A propósito dos mergings and
acquisitions meta-nacionais
por J. Luís Andrade
Paradoxalmente, é no momento em que o binómio
Nação-Estado triunfa como forma renascida de
organização política por excelência, (na
sequência da débacle do Império Soviético)
que os discursos sobre a decadência ou obsolescência das
nações começa também a adquirir toda a
sua força. Uns, pregoeiros do pessimismo, procuram denunciar o
desmoronamento interno, atribuindo o facto a uma patologia que afecta
o corpo da Nação. E sugerem os correspondentes
diagnósticos: — invasão do organismo por agentes
externos, estranhos e/ou agressivos ou então simples
consumpção, cansaço ou desgaste pelo tempo. E,
concomitantemente, procedem ou à denúncia dos germes
deletérios ou dos parasitas que convém expulsar, ou
atribuem o enfraquecimento ao facto de os nacionais se terem
gradualmente esquecido das suas origens, da sua tradição,
da sua alma, nas quais se deveriam permanentemente retemperar.
Outros, qual facção local do mundialismo, dos púlpitos
dos areópagos dominantes, anunciam o fim das Nações,
não como uma constatação da degradação
mas como uma necessidade promissora de remover pretensos obstáculos
ao desenvolvimento normal dos Povos. É esse, por
exemplo, o caso das correntes federalistas europeias, em que a
exacerbação das interrogações sobre as
identidades nacionais e a sua preservação no contexto
actual, está sem dúvida, menos relacionada com questões
de segurança ou com a presença significativa de mão
de obra de origem estrangeira do que com a falaciosa sugestão
de que as novas formas de vida económica exigem a constituição
de conjuntos soberanos, mais vastos que os Estados-Nação.
O escondido mas real complexo de inferioridade de algumas elites
europeias face aos E.U.A., bem como a generalizada crença
materialista no progresso ilimitado favorecem a convicção
de que não só é desejável como inevitável
a criação de espaços políticos
meta-nacionais. O ideário da União proclama
insistentemente que o conceito de Nação é já
obsoleto e limitativo da tão desejada afirmação
colectiva europeia. Mas a realidade é que a entidade
supranacional União Europeia se pode ter transformado num
espaço jurídico, económico, financeiro,
policial, monetário mas nunca num bloco identitário.
Falta-lhe todo o património simbólico através do
qual as nações põem à disposição
dos indivíduos uma memória e um interesse colectivos,
uma fraternidade e uma protecção com provas dadas. O
voluntarismo, consciente e militante, que tem sido praticado nas
elaborações identitárias da União acaba,
implicitamente, por denunciar que elas não decorrem
espontaneamente de simples reorganizações do espaço
político, cultural ou económico. Não engendram, ipso facto, um sentimento de pertença a uma identidade
comum entre os indivíduos que nelas participam ou que a elas
estão sujeitas. Criações como o Euro, por
exemplo, não constituem, em si mesmo, um Ideal. Afinal, no
presente estado de coisas, os Europeus parecem estar tão
desprovidos de identidade europeia quanto estão providos de
identidades nacionais. Tentativas artificiais de criação
de um Exército, de uma estrutura judicial única ou de
uma Constituição comum apenas trarão mais
clivagens e frustrações. É neste âmbito
que funcionam os argumentos falaciosos da desnacionalização
a favor da integração em espaços políticos
de maior dimensão. A omnipresente e avassaladora teia das
interdependências económicas e políticas é
apresentada como argumento de peso para o justificar.
Muitos, alimentados por uma ilusória conjuntura
económica, esquecem-se de que a história é muito
longa e de que o princípio homogeneizador dos vasos
comunicantes não funciona com estruturas complexas com é
o caso de um conjunto de nações. Por vezes, até
afirmam a necessidade do fim das soberanias nacionais e concomitantes
jurisdições, com o facto de elas serem um empecilho ao
combate ao desenvolvimento económico e social e até ao
crime internacional. Argumentam que as mudanças trazidas pela
crescente globalização têm permitido ao crime
organizado operar sem se preocupar, virtualmente, com as fronteiras
enquanto que as polícias e a Justiça nacionais
permanecem limitados por elas.
