Ano I - Nº 7, Março/Abril de 2007
Alameda Digital
Europeísmos
Europa: o Império Pacífico

por Miguel Castelo Branco

A Europa é una no substracto religioso cristão comum a todos os seus povos e múltipla na diferenciação étnica e linguística que os europeus, aliás, nunca deixaram de percepcionar. Contudo, nem as variações étnicas nem as seculares fracturas intracristãs jamais puseram em causa uma identidade europeia que permite que um católico entre num templo ortodoxo com o mesmo respeito que um ortodoxo franqueie um templo católico, que um alemão conheça os preceitos da hospitalidade russa e um letão não estranhe o regime alimentar de um português.

Se o Ocidente não existe como visão do mundo - que se funda na perspectiva - existe certamente como weltanschauung. Se atentarmos na literatura, nas artes-plásticas, na música e nas instituições, a Europa é una: há uma arte ocidental, uma música ocidental, uma literatura ocidental e instituições políticas, sociais, jurídicas e económicas ocidentais. As variações regionais [e nacionais] não são mais que variações desse fundo comum, se bem que os nacionalismos de Oitocentos houvessem criado artificialismos postiços ex-nihilo: o folclore, os trajos, o artesanato, as lendas e o fabulário são tradução de uma metacultura partilhada. Os Europeus só muito recentemente percepcionaram as fronteiras internas como obstáculo: até ao século XVI, os reis faziam guerra uns aos outros, ao mesmo tempo que os europeus circulavam pela Europa comercial e pela Europa universitária sem que com isso sofressem retaliações, de Lisboa a Moscóvia, da Noruega à Sicília. A rotação das casas dinásticas medievais internacionais evidencia a facilidade com que as unidades políticas conviviam com o permanente entrosamento e com níveis diferenciados de soberania. As feiras medievais, as universidades, os exércitos, as abadias e mosteiros medievais não conheceram franquias, alfândegas, numero clausus nem pautas aduaneiras. Tudo isso nasceu depois com o Estado Moderno, com a afirmação [imposta] das línguas nacionais, dos exércitos nacionais, do direitos nacional e da burocracia nacional.

Para os cristãos anteriores à Reforma, havia uma fronteira: a fronteira da cristandade. Volvidos duzentos anos sobre Lutero, todo o continente se eriçara em fronteiras de conflito, reivindicações territoriais, alfândegas, inspectores e reformas educativas. Contraditoriamente, o Iluminismo lançou a sua luz sobre todo o continente, estratificou-se sobre preconceitos comuns e desafiou a tradição comum com o mesmo figurino de "governação esclarecida". Em suma, a Europa, de Lisboa a Moscovo foi sempre una, até na forma de se odiar e guerrear.

Foram necessárias duas guerras fratricidas e o consequente ocaso da Europa para que os europeus se entendessem sobre o minimum minimorum que permitisse o reencontro dos povos que, juntos, fazem a Europa. A nostalgia de Roma persistiu sob o Sacro Império, dos Carolíngios aos Otónidas, dos Hohenstaufen aos Habsburgos e depois, com Napoleão a Hitler. Unir a Europa, jungindo ou não a coroa do Imperador e o báculo do Papa tem sido o sonho de séculos. Embainhando a espada, privatizando a fé e encontrando a língua única das estruturas integradoras, os fundadores da CEE e da União Europeia fizeram, com a sua pequenez, o que grandes estrategas e déspotas não haviam logrado. A Europa, quer o percepcionemos quer não, é hoje, de novo, um Império. Sei que muitos sorrirão perante tal afirmação, mas existe. Temos uma moeda única, um parlamento comum, instituições normalizadoras e, sobretudo, uma paz de que não há memória. A Europa inspira desprezo a muitos por ser um Império Pacífico. Ora, foi este o caminho - tecnocrático, burocrático, regulamentador, normalizador - que tornou possível o que hoje temos. Parece pouco, mas é muito.

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