| Uma perspectiva histórica sobre as revoltas militares em Portugal
por João José
Brandão Ferreira
“Atolados há mais de um século no mais funesto dos
ilogismos políticos, esquecemo-nos de que a unidade nacional,
a harmonia, a paz, a felicidade e a força de um povo não
têm por base senão o rigoroso e exacto cumprimento
colectivo dos deveres do cidadão perante a inviolabilidade
sagrada da família, que é a célula da sociedade;
perante o culto da religião, que é a alma ancestral da
comunidade; e perante o culto da bandeira, que é o símbolo
da honra e da integridade da pátria”.
Quebramos estouvadamente o fio da nossa História, principiando
por substituir o interesse da Pátria pelo interesse do
partido, depois o interesse do partido pelo interesse do grupo, e por
fim o interesse do grupo pelo interesse individual de cada um”.
Ramalho Ortigão
Desde a
fundação da nacionalidade que existem forças
militares.
Foram
estas que fizeram Portugal, impondo e sustentando pelas armas, esse
acto político primordial que foi a individualização
do Condado Portucalense.
Desde D.
Dinis com a reparação e construção de
Castelos e Fortalezas, pela instituição dos “Besteiros
de Conto”, e ainda pela criação de uma marinha de
guerra em termos permanentes (teve um desenvolvimento grande com a
criação da Ordem de Cristo em 1319), que se organizou a
Nação para a guerra em termos globais e se instituiu
uma espécie de milícia nacional.
Desde D.
Duarte que se começou a compilar as normas que regessem a
preparação, operação, logística,
disciplina e comandamento das forças militares.
Com D. João
II criou-se a primeira Guarda Real permanente e em termos modernos.
Com a
Restauração criou-se o primeiro Conselho de Guerra e a
primeira Escola de Ensino Militar, em 1641, (a Academia de
Arquitectura, Fortificação e Desenho).
Mais
tarde, o Conde de Shomberg veio a organizar o Exército
permanente em Portugal, a partir de 1660.
Mas só
em 1817, as Forças Militares, como tal, fizeram a sua 1ª
intervenção política. Encabeçou-a o
General Gomes Freire de Andrade. Como pano de fundo temos a Metrópole
devastada pelas invasões francesas.
Porque o fizeram? Creio que por três ordens de razões:
Razões
militares, havia grande mal estar por a tropa portuguesa estar
comandada pelos ingleses;
Por
razões políticas, pretendia-se o afastamento de
Beresford e obrigar ao regresso da Corte que estava no Rio de
Janeiro;
E,
sobretudo, por razões ideológicas, Freire de Andrade
era Grão Mestre da Maçonaria e partidário das
ideias liberais com origem na Revolução Francesa.
A
revolta falhou e os principais cabecilhas, foram enforcados em
Lisboa, num local que hoje se chama Campo dos Mártires da
Pátria.
Depois
disto o país nunca mais estabilizou até aos dias de
hoje.
Vamos
fazer uma pequena viagem no metropolitano da História, de
então para cá.
“Pois sim; o povo é o soberano, mas quem vai na carruagem
sou eu!”
Comentário de D. João VI no trajecto paro o seu
palácio, após ter desembarcado em Lisboa, vindo do Rio
de Janeiro, a propósito da turba que o acompanhou aos gritos
incessantes de : “viva o Soberano Congresso” e “viva o povo
soberano”.
A 24 de
Agosto de 1820, (aproveitando a ausência de Beresford no
Brasil), rebentou, no Porto, nova revolução liberal e
desta vez saiu vitoriosa. Lembra-se, a título de curiosidade,
que o principal local onde se preparou a conspiração,
foi numa loja maçónica, que tinha o nome de “Sinédrio”
que, se estão lembrados, era o nome do tribunal que condenou
Jesus Cristo.
O grande
objectivo (salvação da Pátria!), era aprovar uma
Constituição. Esta última, inspirada na
Constituição espanhola de Cádiz de 1812, foi
jurada em Cortes a 30/9/1822 e pelo Rei, regressado no ano anterior,
a 1 de Outubro.
O País,
maioritariamente conservador e adepto da ordem anterior, dividiu-se e
a independência do Brasil piorou tudo, pois para além de
consignar a “deserção” do herdeiro da Coroa – D.
