Ano I - Nº 7, Março/Abril de 2007
Alameda Digital
Um Crepúsculo Europeu

Relação militar dos Portugueses com o Império do Meio (parte II)

por J. Luís Andrade

A 2ª Expedição

Perante o susto e apesar da vitória, o partido dos eunucos conseguiu envenenar a mente do Imperador e o General Yüan Ch’ung-huan, que inicialmente se deixara surpreender, foi esquartejado num mercado da capital.

De novo, aterrado com a proximidade dos Manchus, o Imperador resolve virar-se para Xu Guang-qi e Leão Chih-tsao, solicitando-lhes que retomassem o projecto do treino das tropas segundo o modelo europeu. E mais uma vez aqueles dignitários levantaram a questão de obtenção de assistência militar junto dos Portugueses.

Em princípios de 1630, o Imperador aprovou o plano. Em meados de Agosto do mesmo ano, o Senado de Macau reunia e aprovava, após parecer de uma comissão nomeada para o efeito, o envio de mais de duzentos soldados, a maior parte portugueses já nascidos em Macau. A cada soldado foi adstrito um impedido para o ajudar durante a longa viagem. Capitaneavam a hoste a cavalo os capitães Pedro Cordeiro e António Rodrigues do Campo, acompanhando-os, como intérprete e conselheiro político, o Jesuíta João Rodrigues que fora na 1ª expedição. Por onde passavam eram sempre bem recebidos e admirados, segundo relatou o Padre Semedo. Encontravam-se em Nanchang (capital da província de Jiang-xi), na companhia desse sacerdote jesuíta que aí missionava, quando uma ordem imperial os mandou regressar a Macau com excepção de um pequeno destacamento chefiado por Gonçalo Teixeira que, com o Padre Rodrigues, prosseguiu para Norte, com dois canhões, alguns arcabuzes, os capacetes, as armaduras e as espadas.

Apesar de extremamente reduzido, o pequeno grupo desempenhou um papel decisivo na defesa da cidade de Chochow. As armas portuguesas obrigaram os Manchus a recuar e a pequena hoste de Teixeira deslocou-se para Têngchow cuja guarnição era comandada por um cristão converso, de nome Inácio Sun Yüan-hua.

Teixeira e os seus cobriram-se de glória mas, dois anos depois, a guarnição da cidade, constituída maioritariamente por mercenários manchus com os soldos em atraso, revoltou-se e saqueou a cidade, tendo a maior parte do contingente português sucumbido na revolta.

Apenas o Padre Rodrigues e três outros conseguiram chegar a Pequim e daí regressar a Macau. Inácio Sun que além de católico era membro do Tung-lin e que, no entender dos eunucos, detinha um posto de categoria superior àquele a que a sua condição social o habilitava, foi o bode expiatório, requerido pelo Sistema. Os mercenários tinham-se revoltado nos postos militares dependentes de Têngchow e Sun que, sabia estar a ser vítima de uma conspiração de altos funcionários em Pequim que o haviam deixado propositadamente sem apoio logístico e financeiro, foi considerado pouco enérgico na repressão requerida. Os cabecilhas insurrectos eram seus subordinados e Sun tentou o diálogo. Quando atacaram e ocuparam a cidade, Teixeira morreu a defender as muralhas e Inácio Sun foi convidado a juntar-se aos amotinados que pretendiam ir oferecer os seus serviços aos Manchus. O seu sentido de honra proibiu-o de aceitar e foi deixado em liberdade juntamente com Miguel Zhang Tao e juntos se dirigiram para a Capital onde um Tribunal Marcial os aguardava e os condenou à morte, apesar dos protestos e intercessões de Paulo Xu. Na prisão, receberam o Santo Viático das mãos de Adam Schall, que lá penetrara disfarçado de carvoeiro. E assim desapareceu o primeiro enviado oficial dos Ming a um espaço territorial na posse dos Portugueses.

Que razões teriam estado por detrás da súbita mudança de opinião do Imperador, ou melhor, de quem lhe controlava a vontade? Desta vez parece não terem sido os eunucos mas sim o lobby, como hoje diríamos, dos mercadores de Cantão. Com efeito, esta gente sempre havia defendido Macau e os Portugueses junto de Pequim porque lhe sabia bem ser o corretor, intermediário natural e exclusivo do negócio. Mas, com esse frio calculismo do racionalismo confuciano, temeram que, em caso de sucesso estrondoso, o prestígio eventualmente alcançado lhes permitisse adquirir a concessão de poderem negociar livremente em qualquer parte da China. E, com o suborno e o boato, alertaram os hierarcas do Palácio para o perigo que era terem os Portugueses dentro de portas. Para cúmulo, as autoridades de Cantão ainda tiveram o desplante de passar a factura das despesas em que haviam incorrido para armar a hoste que de Macau saíra em ajuda de Pequim. O assunto só foi resolvido pela intervenção de funcionários superiores, na Corte, e após uma petição do Padre Rodrigues que para tal se deslocou a Pequim.