No caso português, por exemplo, não falta
quem advogue a vantagem na integração num espaço
político de maior dimensão como a Espanha. Não
deixa de ser caricato e sintomático que, ao mesmo tempo que
grande número de cidadãos espanhóis andam a
lutar pelo reconhecimento das suas identidades nacionais, apesar de
que partilham, desde há séculos, a mesma história
colectiva dentro do Estado vizinho, outros, que sempre foram
independentes, queiram prescindir dessa condição a
troco de uma hipotética miragem. Há quem justifique a
necessidade de convergência política para o espaço
espanhol com base numa pretensa constatação da
evidência geostratégica. Que saibamos essas condições
não se alteraram assim tanto aos longo dos anos e a existência
de Portugal enquanto Nação livre e soberana é a
melhor evidência para demonstrar quão falaciosos são
esses rançosos argumentos iberistas. Os portugueses têm
interiorizada uma atávica aversão a Espanha, resultado
provável de uma natural desconfiança geopolítica
apenas contrabalançada por um orgulhoso historial de
sobrevivência cujo elemento mais evidente é, repetimos,
a própria existência de Portugal como Nação
Livre e Autónoma. Por seu lado, os espanhóis olham para
os portugueses com um sobranceiro desdém, quiçá
como forma de contrabalançar o indelével complexo que
demonstram face a França e a Inglaterra, aqui e ali mascarado
de despropositada arrogância.
À desconfiança
portuguesa, os espanhóis têm sempre oposto a indiferença
e a sobranceria. Confundidos em nostalgia de grandeza passada e em
ânsia de futuro, os espanhóis ruminam um significativo
complexo de inferioridade face à Europa central que os leva
muitas vezes a intoleráveis atitudes de soberba e arrogância.
Esse handicap é, aliás, bem evidenciado pela
suspeita que internacionalmente existe sobre a tentação
dos espanhóis em manipularem grosseiramente em alta os seus
indicadores sociais, como forma de melhorar as condições
de afirmação nacional. Veja-se o que aconteceu, por
exemplo, com o processo das vacas loucas; Espanha foi o país
que, a par da Alemanha, mais sonegações de informação
cometeu sobre os casos verificados. Em relação a
Portugal, Espanha tem vindo a desenvolver, habilidosamente, uma
política sub-reptícia de iberização do
nosso País pela invasão e subjugação
económica. O país vizinho detém hoje o controlo
dos principais sectores económicos estratégicos em
Portugal. Quem quer que se aperceba do contínuo fluxo de
camiões que diariamente atravessam a fronteira vindos de
Espanha fica com a suspeição de que Portugal se
transformou num enorme vazadouro de sucedâneos e produtos de
segunda, alguns impróprios para comercialização
em mercados mais atentos e exigentes. Mas se a responsabilidade tem
de ser atribuída a alguém ela deve ir direitinha para
as autoridades do Estado português. Conseguiram, por um lado,
tornar o País totalmente dependente da monocultura do
subsídio, ao mesmo tempo que, por outro, compactuam e
alimentam um tecido empresarial que, salvo raras excepções,
é medíocre, especulativo, explorador, delapidador de
recursos e pouco predisposto a concorrer de acordo com as regras dos
mercados abertos. O cenário é ainda obscurecido com a
forma de acesso aos apoios financeiros; estes abrem-se
reverencialmente aos estrangeiros, aos grandes grupos económicos
e fecham-se sobranceiramente para a inovação e a
criatividade, asfixiando qualquer iniciativa que não venha com
o selo ou o conluio de alta protecção.
Mas, para além dos que advogam a integração
em Espanha, não falta quem, nostálgico não se
sabe bem de quê, pretendendo que a nossa Saga Nacional foi
apenas um colossal atoleiro, nos pretenda enfileirar numa Europa dita
das Pátrias, com argumentos que recendem a grosseiro
pan-germanismo ou a vertigem neo-napoleónica. Muitos deles,
sucedâneos dos movimentos neo-paganistas e nietzschianos da
última metade do séc. XIX, defendem uma Europa ariana depurada de todos os elementos potencialmente contaminantes, em nome
de uma mítica Civilização Ocidental que umas
vezes pretendem de raiz cristã e, noutras ocasiões mais
íntimas, fundada no paganismo pré-cristão. São,
na generalidade, de uma ignorância confrangedora nomeadamente
no que diz respeito às questões de natureza
antropológica, histórica ou social. No caso português,
renegam ou desconsideram a nossa História, acentuando e
valorizando apenas as menções ao exercício do
domínio imperial sobre raças e civilizações que pretendem inferiores. Embora se mascarem com a
espiritualidade exaltante do Herói e do superior interesse do
Colectivo, acabam por ser tão internacionalistas e
anti-nacionais quanto o são os adversários que dizem
pretender combater. |