Pedro -, vibrou um duríssimo golpe na economia nacional.
Logo a
27 de Maio de 1823 o infante D. Miguel a instâncias da nobreza
e do povo, dirigiu-se para Vila Franca de Xira seguido por todos os
regimentos da capital, à excepção de um, e
proclama de novo o “Absolutismo” e a reunião das Cortes à
moda antiga. Foi a “Vila Francada”. O Soberano Congresso – era
assim que se chamava o Parlamento na altura -, desesperado e sem
qualquer apoio no país, dissolve-se em 2 de Junho.
Os
monárquicos dividiram-se então em tradicionalistas e
liberais. E estes ainda em moderados e democratas.
Os
tradicionalistas pressionaram D. Miguel a um golpe de modo a afastar
qualquer hipótese de se promulgar nova constituição,
apesar de moderada como era intenção de D. João
VI, e deu-se a Abrilada, em 30 de Abril de 1824.
O golpe
foi dominado pelo monarca com a ajuda dos diplomatas acreditados em
Lisboa e D. Miguel foi fazer uma viagem de estudo pelo estrangeiro.
D. João
VI morreu, em 10 de Março de 1826; sabe-se hoje que foi
envenenado com arsénico e existem fortes suspeitas de que o
seu testamento tenha sido falsificado.
Daqui
resultou uma gravíssima crise política.
A
Infanta D. Isabel (a filha mais velha do Rei), fica como Regente. D.
Pedro Imperador do Brasil, confirma a regência, outorga a Carta
Constitucional, abdica dos seus direitos na filha D. Maria da Glória,
e tenta-se o seu casamento com seu tio D. Miguel, numa tentativa de
unir a “família” desavinda”.
A Carta
entretanto preparada pelo futuro Duque de Palmela, por tentar uma via
intermédia entre as duas tendências, desagradou a ambas.
D.
Miguel, tendo concordado com os termos impostos para o seu casamento,
regressou a Lisboa, em 22 de Fevereiro de 1828.
“Toda a Nação, mais ou menos ardentemente, desejava
ver terminado o intermezzo da Carta Constitucional, e no trono em vez
de um papel, um homem”.
Oliveira Martins
(sobre a Carta Constitucional de 1826)
Estando
o partido tradicionalista forte, e tendo D. Pedro abdicado dos seus
direitos ao trono, e apoiado em extensos apoios no País, D.
Miguel dissolveu a Câmara de Deputados, em 13 de Março
de 1828, e convocou Cortes nos moldes tradicionais, onde foi
proclamado Rei de Portugal.
Tal
facto deu origem à mais cruenta guerra civil que em Portugal
já houve. Os liberais foram perseguidos, presos e emigraram.
Apenas a Ilha Terceira se manteve baluarte dos Liberais. Estes
apelaram para D. Pedro que decidiu invadir Portugal com 7000 homens a
maioria mercenários recrutados em locais pouco recomendáveis.
A guerra
civil termina em 1834 com a vitória surpreendente dos liberais
e que se explica – dada a desproporção de forças,
80000 homens para os partidários de D. Miguel e 7000 homens
para D. Pedro -, pela Liderança: três excelentes
generais e um almirante, do lado Liberal – Saldanha, Terceira, Sá
da Bandeira e Napier -, e nenhum vulto do lado Absolutista. Além
disto contam-se nesta facção várias e indignas
traições.
“Os diferentes partidos não são mais do que escolas
de imoralidade, e portanto companhias de comércio ilícito,
onde as diferentes lutas, que promovem, não são mais do
que o modo de realizarem o escambo das consciências, o
sacrifício dos amigos, e o bem do País, e por
conseguinte o modo de realizarem o fruto do peculato, depois de
postos em almoeda as opiniões”.
“ A classe dos malfeitores é a que mais tem ganho com as
garantias constitucionais”.
Luz Soriano
(sobre a política do seu tempo)
Estabelecida
a paz pela Convenção de Évora-Monte, em 26 de
Maio de 1834, logo os vencedores se dividiram, entre “liberais”
(moderados e adeptos da Carta)” e “democratas” partidários
do sufrágio directo. O Parlamento reúne-se a partir de
15 de Agosto e gera-se uma balbúrdia enorme. D. Pedro IV morre
logo a 24 de Setembro, não resistindo a um mês de
Parlamento.
