Ano I - Nº 8, Maio/Junho de 2007
Alameda Digital
A Direita e as Direitas
A direita nunca existiu

Um artigo de Eduardo Freitas da Costa, publicado no semanário “A Rua”

Desde sempre - e mais agudamente, como é natural, nas épocas de crise - é costume observar-se que a “direita” não se sabe organizar, não tem capacidade para se defender, nem mostra a menor habilidade para assaltar o poder; que a “direita” não aparece, não vai votar quando é preciso, nunca promove esmagadoras mobilizações de massas; que a “direita” é apática, passiva, não se mexe, não se agita nem agita quem quer que seja. Quem não ouviu já estas ou parecidas acusações, repetidas - com desencantada tristeza por uns, com feroz alegria por outros – não apenas em Portugal, é claro, mas em Espanha, em França, na Itália... por toda a parte?

E atrás das criticas, a grande interrogação: Porquê? Porque se passa tudo isso com a “direita”? Porquê essa inoperância, essa falta de organização e actividade da “direita”? A resposta é provavelmente muito simples. A resposta, provavelmente, é que a chamada “direita", como entidade política, não existe e nunca existiu.

A que é uso, com efeito, chamar em política “a direita”? Sabe-se por demais como tudo começou: com o famoso acidente geográfico de se sentarem uns senhores à direita e outros à esquerda da sala nos Estados Gerais de que nasceu a Revolução francesa. Não tinha, então, o termo qualquer espécie de conteúdo ideológico e menos ainda qualquer tipo de consistência estrutural. Mas os que pretendiam subverter os esquemas da sociedade tal como ela se encontrava naturalmente organizada viram aí, na etiqueta simplificadora, um excelente instrumento de combate que souberam imediatamente aproveitar com astuta eficácia: a “direita” passaria a ser o nome que se havia de dar a tudo quanto se pretendia, justa ou injustamente, desmantelar e destruir: privilégios supostos ou reais, discriminações razoáveis ou irracionais, imobilismos estioladores ou tradições estimulantes.

Porque, realmente, naquilo a que é costume chamar “a direita” o que fundamentalmente se encontra condensado é, pura e simplesmente, a vida natural - tal como ela é na realidade e merece a pena ser vivida: o trabalho em paz, a propriedade honradamente ganha, a preparação cultural suficiente para o acesso decente às fontes de receita necessárias, a família sem abortos nem divórcios, os ócios gozados sem agressões interruptoras; tudo isto, é claro, com as também naturais injustiças, abusos, erros, desvios, - para os quais a indispensável estrutura jurídica, mais a dimensão e a maturidade da sociedade a que se aplica, terá de estabelecer os não menos indispensáveis mecanismos correctores. A “direita” é a naturalidade, a normalidade, o livre e espontâneo desenvolvimento das potencialidades orgânicas do Homem integral - alma e corpo. E por isso nunca pensou em criar nem organizações, nem defesas, nem mobilizações - como ninguém se lembra de estabelecer as normas e os exames que levem um pai a tratar de dar de comer aos filhos ou uma dona de casa a lavar as camisas com que o marido há-de ir para o trabalho.

A “direita”, aquilo a que se convencionou chamar “a direita", nunca sentiu a necessidade de se estruturar em termos de combate, porque a única reivindicação que tem a apresentar é a de que se permita a todos uma vida “normal”, a de que se respeitem os valores “naturais” do Homem.

E “a esquerda”? As “esquerdas”? Essas, sim. Como do que tratam é de submeter a sociedade a esquemas construí-dos abstractamente, a formulações jurídicas aprioristicas (de onde acaba sempre por nascer o famoso divórcio entre "país legal" e "país real", de que sempre acabam por se queixar os povos dominados por elas), que não são naturais - têm fatalmente de montar máquinas destinadas a impor (à força: militar, económica, psicológica...) as ditas estruturas artificiais a situações naturais que elas contrariam por definição. Por isso as “esquerdas” se organizam, se defendem, se mobilizam, se infïltram, procuram assaltar o poder, procuram fazer tábua rasa do que encontram de normal e natural pela frente. E precisam de ter um “inimigo”, que mantenha tudo isso permanentemente em tensão, em alerta, precavido contra a famosa verificação de que “chassez le naturel, il revient au galop”; e o inimigo precisa de ser reconhecível com etiquetas simples, que evitem análises e reflexões (posto que estas imediatamente revelariam o truque), como podem ser - por ordem cronológica de invenção... - a “direita”, o “capitalismo monopolista e latifundiário”, o “fascismo”, o “imperialismo”...

A “direita política” é, efectivamente e assim, apenas uma grosseira embora eficaz inovação da esquerda. A “direita política” nunca existiu e só cristaliza como reacção, também natural, a quanto pretende destruir pela força tudo quanto é natural no Homem.

E se procurássemos institucionalizar a normalidade? Se organizássemos a naturalidade, para vivermos e sermos governados em termos naturais?

   
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