A Direita “mole”
por Marcos
Pinho de Escobar
Esquerda,
Direita … Nunca é demais recordar que a clivagem
esquerda-direita tem origem histórica na Assembleia
Constituinte da França revolucionária (1789-1791).
Reunida pela primeira vez na sala rectangular do Manège,
no palácio das Tuileries, os deputados adoptaram uma
distribuição espacial em função de sua
posição relativamente à questão do veto
real. À direita do presidente colocaram-se os partidários
do veto; à esquerda os seus opositores. A partir de então
as diferentes tendências políticas passaram a agrupar-se
segundo esta clivagem inicial. A revolução da liberdade, da igualdade e da fraternidade dava
os seus primeiros passos. Mais adiante coube a uma afiada guilhotina
definir com precisão cirúrgica a trilogia
revolucionária e aplicá-la com decisão ao Trono,
ao Altar e aos defensores da Tradição. Há mais
de dois séculos que esta “grande dicotomia”, como lhe
chama Bobbio, vem sendo utilizada para classificar as posições
ideológicas que habitam o mundo – necessariamente
conflituoso – do pensamento e da acção. O fim da
Grande Guerra em 1945 levou à criminalização da
Direita autêntica, contra-revolucionária, se se quer,
enquanto a Esquerda, em todas as suas vertentes, era premiada com
garantias de eterna respeitabilidade. Estava aberto o caminho para a
criação de uma falsa Direita tolerada pela verdadeira
Esquerda. Trata-se da Direita mole.
A Direita
mole é aquela que sucumbiu à Revolução e
aceita todos os seus “dogmas”. Da defesa do Trono e do Altar, da
Ordem e da Tradição, a Direita mole passa à
defesa da República. É a Direita que alinha com a
vigarice democrática. É a Direita embevecida com a
falsa trilogia liberdade-igualdade-fraternidade. É a Direita
encantada com a ditadura da aritmética a substituir a noção
da Verdade e do Erro. É a Direita que colabora directa ou
indirectamente com a destruição da Lei Natural. É
a Direita para quem os chavões demo-liberais valem mais do que
a integridade do corpo nacional. A Direita mole é aquela que
deixou para trás o princípio da unidade e passou a crer
firmemente na fragmentação nacional operada pelo
sistema de partidos – e no clima de permanente guerra civil daí
resultante.
Complexada
e cobarde a Direita mole curva-se à hegemonia da Esquerda e
permite que essa lhe defina o espaço e a actuação.
É a Direita que endossa a demagogia. É a Direita que
aceita a agenda imposta pela Esquerda e que limita-se a questionar –
com pézinhos de lã, já se vê – temas de
segundo ou terceiro plano. É a Direita que apressa-se a
incorporar as posições da Esquerda, com alguma variação
de matiz, é certo, para não perder o comboio da
modernidade, ganhar pontos de popularidade, ficar de bem com os media. A Direita mole sente imenso pavor diante da
possibilidade de ser rotulada “Direita” e experimenta um
dulcíssimo alívio quando é tratada por “Centro”.
Por vezes, quando alguma figura da Direita mole ousa pisar fora dos
carris que lhe foram asignados, basta que a Esquerda ameace com a
variante “Extrema-Direita” – logo igualada ao fascismo e ao
nazismo – e o atrevido recolhe-se. É a Direita que tem medo
da Esquerda e que não ousa dizer em alto e bom som as coisas
que uma grande parte da população – quiçá
a sua maioria – pensa mas não se atreve a dizer.
A Direita
mole é a Direita que convém à Esquerda. É
a Direita que não serve.
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