O “Mein Kampf” do Europeísmo
por Carlos Bobone
“Europa e Europeus”,
por Max Beloff e outros, é um livro que foi gerado para servir
de mentor ideológico aos adeptos do europeísmo nascido
no pós-guerra. Vindo a público sob a protecção
das mais altas instâncias europeias, foi esperado e anunciado
como a obra que revelaria a existência de fundas raízes
culturais imanentes ao projecto de unificação da
Europa. Traduzido em várias línguas, não se
mostrou tão persuasivo como os seus patrocinadores esperavam.
Ao fim de poucos meses jazia esquecido no fundo das estantes. O seu
percurso terminou como o de muitos outros que nascem predestinados à
grandeza e não cumprem as espectativas. No entanto, mesmo não
tendo cumprido a missão que lhe estava reservada, este livro é
um documento revelador, não porque nos dê a conhecer a
verdade sobre a Europa, mas porque retrata com fidelidade os
tortuosos caminhos percorridos pelos crentes na busca de uma
justificação para o federalismo europeu.
A União Europeia
desde que deu os primeiros passos quis ter o seu catecismo, o seu
“Mein Kampf”, o livro de cabeceira que os seus fiéis
pudessem compulsar a qualquer momento, quando quisessem confortar-se
com a solidez dos argumentos que recomendam a união dos povos
europeus ou quando quisessem pulverizar as insignificantes objecções
apresentadas pelos “nacionalistas”.
Não poderia ser
obra de um único autor, pois a União pecaria contra a
sua natureza se aceitasse os ditames de um messias inspirado pelos
deuses, como se faz nos regimes totalitários. O credo
europeísta teria de ser exposto num trabalho colectivo, com os
contributos de todos os países aderentes e a prestigiosa
colaboração de alguns pensadores de renome
internacional, com firmes provas de europeísmo nos seus
currículos.
No ano de 1953 foram
convocados os pontífices da intelectualidade afecta à
nova ordem europeia e deu-se-lhes a incumbência de produzirem a
doutrina europeísta. No decurso de duas jornadas de reflexão,
em Roma e Estrasburgo, discutiram-se os fundamentos da fé que
havia de unir os povos da Europa. A direcção coube a
Denis de Rougemont. Contando com a assistência de
personalidades como Arnold Toynbee, Gabriel Marcel, de Gaspari,
Friedlander, Hans Raupach e Robert Schuman, foram auscultadas dezenas
de sumidades nos campos das artes, da filosofia, da política,
da história e da ciência. Estava indigitado o escritor
Max Beloff para fazer, com a ajuda de uma equipa de professores de
Oxford, o balanço dessa colheita, que se antevia abundante em
ideias, sugestões, conceitos e definições.
Esperava-se que daqueles dias de discussão saísse
iluminado o conceito de “cultura europeia” e nitidamente traçados
os contornos da personalidade que distingue o europeu dos outros
povos do mundo. Pretendia-se mostrar que a união dos europeus
era inculcada pela própria conformação cultural
dos povos envolvidos e que a a União Europeia, longe de ser um
expediente político ou financeiro para fazer frente a
problemas momentâneos, era uma realização de
longo alcance, que encontrava a sua razão de ser na natureza
dos homens, reconduzindo-os ao quadro social mais apropriado à
sua maneira de ser.
