Ano I - Nº 7, Março/Abril de 2007
Alameda Digital
Um Crepúsculo Europeu
A propósito dos mergings and acquisitions meta-nacionais

por J. Luís Andrade

Paradoxalmente, é no momento em que o binómio Nação-Estado triunfa como forma renascida de organização política por excelência, (na sequência da débacle do Império Soviético) que os discursos sobre a decadência ou obsolescência das nações começa também a adquirir toda a sua força. Uns, pregoeiros do pessimismo, procuram denunciar o desmoronamento interno, atribuindo o facto a uma patologia que afecta o corpo da Nação. E sugerem os correspondentes diagnósticos: — invasão do organismo por agentes externos, estranhos e/ou agressivos ou então simples consumpção, cansaço ou desgaste pelo tempo. E, concomitantemente, procedem ou à denúncia dos germes deletérios ou dos parasitas que convém expulsar, ou atribuem o enfraquecimento ao facto de os nacionais se terem gradualmente esquecido das suas origens, da sua tradição, da sua alma, nas quais se deveriam permanentemente retemperar. Outros, qual facção local do mundialismo, dos púlpitos dos areópagos dominantes, anunciam o fim das Nações, não como uma constatação da degradação mas como uma necessidade promissora de remover pretensos obstáculos ao desenvolvimento normal dos Povos. É esse, por exemplo, o caso das correntes federalistas europeias, em que a exacerbação das interrogações sobre as identidades nacionais e a sua preservação no contexto actual, está sem dúvida, menos relacionada com questões de segurança ou com a presença significativa de mão de obra de origem estrangeira do que com a falaciosa sugestão de que as novas formas de vida económica exigem a constituição de conjuntos soberanos, mais vastos que os Estados-Nação. O escondido mas real complexo de inferioridade de algumas elites europeias face aos E.U.A., bem como a generalizada crença materialista no progresso ilimitado favorecem a convicção de que não só é desejável como inevitável a criação de espaços políticos meta-nacionais. O ideário da União proclama insistentemente que o conceito de Nação é já obsoleto e limitativo da tão desejada afirmação colectiva europeia. Mas a realidade é que a entidade supranacional União Europeia se pode ter transformado num espaço jurídico, económico, financeiro, policial, monetário mas nunca num bloco identitário. Falta-lhe todo o património simbólico através do qual as nações põem à disposição dos indivíduos uma memória e um interesse colectivos, uma fraternidade e uma protecção com provas dadas. O voluntarismo, consciente e militante, que tem sido praticado nas elaborações identitárias da União acaba, implicitamente, por denunciar que elas não decorrem espontaneamente de simples reorganizações do espaço político, cultural ou económico. Não engendram, ipso facto, um sentimento de pertença a uma identidade comum entre os indivíduos que nelas participam ou que a elas estão sujeitas. Criações como o Euro, por exemplo, não constituem, em si mesmo, um Ideal. Afinal, no presente estado de coisas, os Europeus parecem estar tão desprovidos de identidade europeia quanto estão providos de identidades nacionais. Tentativas artificiais de criação de um Exército, de uma estrutura judicial única ou de uma Constituição comum apenas trarão mais clivagens e frustrações. É neste âmbito que funcionam os argumentos falaciosos da desnacionalização a favor da integração em espaços políticos de maior dimensão. A omnipresente e avassaladora teia das interdependências económicas e políticas é apresentada como argumento de peso para o justificar.

Muitos, alimentados por uma ilusória conjuntura económica, esquecem-se de que a história é muito longa e de que o princípio homogeneizador dos vasos comunicantes não funciona com estruturas complexas com é o caso de um conjunto de nações. Por vezes, até afirmam a necessidade do fim das soberanias nacionais e concomitantes jurisdições, com o facto de elas serem um empecilho ao combate ao desenvolvimento económico e social e até ao crime internacional. Argumentam que as mudanças trazidas pela crescente globalização têm permitido ao crime organizado operar sem se preocupar, virtualmente, com as fronteiras enquanto que as polícias e a Justiça nacionais permanecem limitados por elas.

