Ano I - Nº 7, Março/Abril de 2007
Alameda Digital
Um Crepúsculo Europeu
Futuro incerto para a música clássica em Portugal

por F Santos

O panorama dos concertos clássicos em Portugal não é tão desanimador como se possa pensar, mas está longe de ser exaltante.

O nosso país sempre teve bons compositores e bons músicos (e a actualidade não é excepção), mas ao longo dos tempos sofreu por estar na periferia, tendendo a copiar os modelos, tanto de criação musical como de concertos, da Europa. Juntando a este facto uma efectiva incultura musical da grande maioria da população e a falta de hábito de assistência a concertos fica explicada em boa medida a razão por que tão pouca gente conhece música clássica, compra discos e assiste a concertos.

Cingindo-nos a Lisboa, cuja actividade acompanhamos e conhecemos melhor, que vemos a nível de programação musical?

A Orquestra Gulbenkian proporciona há largos anos épocas musicais bem preenchidas, com concertos para grande orquestra, recitais, música de câmara, etc. Só com assinaturas anuais consegue encher uma boa parte do Grande Auditório nos concertos sinfónicos. A orquestra tem visto o seu nível melhorar, sendo o salto qualitativo desde que Lawrence Foster assumiu a direcção da mesma significativo. A programação, até há pouco tempo, quase que se limitava a obras do romantismo, insistindo até à exaustão em compositores como Beethoven, Brahms, Schubert, etc. Mais recentemente, coincidindo com a lamentável decisão de acabar com os Encontros de Música Contemporânea, começou a incluir nos concertos obras de autores do século XX, algumas das vezes dirigidas pelos próprios compositores. O público, extremamente conservador, acolheu a novidade com frieza, quando não hostilidade. Os habitués dos Encontros ficaram órfãos de uma iniciativa que primava pela grande qualidade das obras e intérpretes escolhidos. Pretendendo-se alargar o leque dos auditores da música contemporânea, remeteu-se esta para um estatuto de curiosidade, sempre no início dos concertos e com obras quase sempre de pequena dimensão.

O Ciclo de Grandes Orquestras Mundiais é um sucesso de público e artístico, trazendo até nós orquestras de topo. Os preços proibitivos restringem o público a uma minoria possidente, nem sempre especialmente conhecedora. As condições acústicas da sala também não favorecem a fruição musical.

A Orquestra Sinfónica Portuguesa do Teatro Nacional de São Carlos (uff!) debate-se permanentemente com três problemas:

- inconstância política, com mudanças por vezes incompreensíveis do director musical, de que o caso recente da saída de Paolo Pinamonti é exemplo paradigmático;

- falta de condições para ensaios;

- limitação física do palco de São Carlos para albergar uma grande orquestra, levando-a a fazer concertos sinfónicos no Centro Cultural de Belém.

Se as temporadas de ópera têm sempre um público fiel e numeroso, já os concertos decorrem regra geral perante uma plateia desoladora, de forma alguma justa para a qualidade de que a orquestra vem dando provas. A opção consciente pela execução de obras contemporâneas explica em parte a falta de adesão do público. Mas é uma explicação incompleta: há exemplos de concertos com música contemporânea que foram autênticos sucessos de público, de que é testemunho a estreia nacional (com oito décadas de atraso!) das “Gurre Lieder” de Arnold Schönberg, perante um CCB praticamente cheio.

A Casa da Música, no Porto, veio dar outras condições de trabalho e de apreciação pública à música na Invicta, cidade que pode orgulhar-se de ter um agrupamento, que se dedica ao repertório contemporâneo, de nível mundial: o Remix Ensemble.

Em última análise, o problema que enfrenta a música clássica em Portugal é o mesmo que enfrentam outras manifestações culturais exigentes: falta de público por falta de cultura geral, preços pouco simpáticos e falta de divulgação e educação para o gosto, que deveria começar nas escolas e passar pelos meios de comunicação públicos. Neste particular, a Antena 2 vem prestando um mau serviço à música, multiplicando-se os programas opinativos, com convidados amigos dos entrevistadores, funcionando num círculo fechado de cabotinismo auto-complacente. As horas de pura audição musical são cada vez menos, dando a estação um tristíssimo exemplo de como a ostentação bacoca da cultura é uma forma de manifestação de... falta de cultura.

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