Entretanto
já tinha havido uma revolta em Lisboa, a 9 do mesmo mês,
de cariz esquerdista, que entrega o poder aos “democratas” que
restauram a Constituição de 1822. Daqui resultaram mais
pronunciamentos militares. Conversações com os
“Liberais” resultaram num compromisso constitucional,
aprovando-se uma nova Constituição, em 3 de Abril de
1838 (a terceira em 15 anos!).
Sem
embargo, os “liberais” não ficaram satisfeitos e, em 1842,
nova revolução militar inspirada por Costa Cabral,
dissolveu as Cortes, revogou a Constituição e
restabeleceu a Carta. A reacção a isto, leva à
revolta da Maria da Fonte, em 1846.
Saldanha
que passou entretanto para o lado moderado, não admitiu
transigências e a guerra civil prolongou-se, só acabando
com uma vexatória intervenção política e
militar da Inglaterra, da França e da Espanha!
“Acervo de teorias irrealizáveis, se teorias se podiam
chamar, de instituições talvez impossíveis
sempre, mas de certo modo impossíveis numa sociedade como a
nossa e na época em que tais instituições se iam
assim exumar do cemitério dos desacertos humanos”
Alexandre Herculano
(sobre a Constituição de 1822)
Novo
Golpe de Saldanha leva à Regeneração de 1851 e
ao Pacto da Granja de 4 de Setembro de 1865.
Instala-se
o rotativismo. Isto é, as oligarquias políticas e
económicas, acordam em pôr um pouco de ordem no caos que
se vive desde as invasões francesas e a alternarem no Poder
numa tentativa de imitar o que se passa em Inglaterra. Nasceu assim o
Partido Regenerador (mais à direita) e Progressista (mais à
esquerda).
A
melhoria das finanças a que um súbito investimento de
capitais brasileiros, derivados da proibição da
escravatura, deu um empurrão importante, permitiu algum
progresso e paz social, cujo principal obreiro foi o General Fontes
Pereira de Melo.
Conta-se
pelo meio com a “Saldanhada” último golpe perpetrado por
Saldanha, convenientemente afastado depois para a embaixada de
Londres. Foi porém sol de pouca dura. Nova crise financeira e
o “ultimatum” de 1890 e o aparecimento do Partido Republicano
(1875), abalaram os fundamentos da Monarquia. Era agora o próprio
regime que estava em causa.
“Deve aí haver factos novos, novos elementos de decomposição
que me escapam. Em todo o caso, não vejo senão uma
solução simplista – a tirania. É necessário
um sabre, tendo ao lado um pensamento”.
Eça de Queiroz
(in carta a Oliveira Martins expressando a sua reacção
à tentativa revolucionária de 3 de Janeiro de 1891)
A
primeira revolta Republicana deu-se logo a 31 de Dezembro de 1891, no
Porto. Em 1 de Fevereiro de 1908, são assassinados o Rei e o
herdeiro do trono e, em 5 de Outubro de 1910, a Monarquia de quase
sete séculos cai em menos de 24 horas. Na Rotunda restava um
oficial de Marinha, oriundo da Administração Naval e
que montou a cavalo pela 1ª vez nesse dia. O grosso do
Exército, supostamente monárquico, rendeu-se.
“Foram eles e suas absurdas e falsas reformas que nos trouxeram a
este estado. Foram eles que desmoralizaram de todo o País, que
o deslocaram e revolucionaram. Reformadores ignorantes, não
souberam dizer senão como os energúmeros de Barras e
Robespierre: abaixo! Assim se reformou esta desgraçada terra a
machado!
Mais 10 anos de barões e de regime da matéria, e
infalivelmente nos foge deste corpo agonizante de Portugal o
derradeiro suspiro do espírito.
... Não contentes de revolver até aos fundamentos a
desgraçada pátria com inovações
incoerentes, repugnantes umas às outras, e em quase tudo
absurdas, sem consultar nossos usos, nossas práticas, nenhuma
razão de conveniência, foram ainda atirar com todo este
montão de absurdos para além-mar ...”