Como muitas vezes acontecia e continuaria a acontecer ao longo da História, os interesses de Pequim e Cantão nem sempre convergiam.

A 3ª Expedição

Em 1644, reinava em Pequim o imperador Ch’ung-chen. Era um letrado bem intencionado mas sem energia nem iniciativa. E, como acontece habitualmente quando a China não se sente governada, as sublevações ocorreram por toda a parte. Soldados descontentes com o pagamento do soldo e camponeses famintos formaram uma mistura explosiva que tendeu a organizar-se em grandes companhias que, sob a condução de audaciosos generais aventureiros, se puseram a pilhar o País.

O mais inteligente desses aventureiros, Li Tzu-ch’eng, um camponês letrado, fez-se senhor do Honan e do Shansi em 1640 e, quatro anos volvidos, marchava sobre Pequim. A sua aproximação apanhou a Corte totalmente desprevenida. Os melhores exércitos do Império, sob o mando de Wu San-kuey, estavam estacionados na passagem de Shan-hai-kuan, bloqueando o acesso aos Manchus. Li Tzu-Ch’eng não encontrou pois qualquer oposição séria e atacou Pequim, cujas portas se lhe viriam a abrir, no entanto, por traição. O Imperador totalmente impotente para motivar os súbditos a defendê-lo, enforcou-se.

Ao tomar conhecimento da queda de Pequim, Wu San-kuey apressou-se a negociar um armistício com os Manchus. Estes não só concordaram como se prontificaram a colocar à sua disposição um forte contingente de tropas para o ajudar a castigar os rebeldes. Li Tzu-Ch’eng, ao ser informado do avanço de Wu San-kuey, acompanhado de Manchus, resolveu tentar a chance e propõe-lhe a partilha do poder. Wu, não só recusa como o desafia imediatamente para o combate. Num acesso de ira, o chefe rebelde manda executar os pais do General que havia detido, como reféns.

A piedade filial, sentimento sagrado para um Chinês, e a sede de vingança fizeram esquecer a Wu as mais elementares regras da prudência. Confiando nos Manchus, marcha com eles sobre Pequim. Li-Tzu-ch’eng recolhe o tesouro imperial, põe fogo ao Palácio e retira-se para o Shansi. Ocupado Pequim, Wu San-kuey agradece aos seus aliados e tenta dispensá-los. Mas os Manchus rapidamente lhe fazem compreender a armadilha em que caíra. Há então mais de cem mil Tártaros na capital e os reforços não cessam de chegar de Mukden. Como o Khan morrera alguns meses antes, os chefes tribais declararam o seu sobrinho, com sete anos, imperador da 2ª dinastia Qin.

Wu San-kuey, posto perante a evidência do facto consumado, aceitou a nomeação que os Manchu lhe propuseram – Vice-rei de Shansi, entrevendo a possibilidade de perseguir e castigar Li-Tzu-ch’eng. Com toda a carga emotiva dos acontecimentos anteriores, organizou uma gigantesca caça ao homem que só terminou com a morte do chefe rebelde.

Entretanto em Pequim, os tios do jovem imperador, exerciam a regência em seu nome. Não mudaram o Sistema, limitando-se a colocar nos postos importantes um Manchu a par de um Chinês. Só a obrigação imposta aos Chineses de rapar a cabeça, aparecia como sinal visível da dominação tártara.

Os Jesuítas que prudentemente haviam dividido a Missão da China do Padroado em duas Vice-províncias separadas, não foram incomodados e, pelo contrário, viram o seu papel realçado. Para além do mais, eram exímios fundidores de peças de artilharia (o Padre Schall, por exemplo). A autoridade dos Manchus exercia-se ainda apenas sobre a China do Norte.

Quando em Nanquim se soubera da queda de Pequim e da morte do Imperador, os Ministros procuraram eleger rapidamente um sucessor. Como de costume, dividiram-se por partidos. Sob a influência de Ma Shih-ying e de alguns apaniguados do falecido Wei Chung-hsien, uns escolheram o príncipe Fu, por ser fraco de carácter e incompetente, de acordo com alguns cronistas. Outros, mais conscienciosos defenderam o príncipe Lu. Reinava ainda a querela quando os Manchus conquistaram Nanquim passando à espada quase todos os seus habitantes. Três príncipes Ming, escaparam ao desastre e refugiaram-se no Zhejiang, no Fujian e em Cantão. Como se não entenderam entre si, dois foram naturalmente presas fáceis dos Tártaros.

