Relação militar dos Portugueses
com o Império do Meio (parte II)
por J. Luís Andrade
A 2ª Expedição
Perante o susto e apesar da vitória, o partido dos eunucos
conseguiu envenenar a mente do Imperador e o General Yüan
Ch’ung-huan, que inicialmente se deixara surpreender, foi
esquartejado num mercado da capital.
De novo, aterrado com a proximidade dos Manchus, o Imperador resolve
virar-se para Xu Guang-qi e Leão Chih-tsao, solicitando-lhes
que retomassem o projecto do treino das tropas segundo o modelo
europeu. E mais uma vez aqueles dignitários levantaram a
questão de obtenção de assistência militar
junto dos Portugueses.
Em princípios de 1630 ,
o Imperador aprovou o plano. Em meados de Agosto do mesmo ano, o
Senado de Macau reunia e aprovava, após parecer de uma
comissão nomeada para o efeito, o envio de mais de duzentos
soldados, a maior parte portugueses já nascidos em Macau. A
cada soldado foi adstrito um impedido para o ajudar durante a
longa viagem. Capitaneavam a hoste a cavalo os capitães Pedro
Cordeiro e António Rodrigues do Campo, acompanhando-os, como
intérprete e conselheiro político, o Jesuíta
João Rodrigues que fora na 1ª expedição.
Por onde passavam eram sempre bem recebidos e admirados, segundo
relatou o Padre Semedo .
Encontravam-se em Nanchang (capital da província de Jiang-xi),
na companhia desse sacerdote jesuíta que aí missionava,
quando uma ordem imperial os mandou regressar a Macau com excepção
de um pequeno destacamento chefiado por Gonçalo Teixeira que,
com o Padre Rodrigues ,
prosseguiu para Norte, com dois canhões, alguns arcabuzes, os
capacetes, as armaduras e as espadas.
Apesar de extremamente reduzido, o pequeno grupo desempenhou um papel
decisivo na defesa da cidade de Chochow. As armas portuguesas
obrigaram os Manchus a recuar e a pequena hoste de Teixeira
deslocou-se para Têngchow cuja guarnição era
comandada por um cristão converso, de nome Inácio Sun
Yüan-hua.
Teixeira e os seus cobriram-se de glória mas, dois anos
depois, a guarnição da cidade, constituída
maioritariamente por mercenários manchus com os soldos em
atraso, revoltou-se e saqueou a cidade, tendo a maior parte do
contingente português sucumbido na revolta.
Apenas o Padre Rodrigues e três outros conseguiram chegar a
Pequim e daí regressar a Macau. Inácio Sun que além
de católico era membro do Tung-lin e que, no entender dos
eunucos, detinha um posto de categoria superior àquele a que a
sua condição social o habilitava, foi o bode
expiatório, requerido pelo Sistema. Os mercenários
tinham-se revoltado nos postos militares dependentes de Têngchow
e Sun que, sabia estar a ser vítima de uma conspiração
de altos funcionários em Pequim que o haviam deixado
propositadamente sem apoio logístico e financeiro, foi
considerado pouco enérgico na repressão requerida. Os
cabecilhas insurrectos eram seus subordinados e Sun tentou o diálogo.
Quando atacaram e ocuparam a cidade, Teixeira morreu a defender as
muralhas e Inácio Sun foi convidado a juntar-se aos amotinados
que pretendiam ir oferecer os seus serviços aos Manchus. O seu
sentido de honra proibiu-o de aceitar e foi deixado em liberdade
juntamente com Miguel Zhang Tao e juntos se dirigiram para a Capital
onde um Tribunal Marcial os aguardava e os condenou à morte,
apesar dos protestos e intercessões de Paulo Xu. Na prisão,
receberam o Santo Viático das mãos de Adam Schall, que
lá penetrara disfarçado de carvoeiro. E assim
desapareceu o primeiro enviado oficial dos Ming a um espaço
territorial na posse dos Portugueses.
Que razões teriam estado por detrás da súbita
mudança de opinião do Imperador, ou melhor, de quem lhe
controlava a vontade? Desta vez parece não terem sido os
eunucos mas sim o lobby, como hoje diríamos, dos
mercadores de Cantão. Com efeito, esta gente sempre havia
defendido Macau e os Portugueses junto de Pequim porque lhe sabia bem
ser o corretor, intermediário natural e exclusivo do negócio.
Mas, com esse frio calculismo do racionalismo confuciano, temeram
que, em caso de sucesso estrondoso, o prestígio eventualmente
alcançado lhes permitisse adquirir a concessão de
poderem negociar livremente em qualquer parte da China. E, com o
suborno e o boato, alertaram os hierarcas do Palácio para o
perigo que era terem os Portugueses dentro de portas .
