A direita nunca existiu
Um
artigo de Eduardo Freitas da Costa, publicado no semanário “A Rua”
Desde sempre - e mais
agudamente, como é natural, nas épocas de crise - é
costume observar-se que a “direita” não se sabe organizar,
não tem capacidade para se defender, nem mostra a menor
habilidade para assaltar o poder; que a “direita” não
aparece, não vai votar quando é preciso, nunca promove
esmagadoras mobilizações de massas; que a “direita”
é apática, passiva, não se mexe, não se
agita nem agita quem quer que seja. Quem não ouviu já
estas ou parecidas acusações, repetidas - com
desencantada tristeza por uns, com feroz alegria por outros – não
apenas em Portugal, é claro, mas em Espanha, em França,
na Itália... por toda a parte?
E atrás das
criticas, a grande interrogação: Porquê? Porque
se passa tudo isso com a “direita”? Porquê essa
inoperância, essa falta de organização e
actividade da “direita”? A resposta é provavelmente muito
simples. A resposta, provavelmente, é que a chamada “direita",
como entidade política, não existe e nunca existiu.
A que é uso, com
efeito, chamar em política “a direita”? Sabe-se por demais
como tudo começou: com o famoso acidente geográfico de
se sentarem uns senhores à direita e outros à esquerda
da sala nos Estados Gerais de que nasceu a Revolução
francesa. Não tinha, então, o termo qualquer espécie
de conteúdo ideológico e menos ainda qualquer tipo de
consistência estrutural. Mas os que pretendiam subverter os
esquemas da sociedade tal como ela se encontrava naturalmente
organizada viram aí, na etiqueta simplificadora, um excelente
instrumento de combate que souberam imediatamente aproveitar com
astuta eficácia: a “direita” passaria a ser o nome que se
havia de dar a tudo quanto se pretendia, justa ou injustamente,
desmantelar e destruir: privilégios supostos ou reais,
discriminações razoáveis ou irracionais,
imobilismos estioladores ou tradições estimulantes.
Porque,
realmente, naquilo a que é costume chamar “a direita” o
que fundamentalmente se encontra condensado é, pura e
simplesmente, a vida natural - tal como ela é na realidade e
merece a pena ser vivida: o trabalho em paz, a propriedade
honradamente ganha, a preparação cultural suficiente
para o acesso decente às fontes de receita necessárias,
a família sem abortos nem divórcios, os ócios
gozados sem agressões interruptoras; tudo isto, é
claro, com as também naturais injustiças, abusos,
erros, desvios, - para os quais a indispensável estrutura
jurídica, mais a dimensão e a maturidade da sociedade a
que se aplica, terá de estabelecer os não menos
indispensáveis mecanismos correctores. A “direita” é
a naturalidade, a normalidade, o livre e espontâneo
desenvolvimento das potencialidades orgânicas do Homem integral
- alma e corpo. E por isso nunca pensou em criar nem organizações,
nem defesas, nem mobilizações - como ninguém se
lembra de estabelecer as normas e os exames que levem um pai a tratar
de dar de comer aos filhos ou uma dona de casa a lavar as camisas com
que o marido há-de ir para o trabalho.
A “direita”, aquilo
a que se convencionou chamar “a direita", nunca sentiu a
necessidade de se estruturar em termos de combate, porque a única
reivindicação que tem a apresentar é a de que se
permita a todos uma vida “normal”, a de que se respeitem os
valores “naturais” do Homem.
E
“a esquerda”? As “esquerdas”? Essas, sim. Como do que tratam
é de submeter a sociedade a esquemas construí-dos
abstractamente, a formulações jurídicas
aprioristicas (de onde acaba sempre por nascer o famoso divórcio
entre "país legal" e "país real",
de que sempre acabam por se queixar os povos dominados por elas), que
não são naturais - têm fatalmente de montar
máquinas destinadas a impor (à força: militar,
económica, psicológica...) as ditas estruturas
artificiais a situações naturais que elas contrariam
por definição. Por isso as “esquerdas” se
organizam, se defendem, se mobilizam, se infïltram, procuram
assaltar o poder, procuram fazer tábua rasa do que encontram
de normal e natural pela frente. E precisam de ter um “inimigo”,
que mantenha tudo isso permanentemente em tensão, em alerta,
precavido contra a famosa verificação de que “chassez
le naturel, il revient au galop”;
e o inimigo precisa de ser reconhecível com etiquetas simples,
que evitem análises e reflexões (posto que estas
imediatamente revelariam o truque), como podem ser - por ordem
cronológica de invenção... - a “direita”, o
“capitalismo monopolista e latifundiário”, o “fascismo”,
o “imperialismo”...
A “direita política” é,
efectivamente e assim, apenas uma grosseira embora eficaz inovação
da esquerda. A “direita política” nunca existiu e só
cristaliza como reacção, também natural, a
quanto pretende destruir pela força tudo quanto é
natural no Homem.
E se procurássemos
institucionalizar a normalidade? Se organizássemos a
naturalidade, para vivermos e sermos governados em termos naturais? |