Futuro incerto para a música clássica
em Portugal
por F Santos
O panorama dos concertos clássicos em
Portugal não é tão desanimador como se possa
pensar, mas está longe de ser exaltante.
O nosso país sempre teve bons compositores
e bons músicos (e a actualidade não é excepção),
mas ao longo dos tempos sofreu por estar na periferia, tendendo a
copiar os modelos, tanto de criação musical como de
concertos, da Europa. Juntando a este facto uma efectiva incultura
musical da grande maioria da população e a falta de
hábito de assistência a concertos fica explicada em boa
medida a razão por que tão pouca gente conhece música
clássica, compra discos e assiste a concertos.
Cingindo-nos a Lisboa, cuja actividade acompanhamos e conhecemos
melhor, que vemos a nível de programação
musical?
A Orquestra Gulbenkian proporciona há
largos anos épocas musicais bem preenchidas, com concertos
para grande orquestra, recitais, música de câmara, etc.
Só com assinaturas anuais consegue encher uma boa parte do
Grande Auditório nos concertos sinfónicos. A orquestra
tem visto o seu nível melhorar, sendo o salto qualitativo
desde que Lawrence Foster assumiu a direcção da mesma
significativo. A programação, até há
pouco tempo, quase que se limitava a obras do romantismo, insistindo
até à exaustão em compositores como Beethoven,
Brahms, Schubert, etc. Mais recentemente, coincidindo com a
lamentável decisão de acabar com os Encontros de Música
Contemporânea, começou a incluir nos concertos obras de
autores do século XX, algumas das vezes dirigidas pelos
próprios compositores. O público, extremamente
conservador, acolheu a novidade com frieza, quando não
hostilidade. Os habitués dos Encontros ficaram órfãos
de uma iniciativa que primava pela grande qualidade das obras e
intérpretes escolhidos. Pretendendo-se alargar o leque dos
auditores da música contemporânea, remeteu-se esta para
um estatuto de curiosidade, sempre no início dos concertos e
com obras quase sempre de pequena dimensão.
O Ciclo de Grandes Orquestras Mundiais é um sucesso de público
e artístico, trazendo até nós orquestras de
topo. Os preços proibitivos restringem o público a uma
minoria possidente, nem sempre especialmente conhecedora. As
condições acústicas da sala também não
favorecem a fruição musical.
A Orquestra Sinfónica Portuguesa do Teatro Nacional de São
Carlos (uff!) debate-se permanentemente com três problemas:
- inconstância política, com mudanças
por vezes incompreensíveis do director musical, de que o caso
recente da saída de Paolo Pinamonti é exemplo
paradigmático;
- falta de condições para ensaios;
- limitação física do palco de São Carlos
para albergar uma grande orquestra, levando-a a fazer concertos
sinfónicos no Centro Cultural de Belém.
Se as temporadas de ópera têm sempre
um público fiel e numeroso, já os concertos decorrem
regra geral perante uma plateia desoladora, de forma alguma justa
para a qualidade de que a orquestra vem dando provas. A opção
consciente pela execução de obras contemporâneas
explica em parte a falta de adesão do público. Mas é
uma explicação incompleta: há exemplos de
concertos com música contemporânea que foram autênticos
sucessos de público, de que é testemunho a estreia
nacional (com oito décadas de atraso!) das “Gurre Lieder”
de Arnold Schönberg, perante um CCB praticamente cheio.
A Casa da Música, no Porto, veio dar outras
condições de trabalho e de apreciação
pública à música na Invicta, cidade que pode
orgulhar-se de ter um agrupamento, que se dedica ao repertório
contemporâneo, de nível mundial: o Remix Ensemble.
Em última análise, o problema que
enfrenta a música clássica em Portugal é o mesmo
que enfrentam outras manifestações culturais exigentes:
falta de público por falta de cultura geral, preços
pouco simpáticos e falta de divulgação e
educação para o gosto, que deveria começar nas
escolas e passar pelos meios de comunicação públicos.
Neste particular, a Antena 2 vem prestando um mau serviço à
música, multiplicando-se os programas opinativos, com
convidados amigos dos entrevistadores, funcionando num círculo
fechado de cabotinismo auto-complacente. As horas de pura audição
musical são cada vez menos, dando a estação um
tristíssimo exemplo de como a ostentação bacoca
da cultura é uma forma de manifestação de...
falta de cultura.
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