Discurso
breve sobre a obra de Vieira
por José Valle de Figueiredo
“Como hão-de ser as
palavras? Como as estrelas. As estrelas são muito distintas e
muito claras. Assim há-de ser o estilo da pregação,
muito distinto e muito claro”.
Porque assim lhe parece, o
Padre António Vieira adverte o leitor logo no Prólogo
das obras que ainda editou em vida:
“Se gostas da afectação
e pompa das palavras e do estilo que chamam culto, não me
leias. Quando este estilo mais florescia, nasceram as primeiras
verduras do meu (que perdoarás, quando as encontrares), mas
valeu-me tanto sempre a clareza, que só porque me entendiam
comecei a ser ouvido, e o começavam também a ser os que
reconheciam o seu engano e mal se entendiam a si mesmos”.
Como nos confirma Jacinto do
Prado Coelho, “Vieira preconiza uma estética de
simplicidade, ao serviço do autêntico espírito
evangélico”. Assim, “o pregador deve escolher uma só
matéria, defini-la, reparti-la, confirmá-la com a
Escritura e com a razão, amplificá-la, ilustrando-a com
exemplos e, refutando argumentos contrários, tirar dela
uma conclusão e persuadir, demover”.
Como? Evitando sempre e em
primeiro lugar, “falsos testemunhos da palavra de Deus”, não
se permitindo “subtilezas e requintes gongóricos”, não
tornando o serão uma “comédia”, não se
enredando em “xadrez de palavras”, não obscurecendo
sentidos e não abusando de autonomásias.
O modo de exprimir nem sempre
se distinguirá do modo de raciocinar, pelo que, muitas vezes,
o “conceptismo” vai a par do “cultismo”.
Previne-se Vieira, entretanto,
a si próprio, contra as “agudezas” que “torcem” os
textos, bem como as imaginações” que os levam a
tardar-se no seu real significado.
Registe-se que a palavra em
António Vieira serve sempre para ir mais além da
realidade concreta; potencia-a; multiplica os significados;
promove-se a descobridora do real na sua totalidade e, mesmo quando
parece autonomizar-se, adquire valor especial por si própria,
e o seu “encantamento” é, em si mesmo, significante. A sua
arquitectura verbal não é postiça; mesmo quando
aprece um jogo, o que sucede é que está a
multiplicar-se de valores e, portanto, a acrescentar-se ao mundo, na
justa medida em que nos está a enriquecer de sentidos e de agudezas.
Pedagogo da Palavra, é
Vieira, antes de mais: “ Falo confiadamente: porque bem sabem os
ouvintes que é artifício nosso afear a dificuldade para
fazer mais formosa a solução”.
“Fazer Pouco fruto a palavra
de Deus no mundo pode proceder de um de três princípios:
ou da parte do pregador, ou da parte do ouvinte, ou da parte de Deus.
Para uma alma se converter por meio de um sermão, há-de
haver três concursos: há-de concorrer o pregador com a
doutrina, persuadindo; há-de concorrer com o entendimento,
percebendo: há-de concorrer Deus com a graça, alumiando
(“Sermão da Sexagésima”).
Para Vieira, segundo António
José Saraiva, “a alquimia verbal e a construção
de conceitos eram mais para persuadir o ouvinte de uma verdade ou
constrangê-lo a uma acção (“O Discurso
Engenhoso”), tal como para Margarida Vieira Mendes, é
“característica do discurso vieiriano” fazer da “própria
palavra uma força, uma espécie de energia, capaz de
influenciar, de motivar a acção” .
Num dos ensaios mais luminosos que me foram dados a conhecer
ultimamente sobre Vieira – “A inteligência figural nos
sermões de Vieira” – Sónia Netto Salomão
prolonga a análise dos dois autores referidos para sintetizar,
num salto qualitativo: “gostaria de voltar ao que vem sendo chamado
de inteligência figural, em âmbito retórico, a
partir da configuração do regime de sentido no qual
opera o discurso vieiriano.
Neste caso, entendemos a
figuração como escolha que predetermina a identidade de
um texto e a sua estratégia discursiva como alguma coisa
originária e não derivada. A figuração
como fenómeno originário do discurso, portanto, não
se coloca como nível segundo de sentido, um nível
parasitário, poderíamos dizer, que se soma ao primeiro,
literal” .
E aqui ressalta um aspecto
essencial: “Deste ponto de vista, a retórica é
recuperada na sua dimensão textual e cognitiva a partir de uma
teoria da complexidade do sentido que deve repensar a árdua
questão da veritas est adequatio rei intellectus que,
de Aristóteles a Heidegger, pelo menos, mas com reflexos até
aos nossos dias, orienta as discussões metafísicas e
pós metafísicas em torno desta delicada mas fundamental
questão, principalmente para um escritor cristão como
Vieira”.
E isto porque ainda com Sónia
Netto Salomão, “na Teologia Cristã, mas também
para outros pensadores como Hegel, a verdade é a adequação
da coisa ao conhecimento e ao conceito. Na perspectiva cristã,
tanto a coisa como a proposição, para serem
verdadeiras, devem resultar conformes à ideia antecipadamente
pensada pelo pensamento divino. Verdade e ser verdadeiro, portanto,
significam acordo, concordância, conformidade, segundo todo o
leque de sinonímia relativa à adequatio”.
Entretanto, “no âmbito da lógica da correlação”
podemos ir ainda mais além. E, aqui, centramo-nos no âmago
do “Discurso” vieiriano, cuja modernidade se acrescenta de dia
para dia. Como nos assinala ainda a Ensaísta de “A
inteligência figural nos Sermões de Vieira”, há
espaço para uma racionalidade que, embora “herdeira legítima
do pensamento dialéctico aristotélico”, não se
deixa sufocar pelos compromissos com o paradigma logocêntrico
que a prenderia numa rígida cadeia de relações
opositivas, conduzindo-nos de “uma perspectiva de abertura para um
pensamento não linear em âmbito racional”.
Para Heidegger, “neste
sentido, demonstração e persuasão não são
contraditórias mas correlatas, e uma circularidade encadeada,
não fecunda e tautológica, pode-se contrastar uma
circularidade aberta e assimétrica, em que uma espécie
de curva imaginária se delineia entre as duas metades visíveis
e bem circunscritas do círculo em que a verdade como aletheia,
como forte potência antecipadora, se diferencia da verdade como adequatio”.
Decifra-se neste quadro o
discurso de António Vieira, que é, assim, um discurso aberto, progressivo, des-cobridor, regenerador e “acrescentador” de novos espaços, significados – de novos mundos.
António Vieira foi um
Navegador, um Descobridor da Língua e do Pensamento. A seu
modo, abriu-nos o caminho para outra Índia…
(1) O Discurso
Engenhoso – Ensaios sobre Vieira”, de António José
Saraiva (Ed. Gradiva, Lisboa, 1996) e “A Oratória Barroca
de Vieira”, de Margarida Vieira Mendes ( Ed. Caminhos, Lisboa,
1989).
(2) “Letras,
Sinais”, Ed. Cosmos e Dep. Literatura Germânicas(?) da
Faculadade de Letras de Lisboa (Vol. Homenagem a David Mourão
Ferreira, Margarida Vieira Mendes e Osório Mateus). 1999. |