Ano I - Nº 7, Março/Abril de 2007
Alameda Digital
Um Crepúsculo Europeu
O “Mein Kampf” do Europeísmo

por Carlos Bobone

“Europa e Europeus”, por Max Beloff e outros, é um livro que foi gerado para servir de mentor ideológico aos adeptos do europeísmo nascido no pós-guerra. Vindo a público sob a protecção das mais altas instâncias europeias, foi esperado e anunciado como a obra que revelaria a existência de fundas raízes culturais imanentes ao projecto de unificação da Europa. Traduzido em várias línguas, não se mostrou tão persuasivo como os seus patrocinadores esperavam. Ao fim de poucos meses jazia esquecido no fundo das estantes. O seu percurso terminou como o de muitos outros que nascem predestinados à grandeza e não cumprem as espectativas. No entanto, mesmo não tendo cumprido a missão que lhe estava reservada, este livro é um documento revelador, não porque nos dê a conhecer a verdade sobre a Europa, mas porque retrata com fidelidade os tortuosos caminhos percorridos pelos crentes na busca de uma justificação para o federalismo europeu.

A União Europeia desde que deu os primeiros passos quis ter o seu catecismo, o seu “Mein Kampf”, o livro de cabeceira que os seus fiéis pudessem compulsar a qualquer momento, quando quisessem confortar-se com a solidez dos argumentos que recomendam a união dos povos europeus ou quando quisessem pulverizar as insignificantes objecções apresentadas pelos “nacionalistas”.

Não poderia ser obra de um único autor, pois a União pecaria contra a sua natureza se aceitasse os ditames de um messias inspirado pelos deuses, como se faz nos regimes totalitários. O credo europeísta teria de ser exposto num trabalho colectivo, com os contributos de todos os países aderentes e a prestigiosa colaboração de alguns pensadores de renome internacional, com firmes provas de europeísmo nos seus currículos.

No ano de 1953 foram convocados os pontífices da intelectualidade afecta à nova ordem europeia e deu-se-lhes a incumbência de produzirem a doutrina europeísta. No decurso de duas jornadas de reflexão, em Roma e Estrasburgo, discutiram-se os fundamentos da fé que havia de unir os povos da Europa. A direcção coube a Denis de Rougemont. Contando com a assistência de personalidades como Arnold Toynbee, Gabriel Marcel, de Gaspari, Friedlander, Hans Raupach e Robert Schuman, foram auscultadas dezenas de sumidades nos campos das artes, da filosofia, da política, da história e da ciência. Estava indigitado o escritor Max Beloff para fazer, com a ajuda de uma equipa de professores de Oxford, o balanço dessa colheita, que se antevia abundante em ideias, sugestões, conceitos e definições. Esperava-se que daqueles dias de discussão saísse iluminado o conceito de “cultura europeia” e nitidamente traçados os contornos da personalidade que distingue o europeu dos outros povos do mundo. Pretendia-se mostrar que a união dos europeus era inculcada pela própria conformação cultural dos povos envolvidos e que a a União Europeia, longe de ser um expediente político ou financeiro para fazer frente a problemas momentâneos, era uma realização de longo alcance, que encontrava a sua razão de ser na natureza dos homens, reconduzindo-os ao quadro social mais apropriado à sua maneira de ser.

Aconteceu, porém, que, como sucede frequentemente nas reuniões de intelectuais, o desenvolvimento dado ao programa de trabalhos seguiu um rumo caprichoso e não aquele que tinha sido encomendado. Mesmo tratando-se de fiéis defensores do “ideal europeu”, reunidos para reduzirem ao silêncio os últimos argumentos do nacionalismo, os debates trouxeram à tona muito cepticismo, muito apego às particularidades nacionais, muitas cautelas na cedência a critérios transnacionais, muitos avisos contra o atropelo dos caracteres de cada povo. Nas palavras do próprio presidente daqueles grupos de discussão, “cada sector de especialistas declarou que a união, evidentemente desejável noutros campos, não o era no seu”. O que havia a fazer era procurar, no meio dessas dissenções, algum traço comum que permitisse afirmar a existência de uma atitude ou um modo de ser caracteristicamente europeus. Foi isso o que fez Denis de Rougemont no prefácio ao livro de Max Beloff, mostrando-se digno da confiança que nele depositara o Conselho da Europa. Depois de mostrar algum desencanto com o rumo que tomaram os debates, com as restrições, cautelas, distinções e gradações que deram o tom àquelas jornadas de trabalho, lança-se em frente, lembrando que no fundo não há nada mais europeu que esse cepticismo, essas dúvidas, esse permanente levantar de questões, esse amor aos particularismos nacionais e às originalidades de cada povo. Sendo o conceito de “carácter nacional” uma criação típica da civilização europeia, era natural que esta não se desembaraçasse do mesmo com facilidade. Assim, os assomos de nacionalismo que se manifestavam nos adeptos da Europa Unida eram sintomas da existência desse fundo comum a todos os europeus. O europeu revelava-se como tal precisamente no acto em que se negava a reconhecer a sua condição: “Não seria o europeu de facto aquele homem singular que se manifesta como europeu precisamente na medida em que o não crê?”

O raciocínio não foi desenvolvido até às últimas consequências, mas o esboço que transcrevemos dá uma ideia das dificuldades encontradas num esforço de reflexão que procurou livrar-se do nacionalismo a todo o custo mas acabou reconhecendo neste, afinal, o porto onde se pode abrigar o conceito de espírito europeu.. O nacionalista, excluído dos convites oficiais para os encontros nos palácios romanos e estrasburgueses, parece ter sido uma presença que se impôs a todos os debates. A princípio tomado como figura a abater, veio a revelar-se, com o aprofundar da reflexão, o verdadeiro modelo do homem europeu. Mas isso não o impediu de continuar a ser tratado como inimigo da Europa e ameaça à sua unidade.Tal é a força das ideias-feitas, principalmente quando assentes em antíteses sugestivas, como a do nacionalismo contra a Europa.

Toda a obra de Beloff é dominada por esta ambiguidade, que em cada capítulo impõe labirínticas divagações, sem linha de rumo nem conclusões assimiláveis. A vontade de descobrir formas de viver e pensar especificamente europeias choca com mil e uma objecções, que são expostas pela ordem em que ocorreram aos colaboradores da obra, ou seja, ao acaso. Chega-se ao fim de cada parte do livro com a noção de que nada é claro naquele domínio. Nem os contornos geográficos da Europa ficam próximos de uma definição rigorosa.

O europeísmo que aqui se apresenta gira em torno de si mesmo, incapaz de decidir quais os aspectos da herança europeia que deve assumir como seus. Procura alimentar-se da história mas teme comprometer-se com ela. Repugnando-lhe qualquer definição de Europa assente em critérios de raça ou de religião, também não quer submeter-se a uma classificação exclusivamente geográfica. Prefere invocar a cultura como elemento unificador dos europeus, mas exclui as culturas de ascendência europeia que se encontram longe dos limites físicos da Europa, como a americana ou a australiana. Proclama-se herdeiro de Atenas, Roma e Jerusalém, mas reconhece que se encontra mais próximo de Nova Iorque ou de Sidney que das capitais da cultura clássica. Quer ficar para a posteridade como um movimento unificador e duradouro, que deu continuidade às grandes correntes da história, mas deixa-se enredar em questões de distribuição e compensação de protagonismos que não embaraçariam verdadeiros crentes. É, em suma, uma crença sem fé, que reprova os nacionalismos por quererem “atrasar o relógio”, enquanto ele não sabe onde se dirige mas promete chegar a horas.

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