Ano I - Nº 7, Março/Abril de 2007
Alameda Digital
Um Crepúsculo Europeu
Tolerar a tolerância?

por Simão dos Reis Agostinho

“Desviarão o ouvido da Verdade e divagarão ao sabor de fábulas”.

2 Tm 4,4

A história tem sido feita da constante luta entre contrários. Talvez aqueles que se geram mutuamente e que foram brilhantemente expostos por Sócrates, já no cárcere. Certamente, não são eles que se subjugam a uma qualquer ideologia uniformizadora do passado, presente e futuro. Aliás, no campo político são as ideologias as que mais provocam o sentimento bélico do governo dos povos, levando a extremos defendidos de arma em punho, como se as ideias valessem mais que a realidade.

Pode parecer estranho falar de ideologias que geram a sua “congénere contrária”. Mas se analisarmos a origem da extrema-esquerda comunista ou do nacional-socialismo, por exemplo, poderemos sem dificuldade concluir que se tratam de produtos reaccionários a uma corrente iluminista, liberal e burguesa. Ou seja, que nascem como contracorrente a um rio que ganhou força no sentido da história.

Há quem defenda, e com bastante propriedade, que o totalitarismo surge precisamente da necessidade de unificar o que está disperso pela ausência de um elemento congregador. O que importa saber e tentar compreender é que elemento é esse que necessite de uma medida tão drástica que o tente suplantar, obviamente sem sucesso.

Primeiro há que considerar que ele tem o seu contrário, como tudo. Da mesma forma que o quente se opõe ao frio, e o gera pela sua ausência, um qualquer elemento congregador de um povo ou sociedade terá o seu oposto assumido com tal. Neste caso, seguindo o exemplo da reacção pós-Revolução Francesa (e da própria revolução), a vontade dos indivíduos e o primado dessa mesma vontade surgiram como contraponto do reconhecimento da Verdade exterior ao homem, sem manipulação ou mancha, que requeresse o acto da Fé na revelação.

Os homens almejaram a liberdade pela desobediência à Verdade que, não por acaso, diz-se ainda hoje que liberta. Tentaram construir um mundo onde só contasse a vontade volátil e, reaccionariamente mais tarde, a da raça ou a do fim da história segundo o materialismo dialéctico e ateu. Esqueceram, pela imposição da ideologia nova (muito Nietzscheana) que a realidade conta muito mais que a ideia que se lhe tenta impor, do mesmo modo que a Verdade não se coaduna com a mentira que pode emanar das nossas considerações manipuladoras.

Foi neste sentido que o homem se colocou no centro do universo. Reclamou para si a detenção da Verdade, a sua produção, distribuição e conveniência. Negou-a porque lhe escapa ao poder decisório, renegando assim o papel de cumpridor e libertado pela obediência. Optou, genericamente falando, pelo caminho do egoísmo, divinizando-se no papel de Deus.

O homem das luzes escolheu, na liberdade que a Verdade lhe concede, a renuncia à causa da possibilidade da sua escolha. Enveredou pelo contrário da Verdade que, como é sabido porque reconhecido, é a mentira. Uma mentira que se auto-impõe, mentindo a si próprio.

Ora, voltando a Sócrates e ao seu cárcere, não será a mentira constituinte do mal? E não será a Verdade proprietária do Bem?

Mais: não será o mal a existência pela ausência do que é? Ou seja, o produto que é a partir da ausência de algo que já era?

Não será o mal a pura ausência do Bem, na medida em que este se esvazia do coração do homem?

As perguntas são tão pertinentes como saber que futuro esperar. Na Europa em que vivemos, filha da morte de Luis XVI, percebemos que o Bem se relativizou à escala atómica, quanto muito celular. Desapareceram as sociedades cristãs para darem lugar às sociedades dos cristãos.

Numa lógica de tolerância entre os homens, a única ideia que não se tolera é a de não haver “ideias ideológicas”. Promove-se a constante guerra civil com o culto do contraditório, quando o Estado exerce um totalitarismo velado para manter a argamassa social que se desmorona. Bem se tem dito que os homens não vivem mais em sociedade, mas nas sociedades.

Hoje tudo se discute ao sabor da conveniência da história. O caso do recente referendo ao aborto em Portugal, é exemplo mais do que esclarecedor de como o Bem da Verdade da vida humana se anula perante a arrogância de um pragmatismo cego, quase tecnocrata.

E é nesta medida que faz todo o sentido denunciar a tolerância da tolerância, que tem um contrário óbvio: o anúncio da Verdade. A Europa precisa de encontrar este elo de comunhão e este sentido da sua história. A intolerância será, digo eu, a melhor forma. Intolerância perante ao mal, a mentira e o erro.

Como poderemos continuar a assumir a tolerância como Bem, por questão de princípio e de “respeito pela diferença”? Como aceitar a própria indiferença que esta situação cria? O que opor à pseudo-virtude iluminista?

Se a Europa voltar às suas raízes cristãs e helénicas, encontrará certamente a paciência necessária para a conversão. O elemento congregador é o Bem da Verdade.

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