Para cúmulo, as autoridades de Cantão ainda tiveram o
desplante de passar a factura das despesas em que haviam incorrido
para armar a hoste que de Macau saíra em ajuda de Pequim. O
assunto só foi resolvido pela intervenção de
funcionários superiores, na Corte, e após uma petição
do Padre Rodrigues que para tal se deslocou a Pequim .
Como muitas vezes acontecia e continuaria a acontecer ao longo da
História, os interesses de Pequim e Cantão nem sempre
convergiam.
A 3ª Expedição
Em 1644, reinava em Pequim o imperador Ch’ung-chen. Era um letrado
bem intencionado mas sem energia nem iniciativa. E, como acontece
habitualmente quando a China não se sente governada, as
sublevações ocorreram por toda a parte. Soldados
descontentes com o pagamento do soldo e camponeses famintos formaram
uma mistura explosiva que tendeu a organizar-se em grandes companhias
que, sob a condução de audaciosos generais
aventureiros, se puseram a pilhar o País.
O mais inteligente desses aventureiros, Li Tzu-ch’eng, um camponês
letrado, fez-se senhor do Honan e do Shansi em 1640 e, quatro anos
volvidos, marchava sobre Pequim. A sua aproximação
apanhou a Corte totalmente desprevenida. Os melhores exércitos
do Império, sob o mando de Wu San-kuey, estavam estacionados
na passagem de Shan-hai-kuan, bloqueando o acesso aos Manchus. Li
Tzu-Ch’eng não encontrou pois qualquer oposição
séria e atacou Pequim, cujas portas se lhe viriam a abrir, no
entanto, por traição. O Imperador totalmente impotente
para motivar os súbditos a defendê-lo, enforcou-se.
Ao tomar conhecimento da queda de Pequim, Wu San-kuey apressou-se a
negociar um armistício com os Manchus. Estes não só
concordaram como se prontificaram a colocar à sua disposição
um forte contingente de tropas para o ajudar a castigar os rebeldes.
Li Tzu-Ch’eng, ao ser informado do avanço de Wu San-kuey,
acompanhado de Manchus, resolveu tentar a chance e propõe-lhe
a partilha do poder. Wu, não só recusa como o desafia
imediatamente para o combate. Num acesso de ira, o chefe rebelde
manda executar os pais do General que havia detido, como reféns.
A piedade filial, sentimento sagrado para um Chinês, e a sede
de vingança fizeram esquecer a Wu as mais elementares regras
da prudência. Confiando nos Manchus, marcha com eles sobre
Pequim. Li-Tzu-ch’eng recolhe o tesouro imperial, põe fogo
ao Palácio e retira-se para o Shansi. Ocupado Pequim, Wu
San-kuey agradece aos seus aliados e tenta dispensá-los. Mas
os Manchus rapidamente lhe fazem compreender a armadilha em que
caíra. Há então mais de cem mil Tártaros
na capital e os reforços não cessam de chegar de
Mukden. Como o Khan morrera alguns meses antes, os chefes
tribais declararam o seu sobrinho, com sete anos, imperador da 2ª
dinastia Qin.
Wu San-kuey, posto perante a evidência do facto consumado,
aceitou a nomeação que os Manchu lhe propuseram –
Vice-rei de Shansi, entrevendo a possibilidade de perseguir e
castigar Li-Tzu-ch’eng. Com toda a carga emotiva dos acontecimentos
anteriores, organizou uma gigantesca caça ao homem que só
terminou com a morte do chefe rebelde.
Entretanto em Pequim, os tios do jovem imperador, exerciam a regência
em seu nome. Não mudaram o Sistema, limitando-se a colocar nos
postos importantes um Manchu a par de um Chinês. Só a
obrigação imposta aos Chineses de rapar a cabeça,
aparecia como sinal visível da dominação
tártara.
Os Jesuítas que prudentemente haviam dividido a Missão
da China do Padroado em duas Vice-províncias separadas, não
foram incomodados e, pelo contrário, viram o seu papel
realçado. Para além do mais, eram exímios
fundidores de peças de artilharia (o Padre Schall, por
exemplo). A autoridade dos Manchus exercia-se ainda apenas sobre a
China do Norte.
Quando em Nanquim se soubera da queda de Pequim e da morte do
Imperador, os Ministros procuraram eleger rapidamente um sucessor.
