Ano I - Nº 8, Maio/Junho de 2007
Alameda Digital
A Direita e as Direitas
A Direita “mole”

por Marcos Pinho de Escobar

Esquerda, Direita … Nunca é demais recordar que a clivagem esquerda-direita tem origem histórica na Assembleia Constituinte da França revolucionária (1789-1791). Reunida pela primeira vez na sala rectangular do Manège, no palácio das Tuileries, os deputados adoptaram uma distribuição espacial em função de sua posição relativamente à questão do veto real. À direita do presidente colocaram-se os partidários do veto; à esquerda os seus opositores. A partir de então as diferentes tendências políticas passaram a agrupar-se segundo esta clivagem inicial. A revolução da liberdade, da igualdade e da fraternidade dava os seus primeiros passos. Mais adiante coube a uma afiada guilhotina definir com precisão cirúrgica a trilogia revolucionária e aplicá-la com decisão ao Trono, ao Altar e aos defensores da Tradição. Há mais de dois séculos que esta “grande dicotomia”, como lhe chama Bobbio, vem sendo utilizada para classificar as posições ideológicas que habitam o mundo – necessariamente conflituoso – do pensamento e da acção. O fim da Grande Guerra em 1945 levou à criminalização da Direita autêntica, contra-revolucionária, se se quer, enquanto a Esquerda, em todas as suas vertentes, era premiada com garantias de eterna respeitabilidade. Estava aberto o caminho para a criação de uma falsa Direita tolerada pela verdadeira Esquerda. Trata-se da Direita mole.

A Direita mole é aquela que sucumbiu à Revolução e aceita todos os seus “dogmas”. Da defesa do Trono e do Altar, da Ordem e da Tradição, a Direita mole passa à defesa da República. É a Direita que alinha com a vigarice democrática. É a Direita embevecida com a falsa trilogia liberdade-igualdade-fraternidade. É a Direita encantada com a ditadura da aritmética a substituir a noção da Verdade e do Erro. É a Direita que colabora directa ou indirectamente com a destruição da Lei Natural. É a Direita para quem os chavões demo-liberais valem mais do que a integridade do corpo nacional. A Direita mole é aquela que deixou para trás o princípio da unidade e passou a crer firmemente na fragmentação nacional operada pelo sistema de partidos – e no clima de permanente guerra civil daí resultante.

Complexada e cobarde a Direita mole curva-se à hegemonia da Esquerda e permite que essa lhe defina o espaço e a actuação. É a Direita que endossa a demagogia. É a Direita que aceita a agenda imposta pela Esquerda e que limita-se a questionar – com pézinhos de lã, já se vê – temas de segundo ou terceiro plano. É a Direita que apressa-se a incorporar as posições da Esquerda, com alguma variação de matiz, é certo, para não perder o comboio da modernidade, ganhar pontos de popularidade, ficar de bem com os media. A Direita mole sente imenso pavor diante da possibilidade de ser rotulada “Direita” e experimenta um dulcíssimo alívio quando é tratada por “Centro”. Por vezes, quando alguma figura da Direita mole ousa pisar fora dos carris que lhe foram asignados, basta que a Esquerda ameace com a variante “Extrema-Direita” – logo igualada ao fascismo e ao nazismo – e o atrevido recolhe-se. É a Direita que tem medo da Esquerda e que não ousa dizer em alto e bom som as coisas que uma grande parte da população – quiçá a sua maioria – pensa mas não se atreve a dizer.

A Direita mole é a Direita que convém à Esquerda. É a Direita que não serve.

   
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