Almeida Garrett
(sobre a implantação do liberalismo em Portugal)
Durou o
liberalismo monárquico 90 anos, de 1820 a 1910. Durante este
tempo desarticulou-se a Nação da sua matriz antiga. Foi
seu legado: seis monarcas (dois assassinados) e três regências
142 governos (um governo e meio por ano); 42 Parlamentos, dos quais
35 dissolvidos por meios violentos; 31 ditaduras (um terço do
tempo, fora da normalidade constitucional, e 51 revoluções,
pronunciamentos, golpes de estado, sedições, etc.
Este foi
o “passivo” que a República herdou.
Os 16
anos que se seguiram foram de pavorosa anarquia.
A
República era de fundo jacobino e logo anticlerical. O
liberalismo estava morto, começava a democracia directa.
Dividiram-se os republicanos em três grupos principais: os
radicais, capitaneados por Afonso Costa; e dois conservadores,
chefiados por António José de Almeida e Brito Camacho,
sem se vislumbrarem grandes diferenças nestes últimos.
A
situação degenerara de tal maneira que logo, em 23 de
Janeiro de 1915, o próprio Presidente da Republica D. Manuel
de Arriaga, endereçava uma carta ao General Pimenta de Castro
para que o ajudasse a pôr ordem no País, ao que este
anuiu impondo um governo extra partidário.
Mas o
Exército estava minado pela Carbonária e logo, a 14 de
Maio, rebentou uma sanguinolenta revolução que causou
mais de 200 mortos e 1000 feridos, colocando de novo o Partido
Democrático no Poder.
Daí
em diante o rol de assaltos, atentados, assassínios e
agressões foi aterrador! Os crimes contra a Igreja Católica
e os católicos foram infames. A reacção a todo
este descalabro veio com a revolução de 5 de Dezembro
de 1917, dirigida por Sidónio Pais.
“Para deixar ver o carácter instável da República
basta um facto: ser ela o primeiro governo que no mundo aceitou
governar com manuseadores de bombas e explosivos – artefactos só
até hoje usados por inimigos da sociedade!”
Fialho de Almeida
O país
entregou-se-lhe em esperança mas esta não durou sequer
um ano: em Dezembro de 1918, o Presidente Rei, assim chamado, foi
abatido à bala na Estação do Rossio. O País
estava envolvido na I Grande Guerra – em quatro frentes -, mas nem
isso acalmava as paixões políticas e ideológicas.
Ultrapassada
pela força a tentativa de restauração
monárquica, tentada em 1919, seguiram-se os mais
desconcertantes governos e jogadas partidárias, até que
em 19 de Outubro de 1921 as forças extremistas levaram a cabo
uma revolução abominável, durante a qual
liquidaram a sangue frio, o chefe do governo António Granjo e
o próprio fundador da República, Machado Santos e
muitos republicanos moderados.
Tal
evento deixou o país estarrecido e envergonhado.
O que se
passou nos cinco anos seguintes está para além de
qualquer descrição. O que restava do Partido
Democrático governava à rédea solta de tal modo
que se cindiu nos partidários, apesar de tudo mais
conservadores, do Engº António Maria da Silva –
conhecidos pelos “Bonzos” -, e as hordas mais infrenes e
demagógicas do Dr. João Domingos dos Santos, apelidados
de “Canhotos”.
O cúmulo
dos inacreditáveis eventos daqueles tempos é ilustrado
pelo ocorrido no dia 16 de Janeiro de 1920, em que dois elementos
democráticos mais demagógicos, conhecidos pelo “Pintor”
e o “Ai-ó-Linda”, acompanhados pelos seus caceteiros,
foram ao Terreiro do Paço, entraram de pistola em punho no
Gabinete do Presidente do Governo, Dr. Fernandes Costa, que fora
nomeado naquela manhã, intimando-o a demitir-se, o que ele
fez, sujeitando-se o Chefe do Estado a nomear, ainda nesse dia,
outro, no lugar daquele.
Num
relato do chefe de Polícia, em 1925, Coronel Ferreira do
Amaral, pode ler-se que num período de quatro anos contaram-se
oito guardas assassinados e 45 feridos a tiro e à bomba, só
em Lisboa e ainda 30 cidadãos mortos também à
bomba e 92 feridos. O número de bombas deflagradas, só
na capital, ascendeu a 325!