É importante notar que, por essa altura, os Ming possuíam ainda larga superioridade de homens e recursos sobre os Manchus. Só as trinta e seis divisões do general Tso Liang-Yü tinham mais de oitocentos mil homens, o que permitia projectar para todos os exércitos mais de um milhão de soldados.

No ano de 1647, o último dos príncipes Ming instalou-se a Norte de Cantão, com o título reinante de Yong-li. No ano anterior, havia sido proclamado Imperador em Zhaozhing onde, sessenta e quatro anos antes, Mateus Ricci havia começado a sua peregrinação chinesa. Neto de Wan-li, a Yung-li faltava-lhe coragem e determinação. Passou grande parte do tempo a fugir de coito para coito enquanto que os seus partidários lutavam valentemente contra os Manchus. Quando Cantão caiu em poder dos Tártaros, retirou-se para Kuei-lin; quando as forças inimigas para aí confluíram fugiu para Chüanchow, deixando Ch’ü Shih-ssu no comando da cidade.

Foi neste cenário de alto risco que trezentos Portugueses sob o comando de Nicolau Ferreira vieram de Macau em auxílio desse último príncipe Ming. E os seus canhões e artilheiros foram determinantes no sucesso de Ch’ü Shih-ssu que por três vezes travou os exércitos Tártaros nas muralhas de Kuei-lin, entre 18 de Abril de 1647 e 14 de Abril de 1648. Foi mais uma brilhante página de glória das armas portuguesas no Oriente.

Segundo consta, a decisão de intervenção dos portugueses em acorrer em auxílio dos Ming, foi fortemente influenciada pela conversão da família imperial ao catolicismo. Junto dela encontrava-se um jesuíta, o padre André Koffler, acolitado por Aquiles P’ang T’ien Shou, um eunuco da Corte convertido ao Catolicismo. Foi através deles e da sua acção evangelizadora que a imperatriz se baptizou, assumindo o nome cristão de Ana. O príncipe herdeiro também foi baptizado com o nome Constantino bem como a imperatriz viúva, com o nome de Helena e a mãe do Imperador, Maria. Também o heróico comandante da defesa de Kuei-lin, aclamado pelo povo, havia pedido o baptismo, assumindo o nome de Tomás.

Por uns breves momentos, parecia que a esperança renascera e que os Ming tinham recuperado o controlo. Todas as províncias do Sul com excepção do Fujian tinham sido recuperadas. Por todo o lado, oficiais que inicialmente se tinham bandeado com os Manchus, levantavam guerrilhas; até mesmo antigos seguidores de cabecilhas rebeldes como Li Tzu-ch’eng, começavam a apoiar os Ming na sua luta contra os invasores estrangeiros. Na costa, Coxinga, filho de uma Japonesa e de um corsário cristão nascido no Fu-jian mas que crescera em Macau, causava grandes preocupações aos Manchus. Coxinga começou por se assenhorear de posições estratégicas no litoral e no próprio rio Amarelo. Batido nalguns pontos, vira-se para a Formosa que ocupa, depois de expulsar os Holandeses. Toda a sua estratégia assenta na criação de um império marítimo à semelhança do que vira fazer aos seus amigos e instrutores portugueses. Foi provavelmente essa abertura ao mundo que os seus compatriotas do interior não possuíam que conduziu à verdadeira grande diáspora dos Chineses do litoral que, aproveitando a rede já criada no tempo de Yung-le-Ti, se espalharam por todo o Sueste asiático.

Mas apesar dessas contrariedades, os Tártaros não desistiram. Em 1649, dois exércitos reconquistaram Cantão e três dias depois Kwei-lin caía. Tomás Ch’ü Shih-ssu, capturado, compôs enquanto aguardava a execução uma colecção de poemas que intitulou Odes ao Espírito Livre. Yung-li, ao ter conhecimento da captura de Tomás fugiu mais para Oeste, para Anlung, na província de Kweichow, onde chegou a 15 de Março de 1652. E aí se aguentou por quatro anos, sempre apoiado pelo leal Aquiles P’ang. A 4 de Novembro de 1650 a imperatriz viúva, Helena, tinha escrito uma carta pessoal ao papa Inocêncio X e outra ao vigário-geral dos Jesuítas solicitando orações pela salvação dos Ming e mais missionários. Também Tomás P’ang escrevera duas cartas semelhantes uns dias antes. Para as levar, foi escolhido o Padre Miguel Boym que, depois de passar por Macau e por Goa, partiu para a Europa por terra, acompanhado de um cristão chinês, de nome André Cheng. Maltratado em Veneza, foi mal recebido no ninho de vespas que era o Vaticano em que, apesar das suas credenciais, foi acusado de ser um charlatão e nunca haver estado na China. Só três anos depois, após a morte de Inocêncio X e a eleição de Alexandre VII conseguiu Boym resposta às cartas. Regressado às portas da China (através do Tonquim) em Agosto de 1658 acabou por falecer sem que as cartas chegassem aos seus destinatários que, ignorava o Jesuíta, também já haviam morrido. Assim desapareceram os últimos advogados da causa Ming.

