Eurasismo :
o fascínio das fantasias imperiais
por Manuel Azinhal
Alguns
leitores estarão a par da actual popularidade em certos
círculos políticos e intelectuais, com expressão
nomeadamente em Roma, Paris ou Berlim, para além do óbvio
centro moscovita, de teorias geopolíticas que usam a
denominação eurasismo.
A
esses não escapará a notória diferenciação
desse eurasismo digamos que “ocidental” em relação
ao fenómeno ideológico, geopolítico e
historiográfico que esteve no princípio da designação.
Não
são de estranhar evoluções semelhantes, pois
quase sempre as ideias ganham vida própria, e nos seus
desenvolvimentos assumem até por vezes contornos que pouco se
identificam com as origens, sobretudo sob o influxo de diferentes
circunstâncias de tempo e espaço.
E
frequentemente verifica-se que existem origens diferentes para
realidades que circulam com a mesma denominação.
Para
alguns dos actuais entusiastas do eurasismo a sua posição
representa no essencial a expressão política das
aspirações teorizadas há umas décadas por
Jean Thiriart.
É
a “Europa Unida de Dublin a Vladivostok”. É um sonho a que
com mais acerto se chamaria “Grande Europa” do que “Eurásia”,
se atentarmos no sentido do movimento da construção
proposta.
A
visão geopolítica aqui presente é a da “Europa
Imperial”, coincidente com a doutrinação inicial de
Jean Thiriart e neste ponto também com as posições
geopolíticas de Julius Evola.
Nem
Ocidente, nem Oriente, sim à Europa Imperial.
Todavia,
com o desaparecimento da ameaça comunista, que preenchia o
conteúdo que se rejeitava no segundo termo da equação,
parece que o “eurasismo”, ao menos em alguns dos seus
entusiastas, se foi deslocando no sentido de erigir o “Ocidente”,
identificado com o americanismo, como o inimigo único global.
Houve uma mudança nítida, de uma posição
terceirista para uma concepção bipolar que chega a
exprimir-se na oposição dicotómica entre a
“talassocracia” e a “telurocracia”, o mar e a terra.
Esta
evolução, curiosamente, aproxima o eurasismo das suas
origens russas – e do debate fundamental sobre a estratégia
nacional da Rússia pós-soviética.
Recorde-se
que o eurasismo foi originalmente uma doutrina geopolítica
desenvolvida
na Rússia. Surgiu nos começos dos anos vinte do século
passado, e veio depois a cair no esquecimento.
Após
o fim da URSS
a doutrina ganhou novo vigor, impulsionada sobretudo pelo filósofo
e geopolítico russo Alexandre
Douguine,
por vezes com o nome de “neo-eurasismo”.
Ao
que leio, esta doutrina estará agora muito espalhada na Rússia
e no seu “estrangeiro próximo” (principalmente as
ex-repúblicas muçulmanas soviéticas da Ásia
Central, com o Kazaquistão,
o Turqueménistão,
o Tadjiquistão e a Quirguízia, e
também na Turquia,
no Irão,
etc.).
Na
sua formulação inicial, o eurasismo tinha sido
teorizado cerca de 1920 por intelectuais russos da emigração
(N. Troubetskoy, P. Savitsky, N. Alexeiev, etc.).
Afirmavam
eles que a identidade russa resultara de uma fusão original
entre os elementos eslavo e turco-muçulmano, que a Rússia
constituía um “terceiro continente” situado entre o
Ocidente (já então denunciado como materialista e
decadente) e a Ásia.
O
livro-manifesto do movimento chamava-se aliás “Tournant vers
l’Orient” (Petr Savitsky, 1921).
Para
os eurasistas russos os Urais não eram uma fronteira mas o
centro mesmo da Rússia.
Os
eurasistas demarcavam-se portanto quer dos nacionalistas clássicos
quer dos eslavófilos. Sem serem comunistas, olhavam no entanto
para a experiência soviética como a continuação
da ideia imperial russa.
O
neo-eurasismo de Douguine retoma estas ideias mas vai mais longe.
Eleva a teoria de Mackinder
que opunha talassocracia
e telurocracia, “ilha mundial” (América) e “terra
mundial” (Eurásia), ao nível de uma explicação
da história.
A
civilização talassocrática, anglo-saxónica,
protestante, de espírito capitalista, seria irremediavelmente
oposta à civilização continental,
russo-euroasiática, ortodoxa e muçulmana, de espírito
socialista.
O
Ocidente, onde o Sol se põe, representa o declínio, a
dissolução. A Eurásia representa o renascimento,
é a terra dos deuses, pois que é lá que o sol se
levanta.
O
objectivo declarado do movimento neo-eurasista é constituir um
grande bloco continental euroasiático para enfrentar em pé
de igualdade a potência marítima “atlantista”, que
representa o “mal mundial”, arrastando o mundo para o caos.
Deste
modo a escatologia mistura-se à geopolítica.
No
contexto da política russa, há ainda a destacar entre
os diversos movimentos neo-eurasistas que emergiram durante os anos
1990 a corrente protagonizada por A. S. Panarin, da Academia das
Ciências de Moscovo.
O
seu discurso caracteriza-se por ser imediatamente político,
embora muito elaborado teoricamente: o mundo posterior à
bipolaridade é um mundo “pós-moderno”, marcado por
novos valores (o sentido de colectividade o regresso da religião
e do ascetismo, um forte sentimento ecológico, etc.) e à
frente dele encontra-se naturalmente a Rússsia
pós-totalitária.
Panarin
defende para a Rússia, e para o seu “estrangeiro próximo”,
uma geopolítica anti-ocidentalista baseada em postulados
culturalistas que podemos identificar com os de Samuel Huntington.
Panarin
procura sobretudo reabilitar filosoficamente e politicamente, a noção
de império. Espera assim ultrapassar as rupturas ideológicas
e estabelecer linhas de continuidade entre csarismo, União
Soviética e época contemporânea. O império
seria então a construção estatal “natural”
do espaço euroasiático, única forma de garantir
a preservação das culturas nacionais sem deixar de
constituir a expressão da identidade russa. O neo-eurasismo de
Panarin propõe assim ao seu país uma nova ideologia
identitária apresentada como capaz de evitar qualquer divisão
nacionalista ao definir uma Rússia tanto russo-ortodoxa como
turco-muçulmana.
As
ideias eurasistas nunca constituíram, até agora, uma
qualquer ideologia oficial na Rússia, mas permitiram uma nova
grelha de leitura da história russa, essencial num tempo em
que se coloca de modo premente a questão de saber o que é
a Rússia.
Neste
ponto, importa parar e reflectir sobre a compatibilidade entre este
eurasismo “oriental”, cuja essência é a definição
da identidade russa e a defesa da sua centralidade no mundo, com o
eurasismo “ocidental” que foi referido no início (aquele
que nasce fundamentalmente de visões geoestratégicas
como o recorrente eixo Paris-Berlim-Moscovo).
Para
quem se coloque na perspectiva da “terra mundial”, da
Rússia-continente, a península asiática a que
normalmente chamamos Europa não excede em importância as
restantes periferias, como a Índia, a China, o Japão.
Para
quem se situa (pese embora o seu repúdio do “Ocidente” e
do “atlantismo”) na perspectiva de Paris, Roma ou Berlim, não
parece que possa ser aceitável essa deslocação
do centro de gravidade do que sempre considerou a Europa, apagada
inevitavelmente nessa outra subalternização alternativa
que seria a concretização da geo-estratégia
moscovita.
O
comum inimigo americano não parece ser cimento suficiente para
dar consistência a uma tal confusão. |