Tudo
isto levou Guerra Junqueiro a declarar “isso que para ai está
é uma bacanal de percevejos numa enxerga podre”
Não
espanta pois saber que tendo o conhecimento da desgraçada
situação em que se encontrava o País,
extravazado as fronteiras, se tenha inventado o termo “Portugalizar”,
para infamar os políticos e regimes anarquizantes.
E menos
deve espantar, que o Exército e a Armada portugueses tenham
ido buscar ao fundo de si próprios a força moral
necessária para se organizarem mais adequadamente para imporem
uma ditadura militar e tentarem parar a queda da Nação
no mais profundo dos abismos.
Tal
facto ocorreu no dia 28 de Maio de 1926.
“Quem diz democracia, diz naturalmente República. Mas como
se organiza a República? Aqui, à claridade dum
sentimento divino, sucede-se o nevoeiro dos sistemas humanos. E o
sistema, o espírito sistemático matou a República.
Rousseau e atrás dele Robespierre, o bastardo de Rousseau,
como disse Michelet, os jacobinos, Danton e a Convenção
na energia do seu plebeísmo, concebeu a República como
uma ditadura permanente, executada em nome da multidão pelos
chefes da sua escolha. Foi assim que julgando consolidar a igualdade,
fundaram apenas o pior dos despotismos, o despotismo da plebe”
Antero de Quental
Como
herança os 16 anos de “Democracia Directa” da I Republica,
deixou-nos: oito chefes de Estado, dos quais um foi assassinado, dois
exilados, um resignou, dois renunciaram e outro foi destituído;
52 governos, o que dá uma média de três governos
por ano; oito Parlamentos dos quais cinco foram dissolvidos
violentamente e 11 ditaduras, o que nos deixa apenas cinco anos em
que se conseguiu cumprir a Constituição aprovada em
1911.
E ao
fazer-se um balanço muito geral de um século de regime
liberal e democrático apuramos que entre 1820 e 1926 teve o
país 16 chefes de Estado, 189 governos e 50 Parlamentos dos
quais 40 dissolvidos por meios violentos. Contam-se 42 ditaduras,
quase uma ano sim, ano não.
“Tenho lido muitas vezes a palavra democracia. Tenho-a ouvida
proferir outras tantas. O que nunca li, nem ouvi, foi uma definição
precisa e rigorosa dela. Na História o que geralmente falando
constitui a principal feição do republicanismo
democrático é servir de prólogo ao cesarismo”.
Alexandre Herculano
Como tem
sido quase norma nas revoltas militares, estes sabem o que não
querem, mas não se entendem sobre o que querem. O golpe de
estado de 28 de Maio de 1926, não fugiu à regra (como
aliás, também, o de 25 de Abril de 1974 ..), tendo
passado por vicissitudes várias.
Havendo
um impasse político e sobretudo uma crise financeira
gravíssima para debelar, entendeu-se chamar para a respectiva
pasta um docente de Coimbra que já se distinguira pela sua
probidade e críticas à situação que se
arrastava há anos.
Chamava-se
António de Oliveira Salazar. Como este, ao contrário
dos demais, sabia muito bem o que queria e para onde ia, não
só rapidamente saneou o deficit financeiro, como passámos
a ter superavit orçamental. Não se enredou na baixa
política, não cedeu a pressões e não
cometeu indignidades. Ainda por cima era um patriota sem mácula.
O seu prestígio subiu em flecha.
Ainda
por cima e também em dicotomia com a maioria dos notáveis,
possuía uma doutrina global para o país. A partir de
1932 ganhou, por mérito próprio, e reconhecimento da
maioria, direito a pô-la em prática.
“Ora, seja qual for o sistema de responsabilidade encontrado para o
exercício da governação pública, uma
coisa é essencial aos governos – a autoridade, no sentido da
possibilidade constitucional e efectiva de governar.
