Tolerar a
tolerância?
por Simão
dos Reis Agostinho
“Desviarão
o ouvido da Verdade e divagarão ao sabor de fábulas”.
2 Tm 4,4
A
história tem sido feita da constante luta entre contrários.
Talvez aqueles que se geram mutuamente e que foram brilhantemente
expostos por Sócrates, já no cárcere.
Certamente, não são eles que se subjugam a uma qualquer
ideologia uniformizadora do passado, presente e futuro. Aliás,
no campo político são as ideologias as que mais
provocam o sentimento bélico do governo dos povos, levando a
extremos defendidos de arma em punho, como se as ideias valessem mais
que a realidade.
Pode
parecer estranho falar de ideologias que geram a sua “congénere
contrária”. Mas se analisarmos a origem da extrema-esquerda
comunista ou do nacional-socialismo, por exemplo, poderemos sem
dificuldade concluir que se tratam de produtos reaccionários a
uma corrente iluminista, liberal e burguesa. Ou seja, que nascem como
contracorrente a um rio que ganhou força no sentido da
história.
Há
quem defenda, e com bastante propriedade, que o totalitarismo surge
precisamente da necessidade de unificar o que está disperso
pela ausência de um elemento congregador. O que importa saber e
tentar compreender é que elemento é esse que necessite
de uma medida tão drástica que o tente suplantar,
obviamente sem sucesso.
Primeiro
há que considerar que ele tem o seu contrário, como
tudo. Da mesma forma que o quente se opõe ao frio, e o gera
pela sua ausência, um qualquer elemento congregador de um povo
ou sociedade terá o seu oposto assumido com tal. Neste caso,
seguindo o exemplo da reacção pós-Revolução
Francesa (e da própria revolução), a vontade dos
indivíduos e o primado dessa mesma vontade surgiram como
contraponto do reconhecimento da Verdade exterior ao homem, sem
manipulação ou mancha, que requeresse o acto da Fé
na revelação.
Os homens
almejaram a liberdade pela desobediência à Verdade que,
não por acaso, diz-se ainda hoje que liberta. Tentaram
construir um mundo onde só contasse a vontade volátil
e, reaccionariamente mais tarde, a da raça ou a do fim da
história segundo o materialismo dialéctico e ateu.
Esqueceram, pela imposição da ideologia nova (muito
Nietzscheana) que a realidade conta muito mais que a ideia que se lhe
tenta impor, do mesmo modo que a Verdade não se coaduna com a
mentira que pode emanar das nossas considerações
manipuladoras.
Foi neste
sentido que o homem se colocou no centro do universo. Reclamou para
si a detenção da Verdade, a sua produção,
distribuição e conveniência. Negou-a porque lhe
escapa ao poder decisório, renegando assim o papel de
cumpridor e libertado pela obediência. Optou, genericamente
falando, pelo caminho do egoísmo, divinizando-se no papel de
Deus.
O homem
das luzes escolheu, na liberdade que a Verdade lhe concede, a
renuncia à causa da possibilidade da sua escolha. Enveredou
pelo contrário da Verdade que, como é sabido porque
reconhecido, é a mentira. Uma mentira que se auto-impõe,
mentindo a si próprio.
Ora,
voltando a Sócrates e ao seu cárcere, não será
a mentira constituinte do mal? E não será a Verdade
proprietária do Bem?
Mais: não
será o mal a existência pela ausência do que é?
Ou seja, o produto que é a partir da ausência de algo
que já era?
Não
será o mal a pura ausência do Bem, na medida em que este
se esvazia do coração do homem?
As
perguntas são tão pertinentes como saber que futuro
esperar. Na Europa em que vivemos, filha da morte de Luis XVI,
percebemos que o Bem se relativizou à escala atómica,
quanto muito celular. Desapareceram as sociedades cristãs para
darem lugar às sociedades dos cristãos.
Numa
lógica de tolerância entre os homens, a única
ideia que não se tolera é a de não haver “ideias
ideológicas”. Promove-se a constante guerra civil com o
culto do contraditório, quando o Estado exerce um
totalitarismo velado para manter a argamassa social que se desmorona.
Bem se tem dito que os homens não vivem mais em sociedade, mas
nas sociedades.
Hoje tudo
se discute ao sabor da conveniência da história. O caso
do recente referendo ao aborto em Portugal, é exemplo mais do
que esclarecedor de como o Bem da Verdade da vida humana se anula
perante a arrogância de um pragmatismo cego, quase tecnocrata.
E é
nesta medida que faz todo o sentido denunciar a tolerância da
tolerância, que tem um contrário óbvio: o anúncio
da Verdade. A Europa precisa de encontrar este elo de comunhão
e este sentido da sua história. A intolerância será,
digo eu, a melhor forma. Intolerância perante ao mal, a mentira
e o erro.
Como
poderemos continuar a assumir a tolerância como Bem, por
questão de princípio e de “respeito pela diferença”?
Como aceitar a própria indiferença que esta situação
cria? O que opor à pseudo-virtude iluminista?
Se a
Europa voltar às suas raízes cristãs e
helénicas, encontrará certamente a paciência
necessária para a conversão. O elemento congregador é
o Bem da Verdade.
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