A
Direita nunca existiu
por Miguel Freitas da Costa*
Na
pré-história daquilo a que se chamou "revolução
conservadora", nos Estados Unidos, o senador Barry Goldwater,
candidato do Partido Republicano à Presidência, contra o
democrata Lyndon Johnson (estamos em 1964), tinha um slogan "In
your heart you know he's right". A campanha do Partido
Democrático fez colar em cima dos cartazes e outdoors do
candidato republicano uma faixa que dizia, simplesmente, "Yes,
extreme right". Não se sabe em que medida esta brilhante
ideia contribuiu para o resultado, mas o senador do Arizona sofreu
uma das maiores derrotas de todos os tempos na história das
presidenciais americanas. Na América - como neste mundo que os
americanos em grande parte criaram - há uma geral e quase
invencível repugnância pelas ideias políticas
definidas e a etiqueta "direita", em particular, não
dá muitos votos. O labéu "extrema direita",
já se sabe, é puro veneno eleitoral.
Parece
um contra-senso. A linguagem comum parece desmentir esta evidência
política. Nunca se ouviu que Deus escrevesse torto por linhas
direitas. Ou que os justos se sentassem à mão esquerda
de Deus Pai. Um homem bom ou sério é recto ou direito.
Há homens e mulheres às direitas - felizmente. Quem é
que se lembraria de os gabar dizendo que são "às
esquerdas"? Quando queremos honrar ou distinguir alguém
não o sentamos do nosso lado esquerdo. A mão direita é
a mão da justiça - ter muita mano izquierda, em
espanhol, é ser habilidoso de uma maneira vagamente
pejorativa. O que é turvo, ameaçador, sombrio,
perverso, demoníaco - é "sinistro". Mesmo a
esquerda quer "cortar a direito".
O
problema é que a "direita" em política é
uma invenção da esquerda. Antes da Revolução
Francesa não existia essa divisão do espectro político
entre esquerda e direita, que hoje achamos tão natural. Tem o
significado que a esquerda desde o princípio lhe deu de um
lado - à esquerda, claro - os amigos da Humanidade, do
progresso e do futuro; do outro, os últimos redutos de um
passado tremendo, os defensores dos privilégios de uns poucos
contra os direitos e as legítimas aspirações dos
muitos, a última linha de resistência de uma situação
iníqua por definição que se recusa a morrer - e
para o caso tanto faz que esteja morta e enterrada, como hoje está,
há muito, o Antigo Regime. A doutrina estava na própria
definição dos termos - e por isso Joseph de Maistre
dava superficialmente razão aos revolucionários quando
escrevia: "A contra-revolução não é
uma revolução ao contrário, é o contrário
de uma revolução". 200 anos de propaganda fizeram
o resto: para a opinião que em geral se publica, nada do que
acontece de politicamente mau deixa de ser imputado à
"direita", incluindo os desmandos de toda a espécie
de socialismo, no presente e sobretudo no século passado,
incluindo o nacional-socialismo, ou a defesa da ortodoxia comunista.
É uma coisa que toda a gente sabe. Não é preciso
explicar isto nem ao mais ignorante dos cidadãos. No nosso
coração - que ao contrário do que pensava
Goldwater - está à esquerda e não pode deixar de
ser de esquerda - sabemos quem é que tem razão.
O
"caldo de cultura" em que vivemos - e que é comum ao
que alguns chamávamos, no nosso santo fervor juvenil,
"materialismo prático" e ao "materialismo
dialéctico" - continua a fervilhar na panela. Enquanto
for assim e persistir aquilo que o politólogo Jacques Ellul
designava num livro dos anos 70 por "imagem motriz global"
do nosso tempo, os "mitos modernos" da "luta de
classes, a felicidade, o progresso, a juventude, a técnica e o
trabalho", Adriano Moreira e outros poderão continuar a
explicar sem escandalizar ninguém que "esquerda" e a
"direita" são, muito simplesmente, os nomes que em
política se dá aos pobres e aos ricos e que hoje
ganhariam novo sentido - como explicou o ilustre professor na
televisão - na guerra civil global do Norte contra o Sul, uma
velhíssima ideia marxista e leninista agora rejuvenescida.
A
"direita" foi e será sempre o que a esquerda quiser
designar como tal. Só por desafio alguém se intitula
"de direita". A "direita" não existe e
nunca existiu como entidade filosófica ou política
autónoma. O que existe é o Bem e o Mal, as verdades e
as mentiras. O resto são arranjos partidários. Podem
fazer muita falta. Mas são apenas arranjos partidários.
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* Artigo
de Miguel Freitas da Costa, no "Diário de Notícias"
de 15 de Março de 2005. |