Como de costume, dividiram-se por partidos. Sob a influência de
Ma Shih-ying e de alguns apaniguados do falecido Wei Chung-hsien, uns
escolheram o príncipe Fu, por ser fraco de carácter e
incompetente, de acordo com alguns cronistas. Outros, mais
conscienciosos defenderam o príncipe Lu. Reinava ainda a
querela quando os Manchus conquistaram Nanquim passando à
espada quase todos os seus habitantes. Três príncipes
Ming, escaparam ao desastre e refugiaram-se no Zhejiang, no Fujian e
em Cantão. Como se não entenderam entre si, dois foram
naturalmente presas fáceis dos Tártaros.
É importante notar que, por essa altura, os Ming possuíam
ainda larga superioridade de homens e recursos sobre os Manchus. Só
as trinta e seis divisões do general Tso Liang-Yü tinham
mais de oitocentos mil homens, o que permitia projectar para todos os
exércitos mais de um milhão de soldados.
No ano de 1647, o último dos príncipes Ming instalou-se
a Norte de Cantão, com o título reinante de Yong-li. No
ano anterior, havia sido proclamado Imperador em Zhaozhing onde,
sessenta e quatro anos antes, Mateus Ricci havia começado a
sua peregrinação chinesa. Neto de Wan-li, a Yung-li
faltava-lhe coragem e determinação. Passou grande parte
do tempo a fugir de coito para coito enquanto que os seus partidários
lutavam valentemente contra os Manchus. Quando Cantão caiu em
poder dos Tártaros, retirou-se para Kuei-lin; quando as forças
inimigas para aí confluíram fugiu para Chüanchow,
deixando Ch’ü Shih-ssu no comando da cidade.
Foi neste cenário de alto risco que trezentos Portugueses sob
o comando de Nicolau Ferreira vieram de Macau em auxílio desse
último príncipe Ming. E os seus canhões e
artilheiros foram determinantes no sucesso de Ch’ü Shih-ssu
que por três vezes travou os exércitos Tártaros
nas muralhas de Kuei-lin, entre 18 de Abril de 1647 e 14 de Abril de
1648. Foi mais uma brilhante página de glória das armas
portuguesas no Oriente.
Segundo consta, a decisão de intervenção dos
portugueses em acorrer em auxílio dos Ming, foi fortemente
influenciada pela conversão da família imperial ao
catolicismo. Junto dela encontrava-se um jesuíta, o padre
André Koffler, acolitado por Aquiles P’ang T’ien Shou, um
eunuco da Corte convertido ao Catolicismo. Foi através deles e
da sua acção evangelizadora que a imperatriz se
baptizou, assumindo o nome cristão de Ana. O príncipe
herdeiro também foi baptizado com o nome Constantino bem como
a imperatriz viúva, com o nome de Helena e a mãe do
Imperador, Maria. Também o heróico comandante da defesa
de Kuei-lin, aclamado pelo povo, havia pedido o baptismo, assumindo o
nome de Tomás.
Por uns breves momentos, parecia que a esperança renascera e
que os Ming tinham recuperado o controlo. Todas as províncias
do Sul com excepção do Fujian tinham sido recuperadas.
Por todo o lado, oficiais que inicialmente se tinham bandeado com os
Manchus, levantavam guerrilhas; até mesmo antigos seguidores
de cabecilhas rebeldes como Li Tzu-ch’eng, começavam a
apoiar os Ming na sua luta contra os invasores estrangeiros. Na
costa, Coxinga, filho de uma Japonesa e de um corsário cristão
nascido no Fu-jian mas que crescera em Macau, causava grandes
preocupações aos Manchus. Coxinga começou por se
assenhorear de posições estratégicas no litoral
e no próprio rio Amarelo. Batido nalguns pontos, vira-se para
a Formosa que ocupa, depois de expulsar os Holandeses. Toda a sua
estratégia assenta na criação de um império
marítimo à semelhança do que vira fazer aos seus
amigos e instrutores portugueses. Foi provavelmente essa abertura ao
mundo que os seus compatriotas do interior não possuíam
que conduziu à verdadeira grande diáspora dos Chineses
do litoral que, aproveitando a rede já criada no tempo de
Yung-le-Ti, se espalharam por todo o Sueste asiático.
Mas apesar dessas contrariedades, os Tártaros não
desistiram. Em 1649, dois exércitos reconquistaram Cantão
e três dias depois Kwei-lin caía. Tomás Ch’ü
Shih-ssu, capturado, compôs enquanto aguardava a execução
uma colecção de poemas que intitulou Odes ao
Espírito Livre. Yung-li, ao ter conhecimento da captura de
Tomás fugiu mais para Oeste, para Anlung, na província
de Kweichow, onde chegou a 15 de Março de 1652. E aí se
aguentou por quatro anos, sempre apoiado pelo leal Aquiles P’ang. A
4 de Novembro de 1650 a imperatriz viúva, Helena, tinha
escrito uma carta pessoal ao papa Inocêncio X e outra ao
vigário-geral dos Jesuítas solicitando orações
pela salvação dos Ming e mais missionários.
