| Clínica das Letras
por Bruno
Oliveira Santos
Anti-isto Encenador, poeta, novelista, ensaísta, dramaturgo, pintor,
escultor, ceramista, António Pedro é uma das grandes
figuras da cultura portuguesa do século XX. Foi com ele, no
fim dos anos 30, que se começou a falar entre nós de
surrealismo, conhecido então por super-realismo ou
sobre-realismo.
Poeta
de início marcado por uma estesia simbolista e decadentista
(“Os Meus Sete Pecados Capitais”, de 1926, e “Máquina de
Vidro”, de 1931), com influências de António Botto e
Guilherme de Faria, evoluiu depois para tentações de
índole experimentalista. É o caso do dimensionismo,
tentativa de conciliar a expressão poética e a
expressão plástica através de poemas que incluem
desenhos (“A poesia precisa cada vez menos de palavras. A pintura
precisa cada vez mais de poesia.”)
“Apenas
uma Narrativa”, publicado em 1942, é a primeira novela do
surrealismo português, plena de densidade poética e
imaginativa. O livro é apenas uma narrativa daquilo que
não aconteceu, com dedicatória surpreendente a Aquilino
Ribeiro.
[António
Pedro, Apenas uma Narrativa, Edições Quási,
2007, 85 págs., €10,50]
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Fernanda
de Castro: Obras Completas O Círculo de Leitores decidiu
editar a obra completa em 16 volumes, inéditos incluídos,
da primeira mulher que obteve o Prémio Ricardo Malheiros da
Academia de Ciências de Lisboa: Fernanda de Castro, mulher de
António Ferro, mãe de António Quadros e avó
de Rita Ferro. Uma obra variada e fecunda, que vai da poesia aos
livros para crianças, do romance à tradução
de autores consagrados como Maeterlinck, Mansfield, Rilke, Pirandello
e Ionesco. Poetisa de recorte afectivo, com um estilo límpido
e melodioso, sagrou-se nos demais domínios sempre com a mesma
limpidez. O volume que ora se publica inclui o romance «Sorte»
e os célebres títulos de literatura infantil
«Mariazinha em África» e «Novas Aventuras de
Mariazinha».
[Fernanda
de Castro, Obras Completas, Círculo de Leitores, 2007,
€19,90 cada volume]
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Um
português no Japão O livro não é
propriamente de ficção, mas um breve texto fundamental
para os apreciadores de chá. Wenceslau de Moraes escreveu-o em
1905, no Japão. Nós, portugueses, somos assim. Do
extremo ocidental da Europa demandámos o Extremo-Oriente.
Nados num país com a vocação dos extremos, só
os extremos nos assentam bem. Nunca fomos de águas mornas e
pantanosas.
O
Culto do Chá cabe nesta coluna porque a prosa de Moraes —
que entrecruza quimonos, hábitos longínquos e as
plantações de Uji, cerca de Quioto, muito antes do
protocolo — é sempre a prosa dum poeta. Dum magnífico
poeta.
[Wenceslau
de Moraes, O Culto do Chá, Padrões Culturais
Editora, 2007, 76 págs., €9,30]
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O
espelho da vida A colecção de literatura fantástica
que Jorge Luis Borges dirigiu, a rogos do editor Franco Maria Ricci,
está a ser editada entre nós pela Editorial Presença.
O terceiro livro de «A Biblioteca de Babel», assim
denominada muito à maneira de Borges, veio agora a lume: uma
reunião de contos de Giovanni Papini, chamada «O Espelho
Que Foge». Dez textos que, no fundo, são um só,
visto que por todos eles perpassa a melancolia e a desesperança
tão papinianas, que o autor quase sempre consegue elevar ao
domínio da parábola. Textos que a um tempo esboçam
as agruras da vida e a brevidade da existência. Papini inscreve
o seu nome, por direito próprio, no clube restrito dos grandes
polemistas e predicadores sagrados, onde convive com Bloy e
Chesterton, entre outros de semelhante envergadura.
[Giovanni
Papini, O Espelho Que Foge, Editorial Presença, 2007,
tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo, 129 págs.,
€17,50]
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Salammbô Alguns anos após o romance «Madame Bovary», cujo
sucesso lhe desagradou, Flaubert pôs-se a escrever um livro de
fôlego, cheio de referências histórico-culturais e
sem adúlteras de pé de página.
Salammbô,
personagem de ficção, filha de Amílcar
Barca, general e comandante das tropas cartaginesas,
é a protagonista duma história que retrata a violência
do homem, esse animal pacífico e democrata, que de vez em
quando, para se entreter, dizima aos magotes. O livro, publicado em
1862, foi verdadeiramente inovador, menos pela violência inata
e rotineira do que por certos processos literários que abriram
caminho ao realismo oitocentista.
[Gustave
Flaubert, Salammbô, Relógio d’Água,
2007, trad. de Pedro Tamen, 275 págs., €15,00] |