Os Tártaros tinham posto todos os trunfos na captura da figura emblemática da resistência, o príncipe Kuei, dito Yong-li. Este havia solicitado mais uma vez a ajuda dos Portugueses mas em vão.

Apesar da forte resistência popular, os Tártaros foram injectando tropas e mais tropas no Yünnan, onde o Ming se encontrava. Acossado, viu-se obrigado a procurar refúgio junto dos Birmaneses que, pressionados pelas tropas do General Wu-San-Kei que, no passado, tinha sido o mais glorioso dos chefes militares leais aos Ming, decidiram cobardemente entregá-lo. E, pouco depois, Yong-li-Ti era executado por estrangulamento.

Há notícia de que alguns portugueses, por opção mercenária ou por captura, tivessem passado ao serviço dos Manchus. Palafox, na sua História da conquista da China pelos Tártaros, afirma que havia 8 ou 10 artilheiros portugueses ao seu serviço e que anteriormente haviam estado ao serviço dos Ming.

Embora não haja disso provas evidentes, também não é de todo despiciendo pensar que alguns dos soldados portugueses que sempre acompanharam Yong-li se tivessem juntado a compatriotas seus, os bayingyi, forças de elite do exército birmanês condenados à defesa da fronteira com a China, depois da derrota de Filipe de Brito Nicot. Este aventureiro participara na conquista do reino budista do Pegu ao serviço do rei de Arracão que, como recompensa, o obsequiara com a estratégica Sirião. Aí cresceu uma grande comunidade de Lusos, lascarins cingaleses e Mons, desde cedo acompanhados espiritualmente por Jesuítas, Dominicanos, Agostinhos e Franciscanos. Mas as ambições de Filipe de Brito levaram-no à perdição. Jogando no xadrez político da região, acabou por ser derrotado pelo rei birmanês Anauk-hpet-lung. Contrariamente ao que se possa pensar, a comunidade lusa do Sirião não desapareceu após a conquista, favorecida pela rivalidade dos senhores de Arracão e de Ava, já que ambos pretendiam a colaboração dos exímios guerreiros portugueses. Parte deles iria enquadrar a guarda pessoal do Rei de Ava enquanto que outros, por volta de 1643, seriam instalados no vale do Mu, nas proximidades da fronteira do Yünnan. Incorporados em unidades militares hereditárias, constituiriam até ao fim do séc. XVII a base da artilharia do segundo império Tangu. Aí se mantiveram os seus descendentes até aos dias de hoje, mantendo a sua fé católica, pastoreados, no início, por sacerdotes portugueses e, posteriormente abandonados por Goa, por barnabitas italianos.

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(1) Segundo Boxer. De acordo com o MSL, tudo parece ter-se passado uns largos meses antes.

(2) Na Relação da Grande Monarquia da China, Semedo não deixa, contudo, de retratar a desagradável surpresa que os cortes no cabedal e no pano dos gibões e restante indumentária dos Portugueses causaram nos Chineses, incapazes de perceber porque é que se retalhava um pano inteiro. Tal facto a que acresce provavelmente o contributo erróneo de sucessivas traduções, levou a que muitos autores (como por exemplo C. Peers) afirmem que os Portugueses eram vistos pelos Chineses como maltrapilhos.

(3) O MSL fala apenas do Padre João Rodrigues e dos canhões mas isso é altamente improvável

(4) Na Relação da Grande Monarquia da China, do Padre Álvaro Semedo, coetâneo destes acontecimentos a resposta do Imperador teria sido:
Ainda não há muito que propusestes que esses homens entrassem no reino e nos ajudassem contra os tártaros; agora dizeis não serem já necessários. Quando propuserdes qualquer coisa é bom pensardes melhor. Porém, se não são necessários que regressem.

(5) No MSL há um registo, datado de 6 de Abril de 1631 que relata que o Padre João Rodrigues (Lu Ruo-han) solicitou misericórdia e consideração, em relação ao pagamento da importância em causa (cerca de 40.000 liang de prata), já que os homens de Macau se haviam limitado lealmente a responder a um pedido de auxílio de Pequim. Mais uma vez, a ser correcta esta data, Boxer deve estar equivocado sobre a data de saída da expedição.

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