E não pode ver-se que se chegou a boa solução
quando os diferentes poderes funcionam de tal sorte que os governos
ou não existem ou não governam, defendem-se. Se os
grupos partidários a cada momento se considerarem candidatos
ao Poder com fundamento na porção de soberania do povo
que dizem representar, a maior actividade, e vê-se até
que o maior interesse público – não se encontra nos
problemas da Nação e na descoberta das melhores
soluções, mas só na luta política. Por
mais propenso que se esteja a dar a esta algum valor como fonte de
agitação de ideias e até de preparação
de homens de governo, tem de pensar-se que onde ela atinge acuidade,
o azedume,a premencia que temos visto, todo o trabalho útil
para a Nação lhe é ingloriamente sacrificado.Tem
de distinguir-se, pois, luta política e governação
activa: os dois termos raro correrão a par”
Oliveira Salazar, 17/2/1935
A partir
de 1933 um referendo nacional – acto que até então
jamais tinha sido praticado em Portugal -, confirmou a Constituição
de 1933, entretanto aprovada no Parlamento e que tinha um documento
adicional, o Acto Colonial.
Estava
institucionalizado o que ficou conhecido como “Estado Novo”.
Com
paciência e metodologia beneditina sanearam-se a seguir, todos
os sectores da vida nacional; descolonizou-se culturalmente o país
da França e economicamente da Inglaterra; nacionalizaram-se
numerosas empresas na Metrópole e no Ultramar e
atravessaram-se com mestria política e diplomática,
gravíssimas crises internacionais como foram a Guerra Civil de
Espanha e a II Guerra Mundial. Com pontualidade suissa o banco de
Portugal ia acumulando anualmente, ouro e divisas, tornando o escudo
uma das moedas mais fortes e estáveis do mundo. E sobretudo,
tudo se fazia em termos estritamente nacionais, sem admitir
interferências estranhas à Nação,
reganhando os portugueses a confiança e respeito por si
próprios e Portugal a sua dignidade internacional.
Apenas
12 anos depois de ter tirado o Estado da sarjeta e a Nação
do pântano financeiro, económico, social e moral, em que
se encontravam, o Portugal renascido apresentava em 1940, ao mundo
assolado pela pior guerra ocorrida na História da Humanidade,
o espectáculo esplendoroso, comemorativo do duplo centenário
da Fundação e Restauração da
nacionalidade.
“Obrigar o Governo às cedências que rebaixam e às
violências que revoltam”
Brito Camacho
Este
caminho não foi fácil: as forças derrotadas em
1926, insistiram na bondade das suas teorias que a prática
amplamente condenara. A estas juntou-se a partir da sua fundação,
em 1921, o Partido Comunista Português.
Deste
modo ocorrem, logo em 1927, uma tentativa de derrube da ditadura, com
uma revolução que rebentou no Porto chefiada pelo
General Sousa Dias; mais tarde em 1931, a revolta da Madeira, que se
estendeu à Guiné, Cabo Verde e Açores; a revolta
dos contratorpedeiros Dão e Tejo, em 1936, cujas guarnições
pretendiam juntar-se às forças republicanas em Espanha
e o atentado anarquista ao Presidente do Conselho, em 1937.
Depois
disto, só em 1946, ocorreu uma tentativa frustre , que ficou
conhecida pela “Revolta da Mealhada”. A partir daqui, o Estado
Novo viveu o seu período maior de paz civil que durou até
1958 – onze anos.
Seguiu-se
um período de agitação muito intensa, onde se
inserem as tentativas de derrube do regime que são objecto de
análise específica deste colóquio: a Revolta da
Sé, em 1959, de que o país quase não se
apercebeu e se resolveu com meia dúzia de prisões; a
Abrilada de 1961, que não passou das movimentações
de bastidores e o assalto ao quartel de Beja, que por ter envolvido
meios no terreno e ter resultado em mortos e feridos, causou mais
impacto na opinião pública.
Foi um
período de grande convulsão em que o regime tremeu, que
tem como pano de fundo a agitação derivada da campanha
presidencial em 1958; do início do terrorismo em Angola, em
Março de 1961 e a perda ignomiosa de Goa, Damão e Diu,
em 18 de Dezembro do mesmo ano. Aos factos ocorridos deve-se juntar
nos fins de 1961, o desvio do Super Constelation da TAP, que fazia o
percurso Casablanca-Lisboa e o do paquete S. Maria, ao largo das
Caraíbas, acções que sem grande esforço
se podem apelidar de inauguradoras da pirataria e terrorismo moderno.
