Ano I - Nº 8, Maio/Junho de 2007
Alameda Digital
A Direita e as Direitas
A Direita nunca existiu

por Miguel Freitas da Costa*

Na pré-história daquilo a que se chamou "revolução conservadora", nos Estados Unidos, o senador Barry Goldwater, candidato do Partido Republicano à Presidência, contra o democrata Lyndon Johnson (estamos em 1964), tinha um slogan "In your heart you know he's right". A campanha do Partido Democrático fez colar em cima dos cartazes e outdoors do candidato republicano uma faixa que dizia, simplesmente, "Yes, extreme right". Não se sabe em que medida esta brilhante ideia contribuiu para o resultado, mas o senador do Arizona sofreu uma das maiores derrotas de todos os tempos na história das presidenciais americanas. Na América - como neste mundo que os americanos em grande parte criaram - há uma geral e quase invencível repugnância pelas ideias políticas definidas e a etiqueta "direita", em particular, não dá muitos votos. O labéu "extrema direita", já se sabe, é puro veneno eleitoral.

Parece um contra-senso. A linguagem comum parece desmentir esta evidência política. Nunca se ouviu que Deus escrevesse torto por linhas direitas. Ou que os justos se sentassem à mão esquerda de Deus Pai. Um homem bom ou sério é recto ou direito. Há homens e mulheres às direitas - felizmente. Quem é que se lembraria de os gabar dizendo que são "às esquerdas"? Quando queremos honrar ou distinguir alguém não o sentamos do nosso lado esquerdo. A mão direita é a mão da justiça - ter muita mano izquierda, em espanhol, é ser habilidoso de uma maneira vagamente pejorativa. O que é turvo, ameaçador, sombrio, perverso, demoníaco - é "sinistro". Mesmo a esquerda quer "cortar a direito".

O problema é que a "direita" em política é uma invenção da esquerda. Antes da Revolução Francesa não existia essa divisão do espectro político entre esquerda e direita, que hoje achamos tão natural. Tem o significado que a esquerda desde o princípio lhe deu de um lado - à esquerda, claro - os amigos da Humanidade, do progresso e do futuro; do outro, os últimos redutos de um passado tremendo, os defensores dos privilégios de uns poucos contra os direitos e as legítimas aspirações dos muitos, a última linha de resistência de uma situação iníqua por definição que se recusa a morrer - e para o caso tanto faz que esteja morta e enterrada, como hoje está, há muito, o Antigo Regime. A doutrina estava na própria definição dos termos - e por isso Joseph de Maistre dava superficialmente razão aos revolucionários quando escrevia: "A contra-revolução não é uma revolução ao contrário, é o contrário de uma revolução". 200 anos de propaganda fizeram o resto: para a opinião que em geral se publica, nada do que acontece de politicamente mau deixa de ser imputado à "direita", incluindo os desmandos de toda a espécie de socialismo, no presente e sobretudo no século passado, incluindo o nacional-socialismo, ou a defesa da ortodoxia comunista. É uma coisa que toda a gente sabe. Não é preciso explicar isto nem ao mais ignorante dos cidadãos. No nosso coração - que ao contrário do que pensava Goldwater - está à esquerda e não pode deixar de ser de esquerda - sabemos quem é que tem razão.

O "caldo de cultura" em que vivemos - e que é comum ao que alguns chamávamos, no nosso santo fervor juvenil, "materialismo prático" e ao "materialismo dialéctico" - continua a fervilhar na panela. Enquanto for assim e persistir aquilo que o politólogo Jacques Ellul designava num livro dos anos 70 por "imagem motriz global" do nosso tempo, os "mitos modernos" da "luta de classes, a felicidade, o progresso, a juventude, a técnica e o trabalho", Adriano Moreira e outros poderão continuar a explicar sem escandalizar ninguém que "esquerda" e a "direita" são, muito simplesmente, os nomes que em política se dá aos pobres e aos ricos e que hoje ganhariam novo sentido - como explicou o ilustre professor na televisão - na guerra civil global do Norte contra o Sul, uma velhíssima ideia marxista e leninista agora rejuvenescida.

A "direita" foi e será sempre o que a esquerda quiser designar como tal. Só por desafio alguém se intitula "de direita". A "direita" não existe e nunca existiu como entidade filosófica ou política autónoma. O que existe é o Bem e o Mal, as verdades e as mentiras. O resto são arranjos partidários. Podem fazer muita falta. Mas são apenas arranjos partidários.

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* Artigo de Miguel Freitas da Costa, no "Diário de Notícias" de 15 de Março de 2005.

   
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