Reduções
Intelectuais
por Jorge
Azevedo Correia
Nem todo o pensamento
conduz à verdade e nos tempos que correm, quase todo o
pensamento é articulado com o intuito de a diminuir.
Desconstruir não é um processo errado, uma vez que se
constitui como um elemento essencial de qualquer pensamento que busca
fundamento. Se a desconstrução está bem patente
na proposta de conhecimento de Platão e Aristóteles, de
Santo Agostinho e São Tomás, prevalecendo como fenómeno
essencial na descoberta do Erro e em toda a posição
racional, é evidente que se continuarmos a perguntar “porquê?”
nenhuma verdade pode ser alcançada.
No período
Moderno substituiram-se os enquadramentos tradicionais por sistemas
errados, mas persistiu-se na procura de uma verdade. Esta verdade
era, porém, uma verdade intramundana e auto-referencial, que
tomava nos objectos o caminho de explicação do mundo.
Foi o nascimento da Ideologia...
Ainda que se
continuasse a falar de Verdade e de Justiça os conceitos foram
comprimidos até que nada deles restasse. À razão
retirou-se o enquadramento que lhe permitia encontrar bases sólidas.
Sobraram os
materialismos de todas as formas. O marxismo, uma explicação
das coisas pelas coisas, postulava que o grau mais elevado de
realidade estava nas relações de matéria. O
Idealismo alemão, que nada mais é que o exacerbar de
expressões da matéria que preenche este mundo, assim
como dos desejos que este mundo produz. O liberalismo, incapaz de
compreender os laços em que se funda a Humanidade (imaginem um
jardim infantil segundo os princípios de Ayn Rand) e com uma
componente jusnaturalista que se funda numa racionalidade
pré-induzida e de origem obscura.
A morte desses falsos
ídolos, incapazes de compreender realidades para os quais não
estavam “programados”, demonstra até que ponto estes eram
construcções auto-induzidas e como se “afundaram”
pela incapacidade (que lhes estava nos genes) de compreender a
realidade deste mundo. Eram construções e não
compreensões, porque clamavam certezas neste mundo.
O programa era simples
e baseava-se na ignorância. Ignorar que nem todas as relações
humanas eram movidas pelo “capital”, ignorar que nem todos os
homens sonham a liberdade ou o colectivo, ignorar que o universo não
está apenas na cabeça de cada um. Tudo o que estava
para além desse “real” era “irreal”...
Hoje assistimos ao
surgir de uma nova ideologia, tão ideológica como as
anteriores. Movida pela Filosofia Crítica, que de filosófica
tem pouco (pelas razões aduzidas no início deste texto
é fácil perceber que diviniza metade do processo
filosófico), a redução da Verdade passa à
aceitação de tudo como verdadeiro. A única
Verdade é a de que só há “verdades” e que
estas coincidem com o que cada um pensa, por menos analisada ou
triada que esta seja. Ao fazer coincidir “verdade” com “opinião”
todos os pensamentos são correctos e podem ser articulados,
desde que não ponham em questão a Verdade de não
existir nenhuma Verdade (o paradoxo de Nietzsche é aqui
demasiado evidente). Aceita-se todo o pensamento desde que este não
tenha pretensões a ser mais que uma opinião. Aceita-se
uma qualquer ideia desde que esta não proponha que a sua
validade ultrapasse a cabeça que a pensou. Só é
válida a ideia de que aceita a sua inutilidade. Só é
tolerável a ideia que esteja rendida. Só é
aceitável o pensamento que não pode mudar o mundo.
Este é o
pressuposto de todo o Estado Totalitário. Souberam todos os
grandes déspotas do século XX que só quando o
poder é incondicional, estando desligado de um conjunto de
princípios ou valores racionalizáveis que o tornam
justo ou injusto, mas fundado numa raça, numa classe social,
numa “nação-toda-poderosa”, pode a obediência
a obediência ser cega.
Como viu Voegelin,
contrariando Arendt, o problema dos totalitarismos não foi
perseguirem uma verdade, foi acharem-se eles próprios a
Verdade e a Luz. Sendo a sua vontade o único critério
para a acção política tornou-se insondável
para os seus cidadãos, deixando estes de poderem valorar a sua
acção.
Só o caminho do
relativismo moral conseguiu gerar tamanha abjecção. E
parece que ainda não aprendemos... |