Ano I - Nº 7, Março/Abril de 2007
Alameda Digital
Europeísmos
Reduções Intelectuais

por Jorge Azevedo Correia

Nem todo o pensamento conduz à verdade e nos tempos que correm, quase todo o pensamento é articulado com o intuito de a diminuir. Desconstruir não é um processo errado, uma vez que se constitui como um elemento essencial de qualquer pensamento que busca fundamento. Se a desconstrução está bem patente na proposta de conhecimento de Platão e Aristóteles, de Santo Agostinho e São Tomás, prevalecendo como fenómeno essencial na descoberta do Erro e em toda a posição racional, é evidente que se continuarmos a perguntar “porquê?” nenhuma verdade pode ser alcançada.

No período Moderno substituiram-se os enquadramentos tradicionais por sistemas errados, mas persistiu-se na procura de uma verdade. Esta verdade era, porém, uma verdade intramundana e auto-referencial, que tomava nos objectos o caminho de explicação do mundo. Foi o nascimento da Ideologia...

Ainda que se continuasse a falar de Verdade e de Justiça os conceitos foram comprimidos até que nada deles restasse. À razão retirou-se o enquadramento que lhe permitia encontrar bases sólidas.

Sobraram os materialismos de todas as formas. O marxismo, uma explicação das coisas pelas coisas, postulava que o grau mais elevado de realidade estava nas relações de matéria. O Idealismo alemão, que nada mais é que o exacerbar de expressões da matéria que preenche este mundo, assim como dos desejos que este mundo produz. O liberalismo, incapaz de compreender os laços em que se funda a Humanidade (imaginem um jardim infantil segundo os princípios de Ayn Rand) e com uma componente jusnaturalista que se funda numa racionalidade pré-induzida e de origem obscura.

A morte desses falsos ídolos, incapazes de compreender realidades para os quais não estavam “programados”, demonstra até que ponto estes eram construcções auto-induzidas e como se “afundaram” pela incapacidade (que lhes estava nos genes) de compreender a realidade deste mundo. Eram construções e não compreensões, porque clamavam certezas neste mundo.

O programa era simples e baseava-se na ignorância. Ignorar que nem todas as relações humanas eram movidas pelo “capital”, ignorar que nem todos os homens sonham a liberdade ou o colectivo, ignorar que o universo não está apenas na cabeça de cada um. Tudo o que estava para além desse “real” era “irreal”...

Hoje assistimos ao surgir de uma nova ideologia, tão ideológica como as anteriores. Movida pela Filosofia Crítica, que de filosófica tem pouco (pelas razões aduzidas no início deste texto é fácil perceber que diviniza metade do processo filosófico), a redução da Verdade passa à aceitação de tudo como verdadeiro. A única Verdade é a de que só há “verdades” e que estas coincidem com o que cada um pensa, por menos analisada ou triada que esta seja. Ao fazer coincidir “verdade” com “opinião” todos os pensamentos são correctos e podem ser articulados, desde que não ponham em questão a Verdade de não existir nenhuma Verdade (o paradoxo de Nietzsche é aqui demasiado evidente). Aceita-se todo o pensamento desde que este não tenha pretensões a ser mais que uma opinião. Aceita-se uma qualquer ideia desde que esta não proponha que a sua validade ultrapasse a cabeça que a pensou. Só é válida a ideia de que aceita a sua inutilidade. Só é tolerável a ideia que esteja rendida. Só é aceitável o pensamento que não pode mudar o mundo.

Este é o pressuposto de todo o Estado Totalitário. Souberam todos os grandes déspotas do século XX que só quando o poder é incondicional, estando desligado de um conjunto de princípios ou valores racionalizáveis que o tornam justo ou injusto, mas fundado numa raça, numa classe social, numa “nação-toda-poderosa”, pode a obediência a obediência ser cega.

Como viu Voegelin, contrariando Arendt, o problema dos totalitarismos não foi perseguirem uma verdade, foi acharem-se eles próprios a Verdade e a Luz. Sendo a sua vontade o único critério para a acção política tornou-se insondável para os seus cidadãos, deixando estes de poderem valorar a sua acção.

Só o caminho do relativismo moral conseguiu gerar tamanha abjecção. E parece que ainda não aprendemos...

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