainda maior, provavelmente próximo de 60. Um criminalista Alemão diz que algumas mulheres têm mais medo de perder os seus companheiros do que os seus filhos e portanto recorrem a medidas desesperadas para tentar salvar a relação.

As investigações da polícia não conseguem explicar a súbita “aparição” destes casos que envolvem mães de todas as idades pelo país inteiro.

A situação que tem preocupado e agitado a população, levou a que várias Câmaras Municipais lançassem uma campanha de publicidade para divulgar o recurso a uma velha panaceia – a roda dos expostos dos tempos medievais. A campanha incita e promove um maior uso dos berços Baby-Klappe que permitem às mulheres abandonarem os seus filhos num espaço seguro a fim de serem encontrados e acolhidos sem que elas sejam identificadas.

Esta medida já foi alvo da crítica das hierarquias religiosas e de várias instituições de caridade, como a Caritas que consideram que a campanha pode vir a encorajar mais mães a abandonarem os seus filhos. As Igrejas consideram urgente adoptar medidas de fundo para combater um problema que se pode transformar numa epidemia de infanticídio, acreditando que o regresso da roda dos tempos medievais não é a solução.

O súbito aumento do infanticídio choca mas, de certa forma, não surpreende. Afinal de contas, em muitas sociedades estes bebés poderiam ter sido abortados sem complicações legais de facto quase até o tempo da gravidez. A lógica do infanticídio é um pouco a do aborto, esticada para além do momento de nascimento.

O facto dos alemães estarem a responder com indignação a esta vaga criminosa, embora reconfortante, não deixa de realçar a profunda hipocrisia da cultura em que vivemos. Como é que o infanticídio pode ser considerado errado e criminoso e aborto ser aceitável, se não mesmo um direito básico?

A existência destes casos que se têm verificado não só na Alemanha mas por toda a Europa demonstra a desvalorização crescente da vida humana. Os quadros legais dos países europeus são na sua maioria permissivos e, nalguns casos, até promotores de atentados contra a vida como é o caso da eutanásia e do aborto. É portanto natural que a Cultura da Morte esteja perfeitamente enraizada e seja gradualmente aceite, pela força persuasiva dos focos de informação que, salvo raras e honrosas excepções, a defendem.

Provavelmente, este aumento galopante do abandono e do homicídio de bebés pelos seus progenitores deveria obrigar a uma reflexão sincera e profunda da nossa própria sociedade e da crescente perda de valores da mesma e não à promoção de campanhas de medidas medievais como a roda que apenas incitam as mães e os pais a desresponsabilizarem-se pelas vidas que geraram, na mesma lógica do aborto.

Que tristes perspectivas se conjugam para este séc. XXI!

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