Também Tomás P’ang escrevera duas cartas semelhantes
uns dias antes. Para as levar, foi escolhido o Padre Miguel Boym que,
depois de passar por Macau e por Goa, partiu para a Europa por terra,
acompanhado de um cristão chinês, de nome André
Cheng. Maltratado em Veneza, foi mal recebido no ninho de vespas que
era o Vaticano em que, apesar das suas credenciais, foi acusado de
ser um charlatão e nunca haver estado na China. Só três
anos depois, após a morte de Inocêncio X e a eleição
de Alexandre VII conseguiu Boym resposta às cartas. Regressado
às portas da China (através do Tonquim) em Agosto de
1658 acabou por falecer sem que as cartas chegassem aos seus
destinatários que, ignorava o Jesuíta, também já
haviam morrido. Assim desapareceram os últimos advogados da
causa Ming.
Os Tártaros tinham posto todos os trunfos na captura da figura
emblemática da resistência, o príncipe Kuei, dito
Yong-li. Este havia solicitado mais uma vez a ajuda dos Portugueses
mas em vão.
Apesar da forte resistência popular, os Tártaros foram
injectando tropas e mais tropas no Yünnan, onde o Ming se
encontrava. Acossado, viu-se obrigado a procurar refúgio junto
dos Birmaneses que, pressionados pelas tropas do General Wu-San-Kei
que, no passado, tinha sido o mais glorioso dos chefes militares
leais aos Ming, decidiram cobardemente entregá-lo. E, pouco
depois, Yong-li-Ti era executado por estrangulamento.
Há notícia de que alguns portugueses, por opção
mercenária ou por captura, tivessem passado ao serviço
dos Manchus. Palafox, na sua História da conquista da China pelos Tártaros, afirma que havia 8 ou 10 artilheiros
portugueses ao seu serviço e que anteriormente haviam estado
ao serviço dos Ming.
Embora não haja disso provas evidentes, também não
é de todo despiciendo pensar que alguns dos soldados
portugueses que sempre acompanharam Yong-li se tivessem juntado a
compatriotas seus, os bayingyi, forças de elite do
exército birmanês condenados à defesa da
fronteira com a China, depois da derrota de Filipe de Brito Nicot.
Este aventureiro participara na conquista do reino budista do Pegu ao
serviço do rei de Arracão que, como recompensa, o
obsequiara com a estratégica Sirião. Aí cresceu
uma grande comunidade de Lusos, lascarins cingaleses e Mons, desde
cedo acompanhados espiritualmente por Jesuítas, Dominicanos,
Agostinhos e Franciscanos. Mas as ambições de Filipe de
Brito levaram-no à perdição. Jogando no xadrez
político da região, acabou por ser derrotado pelo rei
birmanês Anauk-hpet-lung. Contrariamente ao que se possa
pensar, a comunidade lusa do Sirião não desapareceu
após a conquista, favorecida pela rivalidade dos senhores de
Arracão e de Ava, já que ambos pretendiam a colaboração
dos exímios guerreiros portugueses. Parte deles iria enquadrar
a guarda pessoal do Rei de Ava enquanto que outros, por volta de
1643, seriam instalados no vale do Mu, nas proximidades da fronteira
do Yünnan. Incorporados em unidades militares hereditárias,
constituiriam até ao fim do séc. XVII a base da
artilharia do segundo império Tangu. Aí se mantiveram
os seus descendentes até aos dias de hoje, mantendo a sua fé
católica, pastoreados, no início, por sacerdotes
portugueses e, posteriormente abandonados por Goa, por barnabitas
italianos.
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(1)
(2)
(3) O MSL fala apenas do Padre João Rodrigues e dos
canhões mas isso é altamente improvável
(4) Na Relação da Grande Monarquia da China, do
Padre Álvaro Semedo, coetâneo destes acontecimentos a
resposta do Imperador teria sido:
Ainda não há
muito que propusestes que esses homens entrassem no reino e nos
ajudassem contra os tártaros; agora dizeis não serem
já necessários. Quando propuserdes qualquer coisa é
bom pensardes melhor. Porém, se não são
necessários que regressem.
(5) No MSL há um registo, datado de 6 de Abril de 1631 que
relata que o Padre João Rodrigues (Lu Ruo-han) solicitou
misericórdia e consideração, em relação
ao pagamento da importância em causa (cerca de 40.000 liang de prata), já que os homens de Macau se haviam limitado
lealmente a responder a um pedido de auxílio de Pequim. Mais
uma vez, a ser correcta esta data, Boxer deve estar equivocado sobre
a data de saída da expedição.
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