Falhados
os objectivos de todas estas tentativas de derrube da ordem política
vigente nenhuma outra houve que envolvesse militares até
1974, altura em que o Professor Salazar já não fazia
parte do numero dos vivos. O 25/4 teve a particularidade de ter
ocorrido devido a questões essencialmente corporativas, ao
contrário dos anteriores, cujo substrato era, de alguma forma,
ideológico.
Numa
análise geral e muito sucinta do envolvimento dos militares em
acções violentas de cariz político, temos em
todo o século XIX, sobretudo nos primeiros cinquenta anos, a
partidarização dos mesmos. Isto é o Exército
(lato senso) deixou de ser apenas uma força nacional,
suprapartidária, para se deixar envolver nas questões
políticas, na razão directa em que a política
deixou de ser una e passou a fraccionar-se.
“Vindo a cair numa oligarquia de facto, revestida de fórmulas
e garantias fictícias”
“Democracia, riqueza e exército; eis os três pontos de
apoio da doutrina; centralização oligárquica:
eis o seu processo”
Oliveira Martins
(sobre a Regeneração)
Existe
uma tentativa, a partir de 1851 de tentar que os militares se
confinassem aos quartéis e à sua missão de
defesa das fronteiras e das ameaças externas. Tudo se esboroa
novamente com a República e leva muito tempo a sossegar, no
Estado Novo, acabando por se gerar um equilíbrio que permitiu
à IM modernizar-se, manter a dignidade institucional,estar
presente nos órgãos de soberania, e grande autonomia no
seu comandamento. O seu Conselho Institucional era tido em conta,
tinham muitas competências na segurança interna e na
administração ultramarina e em contrapartida não
se imiscuíam na acção política e
governativa.
Foi
talvez este equilíbrio que permitiu ao principal fundador e
doutrinador do Estado Novo ter-se mantido no Poder mais de 40 anos e
a transição após a sua morte política,
ter sido pacífica.
Como
pano de fundo da maioria das intervenções políticas
dos militares, temos fragilidade política, crise financeira
entre 1817 e 1926 e sobretudo questões ideológicas:
liberais vs absolutistas; liberais conservadores vs democráticos;
regeneradores (direita) vs progressistas (esquerda); monárquicos
vs republicanos; republicanos vs conservadores. Pelo meio uma crise
religiosa profunda que durou entre 1820 e 1940.
Podemos
ainda observar que grande parte dos problemas havidos têm
origem em ideologias importadas, estranhas à matriz e à
índole do povo português, a maioria das quais divulgada
e defendida por forças internacionalistas cujas obediência
e lealdade ultrapassam ou se justapõem aos interesses
nacionais portugueses.
Finalmente,
em grande parte das intervenções militares (ou na sua
não intervenção) existem razões de ordem
interna, que muitas vezes resultam em mau estar que apenas aguardam
um “ignidor” para explodirem, como são exemplo, injustiças
de ordem remuneratória e social; a questão das
remissões, problemas de gestão de pessoal derivado de
absorção de elevado número de “milicianos”,
ataques à dignidade institucional e situações de
pobreza extrema em equipamento, armamento e munições.
Mais uma
vez se chama a atenção para o caso atípico do
golpe de estado ocorrido em 1974, em que não havia
instabilidade político-social de monta; não existia
nenhuma crise económica, nem financeira nem social e o efeito
das ideologias estranhas ao país estava confinado a franjas
universitárias, e em artistas e intelectuais. E ainda em
forças políticas, denominada de “Oposição”,
que estavam longe de terem uma influência decisiva.
Sobrava
no entanto, disensões no seio do regime, falta de acção
psicológica na retaguarda, e sobretudo uma solução
mal equacionada e pior resolvida, relativamente à falta de
candidatos às Academias Militares, sem a qual se tornava muito
difícil prosseguir as operações militares em
África. Agravava a situação algumas intervenções
infelizes de próceres do regime e de população
branca, em Angola e Moçambique ao passo que o espectro da
Índia voltou ao imaginário de algumas mentes.
