E que tal um referendo?
por Pedro Guedes da Silva
“Criar
um Estado Europeu único governado por uma única
Constituição Europeia pode ser a tarefa decisiva do
nosso tempo”
Joshka
Fischer ao Daily Telegraph, 27/12/1998
A
Fischer, ministro alemão dos negócios estrangeiros,
devemos desde logo louvar-lhe a sinceridade. Com efeito, disse para
quem o quisesse ler o que os responsáveis políticos
europeus, com a conivência da esmagadora maioria da opinião
publicada, escondem o mais que podem: está em curso,
implacável, um projecto supranacional de destruição
da independência nacional das nações europeias.
Quando
em 1957 o Tratado de Roma instituiu a CEE, os pais da construção
europeia anunciavam a paz duradoura e o progresso económico,
dois objectivos evidentemente credores de bom acolhimento numa mitteleuropa cansada da destruição provocada por
duas grandes guerras, separadas entre si por um breve intervalo de
grandes instabilidades. Não será então de
estranhar que tenham sido bem recebidas as promessas de aprofundar as
trocas comerciais, eliminando alguns dos entraves que até aí
as condicionavam, agilizando a livre circulação de bens
no espaço europeu. E na verdade, uma maior dinâmica das
economias daí decorrente só poderá ser olhada
com suspeição por alguma esquerda que subsiste inimiga
da livre iniciativa de cada qual. Já a paz entretanto vivida,
em plena Guerra Fria, tem provavelmente menos a ver com a existência
da CEE do que aquilo que os seus apoiantes mais ferozes nos querem
fazer crer, embora não seja esse o objecto destas linhas.
Tenha-se
então por certo que o problema não está nos
primórdios da CEE ou na sua fundamentação, mas
antes na sucessão de voluntarismos de todo o tipo que se lhe
seguiram, aprofundamentos feitos invariavelmente nas costas dos
cidadãos a pedido dos eurocratas a quem aproveitam.
Assim nos foram normalizando as vidas e o dia-a-dia, indicando
paternalmente os caminhos certos em directivas a cuja transposição
estamos obrigados - sob pena de nos porem de castigo no que toca à semanada -, peças legislativas que uniformizam tudo.
Aqui, em Malta ou na Letónia, todos temos que usar isqueiros
do mesmo tipo...
No
dizer do Professor Martim de Albuquerque, “foi uma escalada quase
silenciosa ou semi-oculta, em várias etapas, que ninguém
parou”.* Foi assim, sempre pela porta dos fundos e
sem que nunca nos tenham perguntado se nos parecia boa ideia, que se
chegou a Maastricht e a Nice, que nos vimos comprometidos com uma
política agrícola comum ruinosa, que da exigência
de unanimidade nos processos de decisão se foi caminhando para
a regra da maioria; foi assim que mais recentemente – a cereja no
topo do bolo – nos retiraram o Escudo e nos puseram todos a andar
com as mesmas notas e moedas dos alemães, sem que tenha
ocorrido à douta Comissão que a uniformização
dos ordenados nos dava um nadinha mais de jeito...
Com
o passar dos tempos, a ideia inicial rendeu-se à lógica
burocrática de criação de um monstro: novos
edifícios, novos funcionários, novas áreas a
normalizar, novos membros, novas exigências. Os eurocratas
ditaram o diagnóstico: a coisa já estava tão
grande que não funciona sem uma... Constituição!
E tornando o monstro pouco menos do que totalitário,
alimenta-se custe o que custar. Dirão alguns que a
adjectivação é um exagero; eu sugiro a leitura
das declarações do insuspeito Jean-Luc Dehaene ao Irish
Times de 02/06/2004: “We know that nine out of ten people will
not have read the Constitution and will vote on the basis of what
politicians and journalists say. More than that, if the answer is No,
the vote will probably have to be done again”. O que aliás
não constitui novidade; tem sido esta a metodologia utilizada
sempre que em algum referendo a opinião publicada não
se revela capaz de moldar as consciências mais retrógradas.
No
caso do Tratado Constitucional a ausência de vergonha
revelou-se atrevida. Cientes de que poderiam perder o referendo
convocado em França, os eurocratas desdobraram-se em esforços
e viagens, enviando a Paris altos dignitários “europeus”
com a missão de torcer os irrequietos gauleses. Tivesse a
Comissão lido em tempo útil as aventuras de Astérix
e saberia que o tradicional “chauvinismo” francês tem os
seus aspectos positivos, coisas do antes quebrar que torcer.
Conhecidos os resultados, logo se percebeu ser intenção
de Bruxelas deixar acalmar as águas e repetir os papelinhos
tempos depois. Muito provavelmente, o empreendimento teria tido êxito
não se tivesse dado o caso de, pouco tempo depois, também
os pressionados holandeses terem saído da linha desejada.
Condicionada
por uma das mais medíocres gerações de políticos
de que na Europa há memória, a Comissão Europeia
sentiu então necessidade de alterar a condução
sem no entanto inverter o sentido da marcha: projecto em lume brando
e a aguardar ressurreição. E eis que parece ter chegado
agora nova oportunidade de colocar os euopeus à prova, sob os
auspícios da chanceler Merkl e da certamente engenhosa
presidência do Engº Sócrates. A argumentação
usada para ressuscitar o Tratado Constitucional fazendo-nos passar
por tolos é a mesma de sempre: com o alargamento para 25, o
funcionamento institucional está bloqueado e é preciso
partilhar mais um pouco do que temos em favor da tal União que
um destes dias ainda vai lograr substituir-nos a bandeira.
Os
passos do democratíssimo sentido a seguir já nos foram
dados pelo Presidente da República, que esclareceu quem
entendeu ouvi-lo não ser adepto de referendar o aprofundamento
do irreversível caminho europeu. Cavaco Silva poderia aliás
não se ter dado à maçada de nos elucidar, posto
que já lhe conhecemos o método - de muitos anos a
“aprofundar” a Europa à nossa custa e nas nossas costas.
Bem
sabemos o que pensam e o que dizem: os que se opõem à
Constituição Europeia estão “contra a Europa”
e são uma minoria, coisa residual a navegar nas águas
ora do comunismo estalinista, ora de um nacionalismo retrógrado.
Mas pergunto: se são tão poucos os que se opõem
ao monstro, qual a razão de não o levar a votos,
aproveitando até para lhe conferir a legitimidade decorrente
da força de um ‘Sim’ esmagador que se anuncia? Pois é,
creio que todos sabemos a resposta.
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Entrevista concedida a Jaime Nogueira Pinto e Miguel Freitas da
Costa, “Futuro Presente”, nº. 57, Mai-Jun 2005, Lisboa.
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