No caso português, por exemplo, não falta quem advogue a vantagem na integração num espaço político de maior dimensão como a Espanha. Não deixa de ser caricato e sintomático que, ao mesmo tempo que grande número de cidadãos espanhóis andam a lutar pelo reconhecimento das suas identidades nacionais, apesar de que partilham, desde há séculos, a mesma história colectiva dentro do Estado vizinho, outros, que sempre foram independentes, queiram prescindir dessa condição a troco de uma hipotética miragem. Há quem justifique a necessidade de convergência política para o espaço espanhol com base numa pretensa constatação da evidência geostratégica. Que saibamos essas condições não se alteraram assim tanto aos longo dos anos e a existência de Portugal enquanto Nação livre e soberana é a melhor evidência para demonstrar quão falaciosos são esses rançosos argumentos iberistas. Os portugueses têm interiorizada uma atávica aversão a Espanha, resultado provável de uma natural desconfiança geopolítica apenas contrabalançada por um orgulhoso historial de sobrevivência cujo elemento mais evidente é, repetimos, a própria existência de Portugal como Nação Livre e Autónoma. Por seu lado, os espanhóis olham para os portugueses com um sobranceiro desdém, quiçá como forma de contrabalançar o indelével complexo que demonstram face a França e a Inglaterra, aqui e ali mascarado de despropositada arrogância.

À desconfiança portuguesa, os espanhóis têm sempre oposto a indiferença e a sobranceria. Confundidos em nostalgia de grandeza passada e em ânsia de futuro, os espanhóis ruminam um significativo complexo de inferioridade face à Europa central que os leva muitas vezes a intoleráveis atitudes de soberba e arrogância. Esse handicap é, aliás, bem evidenciado pela suspeita que internacionalmente existe sobre a tentação dos espanhóis em manipularem grosseiramente em alta os seus indicadores sociais, como forma de melhorar as condições de afirmação nacional. Veja-se o que aconteceu, por exemplo, com o processo das vacas loucas; Espanha foi o país que, a par da Alemanha, mais sonegações de informação cometeu sobre os casos verificados. Em relação a Portugal, Espanha tem vindo a desenvolver, habilidosamente, uma política sub-reptícia de iberização do nosso País pela invasão e subjugação económica. O país vizinho detém hoje o controlo dos principais sectores económicos estratégicos em Portugal. Quem quer que se aperceba do contínuo fluxo de camiões que diariamente atravessam a fronteira vindos de Espanha fica com a suspeição de que Portugal se transformou num enorme vazadouro de sucedâneos e produtos de segunda, alguns impróprios para comercialização em mercados mais atentos e exigentes. Mas se a responsabilidade tem de ser atribuída a alguém ela deve ir direitinha para as autoridades do Estado português. Conseguiram, por um lado, tornar o País totalmente dependente da monocultura do subsídio, ao mesmo tempo que, por outro, compactuam e alimentam um tecido empresarial que, salvo raras excepções, é medíocre, especulativo, explorador, delapidador de recursos e pouco predisposto a concorrer de acordo com as regras dos mercados abertos. O cenário é ainda obscurecido com a forma de acesso aos apoios financeiros; estes abrem-se reverencialmente aos estrangeiros, aos grandes grupos económicos e fecham-se sobranceiramente para a inovação e a criatividade, asfixiando qualquer iniciativa que não venha com o selo ou o conluio de alta protecção.

Mas, para além dos que advogam a integração em Espanha, não falta quem, nostálgico não se sabe bem de quê, pretendendo que a nossa Saga Nacional foi apenas um colossal atoleiro, nos pretenda enfileirar numa Europa dita das Pátrias, com argumentos que recendem a grosseiro pan-germanismo ou a vertigem neo-napoleónica. Muitos deles, sucedâneos dos movimentos neo-paganistas e nietzschianos da última metade do séc. XIX, defendem uma Europa ariana depurada de todos os elementos potencialmente contaminantes, em nome de uma mítica Civilização Ocidental que umas vezes pretendem de raiz cristã e, noutras ocasiões mais íntimas, fundada no paganismo pré-cristão. São, na generalidade, de uma ignorância confrangedora nomeadamente no que diz respeito às questões de natureza antropológica, histórica ou social. No caso português, renegam ou desconsideram a nossa História, acentuando e valorizando apenas as menções ao exercício do domínio imperial sobre raças e civilizações que pretendem inferiores. Embora se mascarem com a espiritualidade exaltante do Herói e do superior interesse do Colectivo, acabam por ser tão internacionalistas e anti-nacionais quanto o são os adversários que dizem pretender combater.

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