Ano I - Nº 7, Março/Abril de 2007
Alameda Digital
Europeísmos
Discurso breve sobre a obra de Vieira

por José Valle de Figueiredo

“Como hão-de ser as palavras? Como as estrelas. As estrelas são muito distintas e muito claras. Assim há-de ser o estilo da pregação, muito distinto e muito claro”.

Porque assim lhe parece, o Padre António Vieira adverte o leitor logo no Prólogo das obras que ainda editou em vida:

“Se gostas da afectação e pompa das palavras e do estilo que chamam culto, não me leias. Quando este estilo mais florescia, nasceram as primeiras verduras do meu (que perdoarás, quando as encontrares), mas valeu-me tanto sempre a clareza, que só porque me entendiam comecei a ser ouvido, e o começavam também a ser os que reconheciam o seu engano e mal se entendiam a si mesmos”.

Como nos confirma Jacinto do Prado Coelho, “Vieira preconiza uma estética de simplicidade, ao serviço do autêntico espírito evangélico”. Assim, “o pregador deve escolher uma só matéria, defini-la, reparti-la, confirmá-la com a Escritura e com a razão, amplificá-la, ilustrando-a com exemplos e, refutando argumentos contrários, tirar dela uma conclusão e persuadir, demover”.

Como? Evitando sempre e em primeiro lugar, “falsos testemunhos da palavra de Deus”, não se permitindo “subtilezas e requintes gongóricos”, não tornando o serão uma “comédia”, não se enredando em “xadrez de palavras”, não obscurecendo sentidos e não abusando de autonomásias.

O modo de exprimir nem sempre se distinguirá do modo de raciocinar, pelo que, muitas vezes, o “conceptismo” vai a par do “cultismo”.

Previne-se Vieira, entretanto, a si próprio, contra as “agudezas” que “torcem” os textos, bem como as imaginações” que os levam a tardar-se no seu real significado.

Registe-se que a palavra em António Vieira serve sempre para ir mais além da realidade concreta; potencia-a; multiplica os significados; promove-se a descobridora do real na sua totalidade e, mesmo quando parece autonomizar-se, adquire valor especial por si própria, e o seu “encantamento” é, em si mesmo, significante. A sua arquitectura verbal não é postiça; mesmo quando aprece um jogo, o que sucede é que está a multiplicar-se de valores e, portanto, a acrescentar-se ao mundo, na justa medida em que nos está a enriquecer de sentidos e de agudezas.

Pedagogo da Palavra, é Vieira, antes de mais: “ Falo confiadamente: porque bem sabem os ouvintes que é artifício nosso afear a dificuldade para fazer mais formosa a solução”.

“Fazer Pouco fruto a palavra de Deus no mundo pode proceder de um de três princípios: ou da parte do pregador, ou da parte do ouvinte, ou da parte de Deus. Para uma alma se converter por meio de um sermão, há-de haver três concursos: há-de concorrer o pregador com a doutrina, persuadindo; há-de concorrer com o entendimento, percebendo: há-de concorrer Deus com a graça, alumiando (“Sermão da Sexagésima”).

Para Vieira, segundo António José Saraiva, “a alquimia verbal e a construção de conceitos eram mais para persuadir o ouvinte de uma verdade ou constrangê-lo a uma acção (“O Discurso Engenhoso”), tal como para Margarida Vieira Mendes, é “característica do discurso vieiriano” fazer da “própria palavra uma força, uma espécie de energia, capaz de influenciar, de motivar a acção”. Num dos ensaios mais luminosos que me foram dados a conhecer ultimamente sobre Vieira – “A inteligência figural nos sermões de Vieira” – Sónia Netto Salomão prolonga a análise dos dois autores referidos para sintetizar, num salto qualitativo: “gostaria de voltar ao que vem sendo chamado de inteligência figural, em âmbito retórico, a partir da configuração do regime de sentido no qual opera o discurso vieiriano.

Neste caso, entendemos a figuração como escolha que predetermina a identidade de um texto e a sua estratégia discursiva como alguma coisa originária e não derivada. A figuração como fenómeno originário do discurso, portanto, não se coloca como nível segundo de sentido, um nível parasitário, poderíamos dizer, que se soma ao primeiro, literal”.

E aqui ressalta um aspecto essencial: “Deste ponto de vista, a retórica é recuperada na sua dimensão textual e cognitiva a partir de uma teoria da complexidade do sentido que deve repensar a árdua questão da veritas est adequatio rei intellectus que, de Aristóteles a Heidegger, pelo menos, mas com reflexos até aos nossos dias, orienta as discussões metafísicas e pós metafísicas em torno desta delicada mas fundamental questão, principalmente para um escritor cristão como Vieira”.

E isto porque ainda com Sónia Netto Salomão, “na Teologia Cristã, mas também para outros pensadores como Hegel, a verdade é a adequação da coisa ao conhecimento e ao conceito. Na perspectiva cristã, tanto a coisa como a proposição, para serem verdadeiras, devem resultar conformes à ideia antecipadamente pensada pelo pensamento divino. Verdade e ser verdadeiro, portanto, significam acordo, concordância, conformidade, segundo todo o leque de sinonímia relativa à adequatio”. Entretanto, “no âmbito da lógica da correlação” podemos ir ainda mais além. E, aqui, centramo-nos no âmago do “Discurso” vieiriano, cuja modernidade se acrescenta de dia para dia. Como nos assinala ainda a Ensaísta de “A inteligência figural nos Sermões de Vieira”, há espaço para uma racionalidade que, embora “herdeira legítima do pensamento dialéctico aristotélico”, não se deixa sufocar pelos compromissos com o paradigma logocêntrico que a prenderia numa rígida cadeia de relações opositivas, conduzindo-nos de “uma perspectiva de abertura para um pensamento não linear em âmbito racional”.

Para Heidegger, “neste sentido, demonstração e persuasão não são contraditórias mas correlatas, e uma circularidade encadeada, não fecunda e tautológica, pode-se contrastar uma circularidade aberta e assimétrica, em que uma espécie de curva imaginária se delineia entre as duas metades visíveis e bem circunscritas do círculo em que a verdade como aletheia, como forte potência antecipadora, se diferencia da verdade como adequatio”.

Decifra-se neste quadro o discurso de António Vieira, que é, assim, um discurso aberto, progressivo, des-cobridor, regenerador e “acrescentador” de novos espaços, significados – de novos mundos.

António Vieira foi um Navegador, um Descobridor da Língua e do Pensamento. A seu modo, abriu-nos o caminho para outra Índia…

 

(1) O Discurso Engenhoso – Ensaios sobre Vieira”, de António José Saraiva (Ed. Gradiva, Lisboa, 1996) e “A Oratória Barroca de Vieira”, de Margarida Vieira Mendes ( Ed. Caminhos, Lisboa, 1989).

(2) “Letras, Sinais”, Ed. Cosmos e Dep. Literatura Germânicas(?) da Faculadade de Letras de Lisboa (Vol. Homenagem a David Mourão Ferreira, Margarida Vieira Mendes e Osório Mateus). 1999.

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