“..isto é, as liberdades interessam na medida em que podem
ser exercidas, e não na medida em que são promulgadas”
Oliveira Salazar
Finalmente
quanto às intervenções políticas de
militares no século XX, deveremos distinguir aquelas que se
realizaram até 1950 e as posteriores. As primeiras ainda foram
fundamentalmente influenciadas pelos opositores ao Regime saidos da I
República e pelo Partido Comunista. Aquelas que são
objecto deste colóquio, revelam porém um facto inédito:
os seus principais inspiradores e cabecilhas foram homens que tinham
sido aderentes ao Estado Novo, quando não seus extremos
defensores.
É
o caso de Humberto Delgado, Henrique Galvão e Botelho Moniz.
O que os
terá feito mudar de campo? Uma evolução séria
de âmbito político e doutrinário, ou o despeito
originado em ambições não realizadas?
Nenhum
deles era socialista, anarquista ou comunista. Não consta que
fossem membros de nenhuma obediência maçónica,
nem tão pouco filiados na oposição dita
republicana.
Humberto
Delgado foi um dos aderentes do 28 de Maio, defendeu por palavras,
escritos e obras, a figura do Dr. Salazar e foi até punido por
ter escrito uma peça de teatro radiofónica, intitulada
“Da Pulhice do Homo Sapiens”, considerada fascizante. Teve cargos
e funções elevadas e de confiança política,tais
como o de Adjunto do Comando da Legião Portuguesa e Comissário
Adjunto da Mocidade Portuguesa. Veio de adido em Washington,
aparentemente tocado pela vivência americana (o PC chegou até
a chamar-lhe o “general coca-cola) e ambicionando vários
cargos como o de Governador de Angola, Administrador da CP, etc.
Foram-lhe negados. Não foi ainda considerado para suceder a
Craveiro Lopes. A partir daí, passou a combater o regime.
Henrique
Galvão reconhecido como muito capaz e inteligente por Salazar,
foi convidado para colaborar em várias obras do regime o que
aceitou... Ultramarinista convicto, escreveu livros e chegou a
Administrador de Distrito.
Alguns
eventos ligados a fraquezas próprias da natureza humana, terão
inviabilizado a sua nomeação para o cargo de Governador
de Angola.
Passou a
conspirar, acabando por concretizar um golpe de grande impacto
nacional e internacional: o sequestro do S. Maria e respectiva
tripulação e passageiros; mas que acabou por falhar nos
seus objectivos.
Morreu
exilado.
Botelho
Moniz esteve sempre ligado ao Regime.Por indicação de
Santos Costa foi Ministro do Interior, que era um dos cargos de
maior confiança política. Chegou até a afirmar
“a Oposição não ganha nem a tiro nem a votos”.
Numa remodelação ministerial é afastado e fica,
aparentemente, magoado. É também adido militar nos EUA.
É chefe de Estado-Maior-General das Forças Armadas e
mais tarde Ministro da Defesa Nacional, quando pensa depôr o
Presidente de Conselho de Ministros.
Participou
activamente na reforma extensa das Forças Armadas de 1958, em
que a prioridade deixa de ser a NATO, para passar a ser a defesa dos
territórios ultramarinos, nomeadamente os africanos.
Mas
quando esta defesa passa do campo da teoria para a necessidade
prática enche-se de dúvidas, tergevisa e pressionado
pela administração Kennedy através do seu
embaixador em Lisboa, tenta um golpe de estado palaciano.
A sua
determinação vacila, a avaliação que faz
da situação não é a mais correcta e
deixa-se ultrapassar pela iniciativa adversária que o
neutraliza. Acabou, simplesmente, por ir para casa ...
Finalmente
e novamente o 25 de Abril: General Spínola, prócere do
regime, observador na frente russa, durante a II Guerra Mundial,
metade da carreira feita na GNR, voluntário para combater em
Angola em 1961; Governador e Comandante Chefe na Guiné. Bom
militar; nenhuma simpatia conhecida pelo regime democrático.
Quis ser candidato a PR pelas forças que sustentavam o Poder,
em 1972. A opção foi outra. Passou a conspirar.
Conseguiu ser Presidente em 1974. Efemeramente. Mau político
como Gomes da Costa, foi o obrigado, como este, a exilar-se. Destinos
comuns, destinos diferentes.
Aprende-se
pouco em Portugal.
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