Aconteceu, porém,
que, como sucede frequentemente nas reuniões de intelectuais,
o desenvolvimento dado ao programa de trabalhos seguiu um rumo
caprichoso e não aquele que tinha sido encomendado. Mesmo
tratando-se de fiéis defensores do “ideal europeu”,
reunidos para reduzirem ao silêncio os últimos
argumentos do nacionalismo, os debates trouxeram à tona muito
cepticismo, muito apego às particularidades nacionais, muitas
cautelas na cedência a critérios transnacionais, muitos
avisos contra o atropelo dos caracteres de cada povo. Nas palavras
do próprio presidente daqueles grupos de discussão,
“cada sector de especialistas declarou que a união,
evidentemente desejável noutros campos, não o era no
seu”. O que havia a fazer era procurar, no meio dessas dissenções,
algum traço comum que permitisse afirmar a existência de
uma atitude ou um modo de ser caracteristicamente europeus. Foi isso
o que fez Denis de Rougemont no prefácio ao livro de Max
Beloff, mostrando-se digno da confiança que nele depositara o
Conselho da Europa. Depois de mostrar algum desencanto com o rumo que
tomaram os debates, com as restrições, cautelas,
distinções e gradações que deram o tom
àquelas jornadas de trabalho, lança-se em frente,
lembrando que no fundo não há nada mais europeu que
esse cepticismo, essas dúvidas, esse permanente levantar de
questões, esse amor aos particularismos nacionais e às
originalidades de cada povo. Sendo o conceito de “carácter
nacional” uma criação típica da civilização
europeia, era natural que esta não se desembaraçasse do
mesmo com facilidade. Assim, os assomos de nacionalismo que se
manifestavam nos adeptos da Europa Unida eram sintomas da existência
desse fundo comum a todos os europeus. O europeu revelava-se como tal
precisamente no acto em que se negava a reconhecer a sua condição:
“Não seria o europeu de facto aquele homem singular que se
manifesta como europeu precisamente na medida em que o não
crê?”
O raciocínio não
foi desenvolvido até às últimas consequências,
mas o esboço que transcrevemos dá uma ideia das
dificuldades encontradas num esforço de reflexão que
procurou livrar-se do nacionalismo a todo o custo mas acabou
reconhecendo neste, afinal, o porto onde se pode abrigar o conceito
de espírito europeu.. O nacionalista, excluído dos
convites oficiais para os encontros nos palácios romanos e
estrasburgueses, parece ter sido uma presença que se impôs
a todos os debates. A princípio tomado como figura a abater,
veio a revelar-se, com o aprofundar da reflexão, o verdadeiro
modelo do homem europeu. Mas isso não o impediu de continuar a
ser tratado como inimigo da Europa e ameaça à sua
unidade.Tal é a força das ideias-feitas, principalmente
quando assentes em antíteses sugestivas, como a do
nacionalismo contra a Europa.
Toda a obra de Beloff é
dominada por esta ambiguidade, que em cada capítulo impõe
labirínticas divagações, sem linha de rumo nem
conclusões assimiláveis. A vontade de descobrir formas
de viver e pensar especificamente europeias choca com mil e uma
objecções, que são expostas pela ordem em que
ocorreram aos colaboradores da obra, ou seja, ao acaso. Chega-se ao
fim de cada parte do livro com a noção de que nada é
claro naquele domínio. Nem os contornos geográficos da
Europa ficam próximos de uma definição rigorosa.
O europeísmo que
aqui se apresenta gira em torno de si mesmo, incapaz de decidir quais
os aspectos da herança europeia que deve assumir como seus.
Procura alimentar-se da história mas teme comprometer-se com
ela. Repugnando-lhe qualquer definição de Europa
assente em critérios de raça ou de religião,
também não quer submeter-se a uma classificação
exclusivamente geográfica. Prefere invocar a cultura como
elemento unificador dos europeus, mas exclui as culturas de
ascendência europeia que se encontram longe dos limites físicos
da Europa, como a americana ou a australiana. Proclama-se herdeiro de
Atenas, Roma e Jerusalém, mas reconhece que se encontra mais
próximo de Nova Iorque ou de Sidney que das capitais da
cultura clássica. Quer ficar para a posteridade como um
movimento unificador e duradouro, que deu continuidade às
grandes correntes da história, mas deixa-se enredar em
questões de distribuição e compensação
de protagonismos que não embaraçariam verdadeiros
crentes. É, em suma, uma crença sem fé, que
reprova os nacionalismos por quererem “atrasar o relógio”,
enquanto ele não sabe onde se dirige mas promete chegar a
horas. |