Europa: o Império Pacífico
por Miguel Castelo Branco
A Europa é una no substracto religioso cristão comum a todos os seus
povos e múltipla na diferenciação étnica e linguística que os
europeus, aliás, nunca deixaram de percepcionar. Contudo, nem as
variações étnicas nem as seculares fracturas intracristãs jamais
puseram em causa uma identidade europeia que permite que um católico
entre num templo ortodoxo com o mesmo respeito que um ortodoxo
franqueie um templo católico, que um alemão conheça os preceitos da
hospitalidade russa e um letão não estranhe o regime alimentar de um
português.
Se o Ocidente não existe como visão do mundo - que se funda na
perspectiva - existe certamente como weltanschauung. Se atentarmos na
literatura, nas artes-plásticas, na música e nas instituições, a
Europa é una: há uma arte ocidental, uma música ocidental, uma
literatura ocidental e instituições políticas, sociais, jurídicas e
económicas ocidentais. As variações regionais [e nacionais] não são
mais que variações desse fundo comum, se bem que os nacionalismos de
Oitocentos houvessem criado artificialismos postiços ex-nihilo: o
folclore, os trajos, o artesanato, as lendas e o fabulário são
tradução de uma metacultura partilhada. Os Europeus só muito
recentemente percepcionaram as fronteiras internas como obstáculo: até
ao século XVI, os reis faziam guerra uns aos outros, ao mesmo tempo
que os europeus circulavam pela Europa comercial e pela Europa
universitária sem que com isso sofressem retaliações, de Lisboa a
Moscóvia, da Noruega à Sicília. A rotação das casas dinásticas
medievais internacionais evidencia a facilidade com que as unidades
políticas conviviam com o permanente entrosamento e com níveis
diferenciados de soberania. As feiras medievais, as universidades, os
exércitos, as abadias e mosteiros medievais não conheceram franquias,
alfândegas, numero clausus nem pautas aduaneiras. Tudo isso nasceu
depois com o Estado Moderno, com a afirmação [imposta] das línguas
nacionais, dos exércitos nacionais, do direitos nacional e da
burocracia nacional.
Para os cristãos anteriores à Reforma, havia uma fronteira: a
fronteira da cristandade. Volvidos duzentos anos sobre Lutero, todo o
continente se eriçara em fronteiras de conflito, reivindicações
territoriais, alfândegas, inspectores e reformas educativas.
Contraditoriamente, o Iluminismo lançou a sua luz sobre todo o
continente, estratificou-se sobre preconceitos comuns e desafiou a
tradição comum com o mesmo figurino de "governação esclarecida". Em
suma, a Europa, de Lisboa a Moscovo foi sempre una, até na forma de se
odiar e guerrear.
Foram necessárias duas guerras fratricidas e o consequente ocaso da
Europa para que os europeus se entendessem sobre o minimum minimorum que permitisse o reencontro dos povos que, juntos, fazem a Europa. A
nostalgia de Roma persistiu sob o Sacro Império, dos Carolíngios aos
Otónidas, dos Hohenstaufen aos Habsburgos e depois, com Napoleão a
Hitler. Unir a Europa, jungindo ou não a coroa do Imperador e o báculo
do Papa tem sido o sonho de séculos. Embainhando a espada,
privatizando a fé e encontrando a língua única das estruturas
integradoras, os fundadores da CEE e da União Europeia fizeram, com a
sua pequenez, o que grandes estrategas e déspotas não haviam logrado.
A Europa, quer o percepcionemos quer não, é hoje, de novo, um Império.
Sei que muitos sorrirão perante tal afirmação, mas existe. Temos uma
moeda única, um parlamento comum, instituições normalizadoras e,
sobretudo, uma paz de que não há memória. A Europa inspira desprezo a
muitos por ser um Império Pacífico. Ora, foi este o caminho -
tecnocrático, burocrático, regulamentador, normalizador - que tornou
possível o que hoje temos. Parece pouco, mas é muito. |